Notas iniciais
Boa noite!!! Bem-Vindos a nova série.
Como estão os De Martino 14 anos depois? Vamos descobrir?

Dicionário Bella

Ardiloso — Pequeno

Autorizar – Demorar ( A juíza fica só autorizando)

Boçal – Desagradável, negativo. (Variação máxima — Aquisição de Boçal)

Burro (a) – Pessoa de pouca inteligência (xingamento grave, sujeito a prisão)

Caótico – Momento muito feliz, agradável, divertido.

Chato (a) – Pessoa maçante, incomoda (não é xingamento)

Desconcertante – Bonito (a), agradável (elogio nível baixo)

Excêntrico – Bonito (a), Agradável (elogio nível alto – topo do Olimpo)

Hipótese – Suposição (estranhamente usado de modo correto)

Insanidade – Vontade, desejo (morder, abraçar, beijar)

Parâmetro – Péssimo (três intensidades, pouco parâmetro, parâmetro, muito parâmetro)

Perplexo – Triste

Resplandecente – Bonito (a), Agradável (elogio nível médio)

Capítulo 1

BELLA

A estrada está como sempre vazia. Mesmo assim, meu coração acelera só de pensar em chegar em casa. Amo minha Vila. Não nasci na Vila de Martino. Cheguei aos seis anos. Eu e minha mãe. Fugidas do homem que biologicamente é meu pai. Até isso é difícil de acreditar. Não tenho e jamais tive qualquer coisa em comum com ele.

Meu pai é Vittorio De Martino. O cara mais resplandecente que existe. O homem que me deu amor, segurança e proteção. Mamãe também não é minha mãe biológica. Quando essa faleceu, sendo minha mãe sua melhor amiga e sabendo o monstro que era Ugo, ela fugiu comigo e encontramos o papai.

Eu ainda lembro de ir para os seus braços e sentir segurança. Ainda lembro da primeira vez me aconcheguei em seu colo e ele me fez dormir.

Ganhei uma mãe, Gabriela, linda e engraçada que assumiu minha vida quando a melhor amiga morreu. Ganhei um pai quando ele nos acolheu numa noite qualquer em que estávamos perdidas numa estrada escura, essa mesma estrada que hoje é o caminho de casa.

Ganhei uma grande família cheia de tios e primos e quando papai e mamãe se casaram eu ganhei irmãos. Vincenzo está com quinze anos. Pietro tem dez. Mamãe e papai estavam sempre adiando a chegada dele. Só aconteceu quando eu tinha onze anos. Vovó Pietra ficou tão emocionada quando soube da escolha do nome.

Minha avó está ainda tão forte, sempre com seu bordado em sua sala ouvindo música e nos dando carinho. Oitenta e seis anos, ainda parece a mesma de sempre, apenas os cabelos agora são como algodão.

Encaro minha mão sobre o volante e o anel delicado de esmeralda que ela me deu aos quinze anos brilha. Sempre fiquei encantada com as joias que ela ainda usa todos os dias e esperei ansiosa o dia em que ganharia meu anel especial. Neta mais velha.

Fabrizio é o neto mais velho, meu melhor amigo. Um ano mais velho que eu, administra tudo ao lado do papai. Trocamos, ele trabalha com papai administrando os vinhedos e todos os bens da família e eu trabalho com seu pai fazendo vinho. Meu tio Conan ainda é o melhor entre os melhores, mas eu sou bem resplandecente.

Olho pelo retrovisor e o filhote de vira lata preto com uma mancha branca em torno do olho esquerdo está acordado roendo o banco do carro.

─Ei, não faz isso. Quietinho seu ardilosinho. – O cachorro continua a morder o banco. Diminuo a velocidade para tentar toca-lo. Me estico sem desviar os olhos da estrada. – Não morde meu carro!

Ele procura minha mão cheio de energia. Dormiu por duas horas com o remédio de enjoo que a veterinária receitou. Agora acordou com todo ânimo. Foi por isso que o escolhi entre a ninhada e espero que ele seja um bom companheiro.

Volto minha mão ao volante e aperto firme. Meus olhos marejam e respiro fundo. Dói de saudade me lembrar deles. Rosso, o meu amigo de pelos vermelhos cobre e olhos dóceis. Baby, meu outro irmão de pelos amarelos e olhos risonhos. Fieis companheiros de toda uma vida.

