Família Addams WENCLAIR

5 O desafio da educação


Notas iniciais
As referencias de hoje são do leão do filme em animação e do terceiro membro da família o bebê Pubert. ~Boa leitura

Os anos passaram-se gradativamente e antes que percebessem os gêmeos já tinham idade suficiente para irem à escola. Eles pareciam, de certa forma, animados com a ideia de ficarem horas em uma sala brincando – sejamos sinceros, sabemos bem que crianças de 4 anos não ficam o tempo todo apenas estudando em uma escola – com outras crianças. Imaginavam que seria tão divertido quanto o tempo que passavam brincando com Joui, quando as mães do pequeno vinham visitar a família Addams, ou quando brincavam aos domingos com o primo Pubert – filho de Pugsley e Ophelia.

Enid apreciava a empolgação dos filhos, notando que naquela noite ambos deixarão as mochilas prontas ao lado das camas, Lúcifer até mesmo quis vestir o fardamento para acordar pronto no dia seguinte, enquanto Larissa por sua vez, decidirá que dormiria abraçada com sua mochila de unicórnios, seres que ela amava. Talvez tenha puxado isto da licantropo que também tinha apreço aos animais mitológicos. Wednesday achou irônico que logo ela que falará tantas vezes que “parece que um unicórnio vomitou em você” como forma de “zoar” Enid no passado, agora tinha uma mine versão sua de cabelos trançados que amava os bichinhos tendo muitas pelúcias e acompanhando o desenho na tv.

— Eles estão tão animados – Enid comentou ao entrar no quarto. Wednesday estava na cama lendo um livro qualquer sobre serial killer.

— Certamente – Respondeu apenas, os olhos ainda voltados para o livro, mas sua concentração indo embora à medida que a esposa espalhava-se na cama de casal de forma preguiçosa.

— Eu tenho medo Wed – Confessou soltando um suspiro alto – Talvez eles não se adaptem aos padrões da escola – Wednesday passou a observar a loira, curiosa com sua aflição. Enid notando que a morena prestava atenção em si continuo seu raciocínio – Quer dizer, eles estão empolgados para brincarem, mas duvido muito que as crianças gostem de ter as cabeças das bonecas arrancadas.

— Elas não terão escapatória, nossos filhos arrancaram a cabeça de cada uma das bonecas que encontrarem – Wednesday tinha um brilho divertido no olhar, imaginando a cena que ela mesma já havia repetido diversas vezes quando criança.

— Eu sei – Enid soltou uma risada leve, conhecendo os gostos dos filhos sabia que virariam aquela escola de cabeça para baixo – Mas nós duas sabemos que isso vai os excluir das outras crianças.

— Eles terão o Joui – Relembrou-a do garoto metade vampiro e metade sereia, deveras estranho, ou seja, o mestiço perfeito aos olhos da Addams.

— Isso fará o Joui ser excluído também – Lamentou a lupina, o pequeno Tanaka era bom demais para ser igual as outras crianças e achar os gêmeos estranhos, embora chorasse quando Larissa arrancava a cabeça dos seus bonecos e Lúcifer os enterrasse em um funeral de mentirinha, depois de montar e lavar o brinquedo o garotinho voltava a sorrir como se nada tivesse acontecido, ele não se importava – ao menos não muito — com o modo que seus filhos agiam – Eu não quero que eles sofram como nós sofremos.

E então o olhar de ambas se encontraram compreensíveis. Enid tinha um semblante triste, sabia que os filhos passariam por certas dificuldades, não queria vê-los chorar por causa de comentários maldosos, o mundo era cruel demais. Wednesday entendeu o que a loira quis dizer, lembrou-se do que fizeram com Nero – seu escorpião de estimação – dos olhares atravessados quando proferia algo, dos comentários maldosos que cochichavam quando chegava. Realmente foram e são, muitas coisas que – infelizmente — aprendera com o tempo a conviver.

— Não podemos enfrentar o mundo por eles cara mia – Wednesday entrelaçou seus dedos recebendo um leve carinho da mais alta na região dorsal – Apenas apoia-los e dar suporte. Afinal são Addams, o segundo D no nosso nome é de diferente, isso nos torna especiais. Eles vão saber como lidar com isso.

— Você tem razão! – Enid sorriu aliviada pelas palavras da latina – Tem se saído muito bem nessa de consolar pessoas – Piscou recebendo um revirar de olhos como resposta ao comentário.

Wednesday voltou a se acomodar na cama, ignorando o paralelo da antiga frase que a loira lhe disse quando ainda adolescentes em Nervermore e buscando seu livro de volta para continuar a leitura de onde parou.

