Família Addams WENCLAIR

14 Um Addams, nunca deixa - OneShot


Notas iniciais
Deixarei pra comentar no final. IMAGEM DO CAPITULO FEITA POR MIM, ESTA SENHORAS E SENHORES, É EMMA ADDAMS! Boa leitura ~

AVISO: ESTE CAPÍTULO CONTÉM DESCRIÇÕES DE CENAS VIOLENTAS, SUICÍDIO, BULLYNG E PRECONCEITO. NÃO É RECOMENDADO PARA PESSOAS SENSIVEIS E PODE CAUSAR GATILHOS.

O tom funesto do hospital trazia um sentimento aconchegante para Emma, em contra partida, a quantidade de parentes se espremendo dentro e fora do quarto lhe deixava sufocada. Ali na cama hospitalar, deitado em coma induzido, estava seu primo Pubert. Um rapaz gordinho de cabelos e bigodes loiros, pele tão pálida e deveras azulada, mais do que nunca, parecia realmente um morto vivo. O corpo, enfaixado com ataduras e gesso, o tubo de oxigênio enfiado na garganta e a máquina irritante que sempre bipava, anunciando que ele ainda estava vivo, embora inconsciente.

Enquanto sua tia Ophelia chorava baixinho sendo confortada por vovó Mortícia e sua mãe Enid. Seu tio Pugsley parecia abatido sentado em um canto do quarto, tendo a companhia de Wednesday e Gomez. Os cochichos entre os outros parentes chegavam até abafar os sons das máquinas hospitalar, primo It e sua família estavam presentes, assim como tantos outros, lotando todo o quarto. Emma decidiu sair para respirar melhor, deixando Thing para trás conversando com Tropeço, sendo barrada logo em seguida pelo corpo de Lúcifer que parecia preocupado. Os gêmeos e seus companheiros estavam parados no corredor, prontos para entrar.

— Como ele está? – O mais velho perguntou, tinham acabado de ligar para ele contando sobre o acidente de carro que o primo sofrerá, estava em aula na faculdade e saiu as pressas.

— Em coma – Foi direta, Emma não queria dar brecha para os irmãos puxarem conversa.

— Tenho quase certeza que é proibido tanta gente no quarto – Elisa comentou, curiosa ao ver tantos Addams reunidos, o ar-condicionado do quarto nem chegava a esfriar o calor de tantos corpos espalhados.

— Os Addams não seguem regras – Joui foi quem explicou, tendo convivido suficiente com a família do namorado, já estava acostumado.

— Vamos entrar – Anunciou Larissa, puxando a namorada pela mão e sendo seguida pelos demais.

Finalmente Emma encontrava-se sozinha, porém o som dos burburinhos da família ainda se mantinham presente, optou por afastar-se. Por onde andasse encontrava médicos, enfermeiros, pacientes e parentes, parecia que naquele horário – o famoso horário de visitas – não havia espaço para corredores silenciosos e vazios como nos filmes de terror que tanto apreciava. Seus pés lhe levaram para muito longe das vozes e da presença humana, o sol já começava a se pôr no estacionamento a céu aberto e o som de alguns pássaros podiam ser ouvidos a distância. O vento soprou uma brisa gélida de fim de tarde e Emma sentiu mais uma vez, aconchego.

Teve sua paz arruinada quando, não tão distante de si, observou um corpo chocar-se contra a cerca de ferro. Um rapaz caiu no chão, em prantos, tentou levantar-se, porém fora empurrado novamente por uma mulher. Emma observou que aquele homem não conseguiria se livrar tão fácil da moça, era magro demais e lhe faltava o braço esquerdo.

— Eu só preciso... Ver como ele está! – O magricelo gritou, a voz tremula e embargada pelo choro.

— Você já fez o suficiente nessa merda! – A mulher rebateu, ela também chorava.

