Falling
2 Repentino
Notas iniciais
Ouvir musica é uma coisa que eu tenho feito bastante ultimamente. Carie já não me vê com tanta frequência há dois meses. Eu realmente não sei o que está acontecendo, porque eu não mudei em nada, já ela... Sempre colocando a culpa em mim de tudo que acontece.
– Roland, Leslie está ai. – disse minha mãe ao bater na porta de meu quarto.
– Fala que ela pode entrar.
– Na verdade, ela já está aqui – riu.
– Oi, Land! – disse Leslie, atrás de minha mãe.
– Vou deixar vocês conversarem.
Leslie entrou e minha mãe fechou a porta atrás de si.
– Não diz que te contei, mas ela me ligou...
– Por que ela fez isso? – franzi o cenho.
– Ela está preocupada com você. Por que está trancado no quarto a três dias?
Fiquei esperando a risada de deboche vindo dela, mas isso não aconteceu. Havia muito tempo desde que Leslie falou comigo tão séria.
Ela tinha aqueles olhos que liam além do que eu deixava transparecer. Em parte eu adorava isso, em outra odiava, porque eu nunca conseguia esconder nada dela, por mais que quisesse.
– É a Carie de novo, não é? Eu já te disse que ela não presta Land.
– Por que diz isso sempre? Por que diz com tanta certeza?
– Nós já tivemos essa conversa. Eu conheço o tipo dela.
– Que tipo Leslie? Eu amo ela. Amo de verdade, e você fica repetindo isso e... – não sabia o que eu queria realmente dizer, só sei que não consegui terminar.
Lágrimas ardentes estavam em meus olhos de novo. E como elas me irritavam. Leslie, que estava sentada aos pés da minha cama, se aproximou.
– Não! – eu odiava chorar na frente dela. Odiava me sentir fraco.
– Land. Me conta o que está acontecendo. Você tá evitando o assunto “Carie” faz um tempo já.
Eu queria muito mesmo falar sobre isso com ela, a pessoa que eu mais confiava em todo mundo, mas ela não gosta de Carie, o que me leva a pensar que ela sempre, não importa o que seja que eu fale de Carie, vai olhar da forma negativa da situação.
– Conheço esse olhar. Roland Sparks. Fale. Eu prometo que vou deixar de lado essa coisa de eu não gostar da Carie. – Não disse que ela vê através de mim?
– Ok, ok. Vou falar. – fiz uma pausa — Ela não quer mais me ver... Sempre tem uma desculpa... Ela está estranha Leli, e eu não sei a razão disso tudo. Eu não sei o que eu fiz, porque pra ela eu sempre faço algo. Eu não mudei, estou dando o meu melhor, e ela não parece ver! – eu falava como quem suplicava.
Eu suplicava por alguém que me mostrasse à causa de toda essa bagunça na minha vida. Queria tanto que Leslie tivesse as respostas!
– Land. – ela me olhou de um jeito estranho, parecia quase incomodada. – Vamos sair.
– Quê? Por quê? – eu estava confuso.
– Porque sim. Você tá precisando. Vamos ao bosque.
– Ok... – disse mesmo confuso.
Abri meu guarda roupas e peguei um casaco. Vesti e descemos as escadas.
– Mãe, vou sair com Leslie, não demoro, ok? – dei um beijo em sua testa, não dando tempo para perguntas.
Peguei minhas chaves e saímos.
– No que está pensando? – dei um empurrãozinho no ombro de Leslie.
Ela me olhou como se ainda estivesse perdida em seus pensamentos.
–Leli? Você tá bem? – chacoalhei seus ombros dessa vez.
– Ahn? Ah, sim, estou bem.
– Você tá estranha, isso sim. Sua estranha. – ri.
Ela riu também, só que não do jeito que eu esperava. Era como se ela é quem precisasse ser consolada agora, não eu.
Então a peguei pelas pernas e a joguei em minhas costas.
–ROLAND! ME SOLTA A-G-O-R-A! QUAL É O SEU PROBLEMA? – ela parecia realmente irritada. Sim, ela estava estranha mesmo.
– Você triste Leslie, é esse meu problema no momento. Mas se for ficar agindo assim toda vez que eu tento te animar, eu paro.
Sua expressão passou de raiva para confusão, e disso, para culpa em segundos.
– Não! Olha, me desculpe, ok? Eu só estou com a cabeça cheia.
– Cheia de que?
– Esquece. O foco aqui é você, lembra? – ela desconversou – E ai, quando você vai me deixar dar uns murros na Carie?
Fiz uma careta para ela, e ela riu. Finalmente de um modo que eu gostei.
– Brincadeirinha Land, sabe que sou paz e amor – riu de novo.
Aquilo me distraiu um pouco de Carie, e eu ri com ela.
