Family
4 Capítulo 4
Notas iniciais
As brigas não diminuíram quando a coleção de Kurt foi lançada. Na verdade, elas aumentaram. Alguns dias atrás ele brigou comigo por ter posto a geleia do lado direito na mesa, e não no esquerdo. E o pior é que isso estava me irritando, me irritando muito.
POV Rory
Meus pais andam brigando por tudo. Eu não aguento mais. Pelo menos agora posso contar com Carson. Ele se mudou um pouco depois do meu aniversário e em pouco tempo já nos dávamos bem. Eu até arriscava chamar ele de melhor amigo. Eu contava tudo que me incomodava para ele, pois ele havia passado por isso, brigas de pais. Sei que Ginny também tem pais divorciados, mas os pais dela eram, como posso dizer, comuns.
Carson tinha duas mães, o que fazia com que ele entendesse o meu caso. Um casamento entre duas pessoas do mesmo sexo não é como os outros. Tem o amor e tal, tudo igual, mas acaba, de um jeito ou de outro, sendo diferente. Com o tempo o casal fica como se fossem irmãos, e as brigas começam.
As mães de Carson se separaram quando ele tinha 14 anos, ou seja, dois anos atrás. Ele disse que foi difícil passar por aquilo, ver as mães nem olharem uma na cara da outra. Era muito estranho. Carson disse que elas começaram com brigas tolas, como o lado em que a geleia devia ficar na mesa.
Como posso descrever Carson? A primeira vez que eu o vi ele parecia ruivo, mas então percebi que era penas o reflexo da luz do Sol. Na verdade ele tinha cabelo castanho claro, seus olhos eram azuis e conforme a luz batia neles, eles se tornavam mais claros, como um mar caribenho. Ele usava óculos, mas não pense que era do tipo nerd. Bem, ele era nerd, mas não se vestia como um.
Ele tinha uma voz linda, e tocava piano, então aproveitávamos o piano que tinha aqui em casa e cantávamos, fingindo estar na Broadway.
– Você quer seguir a mesma carreira do seu pai? – Ele perguntou enquanto estávamos sentados ao piano.
– Não, de nenhum dos dois. – Eu sorri. – Eu gosto de mexer com máquinas, não com pessoas.
– Interessante. – Ele se virou para mim. – Me considere um robô.
Nós rimos bastante, todo o tempo. Enquanto não estávamos na casa dele, estávamos na minha. As visitas de meus amigos do colegial diminuíram, até porque eu não queria que eles vissem meus pais brigando todo o tempo.
Meu Pai Blaine perguntava o tempo inteiro quando Ginny viria me ver novamente, e eu estava ficando irritado com aquilo. Ele realmente achava que eu estava gostando dela. Na verdade ela era só minha amiga, e eu nem sei do que eu gosto, ou se gosto de alguma coisa.
Eu já tive atração por uma menina, mas também já tive por um menino. Eu não sei como funciona meu cérebro. Quando contei isso para um dos amigos que eu mais confiava ele disse que a culpa era dos meus pais, por serem gays. Eu dei um soco na cara dele e nunca mais dirigi a palavra para ele.
Estou cansado de preconceituosos, estou cansado dos meus pais e cansado da minha vida. É pedir demais por alguns momentos bons? Uma semana, é tudo que eu peço.
Carson e eu estávamos no piano, ele tocando e eu apenas ouvindo, tentando memorizar as notas para repeti-las mais tarde, quando meus pais entraram brigando me casa. O motivo era que Blaine tinha ido até o escritório de Kurt lhe levar flores. Isso mesmo, só por isso.
– Kurt, qual o problema? – meu pai jogou a bolsa sobre a mesa. – Eram flores, e eu estava tentando agradar meu marido, que está tão estressado ultimamente.
– Estou estressado, isso? – Papai gritou. – Precisa de umas férias, Blaine?
– Não cairiam mal umas férias desse Kurt maluco. – Os tons de voz aumentavam a cada palavra.
– MALUCO? – Papai gritou ainda mais alto e bateu em um vaso de flores que caiu no chão.
– Sim, maluco, doido, fora de si, anormal. – Meu pai começou a catar os cacos.
Foi quando ele se abaixou que papai me notou sentado ao piano com Carson. Ele arregalou os olhos e começou a corar. Carson pigarreou e meu pai levantou com as mãos sujas de terra.
– Acho melhor eu ir. – Carson se levantou. Me deu um abraço sem jeito e saiu pela porta.
Papai tentou pedir desculpas, mas apenas lhe encarei sério e fui para o quarto.
Eu fiquei trancado lá até a hora do jantar. Apenas lendo, vez que outra mexendo no meu computador e inventando coisas novas. Criei um jogo que tem várias pegadinhas, e assim que as pessoas começam a jogar começaram a me xingar de tudo que podiam.
O Sol já não estava no céu, bem ele ainda estava no céu, mas brilhava em outro céu, talvez no de Tokio? Mas aqui, em Nova Iorque ele não nos dava mais a honra de sua presença.
Eu gostava de ver o Sol enquanto criava ou escrevia algum projeto, parecia que ele clareava minhas ideias. Tornava as coisas mais fáceis e mais “felizes”.
Quando eu saí para a cozinha, para perguntar sobre o jantar, me arrependi no mesmo momento. Meus pais estavam brigando de novo, mas desta vez em sussurros, para que eu não ouvisse, claro.
Eles achavam que eu não notava que as coisas não eram as mesmas, que não era como quando eu tinha 5 anos. Quando sentávamos juntos na sala para ver desenhos animados e eles se tratavam bem. Faziam piadas um com o outro. Ou quando eles me contavam como havia sido o colegial, os altos e baixos do relacionamento deles.
Eu estava perdido nos meus pensamentos felizes quando uma dor no estomago me atingiu. Não, não era fome ou qualquer coisa assim. Era preocupação. Sabe quando você fica nervoso com algo e sente um frio na barriga? Eu estava assim quando ouvi meu pai dizer aquelas palavras.
– Talvez você queira tirar férias permanentes, Blaine?
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