Os dois estavam completamente alheios a sua presença, e Emma não tinha interesse algum em se meter naquela briga, aquilo não tinha nada a ver com ela. Mas como apreciadora do caos, não pôde deixar de observar os dois estranhos e sua interação nem um pouco pacífica. A mulher, mais baixa que ele, tinha os cabelos negros, amarrados em um rabo de cavalo elegante, usava um vestido azulado e delicado, o rosto poderia ser o que chamavam de angelical, olhos azuis, lábios finos e rosados.

“Erch” – Emma revirou os olhos, nem um pouco atraída pela aparência da mulher.

O homem por sua vez, bem magro e alto, usando um macacão preto com uma camisa branca de manga curta por dentro. Os cabelos eram castanhos e os olhos negros e profundos, com olheiras tão fundas que fez a Addams se questionar se ele chegará a dormir durante os últimos dias. Sua principal característica, obviamente, era a falta do braço.

— Por favor, eu... Eu sei que foi minha culpa – O rapaz voltou a falar, levantando-se aos poucos – Mas... Eu preciso saber, se ele ta bem.

— Se sabe que é sua culpa, então recolha-se a sua insignificância e saia daqui – A mulher deu as costas – Ele está em coma, por sua causa.

Emma acompanhou com o olhar a estranha sumir para dentro do hospital, o show havia acabado. Virou de costas, apreciando o choro daquele magricelo atrás de si.

[...]

Era irritante ter que voltar para aquele hospital, mas entendia a preocupação de sua família. Pubert ainda não estava apto para acordar desde que fora atropelado a dias atrás, por um carro esportivo. A notícia que saiu no jornal, relatava que ele estava em companhia da namorada que saiu ilesa do acidente. Namorada essa que Emma nunca soube quem era, não tinha muito interesse pelas relações dos outros e não lembrava se já foram apresentadas, se a resposta fosse sim, ela tinha certeza que havia apagado da memória, só prestava atenção naquilo que lhe interessava.

— Vamos entrar em silencio – Pediu Enid aos demais. Estavam acompanhadas de Mortícia, Gomez e Wednesday. Além de Emma, claro.

A porta do quarto abriu-se vagarosamente, revelando um ambiente já sem aquele aglomerado de parentes Addams. O lugar era espaçoso, contendo duas poltronas em cada lado da cama e um sofá aconchegante mais ao canto. Para surpresa da cópia de Wednesday, o local não estava vazio. Ali, sentada ao lado do corpo inconsciente de Pubert, encontrava-se uma mulher, a mesma que ela virá dias atrás, chutando e berrando com um rapaz maneta.

— Vocês são parentes? – A moça perguntou, tendo como confirmação as roupas fúnebres e o balançar positivo de cabeça dos Addams – Desculpe estar aqui, assim sem avisar. Sou Karen, namorada do Pubert.

— Prazer Karen – Enid sorriu acolhedora, como sempre.

— Onde está meu irmão? – Wednesday procurou em volta, só havia ela no quarto.

— Eles estavam tão cansados, não quiseram sair daqui por nada – Explicou a tal Karen – Pedi que ao menos fossem comer alguma coisa na lanchonete.

— Fez bem – Mortícia concordou preocupada, o filho e a nora estavam completamente abalados com o estado do único filho – Vamos até eles mon cher, quero saber como estão.

— Claro Tisha — Gomez prontamente segurou sua mão, lhe guiando com delicadeza para fora.

Ao contrario do que Emma gostaria, o silencio no quarto não se perdurou, pois, sua mãe lupina puxará assunto com a moça de rabo de cavalo. Dando a deixa para que as trançadas fossem procurar se entreterem de outra forma, sem vontade alguma de interagir. Enquanto Wednesday olhava distraída a máquina de batimentos, Emma observou que a porta abrirá minimamente, apenas o suficiente para ser espiada por alguém do lado de fora. Franziu o cenho intrigada, quem poderia ser?

— Se a senhora me der licença, eu preciso ir ao toalete – Karen interrompeu a conversa, afastando-se aos poucos – Volto logo.

— Ah tudo bem — Enid sorriu. Quando o corpo dela passou pela porta, a loira soltou risonha – Viu que chique? Toalete.

