Família Addams WENCLAIR

15 Sentimento Desconhecido - OneShot


A família Addams era enorme e surpreendentemente unida. Todo mês havia um convite para algum evento familiar onde muitos marcavam presença. Wednesday odiava os encontros com força, principalmente aqueles que não poderia negar ou fingir um compromisso. Aquele fim de semana era um exemplo, e a desculpa de “Emma estar doente”, não funcionaria desta vez.

O casamento de tio Fester – já perderá a conta de quantas vezes o homem casou-se e divorciou-se – seria em uma praia, a pedido da noiva, claro. Ricos e herdeiros do jeito que eram, Fester não poupou esforços e dinheiro com a preparação de tudo. As famílias dos noivos ficariam hospedados em um hotel-pousada, reservado apenas para eles, teriam três dias juntos, com a viagem acontecendo na sexta para um jantar onde conheceriam as famílias e no sábado poderiam curtir a praia ou passear pela cidade, visto que domingo seria reservado apenas para o evento principal e único motivo de estarem ali: o casamento.

Dentro do carro, ao som de Taylor Swift, Wednesday aparentava ser a única que não gostava da ideia de irem ao casamento. Olhou para o lado, sentindo falta de Enid – embora pudesse ouvir sua voz atrás de si, cantarolando animada as músicas – que havia trocado de lugar com Larissa, que nem ao menos prestava atenção no que acontecia no veículo ou fora dele, os olhos e a mente estavam voltados para um livro que lia.

— Olha mama! Aquele não é o carro do Tio Pugsley? – Lúcifer chamou atenção no banco de trás, apontando para o carro mais a frente que parecia ter quebrado na estrada.

— Parece que sim – Wednesday reduziu a velocidade, viu o irmão suado, trocando o pneu do carro. Parou ao seu lado e abaixou os vidros, para que toda a família pudesse vê-lo – Hey Feioso!

— Hm? – Pugsley olhou para trás, encarando a irmã com sua cara mais fechada que normalmente, pensou que era por conta da música que tocava, era de fato irritante e a latina odiava a batida – Hey Wed, Enid, crianças!

— O pneu furou? – Enid perguntou do banco de trás, ao seu lado, entre ela e Lúcifer, estava a cadeirinha de Emma, que com seus seis meses, dormia profundamente.

— Algum infeliz jogou pregos na estrada! – Berrou Ophelia de dentro do carro do marido, ela estava sentada a espera dele. As crianças estavam sentadas nos bancos de trás.

— É a cara do papai – Pugsley deu de ombros.

— Quer ajuda?

Pugsley ficou surpreso com a pergunta da irmã, sorrindo, respondeu um sonoro, sim!

— Esse macaco não foi bem colocado, vai acabar cedendo – Respondeu a morena, observou o irmão virar-se constatando que ela estava certa e então avançou de volta para a pista, deixando o homem para trás.

— Você não ia ajudar? – Enid questionou.

— Informação também é ajuda, cara mia – Deu de ombros

— Você é impossível Addams – Enid revirou os olhos enquanto os filhos riam – Aumenta o volume.

Preferia furar os ouvidos com pregos, mas elevou o volume do rádio. Tudo por sua amada.

[...]

Quando chegaram no hotel deixaram o carro na vaga reservada a elas e partiram com suas malas para dentro do lugar. A recepção era espaçosa, com cores neutras e algumas plantas enfeitando o local. Haviam cadeiras e sofás de madeira, todos muito bem acolchoados e confortáveis, as mesas de centro dispunham de cinzeiros, revistas e quadrinhos encontravam-se dependurados em um móvel que os expunha para ser escolhido pelos clientes, assim como cartões postais e mapas para turismo na cidade. O lugar estava lotado de Addams e a tal família da noiva, um bando de loirinhos de narizes empinados. Os funcionários pareciam entrar em parafuso com tanta informação, principalmente vinda dos atípicos Addams. As crianças Addams, perseguiam os filhos “normies” da outra família, dizendo que apenas queriam brincar de quem sobrevive por mais tempo trancado na sala do zelador – um quartinho muito pequeno, espaço suficiente apenas para os materiais de limpeza – causando desespero nos pequenos que fugiam apavorados, não queriam ficarem presos em um lugar claustrofóbico e escuro.

