Eu queria gemer de tanta dor que eu estava sentindo, meu corpo todo estava doendo, mas a dor em minha perna esquerda estava superando todas as outras. Minha mente ainda girava, e eu não sabia a onde estava, nem como fui parar ali, e muito menos sabia o porquê, mas sabia que eu não devia estar ali.

— Ei, está segura agora — disse uma voz rouca, com um sotaque estranho, enquanto eu sentia algo pesado contra minha cabeça. — Minha mãe é enfermeira, vai cuidar de você.

Abri os olhos, assustada quando escutei passos apressados e pesados contra o chão, e senti meus olhos se encherem de lágrimas. Eu estava com tanto medo.

Um garoto branquelo com o cabelo todo cacheado estava me fitando. Seus olhos verdes e sua boca perfeitamente desenhada ficavam em contraste com o tom da sua pele, havia algumas espinhas na sua testa, mas nada que tirasse a beleza dele. Seu corpo era bem definido, e só percebi isso pois ele estava apenas de samba canção.

Antes que eu pudesse pensar em algo para dizer, os passos pesados se aproximaram e uma mulher com o rosto parecido com o do garoto se agachou e sorriu, afagando meu cabelo.

— Oi — disse me ela. — Posso olhar seus machucados?

Balancei a cabeça, positivamente, percebendo tarde de mais que isso doía.

— Mia, pegue minha maleta de emergências no armário — disse a mulher. Ouvi passos curtos e apressados soarem, em seguida a mulher voltou a falar comigo. — Vou examinar você... Se for possível Mia e eu lhe daremos um banho, e então cuidaremos de seus ferimentos, tudo bem?

Eu apenas concordei.

† † †

Acordei ainda com a sensação de que estava pegando fogo e minha garganta estava tão seca que começava a doer. Tentei me sentar, mas braços pesados me manterão no lugar.

— Ei — reconheci aquela voz. — Não levante-se, pois esta cheia de queimaduras... Descanse, minha mãe está trazendo algo para você comer.

— Ah! — Murmurei, desorientada. —Obrigada.

Como o garoto dissera, a mulher que cuidara de mim na noite anterior surgiu, e com a testa franzida de preocupação ela colocou um pano molhado em minha testa, e me ajudou a tomar um suco de laranja, que vinha dentro de uma garrafinha. A bebida aliviou a dor em minha garganta.

— Descanse e se recupere, querida. — Ela sorriu para mim.

— Obrigada — sorri.

E acabei caindo no sono em seguida.

Eu estava perdida. Só podia ser isso. Nunca tinha visto aquele lugar. Eu estava correndo a horas e horas em uma velha arena de teatro, grega, e nunca achava a saída. O sol estava nascendo, e a luz fraca iluminava boa parte do local. E minha garganta estava voltando a ficar seca, e minha cabeça girava. Meus pés descalços doíam de tanto andar pelo chão cheio de rachaduras.

Vi um vulto em uma das portas que eu já havia entrado, e fui até lá, crente de que eu conseguiria sair por ali, mas senti alguém me pegar por trás. E algo parecido com uma lâmina gelada contra meu pescoço...

— Meu Deus! —Eu gritei, percebendo que tudo não se passava de um sonho muito, mas muito assustador.

Me levantei, grogue e mancando — enquanto tentava evitar colocar meu pé esquerdo tocasse o chão — quando estava prestes a sair do quarto atrás de algo para beber, quando percebi que a janela estava aberta. Soltei um suspiro, e manquei até lá. Inclinei-me para fora, sobre o parapeito, e uma brisa fria brincou com alguns fios de meu cabelo. Estava tudo escuro, exceto pela luz da lua que iluminava o suficiente para ver o jardim. Mas algo me assustou, fazendo-me afastar da janela.

Havia um vulto parado em pé ao lado da arvore mais próxima. E daquele local, o homem tinha uma visão completa do cômodo onde eu me encontrava, e eu não podia ver seu rosto, mas pela sua postura eu soube que era um homem. E ele continuou ali, de pé por mais alguns instantes e depois se virou em direção a casa vizinha e eu o perdi de vista.

Fechei a janela, travei-a e por prevenção fechei as cortinas e voltei para a cama. Me cobri com o cobertor até a cabeça, e tentei afastar tudo o que acabara de ver para voltar a dormir. Não foi nada fácil, mas depois de um bom tempo eu consegui.

† † †

Acordei me sentindo um pouco melhor, as dores estavam sumindo, e minha perna já não doía mais, me sentei na cama e me espreguicei, fazendo minhas juntas se estralarem.

Pela primeira vez eu observei o quarto onde eu me encontrava.