— Pelo menos é educada – Wednesday deu de ombros.

Emma deixou as mães conversarem sobre formas de se referirem ao banheiro e partiu atrás da figura estranha que espiava o quarto. Achou estranho que Karen saísse tão às pressas no mesmo momento que ela notou que alguém as vigiava. Talvez a namorada de Pubert também tivesse percebido que havia mais alguém ali.

Seguiu pelo corredor silenciosa, a procura de um suspeito, quando ouviu o bater da porta que levava as escadas – usadas apenas para emergências, caso os elevadores falhassem – alguém aparentemente entrará ali. Abriu com cautela a porta adesivada com os dizeres “saída de emergência” e desceu alguns lances de escada, ouvindo um pouco mais distante as mesmas vozes de outro dia.

— Eu disse pra você sumir!

— Eu só quis ver se el-

— Cala a boca Matheus – Karin reclamou irritada – Não consegue entender que você é uma pedra no nosso caminho? Você é ridículo, deveria ser você ali e não ele.

— Eu sei – Matheus, o homem com apenas o braço direito, choramingou – Eu também me odeio.

— Vai embora e não volta mais. Se morresse não faria diferença alguma.

Ouve então alguns suspiros pesados – alguém segurando o choro — e passos foram ouvidos descendo as escadas. Antes de sair, Emma pôde escutar o grito de frustração de Karen. Seguindo para longe daquele corredor, a morena puxou seu telefone abrindo no aplicativo de mensagens, cinco contatos pipocaram na tela do aparelho.

“Thing, tenho uma missão para você.” – digitou.

[...]

Semanas depois e lá estava Emma novamente no hospital, no mesmo quarto, porém desta vez com Pubert acordado, embora não pudesse falar muito. Enquanto a família comemorava que ele estava consciente, Emma se remoía em vontade de saber seu lado da história sobre o tal acidente. Infelizmente, teria que esperar, visto que o primo não poderia e nem queria reviver aqueles traumas, poderia acabar agravando seu estado passar por certos níveis de estresse.

O que Thing conseguiu reunir a seu pedido fora uma grande descoberta. Como dito antes, ela não gostava de se intrometer e muito menos se interessava nos assuntos alheios. Mas ouvir uma estranha proferir tantas palavras de ódio a um deficiente chorão, lhe deixou com uma pulga atrás da orelha. Principalmente por aquela história parecer que envolvia Pubert de alguma forma.

Matheus Schiller tinha dezesseis anos, exatamente a idade de Emma. Era filho único e por causa de uma má formação, nasceu com a ausência do braço esquerdo. Reprovou diversas vezes na escola por falta, sofria bullying desde os quatro anos e isso lhe fez crescer recluso. Aparentemente, segundo o que Thing lhe contou, era comum as crianças baterem nele por diversão, colocar o pé para ele cair, dificultar seu acesso em lugares, entre tantos outros. O rapaz sofreu bastante. A alguns meses conheceu Pubert, que como sendo um Addams, adorou sua deficiência. Rapidamente ficaram amigos, porém sendo sempre ridicularizado por Karen e outros amigos de Pubert – tudo claro, aparentemente em sua ausência. Matheus tentou tirar sua vida algumas vezes, ingerindo muitos comprimidos de uma única vez, bebendo substancias corrosivas ou tentando se enforcar. Era um milagre que o adolescente estivesse vivo.

— Senhora Ophelia? – Um enfermeiro chamou educadamente.

— Pois não?

— Tem um rapaz querendo falar com a senhora lá na recepção.

Karen estreitou rapidamente os olhos, Emma não pôde deixar de notar. Quando sua tia saiu do quarto, prontamente lhe seguiu como uma sombra. Ninguém notará sua ausência e se notassem, era comum a adolescente sumir sem explicações, não se importariam. Acompanhou-lhe discretamente até a recepção, onde avistou o tal Matheus, ele parecia mais acabado do que na primeira vez que lhe viu, o corpo bem mais magro, achou estranho ele conseguir estar de pé.