— Vou pegar a chave do quarto – Wednesday informou antes de largar as malas ao lado da família. Dirigiu-se até o recepcionista que aparentava estar intrigado com primo It.

— Mamãe, eu posso brincar? – Lúcifer perguntou dando pulinhos ansiosos no lugar, ver aquela quantidade de crianças reunidas correndo de um lado para o outro, deixou o lobisomem animado.

— Rapidinho, quando eu chamar venha – Enid sorriu, apoiou o corpinho sonolento de Emma em um dos braços e alisou carinhosamente o cabelo do filho com a mão livre – Depois que encontrarmos nosso quarto você pode voltar para brincar mais.

O lupino não esperou nem mais um segundo antes de correr até os parentes, liderando a caçada contra as crianças que não faziam parte da família. Emma observou o irmão correndo para longe e achou tudo um desperdício de tempo, montar armadilhas para capturar aqueles inferiores era muito mais prático.

— Não quer brincar meu amor? – Enid chamou atenção da filha, que negou rapidamente, voltando sua atenção para o livro.

Não demorou muito para que aquela correria resultasse em algum acidente. Emma estava distraída com a leitura, então não percebeu quando uma garota correu em sua direção e tentando escapar das garras de Lúcifer não prestou atenção no que estava à frente e acabou esbarrando na Addams. O livro voou longe com o impacto realmente forte, pois a garota vinha muito rápido, e os corpos se chocaram com tudo, levando ambas ao chão, as testas colididas rapidamente ficaram vermelhas e inchadas. Todos na recepção soltaram gemidos de dor e expressões surpresas, como se tivessem sentido eles mesmos o impacto.

— Larissa! – Enid desesperou-se, não havia reparado que aquela criança estava vindo na direção delas, sua atenção estava voltada a Emma que começará a acordar chorosa.

— Olha por onde anda! – Larissa gritou, algo raro, realmente estava irritada. A garota que havia caído por cima de si, ergueu o rosto para encarar melhor quem ela havia “atropelado”.

— Me desculpa... Eu... – A garota piscou nervosa por ter machucado a outra, sua fala morreu na garganta quando capitou a imagem completa de Larissa irritada, nunca havia visto rosto tão fofo em sua vida – Ai, minha cabeça! – De repente a fisgada de dor lhe trouxe de volta a realidade, saiu de cima da desconhecida e levou a mão a cabeça.

Larissa observou como a touca azul que ela usava pareceu remexer-se algumas vezes, como se tivesse algo ali embaixo. Levantou do chão procurando por seu livro, a testa dolorida demais. Enid aproximou-se das meninas preocupada, Wednesday vinha logo adiante igualmente preocupada, embora não aparentasse com sua face monótona.

— Vocês estão bem? — A licantropo perguntou passeando o olhar entre os machucados.

— Minha cabeça ta doendo – A garota choramingou com lágrimas no canto dos olhos.

— Bem feito! – Larissa bufou irritada – Você veio feito uma louca na minha direção.

— Eu já pedi desculpas!

— O que aconteceu? – Wednesday questionou a esposa que explicou rapidamente a situação, observou a filha que encontrava-se com a cara amarrada, se Larissa estava sentindo dor, não aparentava ser algo tão pior quanto aquela criança. Voltou-se para a pequena desastrada – Sua cabeça está doendo tanto assim?

— Sim – Respondeu, não conseguindo mais segurar as lágrimas.

— Parece que tem algo se movendo – Comentou Enid, notando o mesmo que Larissa perceberá momentos antes.

— Deixa eu dar uma olhada – Wednesday curvou-se para ajudar, mas a criança afastou-se assustada – Ta tudo bem, não vou te torturar.

— Você não pode olhar! – Informou assustada – Elas vão te transformar em pedra!

— Pedra? – Larissa tombou a cabeça para o lado, uma mania que tinha quando estava curiosa com algo.

— Então você é uma górgona! – Enid pareceu entender rapidamente.

— Está tudo bem, pelo impacto elas devem estar confusas demais para tentarem algo – Wednesday respondeu tentando de alguma forma confortar a garota – Ou irritadas demais, mas gosto da excitação de descobrir, é que nem jogar roleta russa.

