Fantasmas
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Notas iniciais
Eu havia saído pra andar e o que eu vi foi alguém perigosamente em pé...numa das janelas da parte de cima do restaurante ao lado da casa dele! Ameaçando pular!
Mas aí eu parei pra pensar, quem se suicidaria da janela de uma pizzaria? Mas aquela não era a hora mais apropriada para tentar raciocinar!
Já que não podia voar, subi correndo e passando por todos em volta facilmente. Cheguei muito perto da pessoa que estava ameaçando pular, uma mulher linda.
– Vamos, você não quer fazer isso! Desce daí!- Falei no ouvido dela.
– Não tem mais nada aqui pra mim...ele acabou de me largar...- Parecia me responder, mesmo não me vendo.
– Não faz isso por causa dele...ele não merece a sua vida! Vai deixar todos que ama para trás só por causa daquele ingrato?
Era algo estranho...eu via números acima da cabeça dela...exatos: 28/10/2017 22:03.
Que dia era hoje mesmo? Dia vinte e oito! Olhei no relógio da pizzaria, eram dez horas em ponto! Eu tinha três minutos pra salvar a vida dela!
– Vai mesmo largar tudo? Pense um pouco!
– Não! Não dá!
22:01!
– Vamos! Está apavorada, não faça isso!
– Moça por favor, desça!- Alguém da multidão gritou.
– Não se aproxime! Eu pulo!- Gritou a mulher, ameaçadora.
– Não faça! Vamos! Não precisa ser assim!- Eram 22:02. Ela tremia no parapeito da janela, olhando pro destino alto que lhe aguardava. Foi quando ela fechou o semblante e os olhos.
– Precisa sim...- Ela deu o impulso e se jogou. 22:03. Desesperada, eu tentei agarrar a mão dela, mas atravessou. Então, sem pensar, eu pulei, batendo a minha asa solitária desesperadamente.
***
(POV João)
Ouvi um barulho de porta rangendo e alguém entrando silencioso.
– Qual é? Vai ficar brava até quando?- Disse sem tirar os olhos do notebook, pensando ser a Nicole.
– Por que eu ficaria brava?- Não era a voz dela, definitivamente! A voz dela não era afinada daquele jeito!
Me atrevi a olhar pra porta. Ela estava lá; de pé e olhando pra mim com um sorriso amigavel. Meu demonio. Arregalei os olhos assustado com a visão que eu tinha.
– Owwt, então você sempre me viu? Te matar agora vai ficar muito mais divertido!- Ela me atacou com os tentáculos que ela tinha nas costas. Peguei a primeira coisa que vi e enfiei naquilo, antes de cair da cadeira. Ouvi a garota gritar e quando vi o que havia enfiado nela, me assustei comigo mesmo. Era um lápis, fincado na pele asquerosa daquela animal!
– Ah é? O menininho quer brincar? Então vamos brincar!- Ela se aproximou e me encurralou na parede, ergueu um dos tentáculos. Caramba, cadê aquela desnaturada da Nicole?!
Foi quando ela ia me acertar, que ouvi um grito vindo dela. Nicole resolveu aparecer, e cortou com lamina quebrada da espada a ponta de um daqueles tentáculos na hora certa!
A ponta decepada caiu, derramando sangue nos meus pés. Senti uma dor muito forte e percebi enquanto elas lutavam que o sangue dela era ácido! Queimou de jeito os pés e tive que engolir o grito. Pulei daquele canto enquanto ainda podia e fui pra outro lugar.
Foi aí que percebi que aquela monstra tinha ido embora e Nicole estava coberta com o sangue repugnante dela, sem nenhum arranhão! Parece que só afeta os mortais mesmo...
– Você tá legal?- Ela se virou pra mim.
– ONDE VOCÊ ESTAVA?!- Gritei expondo pra fora ódio e dor.
– Me desculpa eu estava tentando salvar uma outra vida e...
– Outra! Car@*&%! EU sou a vida que você tem que proteger!- Foi quando vi que ela também estava ferida. Parecia com o pulso fora do lugar, como quando teve a mão esmagada na primeira luta.- Você tá machucada...- Mudei o tom de voz.
– Não foi ela...MAS NÃO TE IMPORTA!
– EU TIVE QUE ME DEFENDER COM UM LÁPIS SABIA?!
– JÁ QUE SE PROTEGE MELHOR SOZINHO, QUE ASSIM FIQUE!
– ÓTIMO!
– ÓTIMO!- Ela disse me dando as costas, enquanto fui pegar alcoól para desinfectar meu pé. Aquela idiota! Outra vida...eu sou a cria dela caramba! Desnaturada e explosiva! Ninguém merece...
***
(POV Nicole)
Paramos de nos falar por dias. Ele me ignorava completamente, e isso estava me matando! Ninguém me via e esse idiota ainda me faz uma dessas? Caramba, salvei a vida dele, duas vezes! DUAS VEZES! Ingrato!
