Família Addams WENCLAIR

6 O desafio da mudança


Notas iniciais
Olá! Mais um capitulo fresquinho para vocês. Sobre o que comentei no capitulo anterior eu finalmente me decidi. Este vai ser o ultimo capitulo que dará inicio ao hiatos. Voltarei dia 12 de março com o capitulo 07 (Mas Rae este capitulo será grande? - Não! Quer dizer, não tenho certeza, vou escrevê-lo e descobrir quantas páginas dão, dependendo do resultado eu posso até mesmo postar o capitulo 08 no dia seguinte para recompensar vocês __ Lembrando que ainda não é certeza, não levem nada do que digo como uma profecia ou algo do tipo, tudo pode mudar e eu só postar o capitulo 07 apenas e na semana seguinte o 08). Obrigada por ler as notas inicias e tenha uma ótima leitura! ~ Nos vemos dia 12/03/23 e nos comentários!

Com o passar do tempo o apartamento ficou pequeno demais para a família, os gêmeos com 8 anos, já não queriam mais dividir o quarto. Wednesday até se disponibilizou em retirar suas armas do quarto-de-tortura para que um dos dois se mudasse para lá, os três membros Addams acharam uma péssima ideia. Enid, por não saber onde colocariam tantas armas mortíferas e os irmãos, por quererem um quarto com as ferramentas de tortura como enfeite, muito embora usariam os instrumentos de tortura vez ou outra em suas brincadeiras. Sem escapatória, as mulheres começaram a procurar novas casas, de preferência uma que tivesse uma floresta no quintal para as mães ensinarem os filhos a caçarem – o Pântano da Mansão Addams já havia sido explorado de canto a canto, novos ares poderiam ser úteis para o aprimoramento de sobrevivência e defesa dos pequenos.

Novamente, mais um dos diversos convites que sempre recebiam ano após ano fora feito. Mortícia e Gomez convidaram a primogênita e sua família a morarem com eles na mansão, desta vez a recusa não fora por conta de concentração na escrita ou por conta do cheiro a qual o lobo de Enid já estava familiarizado, mas sim porque gostavam de terem o próprio espaço e de educarem os filhos aos seus modos. Os Addams eram ótimos avós, não pense ao contrário, afinal foram eles que criaram Wednesday, que diga-se de passagem era uma mulher incrível. O fato era apenas que elas tinham uma leve impressão de que os gêmeos voltavam agitados demais dos finais de semana que passavam na mansão brincando com Pubert e seus outros irmãos – Pugsley levou a sério a “corrida de bebês”, com três filhos ele já considerava a “competição” ganha – Não sabiam dizer se era toda a adrenalina de fugirem de armadilhas espalhadas pela residência ou se era a emoção de torturar uns aos outros, mas os gêmeos sempre voltavam muito agitados, sendo quase impossível de para-los. Um grande ponto negativo para as mães era que os irmãos não se concentravam direito nos estudos no dia seguinte à volta da casa dos avós, muito embora recuperassem o ritmo com o passar dos dias, Enid e Wednesday presavam muito por uma boa educação. Wednesday apreciava que os filhos gostassem de brincadeiras que ela mesma achava divertido na infância, porém já não tinha tanto apreço em participar de algo do tipo, a idade fizera com que ela amadurecesse e deixasse que as crianças se divertissem sozinhas, descobrindo novas maneiras de enterrar um corpo e tudo o mais, igual seus pais, que apenas observavam ela e seu irmão mais novo brincarem de forca — literalmente. Pugsley também sentia aos poucos que não era mais tão divertido quanto antigamente passar horas e horas coletando veneno de uma das plantas tóxicas da mãe, para poder pregar uma peça na irmã mais velha, hoje em dia os dois apenas compartilhavam da boa e velha emoção das competições Addams, pois como dito outras vezes, para um Addams, tudo sempre é uma competição.