— Educamos eles bem, vão saber agir da forma correta – Concluiu Enid antes de deixar a morena voltar a leitura, ela buscou o celular para verificar suas redes sociais.

Wednesday apenas assentiu, não iria dizer a loira, porém ela sabia que seus filhos se dariam bem por outros motivos também, pois os ensinou a quebrarem alguns ossos quando a lupina não estava presente. Se alguma criança lhes desrespeitasse, era bom que antes que fossem chamadas a diretoria um dos gêmeos tenha dado alguma boa lição. Enid nunca concordaria com aquilo.

[...]

De manhã antes mesmo do despertador tocar, Wednesday já tinha sua face sendo esticada por pequenas mãozinhas fortes, ao piscar os olhos com força e abri-los, deparou-se com as íris índigo brilhantes de Lúcifer que lhe sorria animado.

— Eu disse para ele não acordar – A voz infantilizada e monótona de Larissa soou pelo quarto, Wednesday desviou o olhar para a pequena que estava parada na porta do quarto, ainda com o pijama de unicórnios e uma pelúcia do mesmo na mão.

— Ta na hora da escola! – Lúcifer soltou alto o suficiente para incomodar a morena e acordar Enid que sentou-se na cama em um sobressalto – Mãe ta na hora da escola!

Wednesday piscou procurando ver as horas no relógio de cabeceira, eram cinco horas da manhã, ainda tinham duas horas antes de terem que sair de casa. Enid que juntou-se a esposa para observar o horário suspirou cansada, porém com um doce sorriso nos lábios.

— Meu amor, ainda está muito cedo, vocês podem dormir mais uma hora – Explicou.

— Não queremos dormir – Lúcifer inflou as bochechas e cruzou os bracinhos – Quero ir à escola.

Quando viram as mulheres se encararem por alguns longos segundos, os pequenos perceberam que aquilo era uma batalha ganha. Derrotadas levantaram-se da cama, prontas para começarem o dia. Wednesday puxou a esposa para um beijo de bom dia como forma de vingança aos gêmeos, ela sabia que eles tinham o típico nojo infantil de verem os pais trocando caricias. Quando escutou grunhidos de insatisfação das crianças sorriu triunfante, Enid deixou escapar uma risada entre seus lábios quebrando o beijo de leve, ciente de que Wednesday fizera aquilo de proposito para “perturbar” os filhos.

A manhã seguiu-se tranquila, Wednesday preparou algumas panquecas enquanto Enid encarregava-se de dar banho e trocar os pequenos. Minutos depois a latina teve o deslumbre de ver Larissa com suas trancinhas loiras perfeitamente alinhadas, trazia consigo sua mochila maior que seu corpinho, um unicórnio remendado pelas mães de tantas as vezes que Lúcifer ou ela mesma o rasgou durante as brincadeiras — certa vez tinham cortado o corpo da pelúcia ao meio usando a guilhotina de pequeno porte que Mortícia os presenteou – o bichinho parecia mais morto que o próprio Thing com todas as suas costuras.

— Quer ajuda para sentar? – Perguntou ao que viu a filha tentar escalar o enorme banco de madeira, para ficar na altura da ilha de mármore preta onde os pratos estavam dispostos.

— Eu consigo – Respondeu simples.

A latina respeitou, ela não interferia nas ações dos filhos a menos que fossem extremamente necessário, principalmente com Larissa que tentava ao máximo ser independente na maioria das coisas que se propunha a fazer, quando dava-se por vencida ela recorria as mães, o que era raro na verdade, a pequena não gostava de pedir ajuda e menos ainda de desistir de tentar algo sozinha. Com algumas tentativas, por fim ela sentou-se na cadeira, puxando a pelúcia macabra com ela, logo em seguida Lúcifer entrou correndo, o cabelo perfeitamente penteado, a farda da escola amarrotada pela correria, Enid veio logo atrás ajudando o mesmo a sentar-se no banco ao lado da irmã.

— Cuidado para não se sujar Lúcifer – Enid avisou ao ver o filho comer de forma desesperada – Sua comida não vai sair correndo não.

— Parece você quando tava grávida – Wednesday soltou o comentário com um sorriso quase imperceptível nos lábios. Aqueles eram tempos difíceis onde a morena saia para caçar todos os dias, certa vez até chegou a ser presa junto com o irmão e o pai por estarem diminuindo consideravelmente a quantidade de animais da floresta.

