Falling To Pieces
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Abri os olhos dolorosamente e me deparei com um teto negro. Não estava em meu antigo quarto, este parecia mais quente e aconchegante. Rolei para o lado sentindo meu corpo todo protestar e meu estômago fazer um barulho cabuloso.
Alguém se mexeu, mas não consegui saber quem era ao certo, pois minha visão ainda estava turva.
- Sabe que posso te dar uma morte melhor se quiser, é só pedir. – brincou uma voz conhecida.
Relaxei e tentei me sentar, conseguindo apenas uma careta de dor. Tânatos me ajudou e assim que consegui, toquei minha barriga me lembrando do ocorrido.
- Foi uma coisa muito louca, mas funcionou. Você me conhece mais do que eu tinha imaginado. – disse ele sério.
- Não farei isso de novo. – protestei olhando para o teto e reparei que nele havia afrescos de asas negras e rios que batiam em rochas gigantes, até pareciam estar em movimento. – Onde estou?
- No meu quarto. – respondeu ele olhando meu rosto, esperando qualquer reação.
- Eu tenho um quarto aqui. – resmunguei.
- Na verdade, Perséfone o reformou e o transformou em uma estufa. – disse ele cauteloso.
Olhei para ele pra saber se era algum tipo de brincadeira, mas ele franziu o cenho, parecia estar falando sério. Gemi e me encolhi abraçando meus joelhos e escondendo meu rosto ali. Não queria que ninguém percebesse o quanto o fato de eu ser indesejada ali me magoava.
- Você pode ficar com o meu – acrescentou ele rapidamente – Eu quase não uso, posso encontrar outro pra mim até...
- Não, obrigada Tânatos. – interrompi gentilmente – Não pretendo ficar por muito tempo.
Ele tencionou o maxilar e endireitou o corpo, cruzando os braços. Suas asas tremeram e depois voltaram a ficar rígidas, ele estava nervoso.
- Eu não odeio você. – disse eu depois de alguns minutos de silêncio.
- Eu não disse que você me odeia. – murmurou ele, mas sua postura estava agora mais relaxada, quase aliviada.
- Só quero que saiba. – respondi me deitando novamente com uma careta de dor. – Uau, tô tão cansada...
Ele se aproximou mais e me embrulhou, estava hesitante em dizer algo.
- Diz logo. – resmunguei.
- Acho que aquele Hórus gosta de você. – disse ele somente
Deixei escapar uma risada dolorosa e seguida de tosse. Não me lembrava de que eu me curava tão lentamente assim, será que eu estava perdendo meu dom?
- Acho que não é da conta de ninguém além dele mesmo – respondi distraída fazendo uma trança frouxa no cabelo
Em silêncio ele continuava a me observar, mas eu já estava acostumada a isso, afinal, durante toda a minha vida fiquei de observação pelos Olimpianos. Isso quando meu pai não colocava Tânatos para me vigiar, ou como ele preferia dizer “cuidar de mim”.
Novamente tive um acesso de tosse e me sentei. Irritada com toda aquela demora, ergui a blusa para ver o ferimento, agora apenas uma cicatriz.
- Mas que diabos... Nunca demorei tanto pra me curar. – resmunguei
- Você sabia que se curaria certo? – perguntou ele pegando meu rosto em uma de suas mãos e procurando algo no meu rosto
- Claro que sabia – respondi com o cenho franzido e tentando me soltar – Faço loucuras, mas não sou uma suicida.
- Me deixa ver o ferimento – disse ele firmemente
Antes que ele puxasse minha blusa eu bati em sua mão irritada e indignada.
- Não tem nada pra ver além de cicatriz – disse eu
- Isso porque você não procura lá dentro, me deixa ver – insistiu ele, dessa vez erguendo minha blusa manchada de sangue.
Ele analisou e tocou a cicatriz por um bom tempo, e nesse período seus olhos brilhavam ainda mais dourados. Como alguém podia ter olhos daquele jeito? Parei de pensar naquilo e abaixei minha blusa, erguendo uma sobrancelha questionando o que ele encontrara de diferente que eu ainda não tinha visto.
- Você é vulnerável a ferro estígio como todo mundo – disse ele por fim – Vai se curar por fora, mas por dentro ainda há um buraco.
- Isso explica – resmunguei – O que tenho que fazer?
Ele ficou hesitante por um tempo antes de responder:
- Fale com a Sadie. – e saiu do quarto.
Segundos depois, uma Sadie desconfiada e uma Isis carrancuda voltaram com Tânatos no quarto.
- Pode curá-la? – perguntou ele
Isis e Sadie se entreolharam e sussurraram algo entre si, algo como “nós precisamos dela pra missão” e por fim, elas assentiram.
Fizeram-me tirar a blusa, mas Tânatos não podia e não queria me deixar só. Sadie disse que minha força e capacidade de regeneração vinham de pessoas como meu pai, ele e Anúbis (relacionados à morte) e que precisava de alguém assim por perto. Desconfiada, obedeci tirando a blusa e achando engraçado o fato de Tânatos ter desviado o olhar tão rápido que nem parecia que estava olhando.
- Mas por que ferro estígio me afetou? Por que Anúbis não pode vir aqui? – perguntei
- É uma lâmina banhada no Rio Estige, você sequer devia empunhá-la. – respondeu Isis mal humorada. – Seu irmão está ocupado.
- Ela suga almas, não é porque é filha de Hades que será exceção. A espada precisa aceitar o dono para que nunca possa ser ferido pela própria lâmina. – respondeu Sadie.
Franzi o cenho e Tânatos segurou a risada. Ele sabia que eu não havia entendido bulhufas.
Sadie desenhou hieróglifos no meu abdome e começou a recitar algo que eu sabia que entenderia se prestasse atenção, mas me recusei e procurei qualquer coisa para ouvir no lugar.
- Quando estiver com seu pai, pergunte a ele sobre sua espada. – disse uma voz conhecida que não tinha me dado conta de que estava presente
Ninguém olhou naquela direção além de mim. Eles sabiam que em breve Hórus apareceria? Assenti e continuei em silêncio, abaixando a blusa assim que Sadie terminou. Todos saíram do quarto, exceto Hórus e Tânatos que evitavam se olhar.
Funguei, vesti uma blusa limpa de Tânatos e me deitei olhando os afrescos do teto. Havia uma mulher ali também, ela estava em um nível mais abaixo das rochas no mar, mas ainda assim continuava grandiosa, olhando para um homem de pele e asas negras que estendia as mãos para ela. Inclinei a cabeça de lado e usei meus olhos de loba para observar as feições dos dois, mas alguém entrou na frente. Espera, alguém entrou na frente do teto? Pisquei e vi que Tânatos voava bloqueando minha visão.
- Não quero que veja isso. – disse ele
- Qual é o problema? Você que pintou? É muito bonito. – disparei
- Não. Olhe. – ordenou ele com o maxilar trincado.
- Certo – resmunguei irritada virando de lado, mas dei de cara com olhos respectivamente amarelo e prateado, totalmente ameaçadores de Hórus, fazendo com que eu pulasse de susto.
- Onde está Ann? – perguntei
- Eu não sei, por que pergunta pra mim? – disse ele virando a cabeça de lado parecendo mesmo um falcão.
- Sei lá. – respondi dando de ombros – Vou descansar, quando eu levantar, continuaremos com a missão
Dito isto, eu virei para o outro lado e me embrulhei, adormecendo logo depois sem nem me preocupar se eles estavam no quarto ainda.
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