Fantasmas
1 Invisivel...
Notas iniciais

Me levantei naquela manhã na minha cama. Estalei minhas costas doloridas pela noite mal dormida, mas a cama do quarto da faculdade também não ajudava muito...
Analice já havia feito o café, como sempre, ela madrugou. Minha colega de quarto era realmente dedicada aos estudos e levantava sempre às 5:45, para não perder tempo.
- Analice? Ainda está brava comigo?- Não obtive resposta alguma. Ela simplesmente continuou a levar as xícaras para a mesa. Pegou uma única, não como sempre fazia, pegava para nós duas com seu jeito cortês...
Aquilo com certeza era um sinal que ela estava muito zangada pela briga que tivemos ontem.
- Analice, não me ignore!
Ela bebeu o café, ainda olhando pro nada, deixando de lado minha presença.
- Me desculpa, ok?- Ela pegou os materiais e saiu batendo a porta. Orgulhosa como sempre! Qual é, eu estava pedindo desculpas! Custava me responder?
Meu nome é Nicole, estudante numa faculdade, tenho dezesseis anos. Não sou a pessoa mais paciente do mundo, mas gosto de escrever. Meu quarto era repleto de cópias de livros que eu escrevi. Odeio ser ignorada e Analice conseguiu me irritar...
Fiquei ainda estática olhando para a porta. Fechei o punho e soquei a mesa com muita raiva. Acabei achando certo pegar minhas coisas e rumar pra aula, afinal, raiva não ia tirar notas por mim. Desci e vi as meninas lá em baixo.
- Oi, bom dia.- Elas estavam conversando numa rodinha, e continuaram a faze-lo, sem olhar pra mim. Ignorada novamente, senti o sangue subir na minha cabeça, então saí nervosa de perto delas.
Analice provavelmente havia contado pra elas, e agora me ignoravam também...QUE ÓDIO! Mas, vi no corredor alguém a quem Analice provavelmente não tinha contado.
- João!- Ele virou a cabeça e me viu. Cheguei perto dele, e comecei:
— Cade aquela nerd da Analice?!- Gritei raivosa.
- Bom dia pra você também.- Ele me respondeu ironico.- O que houve ontem depois da festa? Você sumiu!
- Eu...eu...- Forcei a memória. Não me lembrava de nada, depois que saí apressada de mais uma das festas animadas de Manu. Era um espaço em branco da minha mente.
- Eu sei lá...mas e aí, cade aquela...- Fui interrompida pela chegada de Analice para falar com ele.
- Você viu a Nicole, João?
- O que está dizendo?- Ele perguntou confuso, olhando pra mim.- Ela está aqui!- Ele me apontou. Analice riu.
- Certo, essa brincadeira não tem graça!- Ela começou a se irritar. Mas eu estava no auge da irritação. Pior...eu estava assustada. Depois que ela saiu, chamei João e saímos correndo pela escola toda, falando com alunos que não sabiam de nada:
- Você me vê?!- Ignorada.
- Está me ouvindo??- Passou reto.
- ALGUÉM?!- Nem um grito resolveu. Ninguém...nem um sequer...Parada no meio do corredor, sozinha e invísivel.
- Parece que você é odiada mesmo...- João brincou. Mas eu não estava pra brincadeiras, me enfureci na hora.
- Não diga isso!- Dei um tapa nele, o qual iria despejar toda minha raiva. Mas algo aconteceu, algo muito estranho! Minha mão...ATRAVESSOU-O! Passou reto, como se eu tivesse abanado o ar. Nos olhamos assustados. O que eu sou? Por que ninguém me vê? O que está acontecendo?
De repente, alguém se aproximou, alguém muito estranho. Ele flutuava e tinha asas transparentes, carregando uma espada azul embainhada nas costas. Era um garoto, pálido, baixo, com uma corrente presa no pé. Uma energia azul emanava dele. Ele parou e olhou pra mim.
- Por que eles sempre ficam tão nervosos?- Ele me falou, balançando a cabeça negativamente.
- V-você me vê?
- Sim. Pois sou igual a você...
- Não é não! Já se olhou no espelho?- Disse indignada. Como aquela coisa era igual a mim?
- Você já se olhou?- Me perguntou.- Aliás, isso é estranho, por que nasceu com uma asa só?
Franzi o cenho e olhei nas minhas costas. Estava lá...transparente...macia e brilhante. Mas era uma só. Uma única asa solitária.
- Mas o que...?- João acompanhava tudo com um semblante carregado. Estava muito confuso. Encarava o menino de asas como uma criatura horrenda.
- O garoto pode me ver?- Perguntou o estranho voador. João vagarosamente assentiu com a cabeça.