— Senhora Addams?

Ouviu o rapaz questionar, querendo confirmar de que aquela era a pessoa certa. Emma aproximou-se melhor para ouvir, fingindo ler um cartaz sobre prevenção de doenças sexualmente transmissíveis.

— Conheço você? – Ophelia cruzou os braços, nem um pouco receptível a presença ou conversa do adolescente cotoco.

— Acho que não, erh... Sou Matheus Schiller, amigo do seu filho – Sorriu tremulo, parecia nervoso.

— Ah sim. Ouvi falar, acho que Karen mencionou você em algum momento....

Ouve alguns segundos de silencio. Emma prestou total atenção no que seria dito a partir dali. Então Karen já havia contado sua versão dos fatos para sua tia, interessante. A namorada do primo não gostava mesmo daquele magrelo.

— Ela falou? – Matheus pareceu estar surpreso, coçou a garganta antes de continuar – E-Eu imagino, que... Que não esteja feliz com a minha presença.

— O que você quer rapaz? Fale logo.

— E-Eu... Eu queria me desculpar... E saber como ele está! Ouvi dizer que acordou – Matheus engasgou algumas vezes – Eu venho todos os dias, mas me barram sempre.

— Eu que ordenei – Emma nunca ouvira Ophelia usar um tom de voz tão carregado de raiva quanto aquele – Não quero que o culpado pelo acidente do meu filho o veja.

— Eu... E-eu...

Por minutos houve silencio. O bater contra o piso dos tamancos de Ophelia ecoaram atrás de Emma e ela pôde ver quando a mulher sumiu no corredor. Virando-se para o outro lado, observou Matheus ainda parado, olhando para baixo.

“Estranho... Ele era tão branco assim?” – Emma analisou pensativa, sua pele estava tão pálida quanto de vovó Mortícia.

Demorou alguns minutos do que parecia ser uma batalha interna que Matheus levava. E então seu corpo moveu-se, passando apressadamente por Emma, indo em direção ao elevador. A adolescente o seguiu, parando para analisar quantos andares o elevador subiria, o visor marcou o último.

“O que ele vai fazer no terraço?” – Emma tinha uma noção do que poderia ser. Entrou no elevador vago ao lado e apertou o ultimo digito.

Quando a porta de metal abriu, uma brisa gélida tomou conta do seu corpo. Naquela noite o vento soprava muito, principalmente pela cara de tempestade que se aproximava. Parecia que choveria bastante, o céu estava completamente nublado com nuvens carregadas. Aquele terraço servia para pendurar as roupas de cama lavadas dos quartos do hospital, porém com a previsão do tempo indicando chuva forte, as faxineiras removeram tudo logo cedo. Alguns pegadores ainda sobraram no varal. Procurou ao redor o garoto de cabelos castanhos, ele estava no parapeito, observando a rua.

— Hey você – Emma chamou, o que ela estava fazendo? Não sabia responder, mas achou que precisava conversar com ele.

— Que? – Matheus virou-se surpreso, escorregando e quase caindo, porém Emma foi mais rápida e o segurou pelo macacão. Quando estabilizou-se novamente no parapeito, a Addams lhe soltou – Quem é você?

— Achei que minha aparência entregaria – Deu de ombros, afastando-se e mantendo uma distância considerável do que achava ser o ideal entre dois estranhos.

Matheus analisou suas roupas negras, o cabelo trançado em um único rabo de cavalo, o olhar penetrante e o piercing.

— Você é uma Addams? É parente do Pubert?

— Prima.

— Entendo.

Ouve alguns segundos de silencio. Emma sempre encarava todos profundamente, o que os deixavam sempre desconfortáveis, mas Matheus pareceu não ligar, lhe devolvendo o olhar.

— O que quer comigo?

— Por que persegue meu primo?

— Eu não o persigo! – Matheus pareceu ofendido.

— Fato, você sempre está a espreita querendo entrar no quarto – Emma pontuou – Isso não é perseguição?