Enid por outro lado, não apreciava muito as brincadeiras que os filhos participavam, sempre ficava com o coração na mão, preocupada se eventualmente acabariam matando um ao outro de verdade, embora que, nada muito grave tenha acontecido em todos esses anos, esperava que continuasse assim. Para a lupina era reconfortante que os pequenos tivessem com quem brincar, mesmo que fossem brincadeiras extremamente perigosas, algo diferente dela que por muito tempo foi isolada da alcateia por não ter se transformado ainda. Não que no começo tivesse sido sempre assim, Enid lembrava perfeitamente bem que havia sido muito amada no passado por todos até os seus 13 anos, que é o período máximo que se espera para um lobisomem finalmente transformar-se, depois que perceberam que a transformação não ocorreria com ela, todos começaram a afastarem-se e sua mãe, que já era bem rígida, tornara-se mil vezes pior.

Sobre a busca pela casa nova, levou um tempo e muita paciência, principalmente paciência vindo de Enid lidava com as perguntas inconvenientes de Wednesday para com a corretora – A lupina quase esquecerá como também havia sido complicado comprarem o apartamento no passado. Toda vez que visitavam uma casa a latina sempre vinha com suas perguntas mórbidas, como por exemplo: “quantos corpos poderiam ser queimados neste forno?”. As visitas aos imóveis geralmente terminavam com um pedido de desculpas da corretora para com os donos da residência, que nunca aceitavam as ofertas de valores por acharem que a casa seria usada por algum tipo de psicopata – eles não estavam muito errados, dado os gostos peculiares da família. No fim Enid repreendia Wednesday por terem perdido mais uma boa casa e a latina dava de ombros, afinal Enid quando apaixonou-se por si já sabia que teria que conviver com esses tipos de situações, é de sua natureza, não tem como muda-la, tal qual Wednesday não pode mudar o fato de Enid se sacudir como um cachorro toda vez que sai do banho – detalhe, Lúcifer faz o mesmo. Foi só na décima-quarta visita que finalmente conseguiram fechar contrato, os donos do lugar pareciam desesperados para saírem do imóvel e obviamente não quiseram dizer o motivo, tentaram disfarçar, como se tudo estivesse bem, mas não passou nada despercebido pelo casal, responderam todas as perguntas que a morena fizera sem se incomodarem, Enid achou estranho, porém não reclamou, finalmente poderiam se mudar.

A casa era enorme, com um primeiro andar e um porão. No térreo ficavam a sala-de-estar, sala-de-jantar, cozinha, lavabo, garagem e lavanderia. Em cima ficavam os quartos e banheiros, seis quartos ao total, três suítes e um banheiro no corredor. Por fim, havia o porão, um lugar de certa forma espaçoso onde Wednesday poderia deixar sua guilhotina e tudo o mais como suas lembranças do antigo quarto-de-tortura. A mudança fora trabalhosa, passaram dias dormindo tarde para empacotar tudo o que pudessem e que levariam para a nova casa, Larissa e Lúcifer animaram-se com a oportunidade de finalmente puderem ter seus próprios quartos, decorados da forma que queriam. Os quartos com suítes, ficaram com os membros da família, claro. Dos que sobrara, o quarto mais espaçoso transformou-se no escritório de Wednesday onde ela poderia trabalhar agora nos seus contos de terror infantil.

Aparentemente ter filhos lhe deu certas oportunidades que nunca havia imaginado, como por exemplo, contar histórias assustadoras durante a noite para fazê-los dormir, com lições de moral subliminares ao final de cada conto macabro. Diferente da latina, Enid optava por contar histórias de príncipes, princesas e amor eterno, Lúcifer parecia ser o que mais apreciava e Larissa parecia estar com tédio da história, porém nunca desviava a atenção dos enredos contados pela mãe lupina. Para Wednesday o que antes era apenas algo para entreter os gêmeos, durante as horas livres que a morena passou a ter depois de concluir a história de Víbora permanentemente, com o tempo tornara-se em algumas ideias escritas em um caderno, e depois de concluir um pequeno conto escrito a mão, por sugestão de Enid resolverá desenvolve-lo melhor e levar a alguma editora que estivesse disposta a publicar algo de terror pro gênero infantil. Definitivamente Wednesday não esperava o tamanho sucesso que surtiu nas crianças e nos próprios pais delas. O mundo estava carente de novas histórias que fugiam do clichê que as mídias e grandes empresas vendiam por pura preguiça e medo de arriscar perder dinheiro em coisas inovadoras – tudo é um risco afinal. O sucesso da latina fora inevitável.

