Falling
3 Vestido florido
Notas iniciais
Passaram-se quatro dias desde que Carie terminou comigo. E eu ainda não conseguia acreditar. Ela não retornou minhas ligações, minhas mensagens de texto e meus e-mails. Nada. Ela não deu mais sinal de vida.
Eu conheci Carie numa festa que teve no ano passado, de um amigo. Costumava ser meu melhor amigo, mas nossos caminhos se separaram.
Ela estava linda, assim como no dia que terminou comigo, com aquele vestido. Esse era o motivo de ele ser meu preferido, foi com ele que a vi pela primeira vez.
***
Ela tinha os cabelos na altura do queixo, o que a deixava com um ar angelical, por serem ondulados e loiros. Estava em sua roda de amigas, parecia ser a líder do grupo. Eu não me enturmei muito bem com as outras pessoas que estavam na festa, fiquei só sentado na minha, bebendo um pouco.
Fui até a cozinha da casa para pegar algo para comer, e quando voltei para onde estava sentado e a menina do vestido florido estava sentada lá.
– Oi – sorriu lindamente para mim.
– O... Oi – gaguejar não estava nos meus planos. Idiota!
– Hm, bem, posso me sentar aqui com você?
– É claro! – pelo menos não gaguejei, mas ainda sim me senti idiota.
Ficamos num silencio constrangedor por uns minutos, até que ele o quebrou.
– E de onde você é? Nunca tinha te visto.
– Bom, não sou aqui desse bairro, mas sou amigo de infância do Jeff.
– Ah, é mesmo? – ela parecia animada por eu ter nos dado assunto.
– Sim. – ri – E você? É amiga do Jeff também?
A olhei melhor. Tinha olhos castanhos. Profundos. Ela riu para mim, e suas bochechas estavam coradas.
– Não, na verdade, comecei a estudar com ele essa semana. Me mudei para cá não faz muito tempo. Não tive problemas em me enturmar, e as meninas são amigas dele...
– Ah, entendo.
Olhei para as meninas, elas olhavam fixamente para nós, mas desviaram o olhar logo que as olhei.
– Quer beber alguma coisa? – vi que suas mãos estavam vazias.
– Quero sim – sorriu.
Fomos até a cozinha, e ela pegou minha mão. Senti seu aperto quente, fazendo formigar onde nossas peles se tocavam. Ela continuou me puxando, até que estivéssemos fora da casa. Paramos embaixo de uma árvore.
– O que aconteceu? – disse confuso.
– Estou te olhando desde que cheguei aqui e simplesmente não consigo.
– Não consegue o... – e ela me interrompeu.
Chegou perto tão rápido que eu nem consegui entender o que estava acontecendo. Ela me beijou com desejo, e eu pousei as mãos em sua cintura. Estava ficando quente. Até que ela parou, tão de repente quanto começou. Olhou para trás, e suas amigas estavam ali. Tinham a chamado? Eu não ouvi.
– Carie, onde você estava? – perguntou uma menina um pouco maior que Carie, com cabelos castanhos na altura do ombro. Um ar arrogante, nariz arrebitado e olhos grandes, que me analisavam. Ela parecia um pouco irritada com Carie, mas não prestei muita atenção, não conseguia parar de olhar Carie.
– Aqui mesmo Becca. Com...? – ela se virou para mim novamente.
– Roland. – disse e continuei paralisado.
– Com Roland. – ela sorriu, e eu me encantei. Quase fui a beijar novamente. Ela virou e falou com sua amiga novamente, o que me fez acordar – Aconteceu alguma coisa?
– Maree não está bem, quer ir pra casa.
Maree devia ser a outra menina que estava com ela. Ela era um pouco menor que a primeira... Becca. Tinha cabelos compridos, bem compridos, e castanhos. Tinha uma beleza exótica e muito boa de olhar. Parecia uma modelo, para ser mais exato. Tinha lábios carnudos e olhos que lembravam os dos felinos. Não consegui identificar a cor deles, pois estava escuro. Fora isso ela parecia enjoada.
– Maree, você está bem? – havia preocupação na voz de Carie.
E então Maree desmaiou. Becca e Carie se olharam, em pânico. E depois olharam pra mim. Eu ainda estava paralisado pelo beijo de Carie, com seu perfume enevoando minhas ideias.
– Faça alguma coisa! – disse Carie, meio desesperada.
– Ahn, claro, claro! – fiquei confuso, mas a peguei no colo – Onde eu a levo?
– Para o carro! – como se eu soubesse onde ele estava.
Todos estavam muito nervosos, algumas pessoas que estavam em frente à casa de Jeff também ficaram preocupadas, outras só curiosas.