A garota piscou algumas vezes confusa com a reação das mulheres, geralmente quando descobriam que ela era uma górgona todos se afastavam com medo de acabarem sendo transformados, embora o efeito durasse apenas por algumas horas. Por isso seu pai sempre lhe ensinou a nunca se apegar demais as pessoas, nem mesmo a ele.

— Qual seu nome? – Wednesday perguntou, paciente demais ainda, talvez ter tido filhos a tivesse dado essa habilidade, caso percebesse que não teria respostas ou não conseguiria uma aproximação para ajudar a garota, a latina iria embora sem pensar duas vezes, já estava com a chave do quarto mesmo.

— Elisa.

— Muito bem Elisa, vamos dar uma olhada nessa cabeça, hm? – A latina levou suas mãos até a touca da garota, todos em volta fecharam os olhos, inclusive Enid que rapidamente tampou os olhos da bebê – Como imaginei, estão desorientadas – A fala de Wednesday foi a informação precisa para que apenas os corajosos, diga-se de passagem: os Addams, abrissem os olhos e vissem ao vivo e a cores, as famosas cobras que os górgonas possuíam – A desorientação delas deve ser essa dor que está sentindo.

— Elas vão ficar bem?

— Sim, sugiro que vá para o seu quarto e se isole, deixe elas fora da touca por um tempo, até se recuperarem – Wed receitou devolvendo a peça de roupa – E avise ao seus pais.

Elisa quis revirar os olhos, rir, chorar, ou tudo ao mesmo tempo, qualquer opção, mas apenas assentiu ao conselho da mulher. Seus pais nem estavam ali, para começo de conversa, estava sozinha em um quarto que teoricamente seriam dos três, mas eles precisaram viajar de última hora, deixando ela mais cedo no hotel e prometendo voltar na segunda. Enquanto se afastava, sentia que alguém lhe observava com atenção, porém ignorou o sentimento, deveria ser um delírio por causa do acidente.

Larissa observou Elisa sumir pelas escadas, notando que ela não havia pegado o elevador. Ficou de certa forma encantada, quando sua mama informou que estava tudo bem olhar. Aquelas serpentes eram belíssimas, nocivas e estavam grudadas na cabeça da garota. Fazia parte do seu cabelo, ou era o seu cabelo, não entendeu essa parte direito. Achou tudo fantástico, já havia lido sobre a espécie, claro. Mas nunca virá uma górgona de perto, em sua cidade haviam muito mais normies do que gostaria, e levaria tempo para conviver com excluídos em Never More.

— Ela é uma Addams? – Enid perguntou quando a menina sumiu de vista.

— Não que eu saiba – Wednesday respondeu dando de ombros. Pegou as malas do chão.

— Não sabia que a noiva do seu tio era uma excluída.

— E não é – Novamente deu de ombros, partindo em direção ao elevador – Vamos Lúcifer!

— Que estranho – Enid franziu o cenho, esperou Lúcifer chegar até ela para então ir em direção a esposa.

[...]

A noite cairá rápido, para alivio momentâneo de Wednesday que contava os minutos para voltarem ao aconchego do lar, infelizmente teria que passar pela tortura do jantar entre as famílias. Sentada na poltrona do quarto com Emma em seus braços, — esta, usando um fofo vestidinho branco com pulseirinhas douradas enfeitando os bracinhos gordos – a latina observava Enid arrumar-se frente ao espelho. Os cabelos loiros soltos, a maquiagem elegante – com alguns brilhinhos nos cantos dos olhos – e o vestido vermelho que fazia a morena suspirar em desejo.

— Vai demorar muito? – Wednesday resolve perguntar, estava ali a um bom tempo, usando seu conjunto xadrez de blazer, calça e camisa, além de uma bota de salto alto, para estar na melhor altura de sua esposa, que em seu tamanco alto, ainda assim, ficava maior que ela.

— Não – Enid respondeu meio que no automático, concentrada apenas no batom que passava – Dê uma olhada nas crianças, se Lúcifer estiver usando aquelas galochas o mande usar o sapato que eu coloquei na mala.

— Que mal tem as galochas? São coloridas, do jeito que vocês gostam – Wed levantou-se, Emma estava concentrada em chupar sua mãozinha.

— Elas não são pra usar em um jantar formal – Explicou a mulher, sua atenção agora voltada para o delineador que passava.