Por fim os demais quartos que sobrará fora deixado para eventuais visitas de amigos ou de familiares. Os gêmeos dormiam em quartos vizinhos, as janelas de ambos davam para parte da floresta e parte da estrada por onde passavam poucos carros, visto que moravam em um lugar deveras afastado do centro da cidade. Lúcifer organizou seu quarto do jeitinho que queria, com posters de filmes de terror, uma pequena estante com livros de contos “românticos” – os famosos “e viveram feliz para sempre” — e muitos outros de colorir, um baú onde guardava tintas, pinceis, quadros e tudo o mais que poderia usar para expressar-se. Uma escrivaninha e um notebook que utilizava apenas para se entreter com jogos de terror. Na sua cama em cima das cobertas de tonalidades coloridas, havia seu amado Huggy Wuggy, Lúcifer não conseguia dormir bem sem a medonha pelúcia de olhar penetrante – como se olhassem no fundo de sua alma – com dentes afiados e serrilhados. Alguns outros bonecos e carrinhos compunham o cenário perfeito para o pequeno lobisomem amante do terror e romance, estava tudo incrível, com um sorriso ele sentou-se para pintar um aviso que mais tarde colaria na porta, “Só o estalar de dedos secreto dos Addams para a porta ser aberta”, ou algo deste tipo.

Larissa por sua vez decorou seu quarto com todas as coleções de pelúcias de unicórnios que tinha, as tonalidades dos moveis diferente do irmão, eram todas escuras, um exímio contraste com tanta purpurina que os seres místicos de pelúcia possuíam. Nas paredes fotos de mulheres que lhe inspiravam, entre elas um poster da Víbora e sua parceira Loba – par romântico da Víbora nos livros que Wednesday escrevera, obviamente retratando a si e sua esposa – Livros sobre teorias da conspiração, assassinatos sem explicações, extinção de certas espécies como o pé grande ou os próprios unicórnios, entre tantos outros do tipo, era o que compunha a prateleira da loirinha. Os irmãos tinham um grande apreço pelo diferente, Larissa era mais para o mistério enquanto Lúcifer era para o terror. Na sua escrivaninha havia espaço suficiente para prática de dissecação – atividade que adorava fazer para passar o tempo – e alguns itens como um sapo morto que já lhe esperava ao lado do seu kit cirúrgico. !uando organizou tudo não demorou para ir até o pobre animal morto e abrir sua barriga com uma das facas cirúrgica. Lion, sua tarântula de estimação, desceu da cama de edredons pretos foi passear pela casa, para conhecer seu novo habitat.

Na primeira noite que passaram na nova casa as mulheres entenderam o motivo dos antigos inquilinos parecerem tão desesperados para saírem do lugar. Enquanto ainda desempacotavam algumas coisas na sala, Lúcifer apontou curioso para a enorme janela panorâmica que tinha atrás deles, dando visibilidade para a esplendorosa floresta que se estendia para além da visão, no meio do breu que as gigantes árvores produziam haviam algumas cabeças flutuantes, brilhando com olhos negros e vazios, parecendo que vigiavam a família.

— O que são aquilo mama? – Perguntou curioso, Wednesday virou a face assim como Enid e Larissa para observarem os seres assustadores.

— São Espíritos da floresta – Wednesday respondeu prontamente, os olhos fixos nas criaturas, simplesmente fascinada – Também chamados de Youkai.

— Acho que eu já li sobre eles mama – Larissa entrou na conversa, também fascinada com os olhares “vazios” dos espíritos brilhantes – Youkai são criaturas sobrenaturais das florestas.

— Esse nome não é japonês? – Lúcifer olhou para sua mama, curioso. Wednesday logo assentiu positivamente com a cabeça – O que eles fazem aqui se deveriam estar no oriente?

— Eles não ficam presos a um único lugar, estão sempre visitando florestas ancestrais – Respondeu a latina, havia lido vez ou outra sobre o assunto na biblioteca de Nevermore, enquanto buscava pistas sobre o Hyde.

— Eu nunca vi um de perto – Enid comentou tão incrivelmente fascinada quanto o restante da família – Meu pai os chamavam de Kodama, dizia que compartilhavam da sua sabedoria com aqueles que conseguem se comunicar com eles.

