Falling Snow - O Despertar
3 Capítulo 2 - My Strange Routine
Notas iniciais
Brincadeira, eu sei que demorei décadas para postar, o problema não foi a falta de criatividade e essas coisas de bloqueio criativo. Mas sim de tempo para escrever, eu estava tão ocupada pensando no roteiro que tinha que criar que eu não podia parar para escrever Falling Snow, mesmo assim escrevia alguns rascunhos no papel.
Quero agradecer a todos que mandaram Review e pedir desculpas sinceras.
Proximo capitulo vou postar em breve.
Desde a minha formatura — que ocorreu há alguns meses atrás — centenas de pessoas tanto jovens da minha idade quanto senhoras, me perguntam o que eu pretendo fazer do meu futuro, que eu tinha acabado de terminar o colégio e precisava fazer alguma coisa. Por que pensar no futuro apenas quando terminamos o colégio? Frequentar a escola para mim foi sempre uma obrigação, e quando acabei era como se estivesse saindo de uma tortura e não apenas terminado minha vida adolescente irresponsável e passar para a vida adulta cheia de complicação e responsabilidades.
Muitos querem uma vida perfeita, mas o que é uma vida perfeita? Já ouvi dizer que é ser rico e nadar em dinheiro, ter uma casa grande com piscinas e até mesmo um cachorro de raça pura, é ter tudo do bom e do melhor sempre a disposição sem nenhuma preocupação. Existem aqueles que acreditam que uma vida acadêmica é tudo, eles lutam bravamente como cavaleiros para entrar nas melhores faculdades do país e no futuro ser um prestigiado e conhecido profissional. E é claro há aqueles que defendem que tudo para ter uma vida perfeita é ter um casamento feliz e três lindos filhinhos, que acordam todos os dias da manha sorrindo como se estivessem em um comercial de margarina.
Então o que há de errado comigo? As três opções de vida perfeita que tanto escutei falar não me agradavam nem um pouco. Nadar em puro dinheiro nunca resolveria meus problemas, nunca cogitei a possibilidade de entrar em uma boa faculdade, assim como casar e ter filhos nunca fez parte da minha lista de tarefas da vida. Moro em uma casa terrível de sinistra, onde os encanamentos rangem com a antiguidade, trabalho como garçonete em uma velha lanchonete Dougs' Cafe e faço alguns bicos na loja de antiguidade do velho Bill Raiden.
Então cá estou eu, no auge dos meus dezoitos anos e para mim essa vida calma e monótona, é uma vida perfeita, nunca quis nada muito mais do que isso e assim como as outras pessoas não posso tê-lo da forma como quero. A vida perfeita é aquilo que não temos e sempre estamos correndo atrás, e a minha definição para isso é uma vida normal, até porque comecei a tê-la no começo da minha adolescência e a cada semana, mês, ano que passa, a sinto escapar entre meus dedos me levando de volta ao que meu sangue me predestinou a ser.
Olho para Will e sorrio. Sim, ele fazia parte da minha vida monótona e estranha e ao que parece também não parecia se importar com os padrões de vida perfeita.
- O que foi? — Pergunta Will – Por que está sorrindo? Você me dá medo quando fica assim. — Apenas agito minha cabeça e dou de ombros, indicando que não era nada. Will volta a se concentrar em seu cereal. Ele coloca grandes porções na boca em um pequeno intervalo de tempo.
- Cuidado para não engasgar, não quero que você morra. Preciso de uma carona para o trabalho
Will levanta os olhos para mim com um meio sorriso.
- Você pode ir andando se quiser — Ele diz reprimindo um sorriso.
- Nossa. Como você é gentil.
Ele levanta sua colher para cima e balança em minha direção.
- Ou você poderia pilotar minha moto, mas ai você também morreria.
Jogo instantaneamente as mãos para cima em forma de rendição.
- Nem morta eu subiria naquilo sozinha. Falando nisso, eu como sua melhor amiga tenho que falar que era
melhor ter comprado um carro ao invés de uma moto.
Ele volta a se concentrar em seu cereal e me responde de modo casual.
- Motos são legais.
- Não, motos não são legais. Elas deixam a perna dormente, fazem um barulho terrível e ainda tomo chuva.
Um carro é bem melhor — Digo franzindo o cenho.
Ele solta a colher dramaticamente na mesa e olha para mim.
- As motos são mais rápidas, você não sente a adrenalina?
- O que eu sinto é frio. As pessoas sentem adrenalina quando estão perto da morte.