Como pedido, Wednesday foi até o cômodo ao lado, abrindo a porta que separava as camas de solteiro da de casal e o berço que foi posto especialmente para a mais nova da família. Os filhos estavam devidamente arrumados, Larissa com um vestido azul escuro e sapatilhas. Lúcifer estava com um smoking roxo, com uma grava borboleta e as galochas que Enid mencionou.

— Estamos prontas, vamos? — A mais velha chamou atenção dos filhos que pararam suas leituras nos livros que trouxeram, para observar a mãe na porta – Lúcifer, use o sapato que sua mãe colocou na sua mala.

— Mas eu quero ir de galocha mama!

— E eu quero voltar pra casa – Wednesday revirou os olhos – Mas estou aqui pela sua mãe, então, anda, usa o sapato que ela pediu.

— Não era pelo tio Fester? – Larissa perguntou, afinal o casamento era dele.

— Seu tio casa todo ano – Deu de ombros – E sua mãe gosta do mar, então... Só veste logo Luci, por favor.

— Ta bom! – A contra gosto do garotinho fez o que lhe foi pedido, todos fazem sacrifícios a aqueles que amam afinal.

No salão de festas do hotel, várias mesas estavam dispostas, o jantar já estava sendo servido a algum tempo e Enid pôde observar que havia uma mistura de famílias em cada mesa. Todos estavam muito bem vestidos e animados, as risadas eram muitas, a lupina se questionou até quando tudo ia ser pacífico, logo os Addams estariam dançando com facas nas bocas e jogando granadas entre si como se fossem uma brincadeira sadia de batata quente. Foram até a mesa de comida onde serviram-se e partiram rumo a uma das poucas mesas vagas. Larissa observou que a mãe escolherá justamente a mesa onde tinha aquela garota que havia esbarrado em si mais cedo, tinha outras pessoas com ela, mas a loirinha não focou muito nisso quando sentou-se ao lado de Elisa.

— Boa noite – Enid cumprimentou ao sentar na cadeira que Wednesday puxou para ela.

— Boa noite – Responderam os três oferecendo sorrisos a família.

— São parentes do noivo presumo – A senhora puxou assunto.

— Sim – Wednesday respondeu por educação, não queria ter que sustentar uma conversa com aqueles desconhecidos. Focou-se em equilibrar Emma em um dos braços e levar o garfo a boca com a mão livre.

— Minha esposa é a sobrinha dele – Enid complementou, ela ao contrário da morena estava disposta a conversar e muito.

— Somos avós da Leticia, a noiva – Explicou o senhor querendo fazer parte da conversa.

— E você? – Larissa direcionou o olhar para Elisa que parou a colher no ar, lhe encarando curiosa – Você é o que da noiva?

— Prima – Elisa deu de ombros – Distante, bem distante. Tipo, minha mãe é que é prima, então isso meio que me faz também, sabe? – A górgona ficou nervosa diante o olhar penetrante da garota, e quando nervosa, falava até demais – Acho que sou tipo, prima de terceiro grau. Existe isso né? Prima de terceiro grau?

— Existe – Larissa respondeu, já arrependida de ter perguntado. Decidiu deixá-la falando sozinha e concentrou-se na sua comida.

As mulheres não deixaram passar despercebido que a filha iniciará aquela conversa por vontade própria, no mínimo bem incomum. O jantar seguiu-se tranquilo até o fatídico momento em que os Addams levantaram-se para dançar a clássica Mamuska, Lúcifer correu para dançar com primo Pubert e Enid – que aprenderá os passos com o pandeiro – se juntou a Mortícia e demais mulheres. Wednesday e Larissa assistiram os familiares dançando. Emma que estava quase cochilando acordou-se com todo barulho, não pareceu que estava incomodada, apenas curiosa com todos dando piruetas no ar. A família da noiva batia palmas animados com o espetáculo, isso até verem as facas serem arremessadas, quando Fester e outros homens mais velhos da família engoliram algumas das facas, houveram gritos de espanto e um silêncio avassalador. Gomez como sempre, soltou a voz cantando e trazendo animação novamente para o lugar.

— Sua família é fantástica! – Elisa soltou animada para a loira ao seu lado, os olhos brilhando.

