Falling

5 Irreconhecível


Notas iniciais
Eiii, como vocês estão? Mais um capítulo fresquinho pra vocês! Boa leitura!

Meu rosto ainda estava quente pela raiva. Tanto de Carie quanto de Maree. Por que ela faria isso?

Desci as escadas lentamente, cada passo uma nova pontada de dor na cabeça.

Droga. Minha mãe deve ter me ouvido descer as escadas, pois ela estava parada na entrada da cozinha.

– Oi mãe – dei um sorriso simpático que sempre funcionava quando eu era criança.

É, funcionava.

– Roland! Que horas você chegou ontem? Entrei no seu quarto eram 1h30 da manhã e você ainda não estava lá!

Ela ia ficando mais vermelha a cada palavra que dizia.

– Você entrou no meu quarto?! – não gostava quando entravam lá.

– Está se achando no direito de ficar irritado com alguma coisa? É isso mesmo?

– É... Hm... – achei melhor ficar quieto e ouvir meu sermão.

***

Ouvi trinta minutos de sermão sobre eu ainda não ser adulto, não mandar no meu próprio nariz, não saber os perigos do mundo e coisas do tipo. Agora eu estava de castigo por uma semana.

Tomei muita água, já me disseram que ajuda muito na ressaca. Acho que a minha mãe estava brava demais para perceber que eu ainda estava com a roupa que sai, ou as olheiras roxas sob meus olhos. Afinal, a água ajudou bastante. E o banho gelado também.

Me arrumei para a aula, como nos outros dias, só um pouco mais desanimado que o normal.

***

A caminho da escola, como sempre fazia, passei em frente à loja de discos, com um pouco de vergonha hoje. Cameron saiu da loja e correu até mim.

– Oi Roland. Você está bem? Parece horrível.

– Obrigada. Estou bem sim, só com dor de cabeça. E você?

– Eu não bebi ontem, tinha que trabalhar hoje...

– Deveria ter pensado a mesma coisa, mas no lugar do trabalho, o colégio.

– Sua mãe não ficou muito irritada? – ele ainda estava um pouco ofegante de correr até mim.

– Um pouco, estou de castigo por uma semana.

– Desculpe cara, eu devia ter te trazido antes. – ele realmente parecia sentir muito por isso.

– Não, tudo bem. – ri – Valeu a pena. Foi muito legal da sua parte me chamar pra ir com vocês, obrigada – sorri.

Ele relaxou e também sorriu.

– Não por isso, você é muito legal, Adam, Jesse e Elisa gostaram muito de você. Falaram pra eu chamar você mais vezes.

– Depois que eu sair do castigo, pode me chamar que eu vou – rimos.

– Claro, claro.

– Depois nos falamos, tenho aula agora. Foi bom te ver Cameron. Quando quiser falar comigo me ligue, ou mande mensagem, ok?

Passei meu numero e fui para aula.

Já na sala, Leslie, que sentava do meu lado, nem me olhou. Ela é uma cabeça dura.

Para melhorar um pouquinho o meu dia, tivemos teste surpresa de história. Acho que alguém aqui vai ficar para recuperação, hein?

***

Roland: Queria falar com você, mas você não me olha, e eu estou de castigo, não posso ir à sua casa depois da aula :(

Leslie não respondeu minha mensagem, e olha que estávamos no intervalo.

Passaram mais duas aulas, e minha mãe tinha me deixado uma mensagem dizendo que eu tinha que ir direto para casa. Mas dane-se. Eu queria muito falar com Leslie, precisava. Olhei de novo o disco do Queen que estava em minha mochila, e fui em direção à casa de Leslie.

O pai de Leslie passava de carro pegá-la no colégio, então ela já estaria lá quando eu chegasse.

Toquei a campainha e esperei.

– Olá Roland! – Sra. Martin disse, como sempre, simpática.

– Olá Sra. Martin! – sorri.

A mãe de Leslie sempre gostou muito de mim, e eu achava que ela pensava que eu e Leslie namorávamos.

– Entre, entre.

Entrei e ela pegou meu casaco.

– Obrigada. Posso ver Leslie? Trouxe um presente para ela.

– Eu pensei que vocês tinham brigado, porque ela estava muito irritadiça e não falou nada sobre você também, que é algo raro...

Corei com isso.