Leslie era baixinha, tinha cabelos pretos, um pouco abaixo dos ombros, usava óculos (o que a deixava a coisa mais fofa, diga-se de passagem) e era uma pessoa doce quando queria, mas também complicada de lidar. Tinha olhos castanhos que me consolaram varias e varias vezes, quando eu mais precisei, e até quando eu não mereci. Conheci Leslie na escola, há três anos, na minha turma de inglês. Desde então tentamos ter sempre os mesmos horários. Ela é muito tímida, o que é ainda mais cativante nela. Ela odiava Carie desde o inicio, e o sentimento era recíproco, mas nunca disse isso a ela.
Depois de ficarmos sentados um pouco no bosque, senti meu celular vibrar dentro do bolso.
– Alô? – atendi sem ver o número, ainda rindo da piada que Leslie tinha acabado de me contar.
–Roland?
– Carie? Oi. – desanimei um pouco. Lembrei-me do que estava acontecendo e a tristeza me tomou novamente. Leslie fechou a cara.
– Nossa. Onde você está? Estou aqui na sua casa, quero conversar.
Leslie fingiu estar vomitando.
– Quem está ai com você? – disse um pouco irritada.
– Leslie.
A ouvi bufando do outro lado da linha.
– Tem como você vir aqui pra gente conversar? – não parecia um pedido, era mais uma ordem.
– Tem. Estou indo. – desliguei.
Leslie revirou os olhos.
– É sério que você vai me deixar aqui pra ir falar com ela?
– Leli, seja boazinha.
– Não, Roland, já fui boazinha demais. Vai lá com ela. Tchau.
Ela se levantou com raiva, limpou a roupa e saiu batendo os pés.
E todos aqueles momentos antes da ligação pareciam que não tinham acontecido. Além de Carie estar estranha comigo, agora Leslie estava brava comigo também. Era só o que me faltava.
***
Peguei minhas chaves e abri a porta. A casa estava muito silenciosa. Minha mãe estava na sala, assistindo TV.
– Mãe, Carie está ai?
– No seu quarto, filho.
Subi rapidamente as escadas. Abri a porta do meu quarto. Ela estava sentava na minha cama, olhando para o porta retrato na minha mesinha de cabeceira que tinha uma foto nossa.
– Oi. – foi o que ela disse.
Sentei ao seu lado. Ela estava linda. Incrivelmente linda.
Carie tinha cabelos loiros escuros, olhos castanhos e pele bronzeada. Estava com o cabelo ondulado, os lábios levemente rosados, assim como suas bochechas. Seu vestido era florido, o meu preferido.
Sentei ao seu lado.
– Hm, oi...
– Precisamos conversar.
Apesar de mil coisas ruins terem passado por minha mente naquele momento, com apenas aquelas simples palavras... Ainda sim, quis dar ênfase no que era bom ali.
– Você está linda. Muito linda. – tentei pegar sua mão, mas ela a puxou de volta.
– Roland. É sério.
– Mas eu estou falando sério.
– Olha... Eu não queria que as coisas fossem desse jeito, mas... – ela deu um suspiro longo, uma pausa – Acho que nós... Nós não damos certo mais. – ela me olhou no fundo dos olhos, como se quisesse ler minha mente.
Ela estava vazia. Eu não sabia o que pensar. Olhei ao redor, tentando buscar algo para dizer, mas não sei se havia algo para ser dito ainda. Então ela continuou:
– O problema não é com vo...
– Não. – a interrompi. – Não faça isso. Não piore.
– Land, me desculpe... – agora foi ela quem tentou segurar minha mão.
– Por que, Carie? Só me diz isso.
– Eu... Eu... Land, por favor, não torne as coisas piores para mim.
– Para você? Carie! Você não vê? Fui eu quem ficou sem respostas nesses dois últimos meses, em que VOCÊ me culpava por tudo, VOCÊ que mudou sem nenhuma explicação!
Eu nunca havia gritado com Carie. Eu só não entendia. Eu estava confuso, meus pensamentos passavam tão rápido que eu não os conseguia assimilar.
Ela ficou quieta, ouvindo minha respiração irregular e meus punhos fechados. Por fim, me acalmei.
– Vá embora, por favor.
– Me desculpe Land, mesmo. – e saiu. Simples assim.
Parecia fácil para ela.
***
Depois de uma hora inteira olhando para o porta retrato com uma foto sorridente de mim e de Carie, decidi que era hora de me desculpar com Leslie.
Não quis ligar, porque a conheço e sei que ela não me atenderia. Fui a pé até sua casa e bati à porta.
– Sra. Martin, Leslie está?
– Olá Roland, bom ver você. Está sim, lá no quarto, vou chamá-la, entre.
– Não, não, não! – falei um pouco rude demais – Será que eu poderia ir até lá? É que... – estava tentando pensar em uma desculpa, mas não consegui pensar em nada, então disse a verdade – Ela esta chateada comigo, vim me desculpar. Se for chamá-la ela não vai querer me ver. – a olhei da forma mais suplicante que consegui.
– Tudo bem, pode subir, sabe onde fica – riu.
Subi e bati a porta, mas não esperei uma resposta. Não devia ter feito isso, Leslie estava deitada só com uma camisa e de calcinha em sua cama. Fechei rapidamente a porta.