— Eu geralmente toco o violino durante a dança – Larissa comentou, não soube explicar porque havia lhe dado tal informação, embora ainda não soubesse, no fundo, ela também queria ser elogiada por algo.

— Sério? Você é incrível! – Elisa sorriu encantada, pensou que gostaria de fazer parte daquela dança, junto as mulheres com os pandeiros, observou que Enid parecia muito feliz ao lado delas, gostaria de ser feliz também.

Larissa, não ousou olhar para o rosto da górgona, sentia que poderia corar a qualquer momento. Segurou a emoção, prendendo o ar sem perceber. Abriu um mínimo sorriso, que Wednesday notou.

[...]

Bem cedo pela manhã, Enid estava andando de um lado a outro, fazendo barulho ao mexer em tudo. Wednesday remexeu-se na cama do hotel tentando ignora-la, a loira lembrava os filhos quando tiveram seu primeiro dia de aula, animados logo cedo. Quando a lupina começou a cantarolar, a morena teve medo que Emma acordasse em seu berço que estava ao lado da cama, então abriu os olhos para pedir silêncio, mas sua irritação matinal morreu assim que pôs os olhos na esposa. Enid usava um biquini branco belíssimo, Wed não lembrava qual foi a última vez que viu ela usar esse tipo de roupa, mas amou observar a licantropo arrumando uma bolsa de praia distraída.

— Oh! Te acordei? – Enid sussurrou surpresa ao notar Wednesday lhe encarando – Desculpe. Emma acordou também? – Esticou o pescoço para olhar a filha no berço, essa ainda ressoando calmamente, ficou aliviada.

— Você é perfeita – Wednesday explanou seus pensamentos vendo a mulher corar – Como posso ter tido tanta sorte em te ter, mi amore?

— Wed não começa, você sabe que não resisto – Enid respirou fundo, tentando ignorar aquele calor que tomava conta de si pouco a pouco.

— Es a mais bela de todas – A latina levantou-se da cama e dirigiu-se a loira, tomando sua mão para si, lhe dando um casto beijo logo em seguida – Amo-te.

— Eu também te amo, mon cher – Enid não resistiu quando sentiu os lábios da morena em seu pescoço, virou-se para lhe tomar os lábios em um beijo cheio de desejo.

— Estou pronto! – Lúcifer abriu a porta que dividia as camas de solteiro dele e da irmã com a cama de casal e o berço.

No susto Enid acabou mordendo o lábio de Wednesday que grunhiu de dor. As mães separaram-se para encarar o filho que, com sua sunga infantil do Homem-Aranha, carregava uma bola embaixo de um braço e uma boia embaixo do outro. Na cabeça ele tinha um óculos de natação.

— Eu atrapalhei alguma coisa? – O menino questionou notando o olhar de espanto das mulheres e o sangue que escorria pelos lábios da latina.

— Não – Wednesday passou a língua no lábio cortado, sentindo o gosto prazeroso do seu sangue – Aonde vão as seis da manhã?

— A praia! – Lúcifer respondeu animado, sua voz elevada fez a caçula choramingar em seu berço – Ah, desculpa, acordei a Emma! – Deixou suas coisas em um canto do cômodo e foi até o berço – Hey maninha! Não chora não – Cantarolou dando o indicador para a pequena agarrar, aos poucos ela foi se acalmando – Vamos a praia, que tal? Você vai gostar, mamãe comprou uma piscininha inflável pra você! – Conversou com Emma que pareceu esquecer-se do choro e ficou entretida, mesmo não entendendo bulhufas.

— Eles são tão fofos! – Enid rapidamente puxou seu celular, abriu o aplicativo de fotos e tirou algumas do momento. Enquanto analisava as imagens voltou-se para morena – Então você vem?

— Para onde? – Wednesday fingiu não entender, torcendo para quem sabe-se lá o porquê, a esposa esquece-se de lhe convidar a praia.

— Para onde mais? Para a praia! – Enid riu enquanto voltava sua atenção para a bolsa que preparava mais cedo – Vou precisar de ajuda para olhar as crianças.

— Você só precisa se preocupar com a Emma – Wednesday explicou – Lúcifer sabe nadar e Larissa, duvido que ela queira ir.