Ele sorri.
- E você já esteve perto da morte? — Ele pergunta inocentemente.
Dou um sorriso amarelo, mas não respondo sua pergunta.
Olho para o relógio redondo de cor amarela, com os números em vermelho vivo que esta na parede, levo um súbito susto ao perceber que estamos atrasados. Pego o braço de Will e o arrasto da mesa, ele começa a tossir quase engasgando.
- Está ficando maluca? — Ele pergunta quase gritando.
- Nós estamos atrasados, Doug vai ficar furioso se chegarmos atrasados outra vez.
- Mas eu não terminei de comer — Ele protesta.
Reviro os olhos.
- Depois você termina de comer Will.
Saímos de casa as presas. Fecho a porta e logo depois coloco as chaves dentro de um anão de porcelana sem a cabeça. Chegamos até sua moto que está estacionada em frente à casa, uma Hornet Honda prata, apesar de não conhecer nada sobre motos tenho que admitir que aquela é muito bonita e consideravelmente mortal.
Uma fina chuva ainda cai e sinto meu nariz coçar com os leves pingos, mas presumo que ela não irá continuar, as nuvens cinza e pesadas estão começando a se dissipar dando lugar ao céu de um azul opaco.
Will pega dois capacetes e me entrega um preto repleto de adesivos de todas as cores, ele senta em sua moto já ligando-a, respiro fundo e sento no carona segurando firme em sua cintura. Will nunca foi muito de apresentações e com um só solavanco a moto saiu em disparada quase me deixando para trás.
Afundo minha cabeça em seu ombro evitando olhar as arvores que passam como vulto em nossa volta, é estranho talvez, mas tudo aquilo me deixa com uma tremenda dor de cabeça. Sou pega de surpresa quando sou jogada para trás, parece que estou caindo, mas sinto a moto ainda andar e meu corpo cada vez mais declinando para trás. Só depois de alguns segundos percebo que Will está empinando sua moto. Agarro com força tremenda sua cintura e rezo mentalmente para aquilo acabar logo. Um flash de toda minha vida passa pela minha cabeça será que vou morrer? Só quando a moto volta ao normal com um impacto grande a dianteira tocar o chão, consigo respirar normalmente.
- Eu disse que não queria que você fizesse isso Will! — Eu grito minha voz sai abafada no capacete.
A única coisa que escuto é o som de sua risada. Aquilo apenas me deixa com mais raiva ainda.
- Ainda prefere um carro, doçura? — Ele grita.
- É claro, mas que pergunta idi...
Ele empina a moto outra vez e novamente meu medo de cair me faz agarrar firme em sua cintura. Dou alguns socos leves em sua barriga mas presumo que talvez aquela não seja uma boa hora. Então eu belisco sua barriga quando a moto volta a sua posição inicial.
- Ai — Ele grita e resmunga alguma coisa incompreensível.
Afundo minha cabeça novamente em seus ombros. Somente quando as intermináveis árvores cessam dando lugar os pequenos prédios, levanto minha cabeça e dou um suspiro aliviado ao ver o letreiro vermelho vivo do Doug's Cafe, nunca desejei tanto estar naquele lugar como desejava agora. Saio da moto o mais rápido que posso dando alguns passos para trás, quase caindo.
- Por acaso você quer me matar? — Eu digo a ele.
Ele olha para mim com um sorriso metido enquanto passa as mãos nos cabelos para arrumá-los.
- Por que esta dizendo isso?
- Você tem algum tipo de problema Will? Você poderia ter derrapado daquele jeito e a gente ia morrer, eu não sobrevivi longos dezoito anos da minha vida para acabar assim quero ter uma morte honrosa, obrigada.
- Você é muito dramática — Ele põe o braço em meus ombros enquanto nos dirigimos para a lanchonete — Então quer dizer que você sentiu a adrenalina?
- Só porque eu estava perto da morte.
Antes mesmo de entrarmos na lanchonete, Doug está na porta nos esperando. Ele é um homem baixinho e gordinho, seus poucos cabelos castanhos sempre estão bagunçados e eu nunca o vi sem aquele avental encardido e sujo. Ele nos encara com raiva enquanto balança uma colher de madeira freneticamente.
- Vocês estão atrasados outra vez.
Dou um tapinha em sua barriga como sempre faço.
- Não estamos atrasados, Doug — Digo.
- Estão sim, eu disse seis e meia e olha que horas são — Ele nos mostra seu relógio de pulso — Já são sete horas.