– Nós só tivemos uma discussão, mas vim pedir desculpas.

Eu sempre era o mais franco o possível com a mãe de Leslie, às vezes nem eu sabia o porquê.

– Então vá, pode ir. – sorriu docemente.

Subi as escadas lentamente, pensando em como iria falar as coisas. Bati em sua porta, dessa vez esperando sua resposta.

– Entra mãe.

– Não é sua mãe, sou eu Leslie, o Land. — falei, abrindo a porta.

– O que você tá fazendo aqui? – ela me olhou, séria.

– Queria pedir desculpas... Eu posso? – ainda estava parado na porta.

– Entra. – ela ainda me olhava, os olhos frios em mim.

Resolvi não abusar, então não sentei nos pés de sua cama, sentei em um pufe que tinha perto da janela.

– Eu sinto muito. – eu disse, e respirei tão fundo que quase comecei um choro, mas eu realmente não gostava de chorar na frente de Leslie.

Ela ficou só me olhando. Esperando.

– Eu não quero mais brigar com você por causa de Carie. Qualquer seja o motivo dela ter terminado comigo, realmente não é você que tem que me falar. Me desculpe por querer colocar essa responsabilidade nas suas costas. – disse olhando em seus olhos.

A única coisa que Leslie fez foi sair de sua cama, sentar no meu colo e me abraçar. Foi um abraço forte, cheio de sentimento. Algo que não era muito comum de Leslie.

Leslie era o tipo de pessoa que não gostava de demonstrar seus sentimentos, e em minha opinião, era por medo. Medo das pessoas a machucarem, medo de se decepcionar, medo. Mas eu, de alguma forma, conseguia tirar um pouco desse medo, e ela me deixava desmontar parte de sua armadura. Seu coração ficava um pouco mais vulnerável. Não é como se eu fosse magoar Leslie, nunca quis isso. Por isso nós somos melhores amigos. Porque eu entendo Leslie, e ela me entende. E a respeito quando ela não quer mostrar seus sentimentos.

Naquele momento parece que ela queria. Aquele abraço foi muito caloroso. Me reconfortou. É como se eu estivesse no meu lugar seguro.

Ela não pediu desculpas, nem nada, mas eu realmente acho que não foi preciso. Nós sabíamos disso. Aquele abraço valeu por tudo.

Me desvencilhei de seu abraço e peguei minha mochila.

– Trouxe uma coisa pra você – sorri para ela.

Ela me olhou desconfiada dessa vez. Peguei o disco de dentro da mochila e coloquei em frente ao meu rosto.

Ela deu um gritinho de animação fofo e me abraçou de novo. Pegou o disco e ficou olhando.

– Esse é uma relíquia! Ah, eu te amo Land! – sorriu de uma forma que não tinha preço.

Sorri por sua felicidade, e fiquei a observando. Dei um disco invés de um CD porque sei que ela tem um toca discos que ganhou de seu avô, que ela era muito apegada antes de morrer.

Ela correu até o guarda roupas e tirou dali o toca discos, colocando em sua mesinha de cabeceira. Ligou tudo e colocou o disco na musica “We Are The Champions”. Eu amava essa musica. Se sentou de novo comigo.

– Essa é a nossa musica – disse.

– Por quê? – ri.

– Porque nós somos campeões, não importa as circunstâncias, pois a gente sempre vai ter um o outro.

Não era, de novo, o normal de Leslie dizer essas coisas e demonstrar sentimentos, mas não reclamei, eu estava amando aquilo.

– Ontem fui numa festa.

– Sem mim? – fez cara de ofendida.

– Nem vem, você estava brigada comigo – retruquei – Eu estava tentando me distrair com uns amigos.

Ela não disse nada sobre eu falar “amigos”, mesmo sabendo que eu não tinha. Devia achar que eram da igreja de minha mãe.

– E como foi?

– Foi legal, brincamos de brincadeira da garrafa, e eu beijei Elisa, bebi e acabei vomitando, e me levaram pra casa depois – ri.

Ela não riu comigo.

– Quem é Elisa? – ela parecia estar brava de novo.

– Nossa, eu acabei de dizer que bebi e vomitei e você se importa com “quem é Elisa”? Só você mesmo Leli – ri de novo.

– É claro! Você beijou uma pessoa que eu sequer conheço! – me deu socos fraquinhos no braço, mas estava brava de verdade, pelo que pude ver – Quem é essa zinha? Fala logo!