— Algo me diz que ela vai querer ir, sim – Enid sorriu maroto, existia a possibilidade da sua garotinha estar gostando da pequena Elisa, imaginou que se ela fosse como Wed, iria querer estar perto da garota mesmo odiando certos lugares – Vou vestir a Emma, você vai amar a roupinha que eu comprei!

A lupina bateu palmas animada, caminhou até a mala tirando de lá um conjuntinho de maio e chapeuzinho azulado, cheios de frufrus envolta. Wednesday se questionou se Emma não faria um escândalo naquelas peças, a pequena era agoniada com o tipo de roupa que colocavam nela.

— Filho, vá acordar sua irmã, diga que logo estamos indo à praia – Enid pediu ao pequeno que prontamente obedeceu indo ao cômodo ao lado – Vamos nos vestir meu amor? – Enid sorriu para bebê que alheia a tudo, apenas chupou o dedo do pé.

Como previsto por Wednesday, Emma não gostou muito da roupa de banho, ficou chorando sem parar, obrigando a latina a sair para a loja da esquina e comprar uma roupa de banho mais simples, escolhendo obviamente a de cor preta. Tomaram café da manhã junto com alguns membros das duas famílias, Wednesday ficou surpresa de terem tanta gente acordada antes das sete da manhã, talvez todos tivessem o mesmo pensamento de Enid: aproveitarem a praia. E no fim, lá estava Wednesday, sentada em uma cadeira de praia, abaixo de um guarda-sol, enquanto assoprava a piscininha inflável que compraram para Emma. Larissa estava sentada ao seu lado na outra cadeira, com um livro nas mãos e óculos de sol, Lúcifer brincava na água com outras crianças e Enid tomava sol deitada em uma canga praiana, enquanto Emma embaixo do guarda-sol brincava com a areia.

— Por que eu vim aqui? – Emma perguntou para si mesma, irritada com o calor que fazia, suas mãos suadas começavam a grudar nas páginas do livro, manchando as letras.

— Larissa?

A garota desviou o olhar das páginas para encarar à estranha razão de estar com os pés enterrados na areia. Elisa sorria para ela, usando roupa de banho e uma touca de piscina. Trazia nas mãos uma cadeira de praia. Wednesday pensou em dizer que ali estava a resposta para a pergunta retórica da filha, mas apenas concentrou-se em terminar de encher a maldita piscina antes que Emma comesse mais areia.

— Olá senhoras Addams! – Elisa cumprimentou ao notar que não receberia um oi, da filha mais velha.

— Oi querida – Enid sorriu enquanto Wednesday dava um leve balançar de cabeça.

— Tudo bem se eu ficar aqui com vocês? – Apontou para o guarda-sol e depois para sua cadeira.

— Claro, pode sentar aí ao lado da Lari – Enid observou a filha ficar um pouco nervosa, mas não reclamou quando a górgona sentou-se ao seu lado. A lupina sorriu tendo agora a certeza do que de fato estava acontecendo com a sua garotinha.

— Terminei – Wednesday comemorou com um pequeno sorriso o seu feito. A piscina totalmente cheia de ar, foi colocada no chão e com o balde que Lúcifer havia trago com água do mar, ela a encheu, colocando Emma em seguida – É melhor não tomar essa água igual você fez com a areia – Aconselhou sabendo que a bebê não entenderia. Achou engraçado vê-la com a carinha coberta de areia.

— Sua irmãzinha é uma fofa! – Elisa puxou assunto. Larissa olhou para a irmã e deu de ombros, fofo não era bem a palavra mais apreciada para os Addams. Diabólica soaria melhor – Ta afim de ir no mar?

— Não.

— Não sabe nadar?

— Sei.

— E por que não quer ir?

— Porque não tô afim.

— Hm... – Elisa pensou em algum outro argumento, gostaria de ter a companhia daquela garota mais um pouco – E construir um castelo de areia?

— Eu não construo castelos! – Larissa trazia orgulho na voz.

— Hm... – A górgona teria que encontrar algo que de fato a garota gostasse, pelo pouco que interagiu com os Addams desde que chegou no hotel, entenderá que eles eram bem diferentes dos demais, tinham gostos peculiares – E que tal uma prisão de areia?

— Prisão? – Larissa abaixou o livro, interessada no assunto. Nunca construirá prisão alguma, seja na terra ou na areia.

— Isso mesmo, pode até criar um fosso, se quiser – Instigou ainda mais, vendo a loira começar a ponderar.