— Nem me lembre – Enid sorriu amarelo, ela sentia-se levemente culpada por ter dado trabalho naquela época, mas também o que poderia ter feito
? Ela estava comendo por 4! Sim seu lobo estava incluso.

Ao final do desjejum a família preparou-se para sair, Enid usava uma roupa mais formal, uma camiseta branca por baixo de um blazer rosa, calças pretas e um tamanco alto da mesma cor que seu blazer, estava pronta para o trabalho. A licantropo era jornalista de moda, atuava como analista, repórter e entre outras coisas mais, como fazer entrevistas com grandes designers e estilistas e vez ou outra como consultora na Tv e em outras plataformas digitais, desta vez estava escrevendo uma matéria sobre como montar um guarda roupa “fashion” de acordo com seu estilo próprio, para o blog da empresa em que trabalhava. Wednesday por sua vez, vestia um simples cardigã xadrez preto e branco, calça cargo preta e botas de salto baixo, também pretas. A morena iria passar na editora para dar sua última aprovação no andamento do – finalmente — último volume do seu romance investigativo, logo depois voltaria para casa e pensaria em como se entreter sem as crianças.

Enid abriu a porta para a família passar, Lúcifer foi o primeiro a sair pela porta e quando a irmã foi fazer o mesmo Enid logo a parou notando algo irregular que ela levava. Na sua mãozinha havia uma tarântula. Lembrava-se perfeitamente no dia que voltará cansada do trabalho, apenas queria receber alguns beijos de Wednesday e curtir a noite ao lado da família. Quando adentrou a sala-de-estar naquele dia quase teve um treco ao avistar Larissa brincando de casinha com uma criaturinha peluda de oito patas, seria cômico se não fosse assustador ver sua filha servindo chá falso para uma tarântula gigantesca – Enid nunca virá uma daquele tamanho e até hoje se perguntava de onde veio aquilo, ela tinha suas suspeitas que fora Wednesday que presenteou a filha com o animal, porém a latina sempre negava — enquanto a latina estava mais interessada em demonstrar a Lúcifer como manusear alguns certos tipos de faca. Pelo menos Wednesday seguia a regra imposta pela lupina: Sem brincadeiras com fogo até eles completarem 10 anos.

— Filha você não pode levar o Lion com você.

— Por que não?

A vozinha infantilizada repleta de uma dúvida inocente acertou em cheio o coração de Enid, tão fofa! Mas não iria ceder.

— Os animais de estimação devem ficar em casa – Explicou de forma que ela pudesse compreender perfeitamente – Escola é apenas para humanos.

— Mas o Lúcifer é um animal – Rebateu, puderam ouvir um “hey” indignado do garotinho que esperava no corredor.

— Ele é um lobisomem, como eu – Enid tornou a explicar – E talvez como você, não sabemos quando vai despertar seu lobo interior – “Se é que você tem um”, completou em pensamentos.

— Vai ser mais seguro para o Lion ficar em casa minha tormenta — Wednesday intrometeu-se receosa de que algo pudesse acontecer ao amado bichinho de estimação da filha – Lembra-se do que falei sobre o Nero?

— Sim mama... – Com um olhar tristonho ela estendeu a aranha para que Wednesday a segurasse – Eu volto logo Lion, ninguém vai te machucar.

As mais velhas sentiram um leve aperto no peito. Enid ainda pensava que foi um exagero Wednesday contar sobre como seu pobre escorpião de estimação morrera. Já a latina não viu problemas em revelar, afinal os gêmeos ficaram curiosos sobre a lapide que jazia no cemitério particular dos Addams, e no fim seria uma boa história para os ensinarem a tomarem cuidado com alguns dos normies.

Quando Wednesday estacionou o carro frente a escola, ainda faltavam pouco mais de 30min para os portões da instituição abrirem-se, saíram cedo demais e agora pagavam o preço por ter cedido aos filhos. Lúcifer estava agitado em sua cadeirinha, pedindo para sair e ir logo para sua sala, irritando levemente Wednesday que comparava o filho com o humor da licantropo sentada no banco do passageiro ao seu lado, Enid também sabia ser irritante quando queria algo. Finalmente os portões se abriram à medida que carros apareciam para deixar as crianças para mais um dia de aula, muitas crianças se reencontravam animadas depois das férias, o novo ano letivo se iniciava, as mulheres desceram do carro acompanhando os filhos até a sala, como fazem todos os pais no primeiro dia de aula da criança.