Passo por ele sem dar atenção e entro na espelunca. Sim espelunca, essa é a palavra que melhor se encaixa naquele lugar, as paredes até que estão em bom estado, mas é a única coisa, o lugar é razoavelmente grande algumas mesas de ferro enferrujado estão espalhadas por ali as cadeiras por mais que estivessem em uma condição melhor as almofadas delas estavam encardidas e algumas rasgadas, também havia mesas ao lado da janela estas estavam em melhores condições. A iluminação não era uma das melhores, mas ninguém nunca pareceu ligar, aquele lugar ficava lotado quando a noite caia.
Um balcão velho de um marrom estranho rodeado de bancos almofadados era o lugar onde os homens que trabalham em construção costumam comer, lá ficam o bule de café, bolos, guardanapos e é claro o caixa e onde os pedidos chegam mais rápido também.
Atrás do balcão é onde ficam o fogão e milhares de outras coisas, desde uma maquina antiga de refrigerantes á um pisca-pisca de natal ridículo pendurado. O cheiro não era um dos melhores, óleo queimado misturado com mofo, mas depois de dois anos eu me acostumei.
Doug entrega nervoso meu jaleco, deveria ter a cor bege, mas já esta amarelada, assim como a listra vermelha na lateral. Will já estava no fogão com um avental e touca branca e logo começa a preparar panquecas para dois homens que estão sentados no balcão.
Não há ninguém na lanchonete a não ser aqueles dois homens. Sendo assim começo meu expediente varrendo o chão imundo e passo álcool, que possui um maravilhoso cheiro de hortelã, nas mesas e cadeiras. Estou entretida cantarolando uma musica qualquer, quando escuto o sininho da porta indicando que alguém chegou e digo automaticamente.
- Fique a vontade para sentar onde quiser. Eu já levo o cardápio.
Continuo limpando a mesa e quando termino pego o cardápio que esta no balcão, com o intuito de levar para o novo freguês. Só então percebo que o homem que acabara de entrar é Alan, o garoto dos estranhos cabelos verdes do meu primeiro dia de aula que estava junto com Will no plano do bolo de carne. Ele tinha deixado há um ano esse estilo estranho optando por seus originais cabelos pretos em um corte de soldado que agora estavam encobertos por seu boné laranja surrado.
Ele olha para mim e faz careta. Respiro fundo tentando me controlar e vou até a mesa de Alan, ele sorri de forma exageradamente forçada, talvez querendo passar que está tudo bem. Mantenho minha expressão séria e ríspida, até porque, quando se trata de Alan não existe outra expressão a não ser esta. São sete horas da manha e meu dia já começa ruim. Coloco o cardápio em sua mesa, e como se estivesse fugindo de um leão faminto, me preparo para sair daquele ambiente de massa cinzenta, o mais rápido possível.
- Já volto para anotar seu pedido – Digo me atropelando nas palavras.
Sem ao menos tocar no cardápio ou olhar para ele. Alan me responde com uma voz divertida, enquanto coloca as mãos no queixo segurando uma risada.
- Não precisa, já sei o que quero.
- Ótimo — Tiro o bloquinho e a caneta do meu jaleco — O que vai ser?
Pressiono a caneta sobre o bloco esperando seu pedido.
- Eu quero peixe empanado e uma cerveja.
Eu não deveria fazer isso. Eu não deveria mesmo fazer isso, mas eu até que tentei. Eu tentei escrever calmamente seu pedido no bloco e sair feliz da vida, como uma garçonete normal, mas alguma coisa dentro de mim não deixava, antes mesmo que eu percebesse as palavras já estavam pulando da minha boca desesperadamente.
- Espera um pouco, peixe empanado e cerveja? Você por acaso tem algum tipo de problema? São sete horas da manha e você me vem pedir peixe e uma cerveja, isso não é coisa que se come no café da manha.
Alan cruza os braços sob sua blusa de flanela e encosta de modo preguiçoso na cadeira. Posso ver um sorriso zombeteiro brincar em seus lábios e olhos.
- Sou eu quem vai comer e pagar então peço que eu quiser – Seu tom de voz era desafiador, e desnecessário ao mesmo tempo.
- É claro, você vai morrer logo se continuar tomando cerveja de manhã. E para que você quer comer peixe?
Eles não têm gosto de nada, parecem mais com água gosmenta e espinhas.
Alan descruza os braços e então coloca os cotovelos na mesa inclinando-se para mim.