— Pois então farei a maior prisão que já viram! Terá uma área só para tortura. O corredor da morte não será apenas um corredor, e sim uma ala inteira! – Larissa levantou-se, procurando pelos brinquedos de praia que Lúcifer trouxera.

As duas então foram até a beira do mar, onde Elisa explicou qual seria o melhor local para começarem a criar a prisão perfeita. Wednesday e Enid observaram aquilo surpresa, afinal, aquela garotinha havia acabado de persuadir Larissa, que nem ao menos tinha se dado conta disto.

[...]

O dia do casamento finalmente chegará, deixando Wednesday aliviada, mais um pouco e estariam voltando para casa. Vestiram-se elegantemente para a ocasião e ocuparam o lugar ao lado de Fester, como madrinhas de casamento do homem. Enid pensou em como era bonito os casamentos na praia em filmes, livros e revistas. Completamente diferente da realidade, pois ventava bastante, tinha muitos grãos da areia nos cabelos e a salubridade do ar deixavam as peles meio melecadas. Talvez tenha sido este o motivo de Fester ter aceitado se casar na praia e não em uma funerária. Aquilo era uma tortura para todos os convidados que, hora ou outra, estavam coçando os olhos, pois algum grão de areia trazido pelo vento entrou no local.

Quando a noiva – que Wednesday não deu atenção alguma de decorar nome ou sobrenome de solteira – disse sim e finalmente o noivo pôde beija-la, todos comemoraram felizes por finalmente saírem daquele lugar. Os sapatos escolhidos para combinar com as roupas formais, afundaram na areia da praia, as mulheres reclamaram das unhas estragadas, que haviam sido pintadas para ocasião e os homens reclamaram de terem grãos dentro das meias, que incomodava ao pisar. Os Addams sorriram com o tormento alheio. Quando todos chegaram no hotel, ficaram aliviados de poderem tirarem os calçados e usarem as sandálias feitas para eles, para que ficassem à vontade durante a festa, dançar de salto nem pensar, e com meias cobertas de areia, muito menos.

Doces em formatos de baratas, bolo com enfeite de aranhas e um almoço picante, foram servidos aos convidados. A música na pista de dança era de um tom fúnebre que deixava o clima um tanto quanto melancólico. Larissa observou mais uma vez Elisa sentar-se com a família Addams, engatando em uma conversa animada com Lúcifer. A loirinha tinha algumas perguntas quanto aquela garota górgona. Primeiro, por que ela parecia evitar a família da prima? Segundo, onde estavam os pais dela? Terceiro, por que ela queria saber mais sobre Elisa? Isso tudo parecia confuso demais, pensou estar ficando doente.

“Talvez eu esteja sendo afetada pela distância de casa” – Pensou, afinal em sua cidade, nunca se interessaria por alguém.

Seu foco voltou a mesa quando notou vovó Mortícia segurar Emma para que Wednesday levasse Enid para dançar um pouco. Percebeu que muitos casais encontravam-se na pista de dança, ao som de uma valsa. Quanto tempo havia ficado perdida em pensamentos?

— Vou pegar mais doces – Lúcifer anunciou levantando-se a procura de um garçom – Quer vir junto Elisa?

— Não, estou satisfeita – Respondeu sorridente.

Lúcifer afastou-se da mesa, encontrando os primos no caminho e resolvendo juntos roubarem algumas comidas da festa. Elisa observou Larissa distraída com o bolo, mexendo com o garfo na aranha de açúcar. Mortícia havia levado Emma para junto do avô, deixando assim as duas crianças sozinhas.

— Algum problema com o bolo? – Elisa puxou conversa.

— Essa aranha lembra ao Lion – Larissa respondeu sem importa-se em dar detalhes de sua vida, aparentemente tudo que aquela górgona perguntasse ela responderia sem pensar duas vezes, o que era irritante – Lion é minha tarântula de estimação.

— Não sabia que gostava de animais.

— Só os perigosos.

— Lion é perigoso?

— Se quiser tentar a sorte...

— Eu passo, obrigada.

As garotas encararam-se em silencio, o tom suave do violino trazia um clima agradável. O bolo fora deixado de lado, Larissa estava sem fome. A música trocou de ritmo e outra valsa iniciou-se. Larissa notou que Elisa parecia concentrada demais nos pares no meio do salão.