- Hum, estranho...Venham comigo.- Ele falou saindo quieto, e o seguimos sem reclamar. O garoto desconhecido estalou os dedos e estavámos num outro local. Azul, escuro e diferente. As paredes eram transparentes, podia-se ver através delas.
- Muito bem Ricardo, trouxe a novata...- Disse um homem de cabelos longos prata e olhos violetas delicados. Suas asas eram muito maiores que as nossas.
- Você ordenou, ué...- O menino respondeu indiferente.
- Bem vindos. Meu nome é Daidalos. Mestre dos fantasmas.
- Fantasmas?!- Gritei.
- Sim. Agora você é uma de nós. Este é Ricardo, classe diamante. Vou explicar a vocês certas coisas...devem estar confusos.
- Muito.- João resolveu abrir a boca.
Daidalos explicou muita coisa, o que foi difícil absorver. Segundo ele, eu era uma fantasma e João, minha cria.
- CRIA?!- Gritamos em uníssono.
- Uma pessoa que você deve proteger.
- Por que só ele me vê?
- Por que ele foi a última pessoa com quem você falou antes de morrer.- Ricardo falou naturalmente e eu quase enfartei. Morri?! Não morri nada!
- Morri o car*%$*! — Gritei nervosa como nunca.
- Você não se lembra?- Mestre disse confuso.- Estranha demais...Uma asa só, não lembra da propria morte, o menino também não lembra e ele pode nos ver...definitivamente, essa menina nasceu com defeitos...
João abafou uma risada ao meu lado, enquanto eu queria matar Daidalos. Quem é ele pra me julgar?
- Tá...mas vou proteger ele do que?
- Do demônio dele. No caso, a vingança e o descontrole.
Nessa hora, João quase enfartou. Tinha um demônio seguindo ele? Eu teria de dar uma de babá?
- Por isso vai ganhar sua própria espada, para defende-lo.- Ele me entregou uma espada vermelha-sangue e bainha de mesma cor.
- Não preciso de uma babá!
- É mesmo? Me diga então quem vai proteger você daquela mulher que povoa seus pesadelos? Que você às vezes vê do outro lado da rua...
Por um momento, ele ficou inexpressivo com a fala de Ricardo.
- Como sabe? Ela é um demônio? Por que ela me segue?- Despejou cada pegunta sem demonstrar uma única expressão; sem emoções.
- Ela foi criada pela sua personalidade. A maioria nem sequer sonha com o próprio ID*, mas você...de alguma maneira pode ver anjos e demônios...- Daidalos disse com a mão no queixo, pensativo.
Coloquei a espada nas minhas costas e depois de explicações básica sobre a magia que eu desenvolveria logo, a qual cada fantasma tem seu tipo, eles nos teleportaram pro pátio vazio. Sentei bruscamente no chão, tentando absorver tudo o que me disseram.
João estava pensativo também. Tudo era coisa demais pra um dia só. Acariciei minha asa soiltária, sentindo sua maciez. Por que eu nasci assim? Nascer...Ricardo me confundiu, dizendo que eu morri e logo depois falando que nasci. Era coisa demais.
- Por que você nasceu bugada?
- Sua delicadeza em se referir à minha deficiencia é comovente, João.- Respondi rindo.
- Deficiencia?- Ele riu alto.- Vão ser longos dias, mas acho que vai ser engraçado...
- Claro, muito engraçado enfrentar um demônio, sem ninguém me ver e sem poder tocar nada...- Ironizei. Realmente...seriam longos tempos...
***
Depois de umas duas semanas, o período letivo acabou. João foi pra casa dele e eu, arrastada pela corrente vermelho que me prendia a ele, acabei tendo que ir junto. Sinceramente, já estava me cansando disso...nem sinal da tal demonia, e eu seguindo ele a pé...não podia voar, nem flutuar. Logo fui dada como desaparecida pelo pessoal da escola. Não ''apareci'' mais, segundo eles.
Descobri que eu podia tocar apenas em objetos, e nunca em pessoas. Naquela escola já tinha visto dois fantasmas, um chamado Matheus, que acompanhava Rubia, e a Emily que acompanhava Bruno Ripa. Ambos de cores diferentes e já num estado avançado. Emily tinha 216 anos e Matheus 673. Assustador? Muito.
As palavras de Ricardo me alucinavam...eu morri mesmo? Por que não me lembrava? Por que nem João lembrava?
- Eu sei lá. E um espaço branqueado da minha mente.-Ele me respondia.
Uma das coisas boas, é que eu ainda podia dormir e foi o que fiz após chegar com o João na casa dele. E sonhei com duas luzes brancas e um som muito alto, como se fosse uma buzina vindo em minha direção.
Acordei sobressaltada e me deparei com João dormindo tranquilamente. O que tinha sido aquele sonho? Não era a primeira vez que havia sonhado com aquilo...
