Notas iniciais
Perder-se também é caminho.
Sakura Kinomoto
Frase de : Clarice Lispector

Capítulo 25 _ Falling In Love


Tomoyo

Ouvi todo o relato de Ichiro tentando imaginar o que Sakura passou nas mãos daquele monstro. Não consegui refrear as lágrimas quando ele me contou que Shaoram era o que mais sofria, pois apenas ele conseguia fazer Sakura sair e se tratar, e que além de tudo vinha todos os dias com ela para me visitar. Chorei em silencio por algum tempo sem ter o que dizer, a dor me afligia, pois eu sabia que Shaoram estava sofrendo por nós duas, e aquilo deveria estar o enlouquecendo.

_ Ele tem sido muito corajoso._ Disse Ichiro quando consegui me acalmar. _ Mantém Sakura segura, ajuda o Sr. Fujitaka a mantê-la no tratamento e tem conseguido manter-se firme com visitas a você e com longas conversas com seus pais. Vai perceber o quanto as coisas mudaram.

Olhei para o homem a minha frente e me senti grata por ele me dedicar tanta atenção. Sorri e assenti para ele. Ele segurou minha mão sorrindo e após algum tempo, não sei se por cansaço ou por medicação me senti sonolenta.

_ Hora da soneca... _ Ichiro me disse se levantando._ Aprenda uma lição comigo agora: Sono combate o câncer. Então trate de dormir para a senhorita melhorar logo combinado.

E assim no embalo dos aparelhos ligados a meu corpo, adormeci.


Sakura

Abro os olhos e enxergo aquele teto, cor de vinho com alguns detalhes em dourado. Sou até capaz de perceber o cheiro característico de carpete. O dossel da cama sustenta a cortina vermelha. Sinto o peso do meu corpo insustentável, o hálito de alguém em meu pescoço, a visão escurece e começo a sentir dor. A pele cheia de arranhados, meus seios expostos a mercê de beliscões e mordidas, pancada, apertões... Espero por alguém que nunca chega, e quando a dor está no auge acordo gritando a plenos pulmões, encharcada de suor frio. Minha família chega, mas não vejo seus rostos, eles são apenas vultos em minha mente, não os deixo tocar minha pele, ela arde.

_ Sakura-chan...

Aquela voz familiar já me acalma... Passos apressados sobem a escada de minha casa. E sinto a expectativa tomar conta de mim.

_ Shhhhh... Calma, estou aqui calma...

Não havia percebido que estava chorando e me debatendo daquele jeito, paro assim que ouço a voz... Ele está do meu lado, sua voz não passa de um sussurro. Ele continua falando palavras tranquilizantes, e meus tremores vão passando.

_ Traga o remédio dela Touya-kun.

Ouço alguém dizer, mas logo me esqueço e presto atenção na voz tão linda me dizendo que está do meu lado. Olho para ele e enxergo o fundo de seus olhos âmbares me encarando de volta. Era ele... O cara que eu amava!

_ Tome seu comprimido Sakura-chan... E depois iremos jantar.

Engulo o remédio seguido de água, obedecendo à voz maravilhosa.

Sinto-me confusa quase o tempo todo, nervosismo, mal consigo comer, não consigo falar. Parece que existe algo em minha pele que me dá vontade de arrancá-la. Algo que me causa vergonha. Percebo o olhar aflito de meu pai pra mim, e aquilo me assusta... Flashes do sonho vêm e vão em minha mente, não consigo me lembrar como era antes e não entendo o porquê de ser assim agora. Eu sabia que era tudo diferente, mas não consigo me conectar. Os dias viram noites, e as noites viram dias, não tenho perspectiva de tempo, só espero a manhã chegar. Pra com ela, chegar também o dono dos olhos que eu amo.


Tomoyo

Era tarde, e sinto minhas pálpebras pesadas sobre meus olhos, estava tão sonolenta ultimamente e mal conseguia me mover.

_ Ela está acordada? _ Uma voz conhecida me retira do meu estado sonolento. A pessoa que falava se aproxima de mim.

_ Não acredito, ainda está sob efeito de sedativos. Mas pode ser que ela desperte.

Outra voz, dessa vez mais próxima diz a meu lado. Sinto que alguém segurando minha mão. E aperto de leve para indicar que podia ouvi-lo, e que estava feliz em vê-lo.

_ Tomoyo-chan... – Ele sussurra pra mim. _ Está acordada?

Lentamente abro meus olhos para encarar meu melhor amigo. Sentado na cadeira ao lado de meu leito.

_ Bem vinda de volta. _ Ele diz num sorriso fraco. _ Como se sente?

Não respondo instantaneamente, pois meu olhar encara a outra pessoa ao lado de Shaoram, magra e pálida, os olhos fixos em suas mãos, o cabelo sem vida, o corpo encolhido. Não podia ser... Não era a garota que eu amava.

_ Sakura-chan?