Primeiro foi Rosso a nos deixar, numa manhã ante de ir ao colégio, depois de esperar paciente que ele descesse as escadas do meu quarto e abrir a porta para o jardim, ele não caminhou para garagem como todos os dias, foi se deitar sob a romãzeira no jardim, adormeceu para sempre sob a sombra de nossa árvore preferida.

Demorou para que eu e Baby voltássemos a sorrir. Meu companheiro de todas as horas passou a dormir comigo na cama, com o focinho no meu pescoço e só sentindo seu carinho eu conseguia vencer a dor de perder Rosso, mas o tempo não perdoa. A idade chegou para ele também. Dessa vez eu estava na faculdade. No fim do primeiro semestre, uma semana antes das férias, papai foi me buscar de helicóptero, depois de me abraçar com carinho disse que Baby estava doente e quando cheguei, meus irmãos e primos estavam em torno dele.

Meu amigo querido se foi no meio da noite, foi enterrado ao lado do seu companheiro de vida e desde então não tivemos mais cachorros. Até eu encontrar a feira de doação na esquina do auditório onde assisti a mais longa palestra de técnicas de plantio e colheita de toda minha vida.

Tio Conan adora me mandar para essas chatices. Sempre arruma uma desculpa e acabo sendo obrigada a ir.

O cachorro sem nome desce do banco traseiro, se contorce todo e acaba no banco da frente, leva dois segundos para voltar a sua divertida tarefa de roer o banco.

─Mas que teimosinho você! – Reclamo. – Não morde. Mamãe juntou oito meses de salário de rica dela para me dar esse carro. O primeiro e único que vou ter se continuar a destruí-lo assim.

O pequeno não me dá ouvidos, está meio cambaleante pelo movimento, mas muito empenhado em destruir meu carro.

─Para coisinha ardilosa! – Encaro o cachorro. – Muito parâmetro! – Ele não se controla, os dentinhos estão nascendo. – Cachorro boçal! Que acha disso? Boçal é um bom nome. Estava querendo reunir meus irmãos para decidirmos, mas Boçal cai bem.

Meu celular vibra sobre meu colo. Não vou atender, falta quinze minutos para chegar, no máximo, eles podem esperar.

Cinco minutos tocando repetidas vezes. Paro no acostamento. Meu novo amigo não está muito companheiro nesse momento e depois de arranhar tudo que pode o banco de couro do passageiro vem se deitar no meu colo e morder a barra da jaqueta.

─Alô.

─Por que é tão difícil atender o telefone? – Fabrizio ralha comigo e suspiro.

─Estava dirigindo. Pretendia não atender, estou chegando em casa.

─Como foi a palestra?

─Sério? Estou no acostamento, quer mesmo conversar?

─Tudo bem, estou na Vila, me conta quando chegar.

─Avisa a todos que estou bem e chegando, sei que te mandaram ligar. – Desligo. É minha primeira viagem sozinha de carro, parti ontem pela manhã de carro para Florença, depois de implorar uma semana. Assisti a palestra, adotei um cachorro, dormi na casa do meu tio Enzo e pela manhã peguei a estrada de volta.

Sei que estão preocupados comigo, mas também sei que me querem independente e apenas por isso não ligaram a cada meia hora. Coloco o carro em movimento.

Minha perna dói, quando chegar em casa eu bem que vou pedir massagem para mamãe. Dimestria é o nome do meu problema, síndrome da perna curta. Nasci assim, não me lembro bem como era na primeira infância, quando vivia com dificuldade, mas me lembro com perfeição de tudo que veio depois.

Muita fisioterapia, alguns médicos especialistas, dor, bullyng de vez em quando e coragem dia e noite para erguer a cabeça. Essa eu aprendi com meus pais.

Sempre ouvi que isso não me torna nada diferente dos outros e em teoria eu bem que me sinto como todo mundo, é no campo do amor que as coisas se complicam.

Não levo jeito para isso. Não tenho charme nenhum, mesmo que digam o contrário eu não me lembro de nenhum garoto se apaixonar por mim no colégio, nem na faculdade. No campo do amor, do interesse romântico entre pessoas, acho que isso conta um pouco. Os garotos sempre notam meu jeito de andar que mesmo com sapatos especiais ainda é perceptível.

Eu não me locomovo com muita graça, não sou boa em esportes, não me encaixo na fase da conquista, me retraio sempre que um cara interessante aparece e meu medo de ser recusada me deixa sempre em alerta. No fim, minha vida amorosa se resume a uma cartinha de despedida do Bruno no sexto ano quando ele se mudou para Portugal com a família e deixou com Fabrizio uma singela declaração de um possível interesse. Nunca mais nos vimos e hoje consigo rir da carta.

Estaciono em frente a varanda, quando salto do carro Pietro vem correndo me receber, papai, mamãe e Vincenzo estão na varanda. Meu irmão caçula é a cópia do papai, Vincenzo é uma mistura dos dois em tudo, inclusive no humor.

─Oi ardilosinho! – Beijo meu irmão que me envolve a cintura. – Tenho um presente para todos nós. – Digo abraçada a ele. – Tem que fazer uma carinha bem resplandecente para o papai e a mamãe deixarem.

─O que é? – Ele se interessa. Aceno para minha família que me sorri. Posso ver o alivio nos olhos dos meus pais. Abro a porta do carro e pego o filhote de quatro meses que não devia ser tão grande nem pesar tanto, talvez ele fique um tanto grande.

─Surpresa! – Digo abraçada ao cachorro. – Esse é o Boçal. Ele pode ficar papai?

─Eu que sou a administradora da Vila, é para mim que tem que pedir. – Mamãe reclama. Linda como se ainda tivesse seus vinte e cinco anos.

─Ele pode ficar, mamãe?

─Não sei, pede para o papai. – Pietro já está abraçado ao cachorro e Vincenzo tentando toma-lo de seus braços. Meu pai sorri.

─Claro que pode, pequena! – Papai vem me abraçar. É bom, minha perna está me matando no momento, muitas horas na mesma posição. Me apoio nele e ganho o melhor abraço do mundo. Coisa que só papai sabe fazer. – Boçal?

─Ele é muito parâmetro, papai, veio mordendo meu carro novo todo.

─Meses economizando meu salário de rica! – Mamãe e sua deliciosa ladainha. Eu a abraço e de braço dado com os dois, nós caminhamos para dentro.

─Vovó está bem?

─Sim, vá dizer oi, ela já perguntou de você cinco vezes hoje. – Mamãe avisa.

─Deixa eu pegar ele um pouco, Pietro! – Vincenzo resmunga. – Mamãe!

─Eu? – Mamãe pega o cachorro do colo de Pietro, encara os olhos escuros um momento. – Ei garoto, você veio para nos encher de alegria e um dia nos roubar lágrimas, não é mesmo? Bem-vindo. – Ela beija seus pelos e o entrega a Vincenzo. Entramos na sala da minha avó que larga seu bordado e vem me abraçar.

─Seu pai gastou uma fortuna comprando um helicóptero novo, por que inventa de ir de carro?

─Queria dirigir meu carro de rica, vovó. – Eu a beijo, ela segura meu rosto com as duas mãos, me beija a testa e depois encara o cachorro no colo do meu irmão.

─Cachorros do lado de fora. – Diz sorrindo. Antes de eu chegar a essa casa, os cães eram proibidos de entrar na área interna. Papai brigou por mim e permitiu. Ela se lembra assim como eu. Olhamos para o meu pai, ele também se lembra. Sinto ainda mais saudade deles.

─O cachorro vai onde Bella for. – Ele diz afagando os pelos do bichinho. – Boçal?

─Achei um nome bem resplandecente. – Pietro comenta.

─Então leva o Boçal para conhecer tudo. – Peço a ele. – Dá água também, mas ele dorme comigo.

─Não, eu que sou o mais novo, dorme comigo. – Pietro adora usar isso para tudo. – Viva a liberdade!

─Dorme comigo que sou mais bonito. – Vincenzo brinca. Os dois vão discutindo sobre onde o novo membro da família vai dormir e já sei que perdi a chance.

─Comida? – Mamãe pergunta. Faço que sim. Vamos os três, eu, meu pai e minha mãe para cozinha.

─Minha tia me entupiu de doces. Foi jantar na casa do tio Enzo e me acabei de comer tortinhas de todos os sabores. – Aviso para depois rir da careta do papai. Toda uma vida de segredo, ele odeia doces, mas tia Kiara acredita que ama e ninguém acaba com essa confusão apenas para não magoa-la.

─Como estão os seus primos? – Mamãe pergunta abrindo a geladeira e retirando alguns potes. Esfrego a perna assim que me sento. Papai puxa minha perna para seu colo e começa uma massagem. Não diz nada, nem eu digo, mas ele sabe, sempre sabe.

─Luigi estava lá, dormiu na casa do tio Filippo, mas jantamos juntos na casa do tio Enzo. Ele e o Matteo foram para o fim de semana, mas segunda-feira voltam para faculdade. Não sei com quem ri mais, se com ele ou com Manoela.

─Manoela, sendo filha do seu tio Filippo tinha que ser engraçada. – Mamãe brinca levando os potes para o micro-ondas.

─Aquela pequena me decepcionou. Achei que veria Filippo brincando de bonecas, mas ela nunca gostou de bonecas.

─Teimosinha ela, não é papai? – Ele me beija o rosto depois de um sorriso.

─Muito! Kevin está no galpão, mas não precisa ir vê-lo agora, melhor descansar essa perna um pouco.

─Vou só comer e vou lá, quero mostrar umas coisas para ele. Tio Conan me irrita me mandando nessas palestras, mas no fim, até que descobri umas novidades.

Mamãe coloca um prato a minha frente e se senta.

─Uma taça do vinho Vincenzo? – Ela pergunta orgulhosa. Eu fiz sozinha, aos dezessete anos, meu primeiro trabalho, com notas de jasmim, melhor vinho do ano. Papai morreu de orgulho, tio Conan também. Fiquei famosa, mulher, futura enóloga, dona do Vinho De Martino e premiada. “A rainha dos Vinhos” é como me chamam por aí.

─Obrigada mamãe, não quero, estou cansada, no jantar pode ser. Cadê a Amália?

─Na casa dela, tão abatida coitada.

─O filho? – Eu pergunto.

─Filho desnaturado, diga-se de passagem. – Mamãe reclama. – Desde que ele se separou da esposa e foi morar em Paris com a nova mulher ela não vê o neto.

─Disse que podia procurar a mãe do menino, ela não quer. – Papai diz sem parar a massagem enquanto como.

─O menino está grande, tem minha idade, não é? Amalia sempre diz isso.

─Sua idade e nenhum juízo é o que ela disse. – Meu pai continua. – Eu lembro de vê-lo uma vez, nas únicas férias que passaram aqui. Foi antes de vocês chegarem. O garotinho ficava perdido pelos vinhedos. Encantado demais.

─Quem não fica? É desconcertante. Nada mais caótico que correr pelos vinhedos. – E cair e ralar o joelho, correr não é minha natureza e sempre acabo de cara no chão. O fisioterapeuta diz que é natural, que o importante é andar com segurança, correr não é necessário. Quem controla uma criança?

─Ele podia vir sozinho. – Mamãe comenta. – mas não sei se tem uma boa relação com a avó. Por que se viram tão pouco. Tigrão, que acha de oferecermos isso a ela? Trazer o menino para umas férias.

─Ele é um garoto problema, pelo que escuto vocês conversarem. – Papai comenta. – Não sei, Amalia tem alguma idade, será que quer ficar por aí preocupada com um rapaz e suas encrencas?

─Que bom que concorda, Tigrão. Vou oferecer a ela. – Mamãe beija meu pai. Sorrio. Adoro o jeito que ela o chama. Queria um amor assim. Companheiro, carinhoso e cheio de riso. Nenhum casal que conheço é mais apaixonado que meus pais.

Claro que todos os casais dessa família são felizes, mas papai e mamãe tem qualquer coisa no olhar deles que toca meu coração.

─Mamãe, ele comeu meu trabalho de ciências! – Pietro entra com o cachorro numa mão e uns restos de isopor na outra. Recebo todos os olhares.

─Eu avisei. Boçal é um nome perfeito. De noite eu te ajudo a refazer o trabalho, não precisa ficar nada perplexo, Pietro. Senta aqui, vem conversar comigo.

Vincenzo entra rindo do irmão. Pega o cachorro dos braços dele e some para o jardim. Pietro se senta ao meu lado. Beijos seus cabelos.

─Você é uma graça, sabia?

─Uma graça que vai tirar zero. Tenho saudade de quando a tia era minha professora. – Minha tia Valentina, esposa do tio Conan, foi a professora de todos nós no primeiro ano.

─Duvido que sinta. Ela sempre foi muito firme com vocês todos.

─Duvido que ela sinta. – Mamãe ri. – Principalmente do Luigi. – Meu primo Luigi, irmão de Fabrizio e segundo filho deles é terrivelmente engraçado e muito, muito hiperativo.

O celular do papai vibra e pego. Ele é mais rápido e recolhe da minha mão. Papai não deixa nunca ninguém mexer em seu celular e sei que é sobre mamãe e certas fotos que ela insiste em mandar para ele.

─Chegou. Eu sei, ela nunca avisa. – Papai está possivelmente explicando a algum dos meus tios que cheguei. – Vejo vocês na próxima semana.