- E o que você sugere? Bolo de carne? — Ele ri de sua própria piada, mas eu apenas reviro os olhos.
- Eu sugiro algo que uma pessoa normal comeria a essa hora. Panquecas, Waffle, Ovos Benedict, Bacon apesar de que depois que descobri de que parte do porco é o bacon eu nunca mais comi. E também temos sucos, café...
Antes mesmo de terminar minha frase alguém pega meu braço e me arrasta dali, não tenho nem ao menos tempo de protestar. Sacudo braço vendo que é Doug que me leva para longe dos olhos e ouvidos de Alan.
- Me solta, você não devia...
- Você é que não devia dar opinião no pedido dos clientes, eu já falei para você que eles escolhem o que querem e não você — Ele diz com raiva.
Reviro os olhos.
- Primeiro, fale comigo dessa forma outra vez ou toque em mim dessa maneira outra vez que eu me demito e tenho certeza que mais ninguém vai querer trabalhar aqui. E segundo, ele ia pedir peixe e cerveja.
- E qual é o problema? Agora vai lá e anota o pedido do garoto – Ele agita as mãos para que eu ande logo e me controlo para não quebra-la.
Doug vira as costas para mim e balança uma colher de madeira, bastante nervoso antes de desaparecer nos fundos da lanchonete. Bufo e vou até Alan e estava com uma cara divertida.
Pressiono outra vez caneta no bloquinho e digo.
- E o que você vai querer?
- Aquele era seu namorado? Achei que estivesse com o Will – Seu tom de voz era de um garoto de doze anos de idade, é como dizem meninas amadurecem mais rápido que meninos.
- Engraçadinho – Digo apenas.
Ele sorri.
- Você me convenceu, vou querer uma porção de panquecas e um café bem forte.
Sem notar que estou com um sorriso em meus lábios, mas logo desfaço o inesperado sorriso quando percebo que Alan olha de uma maneira estranha para mim. Anoto com diversas abreviações seu pedido no bloco, e o entrego á Will.
E essa é a minha nada curiosa rotina. Anotar pedidos, entregar para Will, brigar com Doug, muitas vezes também brigar com os clientes e com o açougueiro do outro lado da rua, tecnicamente passo a maior parte do meu expediente brigando com alguém, não sei se isso havia se tornado um hábito ou minha maneira de comunicar com as pessoas era naturalmente agressiva. De vez em quando dou poucas cochiladas no balcão. Mas o imenso barulho que as crianças fazem ao entrar na Lanchonete me arranca sem aviso prévio dos meus sonhos.
No fim da tarde, quando o sol já está no fim do horizonte, é a minha hora de dizer ''adeus'' e um ''até amanhã'' aquela maravilhosa lanchonete. Despeço-me de Doug e em seguida de Will, que trabalhava enquanto as pessoas ainda estivem no local.
Meu dia, infelizmente ainda não acabará. Trabalho em uma loja de antiguidades, três dias por semana. Talvez eu não precise realmente do emprego, conseguia com pouco esforço me sustentar apenas com o salário da lanchonete.
Mas algo naquela loja me fazia sentir bem, de alguns anos para cá, meu apreço por objetos antigos só tem aumentado. Como se eles não precisasse de pessoas para contar as histórias, as partes quebradas, rachadas ou as marcas da velhice contavam por si só todas as histórias, necessitando apenas do silêncio.
- Olá Sr. Raiden — Digo ao entrar na pequena loja.
Ele está debruçado sob uma moeda de prata e a analisa calmamente. E com essa mesma calma levanta seus miúdos olhos orientais para mim.
- Olá Amélia. Chegou cedo – Sua voz é rouca e dócil.
- Amy. Chame-me de Amy, por favor. Amélia é tão, tão... velho, me sinto uma anciã assim. Sem ofensa – Digo colocando minha bolsa no chão.
- Gosto de Amélia, é um nome bonito, forte. Você deveria se orgulhar. E não existem nomes velhos e sim pessoas velhas. Sem ofensa.
Analiso o local, como de costume, passando os olhos por todos os artefatos antigos. Vou até o balcão onde Sr. Raiden que está debruçado, me inclino em direção à moeda, o bastante para ver através da enorme lente.
Eu a analiso com cuidado, como ele mesmo havia me ensinado.
- Essa é uma cinco reis 1912 de Portugal? – Dou um palpite.
Ele expressa um largo sorriso, e balança a cabeça negativamente, então gira a moeda para que eu possa ver o ano.