— Yoko! – Enid abanou a mão no alto, sorridente ao avistar ao longe sua amiga vampira, esta usava como de praxe óculos escuros por ser sensível a claridade, Divina estava ao seu lado com um Joui choroso nos braços – Vamos lá! – Animada Enid arrastou Larissa que segurava sua mão, Wednesday foi puxada por Lúcifer que tentava correr empolgado, se a morena o soltasse era capaz dele desaparecer entre a multidão, sem rumo.

— Enid, bom dia – Yoko sorriu sem mostrar os dentes, evitando chamar atenção que suas presas causavam – Só nós estamos tendo problemas com a escola? – Comentou risonha quando notou que os gêmeos não pareciam tristes por ficarem longe das mães pela primeira vez.

— Não me diga que ele ta tristinho? – Enid observou melhor o garotinho de traços asiáticos – Joui ta tudo bem, o Lúcifer e a Larissa vão estar com você – Alisou as costas do menino como forma de consolo.

Wednesday observou a interação a seguir, Yoko e Divina deram alguns beijinhos e fizeram promessas com sorvete ou algo do tipo para convencer o garotinho a entrar na sala. Olhando com atenção notou que muitos pais faziam o mesmo, espalhados pelo corredor as famílias daqueles que teriam o seu primeiro dia de aula da vida tentavam de algum modo encorajar os filhos a ficarem na instituição. Wednesday não conseguiu não achar aquilo tudo uma grande besteira, estariam todos juntos ao final do dia não é mesmo? Choro de criança lhe dava dor de cabeça, os únicos choros que toleraria eram os dos filhos, talvez do seu sobrinho e muito provavelmente o de Joui, já que este sempre chorava por ter perdido algum membro de plástico de seus bonecos durante uma brincadeira ou outra, ela estava já habituada.

— Papais e mamães, é chegada a hora – Uma mulher ruiva apareceu na porta da sala, suas vestes eram longas como se quisesse esconder o corpo, Wednesday viu mais cedo outras pessoas com os mesmos tipos de roupa, talvez fosse uma norma da escola professores vestirem-se assim – Vocês podem me chamar de tia Safira! A tia preparou um monte de brincadeiras para hoje, vamos crianças? – Abriu espaço na porta e apontou para dentro, a sala era repleta de mesas com cadeirinhas distribuídas, tudo muito colorido, o piso coberto de espuma colorida como se fossem peças de um quebra cabeça, as paredes com cores vibrantes com espaços para futuras pinturas que as crianças fariam durante as aulas de arte.

Lúcifer foi o primeiro a entrar, correndo animado para sentar-se na melhor cadeira possível, outras crianças tão animadas quanto entraram logo depois, algumas despedindo-se de qualquer forma e outras nem lembrando mais da existência dos pais. Dos que choravam, alguns partiram tímidos e outros agarraram-se desesperados aumentando o choro. Joui já convencido pelas mães a entrar, se despediu indo sentar-se ao lado de Lúcifer que guardara uma cadeira para ele e Larissa, o pequeno lupino já conversava com duas crianças sentadas na mesa ao lado.

— Bem, acho que nos vemos mais tarde então – Enid ajoelhou-se para ficar na altura da filha, os olhos marejados, a lupina não sabia que iria doer tanto em si ver os filhos crescendo, logo mais estariam na faculdade, depois casados e morando longe de si – Boa aula filha, qualquer coisa liga para mim ou para sua mama ta bom?

— Deu um celular a eles? – Wednesday ficou intrigada, não tinha conhecimento daquilo.

— Dois, um para cada – Explicou recebendo um olhar incrédulo – É um modelo antigo Wed, só para emergências, tem nosso número nos contatos.

Wednesday deu-se por vencida, talvez fosse realmente melhor, odiaria que algo de ruim acontecesse as crianças e ela ou a esposa não pudessem ir em seu auxilio.

Larissa assentiu as palavras da mãe, esperou que a licantropo lhe abraçasse antes de entrar, Wednesday beijou o topo de sua cabeça, sem melosidades, algo breve e rápido, mas que vindo da latina demonstrava o quanto ela se importava. Quando a pequena entrou na sala, acenaram para Lúcifer, despedindo-se, o garotinho acenou de volta antes de voltar sua atenção para uma conversa que tinha com Joui.

— Eles crescem tão rápido – A frase de Enid pegou Wednesday de surpresa, ela trazia na voz um tom choroso, ao fixar os olhos na face da esposa constatou o que já esperava, a loira estava aos prantos – Eu quero meus bebês de volta!