— Eu quero falar com eles! – Lúcifer sorriu, animado levantou-se do carpete e largando o porta-retratos que desembrulhava da caixa para colocar na estante que ainda se encontrava vazia.

— Calma aí apressadinho – Enid o segurou pela camisa ao mesmo que ele já começava a caminhar em direção da porta dos fundos – Não sabemos se estes são pacíficos.

— Sua mãe tem razão. Esperemos até a lua cheia – Wednesday observou os filhos trocarem olhares e sorrisos animados, nas noites de lua cheia eles sempre saiam juntos para Enid e Lúcifer correrem e caçarem enquanto Wednesday ensinava Larissa a caçar cobras — como o pai fizera no passado com ela — ou apenas ensinava a pequena a sobreviver na mata.

[...]

Naquela mesma noite, durante a madrugada, Enid acordou ao ouvir um choro que assemelhava-se com o de um cachorrinho, quando abriu os olhos deparou-se com Lúcifer, encolhido ao seu lado abraçado com a medonha pelúcia do brinquedo assassino do jogo de terror favorito.

— Oh meu amor – Bocejou antes de continuar — o que aconteceu?

— Eu... Tive um pesadelo – Murmurou baixinho, parecia envergonhado, suas mãozinhas mexiam na pelúcia de forma nervosa.

Enid estranhou, mas não perguntou. Nunca nem um dos gêmeos havia tido problemas com sonhos bons ou ruins, pelo contrário, assim como Wed eles pareciam até que gostar das noites que tinham pesadelos. Parando para pensar, a ultima vez que havia sido acordada por um dos filhos durante a madrugada fora quando eles ainda eram muito novos, dois anos, três anos talvez? O tempo voa.

— Deite aqui – Espalmou o meio do colchão, entre ela e Wednesday. Na realidade não havia muito espaço, pois a morena estava com os braços presos a cintura da loira – Pode empurrar sua mama – Completou ao ver a confusão do filho ao pouco espaço existente.

Sem demoras Lúcifer subiu no colchão e engatinhou até o meio das mulheres, empurrando de leve Wednesday que acordou meio confusa ao sentir um corpo a mais se encaixando ao seu. Quando a latina percebeu que era o filho o seu olhar foi para Enid que começava a passear os dedos entre os fios negros do menor, que já fechará os olhinhos.

— Disse que teve um pesadelo – Sussurrou em resposta ao olhar questionador da esposa.

— Pesadelo? – Wednesday pareceu tão confusa quanto a lupina ao escutar o filho mais cedo.

— Na verdade... – Lúcifer chamou a atenção das mulheres, os olhos azuis brilhando na escuridão do quarto assim como os de Enid, visão noturna, obviamente – Eu... Não consigo dormir sem a Larissa... – Admitiu por fim, o rosto ruborizado em vergonha, afinal, ele mesmo fora quem pediu para cada um ter o próprio quarto para começo de conversa.

“Ah! Então era isso!” – Era o que a expressão nas faces das mais velhas diziam, Enid achou fofo, porém assim como Wednesday, ela não disse uma palavra sequer sobre o assunto, apenas o acolheu em seus braços.

— Mamãe, o seu cheiro ta diferente – Sussurou entre o sono. A licantropo trocou olhares com a esposa, ambas confusas, talvez ele só estivesse muito cansado, neste caso, deram de ombros a informação.

Sem mais comentários, Lúcifer se aconchegou entre as mães. Wednesday passou os braços por volta de Enid a puxando para mais próximo e consequentemente trazendo o garoto junto, Enid deixou um beijo na ponta do nariz do filho antes de fechar os olhos e cair no mundo dos sonhos.

[...]

Dias depois, durante a lua cheia, a família saiu para a tão esperada noite em família – que diferiam muito das noites que as famílias habituais passavam, claro, afinal são Addams – seguindo rumo à floresta atrás da casa. Os espíritos da floresta observavam com atenção cada movimento e intenção da família, julgando se seus atos eram corretos ou não, porém não aproximaram-se, pairaram distantes no ar, próximo a copa das árvores. As mais velhas olharam para cima, sentindo que estavam sendo observadas encontrando com os seres translúcidos de olhar penetrante – como se o abismo lhe encarasse de volta — por tanto que os Youkai não lhes fizessem nem um mau, elas não se importariam ou se incomodariam com a presença deles.