– Não me ignore! João!- Ele estava com fones de ouvidos, deitado na cama, lendo mangá. Se ele estava com um fone só, ele colocou os dois, pra mostrar que não estava nem aí com a minha presença. Que raiva!
– João!!- Derrubei os livros da estante e ele aumentou o som dos fones. Joguei os bakugans dele no chão e ele revirou os olhos.
– IDIOTA!- Peguei um copo vazio que estava por ali, e joguei nele, que desviou e o copo se espatifou na cabeceira da cama.
– Você é louca?!- Retirou os fones.
– Talvez! Baka!
– Não começa a me xingar em japonês!
– Baka! Watashi wa, anata ga daikiraidesu! Bōringu!(Idiota! Te odeio! Chato!) — Gritei com raiva total. Normal eu xingar em japones quando estou com raiva demais.
– Sua trouxa! Esqueceu que eu também entendo essa língua?!
– To pouco me lixando!
De repente percebemos a presença de Ricardo, fazendo anotações ao nosso lado.
– Há quanto tempo está aí?- João questionou um tanto assustado.
– Tempo o bastante pra fazer o copo ir pro outro lado, sem te acertar. De nada.- Falou seco.- E Daidalos quer te ver.- Olhou pra mim e nos teleportou pra tal sala azul-transparente.
– Nicole, a encrenca em pessoa!- Daidalos me cumprimentou e senti meu sangue ferver.- Quebrou a espada, deixou a cria desprotegida, pulou de um predio, tentou salvar outra vida, quase o acertou com um copo de vidro...VOCÊ É UM DESASTRE!- Abaixei a cabeça diante do mestre nervoso que esfregava as têmporas.
– Com todo respeito mestre, eu avisei.- Ricardo se meteu.
– Fica na sua!- Gritei pra ele.
– Quem você pensa que é pra falar comigo assim?
– Uma novata com raiva! Você é um idiota!
– Mas não fui eu que quase deixou a cria morrer em menos de um mês! Você é uma desgraça pra todo nosso mundo, nunca houve fantasma assim tão ridiculo! Você está fazendo os inimigos rirem da nossa cara!- Ele revidou exaltado.
– Certo, já chega.- Daidalos interviu calmo.- João, você pode rejeita-la se ela fizer mais alguma besteira! É só gritar: eu a rejeito.
– Bom saber!- Ele respondeu.- Aliás, seria útil eu aprender a lutar...
– Mestre, ele pode ser um Remanescente...- Ricardo concordou e eu só observava.
– Bom...tivemos três humanos remanescentes e todos morreram...- Daidalos pensou.- Mas seria bom num caso desses, então, treine ele Ricardo.
– Por que eu?!
– Por que você é o único disponível, agora vão.-Ricardo e João sumiram de repente.
– Toma.- Daidalos me entregou uma espada.- Vê se não quebra essa!- Me disse e saiu. Fiquei sozinha naquele local, remoendo tantas ofensas. Acho que nunca levei tanto xingamento na vida como naquele dia. Me sentia um lixo inútil, queria morrer. Talvez esse sentimento tenha me levado ao suicídio na minha outra vida.
Sentei no chão e encostei na parede. Foi quando sonhei:
– Me deixa! Eu quero morrer!
– Você é louca! Não pode fazer isso!
– ME SOLTA!- Então escutei novamente a buzinas e vi os faróis acesos.
– NICOLE!
Acordei sobressaltada. Estava no quarto do João. Olhei pra cima e bati a cabeça no teto. Eu estava voando?! Pensei isso e logo em seguida caí.
– Ai, essa doeu...- Levantei conferindo a minha asa. O quarto estava vazio, mas a corrente na minha canela se mexia frenéticamente. Acho que João estava treinando...
– Sozinha...mas que pena...- Era ela. A demonio.
– Você!
– Eu tenho nome e é Rize! Sabe, eles podem dizer que você é inútil, mas eu acho que você tem muito talento...- Como é que é? Minha inimiga me elogiando?
– C-como é?
– Isso mesmo. Daria uma ótima demonio. Anos atrás perdemos a Scartel, nossa demonia da tristeza. O que acha de substitui-la?
– Por que eu faria isso?
– Por que lá não temos xingamentos e ninguém vai te colocar pra baixo. Muito pelo contrário, temos até uma sala de treinamento!
Pensei...mas e se fosse uma cilada. Rize sorriu pra mim.
– Faremos um acordo, venha para nós e nunca mais nenhum demonio incomodará o João, nem mesmo eu. Pronto, os dois saem ganhando!
– Vou pensar...- Respondi seca, parecia mesmo uma oferta tentadora...
– Certo, você tem até amanhã. Não me teste.- Ela sumiu. Fiquei parada olhando pra porta. Se lá é mesmo assim, acho que não seria má ideia, além do que, João estaria seguro. Mas não me parecia certo...em todo caso, vou pensar com cuidado...
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