- Chegou perto. O ano é de 1905 e não 1912.
Dou de ombros e me afasto da enorme lente, que está me deixando com uma irritante dor de cabeça.
- Todas são iguais.
- Não, não são – Ele diz colocando cuidadosamente a moeda em uma caixinha de veludo.
- Tenho certeza que são.
- Você é muito teimosa, mas eu tenho certeza que um dia você irá saber a diferença se olhar com mais cuidado.
Eu apenas concordo com ele, por mais de me chamar quase que diariamente de teimosa. Sr. Raiden sempre fora um homem teimoso e nunca cedia suas opiniões, o incrível, era que nunca se irritava, ele era um teimoso sereno e isso era o que mais me incomodava. Mas eu sei que no fundo o motivo do qual eu sempre evito discussões era porque o Sr. Raiden era como eu, e eu odiaria discutir comigo mesma.
- Você pode, por favor, limpar e guardar os livros que estão naquela caixa? — Ele aponta uma pilha de caixas que está perto da entrada. Ao ver minha cara de interrogação, continua — È aquela que tem um desenho azul.
Vou até a pilha de caixas no canto da loja, eram mais de quinze caixas até que finalmente encontro a tal caixa de desenho azul. Que alias se encontrava em baixo de todas as outras, estão tive que basicamente retirar todas aquelas caixas pesadas e só então pegar a que queria. Enquanto isso, Sr. Raiden apenas limpava sua moeda de 1905.
Vou até os fundos da loja e começo a trabalhar naqueles livros. Ao abrir a caixa percebo que são no máximo uns doze livros, a maioria é de capa grossa, com mínimos detalhes entalhados, onde se alojavam mais sujeira. Os outros livros estão sem capas e com as folhas amareladas e repletas de poeira. Com um longo suspiro separo os livros e começo a limpa-los.
Passo a maior parte do tempo limpando aqueles livros, principalmente os de capa grossa. Em alguns momentos escuto assim como na lanchonete, o sino tocar indicando que alguém acabará de entrar na loja, algumas vezes são pessoas querendo comprar algo, vender ou até mesmo doar. Mas não posso dizer ao certo, pois tudo o que escuto são apenas murmúrios.
Quando acabo de limpar os livros, o máximo que pude, os empilho no chão por ordem de tamanho. Vou até a entrada e ao invés de encontrar Sr. Raiden debruçado sobre o balcão observando suas inúmeras moedas antigas. O encontro do lado de fora, olhando atentamente para frente, sigo seus olhos, mas não consigo ver nada, pelo menos nada de anormal.
A rua a frente está vazia, assim como os comércios que já se encontram fechados, por algumas vezes um carro ou outro passa. Aproximo-me, mas um pouco e vejo em suas mãos um taco de basebol, ele o segurando firmemente, pois consigo até mesmo ver as pontas dos seus dedos brancas e as veias do seu braço se ressaltar.
- Sr. Raiden, o que o senhor está fazendo aqui? – Pergunto ainda me aproximando.
Espero sua resposta por algum tempo, mas ela não vem. Paro por um momento pensando no que fazer, olho para a rua e não encontro nada.
- Sr. Raiden? – Tento novamente.
Dou passos rápidos para frente, parando ao seu lado. Seu rosto parece estar pálido, apenas seus atentos olhos se movem de um lado para o outro.
- O senhor está bem? Quer que eu...
- Vá para casa – Ele diz rapidamente – Vá para casa Amélia. Tento novamente enxergar, o que o amedronta, mas não consigo ver nada.
- Mas eu ainda, não acabei de...
Ele se vira para mim e segura meus ombros, me forçando a olhá-lo. A cor em seu rosto já voltou, mas seus olhos continuam preocupados e extremamente com medo.
- Amélia vá para casa, agora.
A intensidade de sua voz é tanta, que sem protestar como muito provavelmente eu faria, apenas balanço a cabeça, concordando com sua ordem. Sr. Raiden solta um longo suspiro aliviado, por eu não ter me rebelado, mas logo sua expressão muda para preocupação e talvez, pena?
Volto para a loja e pego minha bolsa que ainda está no chão. Ao sair vou para onde o Sr. Raiden está, ele parece mais relaxado agora, mas ainda segura firme o taco de beisebol. Com um aceno me despeço, e ele me retribui com o mesmo gesto, e murmura alguma coisa sobre tomar cuidado.
Notas finais
O capitulo foi betado por Duda Costa do Perfect Design.
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