— Cara mia... – Wednesday não soube o que fazer, lhe abraçava? Dizia algo? Concordava? Afinal, ela também sentia essa dorzinha chata no peito, triste, porém feliz de ver o amadurecimento das crianças. Por fim, optou por segurar sua mão com a canhota e com a destra afagar seus cabelos de leve. As pessoas olhavam para elas com estranheza, devolveu o olhar com a mais pura frieza que conseguia, isso fez muitos, se não todos, tremerem de medo saindo rapidamente dali – Vamos voltar para o carro.

Concordando Enid seguiu ao lado da menor, Yoko fez uma piada com a situação delas para descontrair, Divina não estava muito diferente de Enid e muito menos Yoko que lutava para segurar suas lágrimas. Wednesday revirou os olhos.

[...]

Não demorou muito para o que Enid temia acontecesse, naquela manhã, algumas semanas depois do primeiro dia de aula, as Addams receberam um telefonema da diretora avisando que os filhos de 4 anos haviam se envolvido em uma briga com um garoto mais velho de um pouco mais de 7 anos.

Chegaram quase que igual, Enid estava em uma reunião no escritório e Wednesday em casa polindo suas armas. A secretária pediu para que a família entrasse, pois logo a diretora estaria chegando. Quando adentrou a sala da diretora a primeira coisa que Enid fez foi procurar os filhos, estes estavam sentados lado a lado, pareciam levemente machucados, o fardamento de Lúcifer rasgado e o de Larissa sujo com... O que era aquilo? Sangue?!

— Não é meu – Justificou a garotinha ao perceber o olhar de espanto da sua mãe.

Enid suspirou aliviada.

— Só podia ser... – Uma voz carregada de raiva e decepção proferiu em desgosto, Enid sentiu o mundo parar quando seus ouvidos captaram aquilo, jamais pensou que ouviria essa voz de novo.

Seu corpo enrijeceu ao sentir o cheiro familiar dos seus pais tomarem conta da sala, se amaldiçoando por não ter notado antes a presença dos familiares. Wednesday prontamente tomou uma posição de defesa, ficando na frente da sua família. A latina estava ciente de que Enid deveria estar neste momento, sentindo um milhão de emoções negativas só de reencontrar a megera da sua mãe, Wednesday não deixaria que aquela situação piorasse, sempre fora fã do sadismo, mas naquele momento pensou que não poderia ter azar pior em sua vida. Jorge e Vivian Sinclair, seus sogros, estavam parados bem em sua frente, não pareciam ter envelhecido nada desde a ultima vez, talvez por conta do sangue de lobisomem?

Enid virou-se lentamente, apenas para constatar que realmente eram eles. Sentiu o ar lhe abandonar os pulmões, procurou por oxigênio respirando profundamente no segundo seguinte, não pareceu surtir efeito. A sala pouco a pouco pareceu rodar, fechou os olhos rapidamente com força, seus ouvidos capitaram um leve zumbir e as batidas do seu coração que estavam tão altas que, chegavam a lhe incomodar profundamente. Foi então que, em meio ao início de seu ataque de pânico, uma voz infantil carregada de preocupação a fez abrir os olhos.

— Mamãe? – Lúcifer encostou a mão na palma da loira que tremia, trazendo-a de volta a realidade – Ta tudo bem?

— Sim filho, eu tô bem – Tentou um sorriso que teve certeza que fora o mais estanho que já dera, já que as crianças se entreolharam preocupadas e nem um pouco convencidas de que Enid estava de fato bem, Wednesday vendo tudo aquilo direcionou seus olhos para a senhora a sua frente, lhe fuzilando com ódio.

— Então quer dizer que você procriou? – A Sinclair começou com um sorriso de desdém, ignorava completamente a latina que lhe encarava ameaçadoramente, Vivian estava se divertindo com as reações da filha – Me diga Enid seus filhos são tão inúteis quanto você?

— Não abra a boca para falar dos meus filhos Vivian! – Wednesday rosnou, a voz carregada da mais pura ira, o olhar assassino.

— É mesmo, tinha esquecido da sua existência Addams – Seu semblante tornou-se algo parecido com tédio ao direcionar o olhar para a menor – Não se importe com a minha pergunta, se essas crianças são realmente de vocês, definitivamente são uma grande decepção.

Os gêmeos que antes estavam confusos com a interação entre os adultos pareciam agora com raiva das palavras ditas pela senhora rabugenta. Mesmo sem realmente entenderem toda aquela tensão que se formava na sala, os pequenos se prepararam para defender a família, um Addams nunca deixa outro para trás! Lúcifer chegou a mostrar as presas rosnando para a avó. Um lobisomem? Os olhos de Vivian brilharam surpresa, nunca nem um dos seus cinco filhos tinham despertado o lobo antes dos 10 anos, como sua filha inútil havia conseguido aquele feito com seu neto?

