Notas iniciais
Boa leitura ~

Já era a terceira xícara que deixava o líquido transbordar por estar com os pensamentos bem longes dali. Xingou-se mentalmente ao sentir o líquido quente em contato com sua mão, choramingando com o ardor que sentira.



– Mireu, onde está sua cabeça? – Perguntou seu amigo de infância.



– Em lugar algum, hyung. – Respondeu, mas não se dera ao luxo de fitar os orbes escuros do mais velho. Este, por sua vez, aproximou-se do garoto e segurou-lhe a mão ligeiramente avermelhada, analisando-a.



– Isso tem alguma coisa a ver com aquele seu cliente especial e o fato de ontem ter se juntado a ele no final do seu expediente? – Mais uma pergunta escapara dos lábios carnudos, mas o dono dos mesmos continuava a olhar a mão avermelhada, que segurava com firmeza entre as próprias mãos. Talvez pensasse que fugiria. Ou ao menos era o que Mir pensava.



Sim, tinha a ver com o acontecido no dia anterior. Mas como dizer isso para SeungHo? Sabia que apesar das constantes brincadeiras do mais velho em relação ao seu “cliente favorito” – palavras do Yang, afinal –, seu amigo de infância não gostava nem um pouco de Joon. Sabia disso pela forma como o rapaz fitava Lee com certo desprezo em seu olhar; algo sutil, mas que Mir – por conhecê-lo há tanto tempo – percebera rapidamente.



– Ele me convidou pra sair, hyung. – Sussurrou as palavras e, se SeungHo não estivesse tão próximo, jamais escutaria o que o mais jovem falara.



– Ele o quê? – Perguntara após um intervalo silencioso, a voz saindo mais indignada do que pretendia.



– Me convidou pra sair... – Repetiu. – Hoje.



Por um momento, SeungHo sentia que o mundo estava girando. Ele teve a ousadia...! Não devia se preocupar, CheolYong não era idiota, não deve ter aceitado sair com alguém que conhecera há algumas semanas, ali. Certo?

– E você não aceitou, certo? – Procurou os olhos do coreano, que em momento algum daquela conversa, lhe dirigiu o olhar. Parecia mais interessante observar as xícaras enfileiradas no balcão ao lado dos dois.



– Eu aceitei, hyung. Desculpa... – Yang não falara nada, apenas apertara mais a mão do mais jovem que estava entre as suas, sem perceber. O garoto, por sua vez, assustou-se com o ato, puxando a mão instintivamente, mas sem conseguir se livrar. – Hyung, você tá me machucando...



– Desculpa, Mir. – E o referido não sabia se o pedido de desculpas era pelo aperto em sua mão, ou pelas palavras que sabia que estavam por vir. Achou que era pela segunda opção, já que a mão ainda era refém das alheias. – Você é um babaca. Você nem ao menos conhece esse cara! Ele pode ser um estuprador, um assassino, ou alguém que só quer te fazer mal, se aproveitar de você! Você ainda é uma criança, tão inocente! Aish... O que eu faço com você, Mireu!? – Quase gritava aquelas palavras, não se importando com os outros trabalhadores do café, que viam os dois brigando, mas sequer se intrometiam na conversa de ambos. Era como se nada estivesse acontecendo ali, nos olhos dos colegas de trabalho dos dois garotos.



– Yah, já disse para parar de me chamar de Mir. – Retrucou CheolYong, com a voz baixa, mas firme. Puxou a mão com certa violência, olhando nos olhos de SeungHo pela primeira vez, durante a discussão. – Eu não sou mais nenhuma criança, eu sei me cuidar muito bem, obrigado e...



– Não, não sabe! – Fora interrompido por um grito, seguido de um tapa forte contra o balcão, assustando quem estivesse por perto. Por sorte, a cozinha ficava um tanto longe de onde os clientes ficavam, senão, ambos estariam com sérios problemas com os donos do lugar. – Parece que você esqueceu de tudo o que aconteceu, de tudo o que passou, CheolYong. De tudo o que passou por ser tão burro e acreditar em qualquer pessoa que lhe dê sorrisos fáceis! Você não sabe se cuidar, você é apenas um garoto mimado! Se não fosse por m-... – Teria continuado com o próprio sermão, mas fora abruptamente interrompido com um tapa que recebera na face, forte o bastante para lhe cortar o interior da boca e deixar uma generosa marca avermelhada em sua bochecha. Tocou o local atingido instintivamente, olhando assustado e desnorteado para seu agressor.



– Nunca mais fale sobre isso! Quantas vezes já disse!? – Sussurrou e, mesmo com a voz firme e baixa, SeungHo notou que o mais novo estava à beira das lágrimas. Ficaram algum tempo daquela forma. Nenhum dos dois sabia dizer quanto tempo, se pouco, ou se muito. Mas com certeza, mais do que o necessário. O clima pesado podia até ser cortado com uma das facas presentes na cozinha, chegava a sufocar os ali presentes. Nem notaram que uns três funcionários sequer se atreviam a respirar, diante da cena que se desenvolvia – ou congelava – na frente deles.