Becca abriu a porta de um carro prata. Coloquei Marie no banco de trás. Percebi que meus olhos estavam arregalados e minha pulsação estava acelerada.
***
– ROLAND, O QUE ESTÁ FAZENDO? – ouvi a voz irritada de minha mãe.
Olhei para baixo e vi que estava derramando o leite que estava colocando numa tigela de cereal. Levantei a caixa rapidamente.
– Droga!
– Onde está com a cabeça?
Peguei o pano que estava numa gaveta e comecei a limpar.
– Hein Roland?
– Mãe, me deixa – fiquei irritado por não conseguir tirar as lembranças de Carie da minha cabeça sequer um dia.
Limpei e subi para o meu quarto, sem comer o cereal mesmo. Soquei meu travesseiro. Ela ainda não me deu uma explicação de verdade. Com a lembrança desse dia, em que a conheci, tive uma ideia. Tirei meu pijama e coloquei uma roupa. Eu ia ver Becca.
– Mãe, vou ver uma amiga.
– Leslie?
– Não mãe, uma amiga de Carie.
– Ah.
Por um momento pensei que ela ia dizer algo como “você não devia se torturar dessa forma” ou algo assim, mas ela ficou me olhando com a mesma pena que eu era olhado por todos. Mas ela não o fez. Felizmente. Eu já não aguentava mais ouvir as pessoas me dizendo que eu tinha que seguir em frente, que tudo ia ficar bem. Eu queria saber o porquê de eu precisar seguir em frente. Isso sim.
Peguei as chaves do carro e sai. Quando entrei no carro foi quase imediato o choro. Vinha do fundo do peito, eu não aguentava. Chorei desesperadamente por alguns minutos, até ver que ainda estava parado na garagem. Dei partida e segui até o colégio onde Becca estudava. Não sabia onde ela morava.
Cheguei até lá e fui até a secretaria, falei que precisava falar com Becca Grand, que sua mãe tinha me mandado dar um recado. Fui convincente. Alguns minutos depois Becca estava na secretaria.
– Quê? Roland? O que faz aqui? Por que minha mãe te mandou aqui? – ela parecia muito confusa.
– Não foi sua mãe que me mandou aqui. – falei baixo – Vim falar sobre Carie...
– Me poupe Roland. Vá falar com ela. – se virou para sair.
– Não, não, não! – segurei seu braço.
Ela olhou minha mão e eu a soltei.
– Desculpe. É que... É que ela não quer falar comigo. Eu tentei. Você sabe por que ela terminou comigo?
– Sei, mas isso não é da minha conta. Eu nem sequer gosto de você, porque te diria?
– Porque estou te pedindo. Por favor, Becca! Pelo menos fale para ela me ligar de volta!
– Falarei, mas isso não quer dizer que ela vá ligar.
– Mesmo assim, não custa tentar. Obrigado por isso. – falei, realmente agradecido.
Ela me olhou com desprezo e saiu sem dizer mais nada.
Voltei para casa, com uma chama de esperança, checando o celular toda a hora. Lembrei que não fui à escola hoje. Droga, Leslie vai me esgoelar. Minha mãe estava aliviando o meu lado, por isso tudo ter acontecido, sei disso. Mas eu me esqueci completamente que tinha aula hoje, só me lembrei depois de sair do colégio de Becca.
Acho que agora a aula já tinha terminado, então liguei para Leslie.
– Oi Leli! Me desculpe, esqueci completamente da aula hoje!
– Você esquece de vim para aula numa segunda-feira?! Que tipo de pessoa você é? – riu – Agora, como recompensa por ter me deixado sozinha naquela sala adorável, vai ter que vir me ver.
– Ok, que horas posso ir? – pelo menos ela também estava aliviando o meu lado.
– Se quiser vir agora – riu – Estou assistindo aqueles filmes pra TPM e tomando sorvete.
– Opa! Como posso perder uma coisa dessas? Já chego ai – desliguei, mas antes ouvi sua risada alta.
Ficamos algumas horas assistindo os filmes preferidos dela, ou melhor, ela assistiu e eu fiz cafuné nela. Não consegui prestar atenção em todos aqueles filmes românticos e tristes nesse momento.
Do nada Leslie levantou e ficou muito irritada.
– Que foi Roland? Vai ficar assim por causa dessa garota pra sempre?
– O que eu fiz? E só faz quatro dias, alias.
– Eu estava empolgada contando pra você que a professora de química pirou legal com os alunos hoje, e você tá ai, parece que vegetando!
– Desculpe. – foi só o que consegui pensar em dizer.