─Pietro, pega minha mochila na sala? – Ele faz careta. – Por favor, estou cansada, te dei um cachorro.

─Muito obrigado por me dar um pequeno monstrinho que devorou meu trabalho. Devíamos ter um gato! – Ele deixa a mesa.

─Era o Enzo, querendo saber se chegou bem.

─Prometi avisar quando chegasse. – Pietro deixa minha mochila sobre a mesa e afasto o prato de comida. Abro meu celular e tem mil mensagens da família. – Agora é uma hora respondendo todo mundo.

─A minha não precisa. – Fabrizio entra pela porta da cozinha. – Tem um cachorro no jardim. Para o caso de não saberem. – Ele beija o rosto da minha mãe e aperta a mão do meu pai, bagunça o cabelo de Pietro e me beija a bochecha.

─É da Bella, ele comeu meu trabalho de ciências.

─Agora é meu? – Eu rio do meu irmão desolado. ─Boçal. Gosta do nome?

─Parece bom. – Fabrizio comenta se sentando conosco. – Meu pai está no galpão a sua espera. Disse que se demorar não vai com você no shopping mais.

─Claro que vai. – Eu aviso. Nunca deixamos de fazer esse passeio juntos. As vezes, quando a cabeça fica cheia, quando os vinhos nos deixam malucos, simplesmente vamos juntos ao shopping, tomar um gellato, nos implicarmos um pouco e quando voltamos, tudo da certo. – Vou lá. Me dá carona?

─Nem pensar. Está mil graus! – Ele resmunga. As vezes Fabrizio me leva de cavalinho, ficou grande, bonito e forte. Não tem mais longos cabelos, mas ainda pilota uma moto, e tem umas tatuagens pelo corpo. O fato é que ele é o sucesso da cidade. Aqui e em Florença, o que não falta ao primo Fabrizio são pretendentes.

─Chato não é xingamento!

─Não. Tio, eu estava no escritório pela manhã. Temos um problema com um caminhão a caminho de Genova.

─Fabrizio, você pode resolver isso. – Papai confia tanto nele. Os dois são unidos demais.

─Posso, mas tenho que ir a San Gimignano. Amanhã vou para Florença, tia Bianca está precisando de mim por lá essa semana.

─Vai me fazer trabalhar a semana toda. Está ouvindo, Gabriela?

─Estou. Nada de marido em casa o dia todo. – Mamãe suspira.

─Vou ver o tio Conan. – Beijo o rosto do meu pai quando fico de pé. – Obrigada pela massagem.

─Encontrou meu irmão? – Fabrizio me pergunta.

─Sim. Trocou de namorada, fez uma tatuagem e mudou de estilo. Agora vai ser surfista.

─Garoto maluco. Onde vai achar mar para surfar?

─Perguntei, ele disse que é mais um estado de espirito. – Aceno seguindo para a sala, passo pela sala de jantar e encontro Amália secando lágrimas. Eu a abraço quando ela tenta esconder o choro. Beijo muito sua bochecha. Amo essa mulher que de algum jeito ajudou a nos criar todos. Ela merecia que o neto a amasse como todos os filhos De Martino a amam. – Coisa mais desconcertante, resplandecente e até excêntrica! Não chora.

─Foi uma coisa que caiu no meu olho. Só isso. Está bem? Fez boa viagem? Viu que tem um cachorro no quintal?

─Estou bem, fiz uma ótima viagem e ele se chama Boçal, é nosso novo cachorro. Ele e o Vincenzo estão cavoucando o jardim. Ele está, na verdade, o Vincezno está só... ficando doido com o bicho.

─Quando Beatrice chegar educa o bichinho, ela leva jeito. – Beijo sua bochecha. – Vou trabalhar.

Atravesso o jardim, passo pela capela onde padre Mariano celebra as missas de domingo, mas nunca assistimos até o fim e pego a alameda florida em direção ao galpão. Quando entro na sala onde cresci trabalhando com meu pai e tio Conan ele está debruçado sobre um pequeno tonel de vinho.

─Floral. – Ele me sorri. – Oi tio Conan.

─Kevin. Oi coisinha ardilosa. Como foi a viagem?

─A palestra foi bem chata, perplexa eu diria, mas tem umas novidades ótimas. Viu meu email? – Me sento e começamos a trabalhar. Esse é meu lugar no mundo. Onde tudo faz sentido. Onde sou feliz por inteiro.

Notas finais
Obrigada!!!!!!!
conto com vocês.