— Parece ser tão legal! – Ela sorriu observando Enid e Wednesday dançarem calmamente – Suas mães estão se divertindo.

— É, elas gostam de dançar – Deu de ombros.

— Um dia ainda vou dançar valsa, estarei usando um lindo vestido e no final da dança, vou beijar o amor da minha vida – Imaginou a górgona.

— Você sonha demais – Larissa torceu o nariz – Beijo? Bler, nojo!

— É romântico – Elisa corrigiu.

— É desnecessário – Larissa retrucou.

— Vai dizer que nunca sonhou com o amor verdadeiro? – Riu desacreditada.

— O que? Claro que não! – Larissa achou aquilo um absurdo, era uma Addams afinal, nem um Addams suspira de amores por aí, a não ser vovô Gomez – Temos 9 anos, não tem coisa melhor para pensar?

— Tipo o que? E correção, eu tenho 10.

— Não sei, que tal dominação mundial?

Desta vez Elisa que torceu o nariz. Larissa teve que admitir que era exagero esperar que aquela garota fosse capaz de pensamentos tão importantes, no fim, aquela baboseira toda fazia sentido com a personalidade infantil dela.

— Aposto que nem sabe dançar – Murmurou Elisa, sem esperar que a garota escutasse ou que respondesse. Estava chateada de não conseguir pensar em uma resposta boa para convencer a loira que pensamentos românticos deveria ser algo normal e esperado para pessoas da idade delas.

— O que disse? – Larissa perguntou, ofendida.

— Que? – A garota franziu a testa, não compreendendo o que ela falava.

— O que você disse? – Larissa tornou a perguntar – Que não sei dançar, é isso?

— Eu nunca falei isso – Elisa desconversou, não queria brigar, apenas voltar a assistir os casais dançando – Está louca.

— Vou te mostrar quem é a louca!

Sem aviso, a Addams segurou a mão da menina e a puxou para o meio do salão. Wednesday e Enid se entreolharam em uma conversa interna, de fato Larissa havia se apaixonado, não tinha outro motivo para colocar em prática as aulas de dança que teve com Gomez. Elisa corou ao perceber todos encarando-as, curiosos. Prendeu a respiração quando Larissa segurou sua cintura e lhe conduziu perfeitamente pelo salão. Elisa nunca havia dançado em sua vida, mesmo com a inexperiência, a ótima condução de Larissa lhe indicava perfeitamente quais passos deveria tomar. Sorriu maravilhada, era realmente divertido como havia pensado, sequer lembrava-se dos demais que ali estavam.

— Ainda acha que não sei dançar? – Estufou o peito de forma orgulhosa, rodou a garota em seus braços e ficou satisfeita com a cara de surpresa que ela fez.

— Eu nunca disse isso – Insistiu na mentira, divertindo-se com a cara emburrada que a loira fazia.

— Não negue – Larissa retrucou, sua mão apertando a cintura dela ao inclina-la de costas para o chão, apoiada em sua perna e olhando fundo nos seus olhos. Perdeu-se por um momento no brilho deles.

— Você é incrível, Addams – Elisa sussurrou quando tornaram a ficar em pé, frente a frente.

A música acabou, dando lugar a uma mais agitada. Enquanto os corpos de adultos, adolescentes e crianças movimentavam-se ao som da batida. Larissa e Elisa ainda encaravam-se, as mãos ainda em posição de valsa, a respiração rápida. Não houve beijo como Elisa imaginou que seria sua dança perfeita, mas sorriu quando Larissa lhe deu pela primeira vez, um pequeno sorriso. Afastaram-se quando Lúcifer pulou na irmã, gritando algo sobre aquela ser a música favorita dele. Os primos que estavam com ele, começaram a dançar e elas foram puxadas para fazerem parte daquilo. Disfarçando o rubor nas bochechas, elas dançaram com os amigos, fingindo que não estavam apaixonando-se.

No dia seguinte, dentro do carro. Larissa observou de longe Elisa abanar as mãos em despedida. Não puderam conversar direito, mas tinha esperanças de lhe reencontrar, não havia perguntado nada sobre ela e achou melhor assim. Teria algo para puxar a assunto, quando chegasse a hora.