Andaram por longos minutos, sendo seguidas pelas crianças que competiam para ver quem acertava mais sobre quais frutinhas da floresta eram venenosas ou não, comemorando quando Enid ou Wednesday respondia se a planta mencionada era de fato imprópria para consumo. Quando Wednesday julgou estar em um bom lugar para passar à noite eles pararam a caminhada. Enid removeu as roupas junto ao filho que estava animado demais para poder correr naquele novo ambiente, entregando as peças perfeitamente dobradas a latina, Enid afastou-se alguns metros com Lúcifer para transformarem-se sob o olhar de mãe e filha. No início, nas primeiras transformações, tudo era um processo extremamente doloroso, porém com o tempo fora acostumando-se e atualmente nem sentia mais aquele incomodo, exceto por Lúcifer que até agora tivera um total de 7 transformações completas, o pequeno ainda uivava de dor durante a transição, quando os ossos descolavam da carne sendo substituídos pelo lobo.

Quando sentiu seu corpo modificar-se por completo, Enid fincou suas garras na terra. Conectando-se com a floresta respirou profundamente, o cheiro das plantas e terra molhada invadiram seu canal respiratório, sentiu nos pelos loiros a brisa gelada da noite, seus ouvidos mexeram-se captando todo e qualquer som da floresta, quando por fim abriu os olhos azulados observou atentamente com sua visão noturna o ambiente, notando uma presa ao longe, tentando disfarçar sua presença. O pobre javali estava imóvel ao lado de uma árvore tentando camuflar-se, em vão. Enid ignorou o animal, mais tarde iria atrás dele junto ao filho para caça-lo, por hora aproveitaria aquela noite para explorar mais um pouco a floresta.

O grande lobo encarou o filhote de pelos negros, se não fossem pelas íris índigo ele se perderia na escuridão da noite. Lúcifer em sua forma de lobo, abanava o rabo animado, esperando pacientemente a ordem de sua mãe, sabia que não deveria avançar sem ela em local desconhecido, poderia haver animais maiores do que ele – que por ser filhote não chegava nem perto do enorme tamanho que era a mãe – poderia haver outros lobos, poderia até mesmo haver armadilhas de caçadores, locais perigosos, enfim, o que não faltavam eram opções más. Como de praxe, Enid guiou o filho para se despedirem de Wednesday e Larissa. A latinha afagou os pelos de mãe e filho recebendo lambidas em resposta ao carinho, ela odiava baba de cachorro, tinha certeza que faziam apenas para lhe provocar, os dois tinham personalidades parecidas afinal. Larissa também teve sua cota de lambidas as recebendo com uma expressão de incomodo, limpando a face logo em seguida, como Wednesday fizera. Quando por fim Enid achou que já estava na hora, eles correram pela floresta adentro, não sem antes Lúcifer bater o rabo de propósito algumas vezes no rosto da irmã que praguejou algumas ameaças. Ao longe podia-se ouvir os uivos para a lua cheia. Esta seria uma trilha sonoro constante ao longo do período noturno.

— Vamos terminar de montar a barraca – Wednesday anunciou a filha que prontamente voltou sua atenção a grande barraca de acampamento, grande suficiente para a família toda caber ali, coisa que fariam por volta das três da manhã, quando Lúcifer já não aguentava mais ficar acordado e Enid o trazia para dormir com a mãe, a loira ainda ficava mais algum tempo fora antes de chegar pouco antes do amanhecer, se aconchegava nos braços de Wednesday e dormia até perto da hora do almoço.

— Mama... – Larissa murmurou baixinho, Wednesday observou de canto de olho a pequena, ela parecia pensativa – A senhora acha... Acha que...

Wednesday esperou pacientemente, a loirinha não parecia muito confortável, a expressão dela era tão monótona quanto a sua própria, como se ambas estivessem indiferentes diante qualquer coisa, mas os olhos negros, aqueles olhos tão escuros quanto a noite mais sombria, denunciavam muito bem o real sentimento. Os olhos são as janelas da alma e quem sabia deste fato conseguiria entender muito bem mãe e filha. Houve um tempo de silêncio, suficiente para organizarem o acampamento e saírem para caçarem cobras, Larissa não tornou a tocar no que quer que seja que ela falaria, aquilo parecia lhe incomodar. A mais velha notou que a garotinha estava diferente a alguns dias, mais pensativa do que o comum.