Não podia sentir mais nada. Nem o sol batendo em mim, ou o vento. Calor, frio, umidade, NADA! Saudades de quando tremia de frio nas manhãs de inverno. Por que eu não aproveitei tudo aquilo mais vezes ao invés de ficar reclamando?
Foi quando eu a vi. Cabelo rosa-fogo, corpo magro e olhos pretos e vermelhos. Ela observava João dormir com um olhar terno, como de uma mãe observando o filho. Passava de leve dois dedos, acariciando o rosto dele enquanto dormia.
- Quem é você?!
- Ah, então agora ele tem um cão de guarda?- Disse me olhando sem parar de fazer cafuné na cabeça dele. Eu acharia engraçado, caso ela não fosse um demonio!
Desembainhei a espada que nem sabia usar. Ela riu.
- Vamos mesmo fazer isso? Sua espada está até empoeirada por falta de uso!- Debochou. E eu ataquei frontalmente, empunhando com firmeza a espada. Ela segurou a lâmina com as mãos nuas, facilmente.
- Pobrezinha, ainda não despertou a magia?
Forcei mais a espada e decepei a mão dela fora. Ela me olhou nervosa e depois a mão dela se regenerou. Caramba, ela não sabe brincar não?!
- Já que vamos mesmo fazer isso...- E quando eu acho que não pode piorar, nascem três tentáculos vermelhos gigantes das costas dela. Maravilha...e João ali dormindo de boa. Idiota!
Um dos tentáculos agarrou a mão em que eu segurava a espada e praticamente esmagou. Mesmo assim, não soltei a espada, e tentei segurar o tentáculo com a mão livre, da qual ela viu e usou outro pra agarrar também.
- Mas que fantasminha mais inútil que Daidalos criou...Nem duas asas tem, desse jeito nem vai ter graça matar esse mortal.- Ela levantou a terceira garra que sobrou para perfurar o corpo de João. Foi nessa hora que me desesperei, se esse idiota morrer, eu também morro....de novo!
Foi quando senti meu corpo formigar. Uma energia vermelha emanava de mim e eu me sentia forte como nunca.
- Rozan Sho Ryu Ha!- Fogo brotou das minhas mãos e as chamas enrolaram os tentáculos dela, que se afastou nervosa e gritando alto. Eu me sentia energética, forte como nunca fui.
Foi nessa hora que João levantou assustado:
- Mas o que..? É ela! Meu demonio!
- Não me diga!- Ironizei indo pra cima dela com a espada em chamas pura. Foi quando ela levantou e sumiu com os tentáculos, voando para fugir e saindo pela janela.
Assim que ela saiu, senti uma canseira imensa e dor na mão direita, que soltou a espada no chão. Meu corpo estava pesado, muito pesado, eu não aguentava meu próprio peso.
- Nic...!- Não deu tempo de ouvi-lo terminar a frase. Apaguei...
***
Acordei e vi tudo escuro. Era o quarto do João, e ele estava mexendo no computador. Minha espada e bainha ao lado destruídas, na cama dele.
- Ah, finalmente acordou.- Ele me falou sem tirar os olhos do PC.
- Como assim finalmente?
- Depois de dois dias apagada...
Dois dias?! Caramba...o que eu tinha feito? Lutado... é! Contra a tal demonio! E tinha fogo, estava quente.
- O que houve com a minha espada?
- Não suportou todo o seu poder e quebrou.- Ótimo! Daidalos vai me matar!
- Você a viu?- Perguntei.
- Sim, ela sempre veio me seguindo. Raras vezes eu via sua sombra, ou sonhava com ela...Mas algo mais estranho aconteceu.
- Tipo o fato de você me deixar apagada no chão do seu quarto?- Disse ironica.
- Não te deixei no chão. Você voou enquanto dormia e caiu da cama!
- Voei?!- Expandi um imenso sorriso no meu rosto.
- E foi mais de uma vez! Mas eu li algo a respeito sobre anjos de uma asa só...- O semblante dele ficou sombrio e assustador.- Algo que você talvez não goste...
- Fala de uma vez!
- Pessoas tem blogs por aí, e em um desses, uma menina afirma ter um anjo da guarda de uma asa só.
- Ta, e daí?- Eu estava impaciente.
- E daí que ela explicou o motivo. O anjo dela não morreu por acidente ou assassinato. Ele se suicidou quando ainda era mortal e por isso nasceu de uma asa só...- João estava esperando uma resposta minha, que congelei olhando pra ele...me suicidei? Impossível. Eu nunca faria algo desse tipo, jamais!
-Não diga idiotices! Não me suicidaria!!
- Então me explique seu defeito!- Não tive como revidar essa resposta. Fiquei em silencio.- Está vendo? Quer ter razão e nem sabe o que fala!- Ele gritou. Saí do local, precisava pensar um pouco....mas o que vi foi assustador...
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