— É curiosidade – Matheus explicou e recebeu como resposta um arquear de sobrancelha – Ta bem, talvez seja... Seja perseguição.

— Qual seu objetivo?

— Eu só queria saber como ele estava. Mas todos me impedem – Matheus voltou sua atenção para o horizonte, dando as costas para Emma – Ele salvou minha vida, quando tentei me matar...

O adolescente virou minimamente o rosto, estranhando nem uma fala ou expressão surpresa no rosto da Addams. Ela parecia não se importar com o fato dele ter tentado tirar a própria vida, estava tranquila, ouvindo atentamente. Estranhou, porém, continuou:

— Eu me atirei na frente de um carro, mas ele me puxou no ultimo momento, trocando de lugar comigo – Explicou – Eu não esperava que ele fizesse isso, na verdade, eu nem sabia que ele estava ali na cafeteria, com a Karen.

— Então foi isso que aconteceu – Emma deu-se por satisfeita, não havia nada mirabolante nesta história, apenas atos e consequências causados por síndromes de heróis e depressão.

— Mas tudo acaba hoje.

— Como?

Antes que pudesse processar, viu o corpo do garoto ser puxado pela gravidade. Correu para a beira do terraço, seus ouvidos capitaram o som que ficaria gravado por anos em sua mente. Quando olhou para baixo, o grito de uma enfermeira acompanhou a cena de terror. Matheus Schiller estava morto.

[...]

A vida se seguiu normal depois do “acidente” que fora noticiado por dias na mídia. Os comentários iam de “pêsames a família” para “não foi homem suficiente”. As redes sociais estavam em uma guerra que dali alguns dias seria esquecida quando saísse a noticia de um casal de famosos que estão se separando. De um lado, pessoas defendiam, palestravam e comentavam sobre a importância de ter acompanhamento médico. De outro lado, pessoas faziam piadas, comparavam com assuntos banais e davam seu ponto de vista.

“Se matou porquê era um viadinho!”

“Eu conheço ele gente, é um drogado, se matou porque a família não quis bancar o vício”

“Ele foi pular de paraquedas, mas esqueceu de colocar LOL”

E para os da vida real. Além da família de Matheus, ninguém mais se importou. Emma compareceu ao enterro, assistiu distante e pôde ver o total de oito parentes. Pubert não pôde ir, ainda estava acamado. O primo pareceu de certa forma abalado com a notícia, mas Karen e Ophelia não se importaram nem um pouco, e os demais Addams nem sabiam da existência do rapaz, apenas lamentaram o ocorrido.

Emma não deveria se importar. Nunca foi disso, mas existia algo ali no seu coração. Um sentimento estranho de impotência, ela deveria ter feito algo? Mas o que? Não tinha poderes como os irmãos e as mães, o que poderia fazer?

— Mama... – Bateu à porta do escritório de Wednesday, ouvindo sua confirmação para entrar.

Encontrou a escritora sentada frente a sua máquina de escrever, digitando um novo conto que seria publicado dali a alguns meses. Sentou-se na cadeira em frente à mesa, esperando pacientemente a mais velha terminar sua escrita e então encararam-se.

— Lembra do garoto que se jogou do terraço do hospital?

— Infelizmente sim – Wed suspirou – Pobre rapaz, tinha tanto pela frente.

— Eu estava com ele – Emma informou à medida que a latina ficava surpresa – Na hora que se jogou... Eu estava lá, no terraço. Não tive tempo de pega-lo.

— E como você está se sentindo? – Wednesday não era boa com sentimentos, mas aprenderá algumas coisas com Enid. E naquele momento, percebeu o que deixará a filha tão mais distante e abatida esses dias.

— Eu me sinto estranha – Explicou – Fecho os olhos a noite, e vejo ele dando um passo a frente. É estranho mama? Eu já presenciei a morte tantas vezes, já fiz tantas coisas. Por que desta vez me sinto tão... Culpada?

— Se sente culpada? – Wednesday analisou, parecia faltar algo nesta história, Emma não se importaria com um desconhecido – Tem algo a mais pra me contar?