— Esta você tem que olhar nos olhos – Wednesday instruiu Larissa que estava frente a frente com uma Píton, a serpente era bem maior que a própria latina – Mostre quem manda com seu corpo – A criança encara o animal como ordenava a mãe, sem desviar um segundo sequer – Peito estufado, vá se aproximando devagar – Larissa deu alguns passos, a cobra parecia acuada, mas ainda pronta para atacar. Fora então que sons de uivos cortaram à noite, distraindo a mais nova que desviara o olhar brevemente para a direção de onde viera o som – Não desvie o olhar, Larissa!

Com um pulo rápido Wednesday que estava a alguns passos atrás da filha, agarrou a Píton que havia dado um bote diante a distração da loirinha. Larissa assistiu assustada sua mãe lutar contra a enorme cobra que se enrolava nela afim de quebrar seus ossos ou lhe sufocar até a morte. Com maestria quem acabou sendo sufocada fora o pobre animal, qualquer um poderia ter morrido, porém Wednesday era uma Addams afinal, e a melhor de sua geração, como ela mesma gostava de afirmar: o nascimento de Pugsley destruiu nossa genética impecável.

— Você ta bem? – Jogou o corpo desfalecido da serpente para o lado, levantando-se do chão se aproximou da garotinha – Ela não encostou em você, encostou? – Wednesday verificou a filha de cima a baixo, procurando por qualquer sinal de machucado, suavizando sua expressão ao constatar que estava tudo bem.

— Eu to bem – Larissa desviou o olhar envergonhada, para sua sorte estava escuro suficiente para não deixar em evidência suas bochechas rosadas.

— Certo.

A mais velha voltou sua atenção para a cobra, analisando se já estava bom a caçada por aquele dia. Na sua mente ia e vinha a imagem do animal jogando-se para cima de Larissa, pronta para lhe dar o “abraço-da-morte”. Wednesday pensou se realmente fora uma boa ideia intervir, seu pai nunca fizera nada do tipo, sempre a instruiu e deixou-a se virar quando as coisas davam errado. Porém desta vez era diferente, Larissa era tão impecável nas lições quanto ela mesma era, nunca precisou interver ou se preocupar com a filha, mas naquela noite a pequena parecia estar distraída demais, percebeu que provavelmente era algo relacionado a Enid ou Lúcifer, visto que ela distraiu-se bem na hora que o vento trouxe aos ouvidos os uivos de bem longe na floresta.

— Vamos parar por hoje – Anunciou ao segurar a Píton entre os dedos, arrastando-a consigo de volta ao acampamento – Quando chegarmos, você vai preparar a carne.

— Sim senhora... – Com um olhar cabisbaixo e de certa forma frustrado por não ter cumprido com sua tarefa de caça, Larissa seguiu a mãe. Notou que que os espíritos da floresta ainda lhes observavam, Wednesday ou Enid não se importaram nem um pouco com isto ao chegarem, portanto ela e Lúcifer ignoraram os seres sobrenaturais, com o tempo haviam até esquecido da existência deles. Os Youkai não interferiram em nada, nem pareceram incomodados, apenas continuaram a flutuar longe o suficiente para não serem incomodados.

— Você quer falar alguma coisa? – Wednesday perguntou logo quando chegaram, deixou que Larissa ascendesse a fogueira antes de entregar a cobra para ela.

— Não – Limitou-se a responder.

Sacando seu canivete, Larissa começou a retirar a pele do animal. Wednesday mais uma vez não insistiu, quando se sentisse pronta ela falaria. Com o passar do tempo, a carne da cobra já girava em um espeto acima da fogueira, as duas encontravam-se sentadas lado a lado em um tronco caído, não trocaram muitas palavras, a mais velha nunca foi realmente de interações e a pequena seguia este mesmo caminho, mesmo assim, o silencio não era desconfortável para ambas. Foi então que, mais uma vez, como esperado que ocorresse, o vento soprou aos ouvidos atentos os uivos, o olhar de Larissa mais uma vez foi direcionado para a direção do som, tão sutil que talvez não notaria se não fosse a própria Wednesday Addams, que apenas deixava passar despercebido – ou fingia que deixava — o que de fato não tinha interesse algum.