— Vovó, o que ta acontecendo? – Pela primeira vez o garotinho que havia brigado com os irmãos Addams se pronunciou, chamando a atenção dos demais. Ele parecia não ter mais que oito anos, seus cabelos castanhos e encaracolados, olhos azuis e pele branca. Lembrava bastante a um dos trigêmeos multivitelinos.

— Preste atenção Carl, nossa matilha não se mistura com renegados – A senhora apontou para Enid e Lúcifer – Ela é uma renegada e ele filho dela, é um excluído. Você tem permissão para atacar ou matar um dos dois, caso desejar.

Aquilo foi o que Enid precisou para finalmente parar de tremer e agir. Seu lobo respondeu de imediato, mexam com tudo, menos com meus filhotes! Era isso que seu lobo gritava raivoso. Finalmente vencendo a paralisia momentânea que foi reencontrar a mãe e ser levada a lembranças ruins que passou ao lado da família Sinclair, Enid deixou as garras crescerem e as presas saltarem tomando posição de luta, pronta para defender a sua família, sua nova matilha: os Addams.

— Pare com esse teatrinho Enid, nós duas sabemos que você não é capaz de sequer encostar um dedo em mim. Você desonra o sobrenome Sinclair!

— Então ainda bem que sou uma Addams – Respondeu firme, não cairia nas provocações de Vivian.

Wednesday sentiu orgulho pelas palavras proferidas por Enid, o olhar de espanto de Vivian era hilário aos olhos da latina, Enid nunca havia respondido a progenitora com tanta firmeza e raiva na vida, os anos de terapia haviam ajudado e muito a lupina e todo o apoio que recebera dos Addams nesses anos foi imprescindível para se aceitar por inteira e nunca deixar com que os outros lhe dissessem ao contrário, nunca mais a colocariam para baixo na vida. Wednesday poderia beija-la naquele momento, mas ainda precisava prestar atenção nos movimentos da sogra.

O ambiente que já parecia tenso ficou ainda pior, o clima poderia ser palpável. As duas famílias estavam prontas para um embate assim como antes ocorrerá no passado, quando ainda estudavam em Nevermore. Jorge tinha um olhar aflito, preocupado em machucar a filha ou até mesmo os netos que acabara de conhecer, ele estava tão feliz por ter lhe reencontrado, pensou que nunca mais teria oportunidade de vê-la pessoalmente, tudo que o homem tinha era apenas a tela do seu celular por onde assistia os vídeos postados nas redes sociais de Enid.

— Desculpem a demora, tive que resolver uns assuntos – A diretora adentrou à sala sem nem ao menos os observar, estava ocupada demais terminando de digitar algo no celular, quando sustentou o olhar para as famílias apenas notou as trocas de olhares mortais já que as garras e facas haviam sido escondidas quando notaram sua presença passando pela porta – Está tudo bem por aqui? – Passeou o olhar de um a outro notando o clima desagradável.

— Vá logo ao assunto – Wednesday disse em alto e bom som, sem desviar o olhar de Vivian, sua voz ainda carregada de muita raiva, a diretora sentiu um frio na espinha.

— Neste caso... – Pigarreou antes de repousar-se em sua cadeira, estava extremamente nervosa, algo na presença da primogênita dos Addams a deixava com uma sensação de perigo eminente, uma fala errada e tinha o pressentimento que perderia sua vida — Por favor, sentem-se – Estendeu a palma da mão em direção das cadeiras distribuídas frente a mesa de escritório, a única que fez o que pediu foi a senhora Sinclair.

— Esta mulher é realmente uma grosseira – Vivian começou apontando com a cabeça para a latina – Aposto que os filhos aprenderam com ela.

— Mas é muito cara de pau mesmo! – Enid exclamou irritada – Wednesday é muito mais educada do que você foi em toda a sua vida!

— Está vendo diretora? Como é a companheira dela? – Vivian tornou a falar, com a voz mansa tentando conquistar a mulher à frente – Definitivamente meu neto não é o culpado desta história.

— Mentira! ele nos chamou de aberração! – Lúcifer interveio nervoso, tentando se defender – Disse que meu nome era horrível!

— Lúcifer é nome de demônio – Carl mostrou a língua para o garoto. Enid rapidamente segurou ambos os filhos que quase pularam em cima do garoto, eles odiavam serem provocados e como um Addams o troco era muito pior, ênfase no muito.