Minha voz fraca saiu pouco mais alta que um sussurro. Ela me olha assustada e volta a encarar seus joelhos.

_ Ohayo Tomoyo-chan...

Olho aflito para Shaoram, que corresponde meu olhar, beirando as lágrimas. Mas sorri me encorajando.

_ Sentimos sua falta Tomoyo-chan...

Ele me diz sorrindo confiante. Percebo novamente o contato com minha pele e sobressaltada sinto a mão de Sakura sobre a minha e a de Shaoram. Ela ergue um pouco a cabeça e diz:

_ Não se preocupe comigo, eu vou melhorar.

Em seguida tira a mão rapidamente, com evidente agonia no olhar e volta a encarar nossas mãos acima da cama.


Sakura

O sol já estava alto, e eu ainda não queria sair de casa. Eu tinha medo de algo. E não sabia o que era. Olhava para a janela por horas tentando desvendar o que estava por trás daquela dor que eu sentia. Buscava na minha memoria as peças. Mas o que via era somente o sonho, o sonho e o monstro que estava nele.

Debrucei-me sobre meu travesseiro esperando ele chegar. E como sempre ele veio. Ele chegou perto de minha cama e me disse:

_ Bom dia meu amor... Como se sente hoje?

Eu queria entender toda aquela dedicação dele comigo, mas eu não... Eu me lembrara de algumas coisas. Lembrei-me dele segurar minha mão. Lembrei-me do cheiro do perfume dele ficar grudado na minha roupa quando ele me abraçava e me lembrei do beijo dele. Mas porque eu não conseguia mais nada daquilo. Assim como não podia abraçar meu pai e meu irmão e nem Usagi-chan, a casca na minha pele parecia endurecer, e eu não conseguia arranca-la. Eu me feria às vezes tentando arrancar, mas quando olhava não existia nada... Eu queria dormir, mas tinha medo do monstro em meu sonho.

_ Sakura-chan... Hoje é o casamento de Usagi. Precisamos ir até lá.

Olhei confusa para ele, como assim casamento?

_ Eu sei amor, você não se lembra... Mas mesmo assim. Ela vai adorar ter você lá.

Olhei pra ele alinhando meus pensamentos. Ele tinha de ouvir. Eu queria que ele...

_ Shaoram-kun??

Minha voz saiu diferente do que eu esperava. O rosto dele se iluminou, como se eu tivesse dito uma coisa extraordinária. Olhou pra mim e chegou mais perto.

_ Sakura-chan, está me reconhecendo? Sabe quem eu sou?

_ Mas é claro... _ Eu disse confusa_ Eu sei desde sempre...

Ele sorriu com os olhos marejados, o que me deixou confusa. Eu não queria fazê-lo chorar.

_ O que está acontecendo? Eu te magoei...

Meu nervosismo estava à flor da pele.

_ Não, é só que... É a primeira palavra que você diz desde...

Algo na minha cabeça me alertou sobre o perigo. Comecei a ficar agitada e minha pele ardeu novamente.

_ Sakura, se acalme, tá tudo bem. Nada vai acontecer com você.

_ É só que... Arde!

Ele me olhou confuso. E continuou a meu lado esperando alguma coisa. E então passei a olhar a janela novamente. O sol estava alto!


Tomoyo

Assim que Shaoram e Sakura deixaram o hospital, novamente senti uma vontade tremenda de dormir. Ichiro-kun entrou logo em seguida com os médicos, que pós me examinarem por disseram que eu estava bem e que eu poderia ficar no quarto. Porem ainda ficaria entubada por causa dos pulmões. Fui levada para o antigo quarto onde ficava, insisti em ficar de pé e andar um pouco. Coisa que pelo que percebi parecia extremamente errada, visto que minhas pernas não tinham força. O que Ichiro explicou era devido ao desuso. Iria começar a fisioterapia na manha seguinte. Sentei mais confortavelmente na cama e fitei meu rosto no espelho. E para meu assombro, estava irreconhecível.

Os poucos cabelos que eu tinha, estavam extintos. Não havia um fio se quer. O que julguei deveria ter sido mais cômodo devido a meu tratamento, também não tinha mais cílios. Meus olhos estavam fundos, e arroxeados pelas olheiras. A boca branca e rachada. Minha magreza muito evidente, os ossos se sobressaiam na pele de cera. Fiquei algum tempo me olhando até que Mairi-chan entrou no quarto com meu primeiro jantar após o coma.

Senti-me fraca de repente. E pensei em Sakura. Em Shaoram... Não sabia o que fazer. Estava ainda mais perdida. E foi então que rezei, rezei com todas as forças que me restavam para que algo mudasse. E que se nossa sorte fosse mudar que acontecesse logo.