E fora apenas quando um celular tocara que o silêncio fora quebrado e, com isso, o garoto mais novo saíra correndo do lugar, finalmente deixando as lágrimas que tentava segurar, caírem em abundância. Apenas queria ir para o mais longe possível dali.



–.-.-.-

Joon estava sentado sobre o banco em uma praça próximo ao Café em que CheolYong trabalhava. Faziam alguns minutos – 10, para ser mais exato, já que o rapaz não parava de checar o horário – que ligara para o garoto e recebera uma mensagem do mesmo dizendo para lhe encontrar por ali. Joon, claro, estranhara, já que no dia anterior, o combinado era se encontrarem no mesmo lugar em que se conheceram.



Já estava impaciente; Estou assim porque aquele garoto está me fazendo perder tempo. Pensava, ignorando a voz chata que gritava em sua mente que estava daquele jeito, por estar preocupado com o mais jovem. Eu, preocupado com um garoto qualquer!? Pff.



Mas seja qual for o motivo de ChangSun, este sentira o corpo esquentar ao reconhecer o garoto andando em sua direção. Quase podia sorrir com aquela figura, agasalhada e encolhida. Porém, toda a sensação boa sumira quando o garoto se aproximou o bastante para que Joon notasse os olhos avermelhados e os rastros molhados sobre as bochechas coradas. Aquele olhar tão triste era quase uma facada no coração do homem mais velho.



– O que houve? – Perguntou de forma mansa. A voz era tão baixa e carinhosa, que duvidava que ele mesmo tivesse falado aquilo. Ao invés de receber uma resposta, sentiu o garoto jogar-se contra si, enlaçando seu pescoço com as mãos, em um abraço apertado. Podia ouvir os soluços baixos contra seu ouvido, deixando-o sem saber o que fazer. Por fim, resolveu apenas retribuir o abraço, passando um dos braços pela cintura do mais novo, enquanto a mão livre lhe afagava os cabelos.



Ficaram daquela forma por um bom tempo, o silêncio sendo quebrado apenas pela respiração de ambos e pelos soluços que escapavam dos lábios de Bang, sendo estes a única coisa que denunciava que o garoto ainda chorava. Joon tinha parte do pescoço e parte do sobretudo negro que vestia, molhados, mas sequer ligava para isso. Se fosse em outra ocasião, outra pessoa, estaria reclamando até cansar-se, mas sabia que não poderia gritar, ou reclamar do que quer que o garoto tão frágil em seus braços, fizesse.



– Desculpe. – A voz fraca do garoto quebrou o silêncio, quando se sentira melhor para falar alguma coisa sem desabar no choro. Desfez o contato para limpar as lágrimas do rosto e Joon sentira, repentinamente, tanta falta daquele corpo colado no seu. – Acho que o excesso de trabalho está me deixando sentimental demais. – Riu baixo, tentando amenizar o clima. É a primeira vez que ele ri de forma tão falsa. – Briguei com SeungHo hyung. – Respondeu a pergunta que fora feita minutos antes, a pergunta que até Lee esquecera que havia feito. Limpou a garganta, tentando se recompor e abriu um pequeno sorriso. – Acredita que ele acha que você vai me fazer algum mal? – Joon sabia que aquele sorriso era mais um falso, mas não poderia se importar, pois sentiu o corpo tensionar com as últimas palavras proferidas pelo garoto. Ele não poderia estar mais certo. Pensou, com pesar. – Ele acha que você é algum estuprador, ou assassino. – Completou, rindo de forma exagerada, como se aquilo fosse a coisa mais engraçada do mundo.



Estava tão absorto em se divertir à custa do que falara, que nem notara quando Joon mordiscou o lábio inferior e fitara os próprios pés, sentindo-se extremamente mal, não fisicamente, mas psicologicamente.



– SeungHo? Aquele seu amigo da cafeteria? – Perguntou, tentando esconder o tom curioso em sua voz. O ligeiramente mais baixo apenas concordou com um aceno. – Acho que você devia nos apresentar, CheolYong-ah. Quero provar que não sou nenhum estuprador, ou assassino. – Dera ênfase na última palavra, sem ao menos perceber; algo que também – aparentemente – fora despercebido do garoto mais novo que apenas o olhou com aqueles olhos grandes e felizes, mais uma vez, como se tempo atrás, nenhuma lágrima caíra deles.



– Tem razão, hyung! Assim que eu apresentar vocês, ele verá que você é uma boa pessoa e passará a gostar de você, também! – Concluiu o garoto, excitado como uma criança com a idéia. Joon, por sua vez, mantinha um sorriso vitorioso nos lábios.



E não muito longe dali, sem nenhum dos rapazes notar, um par de olhos os observava atentamente.



– Tsc, ChangSun-ah... Você deixou sua guarda baixar demais.


Notas finais
Novamente, agradeço pra quem deixou review, elas são um ótimo incentivo *-* Mais tarde as responderei ♥
Próximo capítulo pode demorar, ainda estou escrevendo, mas apareceu um bloqueio na metade do mesmo x-x Mas irei atualizar, com certeza. :B
See ya o/