Fantasma - Faces do Espírito
1 Prólogo - O Estrela de Bangalla
O Estrela de Bangalla era apenas mais um bar de beira de cais, sem nada de especial apesar do nome. Seus frequentadores eram, em geral, marinheiros de folga, bêbados, prostitutas e fanfarrões à procura de refúgio contra o frio da noite. Seu dono, um chinês de nome Wan, não tinha nenhum motivo para orgulhar-se de seu estabelecimento, ainda assim costumava chamá-lo de “sua casa”.
Naquela noite não havia mais do que dez pessoas em seu salão de tamanho considerável, o que proporcionava pouco trabalho para Wan e Kenta, seu ajudante nativo, e, ao mesmo tempo, permitia certa privacidade para quem a desejasse. O velho Eddie ocupava seu lugar de sempre, enfiado em suas roupas surradas e em seu mau humor; um sujeito grande sentara-se ao fundo e nem sequer tirara o chapéu para ler o jornal; quatro sujeitos que ele mal conhecia de vista ocupavam uma mesa e algumas prostitutas iam e vinham, uma delas, Samantha, era velha frequentadora do bar e, de certa forma, amiga de Wan.
Wan olhou melancolicamente para o salão e se perguntou mais uma vez como foi que sua vida o levara até ali. Ele bem sabia a resposta, que viera da China para trabalhar com seu avô, Wong, no que ele acreditava ser um restaurante grã-fino na capital de Bangalla, mas que se revelara apenas um pardieiro usado como fachada para todo o tipo de negócio sujo. Quando chegou, Wan encontrou o “Dragão Azul” em quase total destruição e seu avô em péssimos lençóis, perseguido pela polícia e endividado com um sem número de marginais. Ele trabalhou duro para reconstruir o lugar e tentar colocar seu avô no caminho certo. Mas foi tudo em vão. Logo seu avô voltou a envolver-se com pessoas erradas e Wan não viu outro remédio a não ser deixá-lo por conta própria. Para não ser obrigado a contar a seus familiares no que o avô se transformara, nunca mais voltou à China e abriu seu próprio bar, o “Estrela de Bangalla”, que ele sonhava ser um lugar limpo e bem frequentado. Apenas sonhos que se desfizeram com o passar dos anos na dura realidade que tinha à sua frente.
Os quatro sujeitos pediram mais uma rodada de bebidas que Wan preparou preguiçosamente para ser levada pelo empregado sonolento. Eles não haviam chegado todos ao mesmo tempo, Wan não era amigo de nenhum deles, mas conhecia o suficiente sobre cada um para saber o tipo de problemas que poderiam causar juntos.
Pedro era um português miúdo que ganhara o mundo para fugir de dívidas de jogo em seu país. O africano grandão ao seu lado era conhecido como “Retalho”, pois sempre andava com uma navalha. Havia também Carlos, um sul americano que dizia ser espanhol e se gabava de ter fugido de todas as prisões da Europa. O sujeito musculoso de bigode e cavanhaque era um americano chamado Jack, conhecido por ser muito violento.
– A que horas Tony disse que chegaria com a caminhonete? – perguntou Pedro.
– Por volta das 22h. – Respondeu “Retalho”
– Será que vai caber tudo numa caminhonete?
– O que importa é que o Tony venha com a caminhonete. – disse Jack entre um gole e outro.
Retalho abaixou um pouco a voz e perguntou: – Vocês tão levando armas? A gente pode precisar.
– Pra quê? Acha que um bando de freiras e uns esfomeados vão dar trabalho? – Carlos disse rindo.
– Sei lá! Eu me garanto com a navalha, mas nunca se sabe...
– O Tony ficou de conseguir umas metralhadoras ou fuzis. – Disse Pedro – De qualquer forma eu sempre ando com uma pistola e acho que vocês também, não é?
Ninguém precisou responder. Pediram outra rodada e continuaram falando do ‘serviço’ que iriam realizar, sem se preocuparem com nada. Sabiam que o lucro era certo: havia uma demanda por medicamentos para suprir as guerrilhas do interior e eles souberam, por intermédio de Tony, que um considerável carregamento de remédios chegara da América com destino a uma missão religiosa próxima à fronteira com a selva, um alvo perfeito e uma forma perfeita de ganhar algum dinheiro por fora.
– Se fosse vocês, não ficaria tagarelando sobre isso assim em voz alta. – a voz de Samantha cortou a conversa dos quatro como uma faca.
– Ah, é? E posso saber por quê, mulher? – Rosnou Jack.
Ela abaixou ainda mais o tom de voz, como se tivesse receio de ser ouvida e olhando furtivamente para a porta disse: – O Fantasma pode ouvir...
Jack soltou uma gargalhada, Retalho e Carlos se entreolharam, Pedro não tirava os olhos de seu copo.
– Ah, então é essa bobagem de um sujeito que não morre? – e enquanto ele falava a mulher sentou-se na mesa ao lado fazendo sinal de que queria uma bebida – Que anda por aí marcando os outros com uma caveira? Que tem mais de 300 anos?
– 400, Jack. O Fantasma tem mais de 400 anos. – a voz de Pedro saiu trêmula e ele disfarçou o nervosismo passando uma dose para a mulher que se sentara.
– Então você também já ouviu essa superstição, oh galego?
– Não é superstição, não, Jack. – Carlos estava visivelmente preocupado. – Todo marinheiro já ouviu falar do Fantasma, e onde tem fumaça tem coisa queimando.
Jack deu de ombros, mas não retrucou. Um silêncio pesado caiu entre os quatro.
– Meu avô viu o Fantasma uma vez... – Retalho falou e todos olharam para ele. Esperavam que continuasse.
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