– Calma, calma Leli – quanto mais eu ria, mais ela se irritava, e mais ainda eu queria rir – É a irmã de meu amigo, e era por causa da brincadeira, não beijei por beijar.

– Não tem essa! Como assim você beijou uma menina que eu nem conheço? Eu tenho que aprovar!

– Você nunca aprovou a Carie, e ai, o que tem a dizer sobre isso? – ri, mas logo minha própria piada me deixou sem jeito e triste.

Leslie não sabia o que fazer nem dizer.

Percebi que era tarde e minha mãe ia me dar mais uma semana de castigo se eu demorasse mais ainda.

– Hm, Leslie, tenho que ir. Eu estou de castigo por ter chegado tarde em casa ontem. Provavelmente por ter vindo aqui hoje vou pegar mais uma semana de castigo.

– Por que fez isso Land? Agora me sinto culpada. Você podia esperar para me pedir desculpas!

– Acontece que eu não queria esperar. Não gosto de ficar brigado com você.

– Isso é muito fofo – ela ficou vermelha.

–Me leva até a porta?

– Levo sim.
***

Cheguei a casa esperando pelo sermão de minha mãe, o que eu não esperava era que não fosse ter um sermão dela. Carie e Maree estavam lá.

Não! Mais isso agora? Eu realmente não precisava ver Carie, quando ainda nem me acostumei com a ideia de que ela terminou comigo.

– Filho, elas estão esperando há algum tempo. – ela não parecia brava por eu ter desobedecido, parecia nervosa por Carie estar ali.

As duas estavam de braços cruzados.

– O que quer aqui Carie? – eu disse, a voz dura.

– Você acha que pode simplesmente desligar o telefone daquela forma? – ela começou a chorar.

Eu estava confuso. O que era aquela reação?

– Corta essa, Carie. O que Maree faz aqui?

– Ela veio aqui para falar na sua cara o que ela viu ontem.

Ela não estava com cara de quem ia fazer isso.

– Diga Maree! – gritou Carie, descontrolada.

Minha mãe estava no canto da sala, assustada com aquilo.

– Eu não posso! – Maree gritou também.

– O que?!

– Não posso! Eu não posso! Eu só disse aquilo porque pensei que ia te fazer sentir melhor saber que ele estava seguindo em frente!

– Você é o que? Uma idiota? – Carie parecia louca.

Maree estava com os olhos arregalados, parecia muito frágil perto de Carie, que parecia que a qualquer momento ia lhe dar um tapa na cara.

– Eu... Eu só não sabia o que devia dizer! – gritou de volta em desespero. – Desculpe Roland, eu só fiz isso por que... Por que... Eu queria que Carie parasse de falar de você toda hora e te esquecesse!

Dei um pulo com o barulho do tapa que Carie deu no rosto de Maree. Marie caiu no chão.

– Sua IDIOTA! PARE DE FALAR! AGORA! – ela estava ofegante.

– Da pra parar Carie?! – gritei, arregalando os olhos para Carie. – Saia da minha casa agora.

Ela ainda chorava, mas eram lágrimas de ódio, que no momento em que eu disse isso, se transformaram. A expressão de Carie mudou completamente, do ódio ao arrependimento em milésimos.

– Não, por favor, Roland! Desculpe, eu não vou fazer isso de volta! – mas minha mãe já estava tirando Carie dali.

Maree estava no chão ainda, com a mão no rosto, onde Carie havia batido com tanta força. Seus cabelos estavam bagunçados. Ela estava chorando.

– Maree, você está bem?

– Me... Me desculpe Roland, não era minha intenção! – ela falava entre soluços.

– Shhhh, não precisamos falar disso agora. Venha aqui. – segurei sua mão e a levei até a cozinha.

Minha mãe não tinha voltado ainda, e eu ouvi mais gritos, mas não os entendia.

Maree sentou e eu fui até a geladeira, peguei alguns cubos de gelo e coloquei em um pano.

– Olha, coloque isso no seu rosto. Ela bateu muito forte, não é?

– Sim – ela estava se acalmando, já não chorava tanto.

– Antes que você peça desculpas de novo, eu entendo. O que eu não entendo é qual o interesse de Carie em quem eu beijo, já que foi ela que terminou comigo...

– