Família...
1 Enamoradas
Notas iniciais
Era uma manhã de inverno e o vento frio entrava no quarto pela janela aberta. Na cama que ficava de costas para a janela, duas pessoas estavam deitadas assistindo à um filme qualquer na televisão a frente. Eram duas meninas, enamoradas uma pela outra, que estavam ali. Uma delas estava encostada sobre o corpo da outra, que abraçava carinhosamente a primeira.
– Queria que o tempo parasse nesse instante.
A que estava servindo de apoio sussurrou no ouvido da outra e aproveitou para deixar uma pequena mordiscadela ali.
– Você sabe que eu não resisto...
A outra sussurrou, escorregando um pouco sobre o corpo da primeira. E em resposta a isso, ela continuou:
– Então não resista...
Falou-lhe beijando atrás da orelha e no pescoço.
– Eu preciso ir trabalhar, minha querida...
A menina que beijava o pescoço de sua companheira sussurrou deixando seu hálito quente bater na nuca da outra, deixando-a querendo mais.
– Falta só hoje... Fica comigo...
– Não dá, você sabe. Eu volto o mais rápido possível para ti.
Ela levantou-se da cama, dando um beijo ardente na amada, e foi-se.
Tarde da noite, a garota retornara a casa e não encontrara ninguém acordado. Tomou seu banho tranquila e relaxadamente e fora deitar-se na cama que sua amada já dormia.
– Kami?
Sua amada chamou-lhe meio sonolenta.
– Cheguei agora, meu amor. Vamos dormir.
Kami deitou ao lado da amada e a abraçou, puxando um pouco para cima de si.
– Você demorou tanto...
A outra falou adormecida, deitada sobre o tórax de Kami.
– Amanhã conversamos, Tati.
Com um pequeno balançar de cabeça, Tati concordou e entrou no mundo dos sonhos.
Enquanto isso, Kami não conseguiu fechar os olhos e muito menos esquecer o que acontecera durante o dia. Ficara fazendo carinho nos cabelos encaracolados e nas costas semi despidas de Tati, enquanto esta dormia a sono solto sobre seu abdômen.
Na manhã seguinte, Tati acordou sem sua amada na cama. Caminhou lentamente, enquanto acordava, pela casa a procura de Kami. Encontrou, porém, sua mãe preparando o café da manhã das três.
– Bom dia mãe. Viu a Kamila?
– Ela está lá fora.
Fora a única coisa que Tati ouvira. Fora logo para onde a mãe lhe indicara e encontrou Kamila sentada no chão olhando para o céu e com o cachorro da família em seu colo.
Tati ajoelhou-se ao seu lado e tocou-lhe suavemente o braço com uma das mãos. Kamila saiu de seus devaneios e virou-se para Tati.
– Vem comer algo... Depois conversamos sobre isso.
Tati não sabia o que era, e muito menos lembrava-se da breve conversa da noite anterior, mas sabia que tinha algo que estava afligindo sua amada Kamila.
– Me diga o que tá acontecendo. Você não é de levantar antes de mim...
– Não é nada demais. Foi uma bobeira que aconteceu ontem.
Kamila tentou falar sorrindo, mas não teve muito efeito.
– Se é bobeira, por que você tá estranha?
– Tá... Ontem, lá no trabalho, meu chefe me chamou na sala dele. A princípio achei que não era nada demais, mas depois de dois minutos conversando, ele abriu o jogo e disse que em uma semana iriam me despedir se eu não mudasse meus hábitos lá dentro.
– Mas você não tem esse costume de...
– Eu sei. E por isso perguntei em que eu estava faltando com a ética e os bons modos e blá blá blá...
– E o que ele disse?
– Não precisa se preocupar com isso.
– Claro que preciso! Preciso saber o porque eu vou estar batendo na cara daquele indigente!
– Você não vai fazer nada, Tatiane! Vou cuidar disso e não vão me despedir. Não posso perder esse emprego...
Kamila começara falando alto e forte, mas terminou com tristeza.
– Se você perder esse emprego, arrumará outro rapidinho! E não fique assim por causa disso.
– Meninas, está na hora de irmos!
A mãe de Tati entrou no quarto das garotas, chamando-as para lhes dar carona. Elas já estavam prontas e iam para a faculdade, enquanto a mãe ia para o trabalho.
– Vou à uma entrevista de emprego depois da faculdade.
Tati anunciou no meio do caminho, assustando a mãe e a namorada.
– Por quê?
Ambas questionaram ao mesmo tempo.
– Eu não aguento mais ficar em casa sem fazer nada. É angustiante!
– Mas por que você não falou antes isso?
Kamila ficou inquieta com o anúncio e ao notar que Tati não lhe responderia, virou-se de costas até o fim do caminho. Ela não aceitava que sua namorada trabalhasse de forma alguma. Queria a mulher em casa e essa sempre fora sua última palavra.
– Cuidem-se!
A mãe de Tatiane gritou, como sempre fazia ao deixá-las na entrada do campus, mas na verdade estava com receio de onde sua filha poderia ter arrumado essa tal entrevista.
Kamila saiu do carro determinada e andava firme enquanto Tati seguia na direção oposta. Ao chegarem em suas respectivas salas, as meninas se fecharam tanto em si mesmas que nem seus amigos conseguiram saber o que estava acontecendo.
À noite, durante a janta, as três mulheres da casa comiam cada uma em seu canto; a mãe comia em seu quarto, assim como sua filha comia em seu próprio quarto e Kamila jantava na sala com o cachorro lhe fazendo companhia.
– Você sabe, não é Bino, que se eu contasse para ela, Tati ficaria pensando que eu realmente faço isso no trabalho... Eu não posso simplesmente chegar para ela e falar que meu chefe acha que eu dou em cima dos funcionários, sendo que são eles que o fazem.
Kamila desabafou com o cão que nenhuma atenção lhe dava, enquanto sem querer, Tatiane ouvia tudo do seu quarto – uma vez que a casa estava silenciosa demais.
– E hoje falaram que teve entrevistas de emprego na empresa... Será que a Tati estava lá e não falou comigo?
Enquanto Kamila falava, Tati chorava com o rosto no travesseiro para abafar o som. Além de achar que Kamila não a amava mais, estava se matando por dentro por esconder algo da mulher que amava. Não era de seu feitio não contar o que acontecia para Kamila, mas achava que a outra não a amava mais havia alguns dias.
Tati já dormia quando Kamila foi buscar um travesseiro e um cobertor para dormir na sala. A neve começara a cair e a garota sabia que faria muito frio durante a madrugada, mesmo com o aquecedor ligado.
– Não me deixe! Eu te amo e não suporto viver sem você!
Tatiane estava tendo pesadelo, o que era pouco comum. O instinto de Kamila era o de confortar a amada, mas tentou agir contra ele sem sucesso. Kami ajoelhou-se ao lado da cama e, passando a mão lentamente sobre os cabelos de Tati, sussurrou-lhe que estava tudo bem. Inconscientemente, Tati juntou suas mãos e fez Kamila ver as lágrimas secas em seu rosto. Não aguentando aquela angustia, Kamila deitou-se ao lado de Tati e continuou acariciando a namorada até que ela mesma estivesse no mundo dos sonhos.
– Bom dia... Você deve estar com dor de cabeça...
Kamila acariciou os cabelos de Tati enquanto esta acordava.
– Como você...
– Você chorou ontem à noite. Eu vi seu rosto cheio de lágrimas secas.
– Ah...
Tati escondeu o rosto a fim de não transparecer sua raiva pela outra ter sabido...
– Vamos conversar. Não podemos continuar assim...
Tati apenas balançou negativamente a cabeça.
– Então eu falo: Eu só não queria que você ficasse assim, sabia que ia ficar chateada se eu lhe falasse o real motivo... Mas como você ouviu, tenho que me explicar. Sim, Tati, os homens do meu trabalho dão em cima de mim sim. Só que eu tô pouco me lixando para isso. Tenho uma linda namorada ciumenta em casa que não pretendo largar tão cedo.
Kamila forçou sua namorada olhar para si e ficou encarando-a com ternura e carinho no olhar.
– Não vou te largar a menos que você não me queira mais.
E foi durante uma manhã branca por causa da neve, os mau-entendidos foram exterminados. Horas depois Tati recebera um telefonema informando que na próxima segunda-feira começaria a trabalhar no mesmo local onde Kamila não fora despedida.
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