– Essa garota é muito... – olhou pra mim e pensou melhor – Quer saber? Vou ligar pra ela. Me da seu celular.
– Ela não vai atender, eu já tentei. E se for pra ofender ela, esquece.
– Você não manda em mim. E eu vou ligar do meu celular.
Ela pegou o celular antes que eu conseguisse impedi-la, e correu para o corredor. Discou o numero dela, e adivinha: Ela atendeu!
– Alô? – ela esperou a resposta – Escuta aqui Carie – falou o nome com repulsa – Ele não é seu brinquedinho, que quando você cansa de brincar você joga fora! Da pra parar com isso? Fala logo pra ele do... – olhou para mim com espanto – Só fala. Você é uma vadia. VADIA! – e desligou.
– O que foi isso? Falar de quem pra mim? Do que você estava falando, Leslie? – agora eu estava irritado.
– De nada. Isso é assunto de vocês.
– Leslie!
– Não vou falar. Não adianta. Pode ficar bravo comigo, eu não vou fazer isso.
– E é justo eu ser o ultimo a descobrir o porquê de o meu namoro ter acabado?
– Eu não vou fazer isso! – gritou, com lágrimas nos olhos.
Me virei e fui embora. Era a segunda vez essa semana que eu e Leslie brigávamos por causa de Carie. Isso não era justo!
Cheguei em casa batendo as coisas. Bati a porta do carro, joguei as chaves na bancada, subi as escadas batendo os pés nos degraus, e bati a porta do quarto. Soquei de novo meu travesseiro, e dessa vez a parede também. Machuquei minha mão quando fiz isso. Minha mãe veio correndo, assustada, até a porta de meu quarto.
– Filho! O que esta acontecendo?! – falou angustiada.
– Nada mãe. Me deixa em paz!
Acho que ela ficou mais um tempo atrás da porta, mas desistiu depois de um tempo. Chorei. Chorei muito. Estava fazendo muito isso ultimamente. O que é que Leslie sabia sobre Carie que ela não podia me contar? Será que era a mesma coisa que Becca sabia? Merda, merda, merda!
***
Acordei no meio do meu quarto, deitado no chão, com o porta retrato com a foto minha e de Carie nas mãos. Acho que dormi ali mesmo, cansado demais para ir até a cama, depois de ter chorado a noite toda. Mil coisas me passaram pela cabeça, mas nenhuma ficava muito tempo. Eu estava com o corpo todo dolorido. Fui até meu banheiro, tomei um banho demorado e quente, depois enfaixei minha mão machucada e coloquei uma roupa para ir para escola. Quando desci, passei direto por minha mãe, não querendo comer e nem ser bombardeado por perguntas. Depois que sai vi que ainda faltavam duas horas para começar a aula. Como eu estava a pé, não havia muitas opções de onde ir.
Fui a um dos meus lugares preferidos no mundo. Uma loja de discos que tem a dois quarteirões do colégio. Entrei e não tinha ninguém além de mim e do vendedor atrás do balcão. Pensei que ele iria vir até mim e perguntar se podia ajudar, mas ele não o fez.
Eu estava olhando os discos de soul e rock clássico, mas não estava realmente prestando atenção nos títulos nem nada. Era só que estar ali, cercado de musica, me distraia e me acalmava. Então, quando o vendedor se aproximou e me deu um susto.
– Esses são os melhores, na minha opinião – ele apontou uns discos com cores chamativas.
Dei um pulo quando ele disse isso, o que me deixou constrangido.
– Ah, me desculpe se te assustei...
– Tudo bem, eu só estava perdido em pensamentos.
– Bom, me desculpe se eu o interrompi. – ele começou a se afastar.
– Não, tudo bem...
Ele tinha os cabelos ruivos e olhos azuis curiosos. Parecia tímido. Tinha um visual meio “hipster” que as meninas adoram. E que percebi, algumas coisas tinha perecido com o meu próprio estilo.
– Meu nome é Cameron, estarei aqui se quiser minha ajuda.
– Tudo bem. Obrigado.
Continuei vendo os discos, agora mais atentamente. Vi que Cameron estava lendo um livro. Estava tentando ler o que estava na capa. Harry Potter!
– Amo esses livros! – eu disse um pouco animado demais, talvez.
– São os meus preferidos também! – ele se animou tanto quanto eu.
Começamos a falar sobre os livros e os filmes, e quando fui ver, faltavam cinco minutos para dar o sinal.
– Ai meu Deus. Nos vemos por ai Cameron, estou atrasado! Foi bom conhecer você cara!
– Igualmente – o ouvi gritando, mas eu já estava fora da loja, correndo para aula.
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