— Veja como eles são selvagens – Vivian puxou o neto para um abraço como se o protegesse – Precisam ser expulsos, imediatamente.

— Minha senhora, eu não acho que esta seja a melhor solução... – A diretora ponderou, ela já havia passado por muitas situações semelhantes, crianças estavam sempre brigando por futilidades, pior definitivamente eram os pais com suas briguinhas para verem quem era o real culpado. E aquelas duas famílias na sua frente, pareciam ter alguma rixa e anos, pois os olhares que davam uns para os outros eram de uma ameaça silenciosa de morte – Acredito que existam outros modos, como por exem-

— Eu exijo! Expulsem eles agora, ou nossa família não coloca mais o pé nesta instituição.

— Então já vão tarde – Wednesday debochou sorrindo ladino logo em seguida ao receber um olhar assassino da sogra.

— Mamãe, nós podemos dar um jeito nisso, só pre-

— Não me chame mais assim! – Vivian explodiu cortando a fala de Enid, levantando-se da cadeira e soltando Carl do abraço, ela estufou o peito ameaçadoramente, a diretora assustou-se – Você abandonou nossa família pra ficar com essa... Aberração! – Apontou para Wednesday de cima a baixo.

— Obrigada pelo elogio – Wednesday respondeu recebendo um revirar de olhos irritado de volta.

A forma que Wednesday agiu diante as provocações de Vivian não passou despercebida pelos gêmeos. A mente dos dois pareceu finalmente clarear. Estavam desde que se entendem por gente, rodeados pelos Addams e seus amigos, nunca tiveram que lidar com provocações maldosas de outras pessoas, agiram como normalmente faziam entre si durante suas brigas de irmãos – trocarem socos. Nem um Addams fica para trás, é o que o avô sempre diz, um por todos e todos por um, Gomez explicava, sempre devem se apoiar e proteger uns aos outros. Eram novos, tinham apenas quatro anos, porém espertos o suficiente para entender que esse – a forma que Wednesday agiu — era o jeito Addams de lidar com uma situação, afinal só precisariam pensar mais um pouquinho e notariam que não havia nada de errado em ser diferente. Era a melhor coisa do mundo, eles amavam o estranho, era aquilo que os tornavam especiais. Deixaram-se levar apenas pelos colegas que ao ouvirem Carl falar palavras feias os instigaram a fazer algo, pois na realidade nem se incomodaram de fato, recebiam esses tipos de “elogios” sempre vindos dos parentes.

— Agora eu entendo – A diretora piscou surpresa – Então vocês são parentes? Brigas familiares, senhores responsáveis, devem ser resolvidas fora do âmbito escolar.

— Nós não temos nada com essas aberrações! – Vivian voltou a reclamar – Estamos apenas aqui para resolver o problema do nosso neto! Eles são os culpados, machucaram meu menino!

— Minha senhora, acalme-se por favor – A diretora levantou uma sobrancelha — Eu não tenho certeza se eles são os culpados, já que é a senhora que está usando a palavra ‘aberração’ aqui – Vivian ficou um pouco rígida notando seu deslise, trincou os dentes com raiva, malditos Addams, sairiam impunes mais uma vez depois de mexerem com o que é seu!

— Na verdade... – Larissa se pronunciou após muito tempo calada, apenas observando as interações – Nós devemos desculpas.

Enid relaxou o corpo, soltando o aperto nos ombros das crianças, notando que não havia mais perigo deles atacarem o sobrinho – que ela nem sabia que tinha. Wednesday permaneceu calada, sua expressão monótona voltando aos poucos após a mudança repentina de postura dos filhos, ela sabia que eram espertos e entenderiam logo o jeito certo de agir – bem, quebrar alguns ossos ainda estava dentro dos padrões de Wednesday.

— Não deveríamos ter puxado seu cabelo – Lúcifer começou.

— Nem mordido seu braço – Larissa continuou.

— Ou arranhado a sua cara – Completou o pequeno lupino.

— Ta tudo bem, já entendemos! – Enid interveio nervosa de que as desculpas das crianças acabassem piorando a situação.

— Tudo bem... – Carl pareceu desconfortável e levemente envergonhado – Eu também não deveria ter chamado vocês de aberração...

— Bem, parece que tudo está resolvido – A diretora bateu palmas aliviada.

— Resolvido nada! – Vivian tornou a reclamar fazendo a carranca de Wednesday voltar quase que imediatamente – Eles machucaram meu neto! Precisam ser presos!