– ME DESCULPE! – disse.
– Seu idiota! – disse com ódio em sua voz.
– Foi sem querer!
– Ninguém abre uma porta sem querer, idiota!
Droga, ela estava com muita raiva mesmo.
– Leli, olha, quero pedir desculpas, não devia... – ela abriu a porta, agora devidamente vestida, mas ainda sim não deixei de olhar suas pernas para checar. Tinha colocado um short.
– Não devia mesmo. – me olhou com desprezo.
Aquilo realmente me atingiu, porque eu estava ali para me desculpar, e para pedir apoio, de novo, pois Carie havia terminado comigo, mas a única coisa que eu queria agora era dar meia volta e sair dali. Não aguentava ela me olhando assim. Já não bastava Carie me olhando com pena quando terminou comigo?
– Olha Leslie, vim pedir desculpas, não devia ter te deixado e ir correndo falar com Carie, mas eu precisava. Eu sinto muito. Parece que você não me quer aqui e nem quer saber o que ela queria comigo, então vou fazer o que é de sua vontade. Vou embora, tchau. E de novo, sinto muito. – meus olhos estavam úmidos.
Quando me virei para descer as escadas novamente Leslie segurou meu braço.
– Desculpe Land. Eu sei que precisava fazer isso... Alias, era por isso mesmo que eu estava lá, não é mesmo? Porque você estava mal pela Carie. E se ela queria explicar o porquê de estar assim eu não devia ter ficado brava. – ela parecia imensamente culpada.
Seus olhos já não tinham mais raiva, seu corpo já não estava mais tenso, como se fosse me dar um soco a qualquer momento. E de novo senti que não era eu que precisava ser consolado ali, e sim ela.
A abracei fortemente, encaixando meu queixo no topo de sua cabeça. E ela começou a chorar.
– Ei, ei, ei, ei, shhhhh. O que aconteceu?
– Eu... Eu... Ah, Roland. – ela não conseguia falar.
Abri a porta de seu quarto e a coloquei na cama. Deitei ao seu lado, sem saber o que fazer. Coloquei sua cabeça em meu peito, segurei sua mão, e com a outra fiz cafuné em seu cabelo.
– Vai ficar tudo bem, Leli, você vai ver.
– Mas você nem sabe o que está acontecendo! – disse em meio ao choro.
– E não importa, sei que no fim tudo ficará bem.
Ficamos num silencio amigável por um tempo, só ouvindo sua respiração irregular e seu choro irem acalmando. Depois que ela parou de chorar me sentei ao seu lado e limpei suas lágrimas.
– Vai me contar o que está acontecendo agora?
– Acho que é a TPM Land, não se preocupe. Estava ouvindo uma musica triste antes de você chegar e me pegar só de calcinha aqui – riu.
Aquilo soou estranho. Não pela ultima parte sobre como peguei ela de calcinha, porque já havia visto isso uma vez (que ela não sabe, e que também foi sem querer), e não foi estranho da outra vez também, porque nos conhecíamos há bastante tempo, éramos melhores amigos, não tínhamos essas estranhezas um com o outro, mas sim porque aquilo parecia uma mentira. Mas não entendo nada de TPM, então deixei isso pra lá. Pode ser só coisa da minha cabeça.
– Me desculpe por aquilo. Foi idiotice minha entrar sem esperar você responder! – ri junto com ela, sabendo que ela já tinha me desculpado.
– Foi mesmo – riu mais ainda. Mas logo seu riso se perdeu e ela ficou séria de novo. – Land. Me desculpe mesmo pela birra boba. O que Carie queria?
– Não precisamos falar sobre isso – me senti estranho – Vamos comprar sorvete pra você e assistir filmes que você adora assistir quando tá de TPM! – imitei algo parecido com animação o melhor que pude.
– Eu me viro depois – não funcionou – O que importa agora é você. O que aconteceu lá?
Ficamos nos olhando por um bom tempo. Ela não estava impaciente, como alguém que só tinha curiosidade ficaria. Ela queria realmente saber o porquê Carie precisava falar comigo com tanta urgência, e porque eu não queria falar sobre isso.
– Ela terminou comigo. – falei, enfim.
– Simples assim? – sua voz se alterou – Terminou com você?
– Sim – não sabia o que devia dizer.
– Ela é uma idiota maior do que eu pensava.
– Por favor, Leslie – pedi.
Apesar de eu ser a pessoa que mais deveria estar bravo ou algo assim com Carie, eu não estava, e não queria insultar ela, e não queria que Leslie a insultasse. Só queria entender o que eu fiz para isso acontecer. E queria consertar.
– Desculpe. Mas ela explicou o porquê disso, pelo menos?
– Não, ela só disse que nós não dávamos mais certo.
Ela não disse mais nada, ficou apenas me olhando daquele jeito dela, lendo meus pensamentos. Eu queria apagar, sumir, ou algo assim, só pra fugir disso.
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