Sakura

Mais um mês havia se passado. E eu já me sentia mais eu mesma. Porém a sombra ainda me perturbava. Eu tinha medo dos olhos das pessoas. Não conseguia encarar ninguém. Meus amigos e familiares vinham me visitar com frequência, mas eu não falava com ninguém. Ainda me sentia assustada quando se moviam muito rápido perto de mim. Minha pele parecia não arder mais, mas ainda havia alguma coisa que eu tentava impedir qualquer um de toca-la. Inclusive sem querer. Passei a protegê-la do contato. Estava frequentando a terapia fora de casa. E mesmo que o médico me fizesse muitas perguntas, eu respondia quase sempre com acenos de cabeça. Eu desenhava muito, e lia alguns livros para me distrair. Qualquer coisa que me livrasse do sonho. O sonho, este era cada vez mais frequente, e mais real... As vezes eu me perguntava se ele não acontecera mesmo e porque ninguém me contava o que havia acontecido comigo.

Contava os minutos para ver Shaoram, e quando ele me deixava. Eu me sentia estranhamente vazia. Lembrava-me de algumas coisas, de uma menina de longos cabelos negros falando uma língua estranha, me lembrei de chorar, de uma festa numa casa estranha... E havia mais alguém... Sempre que acontecia de me lembrar, vinha à sensação de náusea e dor. Eu estava confusa e desolada. Sentia-me triste com frequência e tinha vontade de morrer, mas algo me mantinha firme, algo me dava fé. A certeza de que “ele” voltaria na manhã seguinte.

Tomoyo


Eles sempre vinham para me visitar. Sakura estava melhorando gradativamente. Mas nada a fazia se lembrar do que havia acontecido naquela noite. Tinha vezes que eu pegava seu olhar perdido e tanto eu quanto Shaoram nos pegávamos preocupados com a possibilidade de ela nunca se curar. Nos raros momentos em que ficávamos sós ele me confessava.

_ Às vezes eu penso que ela se perdeu de quem era ela sabe Tomoyo, e que talvez por sua pureza e nobreza de espirito ela evite se lembrar de tudo aquilo porque não quer acreditar que aconteceu. O inglês pode não ter abusado de fato dela, mas roubou a inocência que ela tinha a vontade de ter este contato por amor, por vontade própria. Usagi não foi tão afetada na época, porque ela já tinha se acostumado às insistências do desgraçado, mesmo que ela tenha se abalado, Usagi conseguiu se reencontrar. Sakura-chan não teve a mesma reação, acho que ela mente pra ela mesma. Acho que a mente dela bloqueia isto para impedi-la de aceitar que um amigo a qual confiava a machucou.

Sentia-me abalada pelo estado de Sakura. Sentia-me estranhamente responsável por não ter contado a ela sobre Eriol antes, assim como Usagi acreditava ser culpa dela a doença da prima.

_ Eu errei muito Tomoyo-chan, e o meu erro custou à sanidade de minha prima. Ela agora vive como um zumbi por minha culpa. MINHA CULPA. Se eu não tivesse entrado na vida de vocês ela estaria saudável e linda. Eu deveria ter morrido afogada naquele lago.

“NUNCA MAIS DIGA ISSO” escrevi em letras garrafais para ela. “E trate de se acalmar, não vai fazer bem para a Yuri.” Esse era o nome de chibi-usagi.

Assim os dias foram se passando, e eu continuava internada sem perspectiva de mudança, meu quadro havia se estabilizado e a busca por uma medula compatível continuava. Mas o tempo estava se esgotando, e ainda havia a possibilidade do câncer continuar a se metastesear pelo meu corpo. Então mudança veio de repente. Assim como o inverno torna-se primavera.



Notas finais
Ohayo Minna-san...
Sentiram minha falta? É prova do ENEM e estudos intensivos me puseram fora do ar por uns tempos. E como vão vocês?
Bem galera, esse capítulo foi bem especial, porque relata o que a Sakura passou desde o episódio com Eriol e ao mesmo tempo narra o retorno da Moyo do Coma. O Shao não apareceu neste capítulo porque ele vai relatar a volta da Saki, siim ela vai se recuperar e de uma forma muito especial. Assim como está por vir nos proximos capitulos, o nascimento de Chibi Usagi ( Yuuri), o desfecho entre Sakura e Shao e a conclusão da história de Tomoyo. A fic já está terminada e irei postar os capitulos finais antes do dia 21 de dezembro de 2012 ( Fim do mundo). o0 kkkkkkkk Brincadeira, mas antes do ano acabar vocês conhecerão do fim dessa história. Assim aguardo vocês aqui em baixo com suas dúvidas,aflições e magoas de sempre ( que eu com prazer irei responder) .
Nos vemos aqui embaixo então...
Beijos da Bell-chan ^^
Notas:
* Pra quem sentiu falta do Shao, saibam que ele também está morrendo de saudades.
Nota Shao:
Minhas lindas, amo vocês. No próximo capitulos estaremos juntinhos novamente! ol
ObG! ^^