— Sabe qual a coisa mais corajosa a se dizer? – Wednesday iniciou quebrando o silêncio, Larissa esperou por sua resposta – Me ajuda — A pequena torceu o nariz confusa diante a fala da mãe que prontamente continuou – Pedir ajuda, não é desistir. É se recusar a desistir.

Novamente o silêncio reinou, as palavras da mais velha martelando na cabeça da loirinha, não havia entendido o motivo da mulher lhe dizer aquilo, do nada, porém de alguma forma parecia fazer sentido para si. Passou a noite toda pensativa, havia algo que lhe incomodava a algum tempo, longo tempo na verdade.

— Certa vez... Mamãe me falou, “Lúcifer é um lobisomem, como eu e talvez como você” – Desta vez foi Larissa quem quebrou o silêncio – Já fazem cinco anos na verdade. Na época, não me importei, mas por alguma razão isso vem me incomodando...

Wednesday deixou que a filha falasse, não pensou em comentar que Enid em sua forma lupina acabará de chegar sorrateiramente com um Lúcifer cansado, o grande lobo de pelagem loira ficou nas sombras, ouvindo atentamente a confissão da filha. Wednesday apenas ouviu atentamente as frustrações de sua garotinha.

— Ela sai com o Lúcifer em toda lua cheia, desde que ele se transformou por completo – Havia um certo desconforto na forma que seus ombros que outrora sempre estivera ereto em perfeita posição e que agora estavam jogados para baixo — Acha que ela gosta menos de mim por isto?

— Lhe incomoda não ser lobisomem como Enid ou seu irmão? – Wednesday direcionou o olhar no ponto exato da floresta, onde os olhos azuis de mãe e filho brilhavam, voltou então o olhar para as íris ônix iguais as suas.

— Não tenho certeza. Eu não me importava até o momento que ele se transformou – Suas mãozinhas entrelaçaram os dedos uns nos outros, de forma que denunciava seu nervosismo – Sinto que talvez eu estivesse perdendo algo com a mamãe. Que talvez ela estivesse esperando algo de mim e não posso oferecer, pois sou só... Eu.

— Sua mãe não gosta menos de mim por ser apenas uma humana – Explicou a latina – Isso também vale pra você.

O farfalhar das folhas da moita finalmente denunciaram a Larissa que elas não estavam sozinhas. Desta vez, não havia escuridão que escondesse o fato de suas bochechas estarem levemente coradas, pois Enid enxergava no escuro e a luz da fogueira contribuía um pouco também. Voltando a sua forma humana ao se aproximar das duas, Enid rapidamente abraçou Larissa afagando seus cabelos.

— Eu não te amo menos por isso minha filha – A voz da licantropo estava embargada por um choro recente – Me desculpe se te fiz achar que precisava ser como eu.

Larissa retribuiu o abraço, os olhinhos arregalados pela frase, era tudo o que ela queria ouvir naquele momento. Que ela do seu jeito apenas, era suficiente.

— Você é a filha mais incrível que uma mãe poderia ter – Enid afastou-se lentamente, suas mãos descansando nas laterais do rosto da garota, os olhos azuis brilhantes pelas lagrimas fitando intensamente os ônix que brilhava aos poucos, com pequenas gotas formando-se ao canto dos olhos – Amo cada detalhe seu – Deixou beijinhos em cada bochecha – Amo seu jeitinho – Deixou um beijinho na testa – Amo você por completo – Por fim, enxugou uma lágrima solitária que cairá do olho esquerdo da pequena.

— Obrigada.

Foi o que Larissa disse, antes de voltar a abraça-la, seu coração aquecido em felicidade enquanto descansava a cabeça no ombro da mãe.

Notas finais
Obrigada por ler até aqui, nos vemos no próximo capitulo (ainda existem algumas coisas que quero abordar que foram mencionadas neste capitulo e não foi destrinchado, então não se preocupem, pois haverá mais capítulos sim, não estamos em reta final) Para quem se interessou pelos espíritos da floresta mencionados > https://cacadoresdelendas.com.br/japao/kodama-espiritos-da-floresta/