— Ele também machucou meus filhos – Enid murmurou, já cansada de toda aquela situação, ainda estava desconfortável com a presença da mãe, apenas queria ir embora o mais rápido possível e chorar em algum canto isolada – E acredite, eles adorariam passar a noite em uma cela...

— O tio Pugsley tem uma dessas na mansão – Lúcifer contou animado com as lembranças onde ele, Pubert e Larissa passaram algumas noites tentando escapar do lugar.

— Essa cela onde a gente vai ser preso, também dão choque? – Larissa questionou para Wednesday.

— Não minha tormenta, vocês não serão presos – Respondeu recebendo expressões tristes à sua resposta – Pelo menos não hoje – Completou, as crianças voltaram a se animar.

— Minha senhora eles são apenas crianças! – A diretora repreendeu Vivian – Seu neto já aceitou as desculpas e ofereceu as dele, deveria aprender mais com ele – Vivian fechou a expressão, definitivamente a diretora cairá na sua lista negra – Mas obviamente precisam aprender com os erros, os três devem trabalhar juntos em um cartaz sobre amizade que será colado no pátio da escola, se estiverem de acordo.

— Tudo bem – As crianças deram de ombros, as Addams não viram problema, Jorge assentiu e Vivian consentiu depois de muito reclamar por uma punição mais severa para os gêmeos.

Quando finalmente saíram da escola e acomodaram-se no carro foi que Enid pode respirar aliviada. Vivian nem olhou para ela quando foi embora, ao menos pode dar um abraço em seu pai e escuta-lo dizer que estava orgulhoso da mulher que ela se tornará. A lupina ainda precisava esperar mais um pouco, só mais um pouco e desabaria sem preocupar os filhos. Wednesday dirigiu incomodada com o silêncio, geralmente Enid falava demais durante os trajetos e Lúcifer animado com a conversa da mãe tagarelava de volta, as vezes brincavam de coisas como “eu vejo com meus olhinhos” onde ela e Larissa preferiam absterem-se da brincadeira dos lobisomens. Quando chegaram na residência, Enid seguiu direto para o quarto, restando a Wednesday apenas banhar e trocar os gêmeos visto que estavam sujos da pequena briga e por isso tinham sido liberados das aulas.

— Mama, por que a mamãe ta estranha? – Perguntou Lúcifer, ele assim como a irmã já havia tomado banho e estava devidamente vestido — Quem eram aquelas pessoas?

— Mamãe chamou aquela mulher de mãe – Larissa pontuou curiosa também.

— Aquelas pessoas são seus avós – Explicaria de forma rasa, não sabia se Enid gostaria de contar esse lado da história para os filhos no momento, quando se sentisse pronta ela o faria, porém Wednesday sabia que eles mereciam algumas respostas, até mesmo porquê nunca a deixaria em paz se não o fizesse – A mãe de vocês é uma exilada, ela foi expulsa da alcateia muitos anos antes de vocês nascerem.

— Por que ela foi expulsa? – Lúcifer parecia realmente curioso, ele gostaria de entender o porquê daquela senhora falar que ele era um excluído e poderia ser morto caso queiram.

— Sua mãe escolheu ficar comigo ao invés deles. Isso trouxe consequências, infelizmente isso a proíbe de se aproximar de forma livre de outros lobisomens, eles não a veem como parte do grupo e caso se sintam ameaçados podem até tentar matá-la – Wednesday suspirou frustrada – E para você meu anjo caído significa o mesmo, por ser filho de uma exilada você se torna um excluído, alguém sem matilha.

— Isso é tudo uma grande besteira mama – Larissa torceu o nariz em desgosto – Claro que o Lúcifer e a mamãe te uma matilha, nós somos ela.

Wednesday sorriu minimamente com a resposta, os abraçou, orgulhosa deixou um beijo no topo da cabeça de ambos e partiu deixando com que brincassem no quarto com o kit de tortura.

Quando Wednesday entrou no quarto encontrou a esposa na cama em posição fetal, chorando compulsivamente, aproximou-se com passos rápidos e precisos em direção da cama, já esperava que ela estivesse neste estado. Prontamente lhe acolheu em seus braços, sentindo o corpo de Enid relaxar ao sentir seu toque e assim permaneceram por longos minutos até que a maior se acalmasse.

Notas finais
Provavelmente semema que vem terá o capitulo 6 e teremos um pequeno hiatos até o fim do carnaval (ainda não é certo, talvez eu dê essa pausa depois de postar no dia 12 de fevereiro. De qualquer forma, a história ainda terá mais capítulos a serem postados depois do hiatos).