— Eu meio que... Meio que conhecia ele, ou o passado dele, sei lá – A menor suspirou, não precisava esconder nada da sua mãe, não havia cometido crime algum e mesmo se este fosse o caso, Wednesday nunca lhe julgaria – Ouvi a Karen, aquela namorada do Pubert, brigando com ele no hospital. Acabei ficando curiosa e mandei Thing pesquisar sobre sua vida.

Wednesday balançou a cabeça, deixando com que a filha prosseguisse sua história. Emma sentiu as mãos gelarem e um embrulho no estômago.

— Ele sempre sofreu bullying, por causa da deficiência. Eu mesma presenciei algumas das vezes que falaram coisas maldosas para ele. Mas não fiz nada.

— Não fazer nada Emma, também é fazer algo — A adolescente arregalou os olhos, surpresa com a informação. Wednesday continuo – Um bullying assistido, também é uma forma de bullying. Escolher interferir ou não, é sua escolha, mas saiba que, elas trazem consequências.

Emma piscou, forçando-se para não derramar nem uma lágrima. Ficaram em silencio por alguns segundos. Segundos esse que foram torturantes para a jovem.

— Nem sempre podemos ignorar as coisas. Você é parecida comigo filha, não se interessa por certas dinâmicas, mas quero que aprenda e perceba que, como mulheres fortes, precisamos as vezes proteger os mais fracos – Wednesday explicou – Não estou dizendo que é preciso ser babá deles, mas que saiba a hora certa de interferir, para evitar que coisas como essa aconteçam. Se você sabe de algo, denuncie, não se cale. E se não puder denunciar, ajude, fique do lado de quem precisa. Isso é ser uma Addams.

— Um Addams nunca deixa os outros para trás – Emma repetiu o que escutou por tantos anos seus familiares proferirem.

Um Addams, nunca deixa.

Notas finais
Se este capitulo lhe causa revolta pela impunidade das pessoas que falaram e fizeram coisas, é porque foi escrito para ser assim. Uma pessoa - um conhecido - tirou sua vida meses atrás e eu ouvi e vi muitas coisas maldosas a seu respeito, depois de sua morte. Principalmente homofobicas. Isto me causa revolta até hoje. Não, não sou a Emma, não sabia o que ele passava, não éramos próximos, apenas nos conhecíamos. Porém, o bullying assistido é real, não fazer nada também é fazer, é compactuar com aquilo. Não adianta dizer: mas eu nunca falei nada pra fulano. Pois é, mas também nunca defendeu fulano ou repreendeu quem fazia as maldades não é mesmo? Escrevi esse capitulo, por 3 motivos. 1 - Gosto de trazer temas diversos. Vocês devem ter percebido que sempre toco em assuntos sobre ralações humanas. Interações de pais e filhos, amigos, vizinhos, etc. 2 - Gosto de "ensinar" através das minhas histórias. Histórias não precisam vir com lição de moral, são ficções feitas para nos divertir. Ainda assim, conheço e conheci muitas pessoas que não conseguem desassociar uma história da vida real e acabam vivendo como se a vida fosse sem consequências. EU gosto de criar vez ou outra, capítulos que ensine algo, seja a se relacionar melhor com uma pessoa e se abrir, ou evitar seguir certo tipo de caminho que não levará a bom lugar. 3 - Este capitulo é uma forma de protesto, de colocar para fora, toda a raiva, impotência, culpa e tudo o mais que a Emma sente, pra fora. Eu não pude ajudar ele antes, mas talvez eu posso ajudar alguém agora. Alertar sobre esses assuntos pode, quem sabe, acabar ajudando alguém que vê isso acontecer e nunca fez nada em relação. SE VOCÊ ESTÁ PASSANDO POR ALGO E NÃO TEM COM QUEM DESABAFAR, PODE ME MANDAR MENSAGEM, OU DISCAR 188. O CVV PRESTA APOIO EMOCIONAL, ATENDEM POR TELEFONE, CHAT OU EMAIL.