Era um quarto d menina, disso eu tinha certeza, pois as paredes eram pintadas de rosa-bebê, e as cortinas e moveis eram pink. E sobre uma penteadeira haviam um monte de produtos de beleza, de todos os tipos, e alguns kits de maquiagem. Havia uma prateleira acima da cama, cheia de livros e ursinhos de pelúcia. Virei, livrando-me dos lençóis e colocando os pés delicadamente no chão, percebi que o chão era coberto por um carpete também rosa, e deixei um gemido escapar por meus lábios. Como alguém conseguia gostar tanto de rosa?! Era um tanto atordoante ficar olhando para aquilo.

Quando eu estava perto da porta, me deparei com meu reflexo no espelho da penteadeira, e me examinei. Eu estava mais branca do que o normal, meu cabelos negros estavam na altura dos quadris, presos em uma trança bem feita. Vestia uma regata tão apertada que deixava meus peitos esmagados, e um short curto com o logo da GAP bordada em linha rosa na altura da minha coxa; e um dos meus pés eu calçava uma meia, e a outra perna e pé estavam cobertos por uma faixa até a altura dos joelhos.

— Só falta umas espinhas na cara e vão achar que você voltou a ser uma pirralha — riu o garoto que me ajudara, abrindo a porta. — Desculpa, minha irmã tem quinze anos... Essas roupas não devem estar fazendo nem um pouco o seu estilo, né?

Dei de ombros, e sorri para ele.

— Nem sei como vou agradecer vocês...

Ele revirou os olhos e estendeu a mão para mim.

— Acho que não nos apresentamos — sorriu ele.

Segurei a mão dele.

— Prazer, sou Elena — sorri.

— O prazer é todo meu, sou Jason.

— Jason! — Chamou a voz de uma menina do lado de fora do quarto. — Quantas vezes eu disse para mantes essas patas imundas longe do meu carpete?!

— Elena acordou — ele disse.

No segundo seguinte, uma garota com os cabelos escuros presos e os olhos verdes parecidos com os de Jason surgiu, e empurrou o garoto para o lado de fora.

— Dá licença que vou ajudar ela a se arrumar — reclamou ela, depois fechou a porta na cara dele, e sorriu para mim. — Sou Mia, e você é...

— Elena — sussurrei atordoada.

— Jason, pare de escutar a conversa e vá avisar a mãe que ela acordou! — Mia gritou.

— Ahn... Ok, vou avisar a mãe — ele sussurrou do outro lado.

Depois de tomar um banho quente, e de minha me fazer vestir um vestidinho de alcinhas e feito de algodão branco, e calçar um All Star de cano médio preto, ela percebeu que eu estava morta de fome quando minha barriga roncou, e ela deixou de tentar arrumar meu cabelo.

— Está com fome, não é? — Disse. — Acho que com um pouco de ajuda, consegue chegar lá em baixo.

Quando chegarmos a cozinha, fomos recebidas por um aroma divino que saia do forno; o meu estomago reclamou mas uma vez. Jason escutou o barulho, e ergueu uma de suas sobrancelhas, se divertindo, enquanto mais me ajudava a sentar em uma das cadeiras ao redor da mesa. Ele disse algo para a mulher que vigiava o meu almoço, e ela se virou para mim.

— Boa tarde...

— Elena — sorri, desconfortável, me sentindo um tanto tímida. —Obrigada, por tudo.

Ela sorriu, notando minha expressão confusa culpada.

— Disponha. Agora vamos ao mais importante — disse ela com um olhas penetrante, depois se virou e continuou a cozinhar. — Precisamos falar com seus pais, para lhes dizer que está tudo bem...

— Eu... não precisa fazer isso... — eu comecei a processar... Não estava me lembrando de nada, nada mesmo, então decidi falar: — Eu fugi de casa... Prefiro deixar eles fora disso, por... por favor.

Senti-me incomodada por estar pedindo mais isso para aqueles que estavam me ajudando. Mas se eu lhes dissesse que não me lembrava de nada, teríamos muitos problemas.

—Ah! — Ele me examinou novamente, por mais um segundo, mas em seguida voltou a mexer nas panelas. — Ok, mas tarde resolvemos isso... Está pronta para comer?

Assenti, sentindo meu rosto ferver, em seguida ela colocou um pouco de espaguetes a bolonhesa em um prato, e colocou na minha frente, e serviu um copo grande de Coca-Cola antes de gesticular impaciente.

— Vamos, isso não é hora de ficar com vergonha, você precisa se alimentar.

Peguei o garfo, sentindo os olhos dos três em mim, e comecei a atacar o espaguete. Quando eu estava quase no fim, vi Mia pegar três potes de sorvete de dentro do freezer, e os coloca sobre a mesa enquanto Jason pegava três colheres de sopa.

— Pronta para o sorvete? —Perguntou Mia.

— Não, obrigada, estou satisfeita — sorri arrumando os talheres ao lado do prato, pronta para me levantar e leva-lo até a pia, mas Jason me impediu.

— Deixe isso ai, precisamos conversar — ele disse, sério.

Notas finais
Obrigada, e espero que estejam gostando da fic! Por favor deixem sua opinião (aceito criticas, dicas e elogios, claro kkk).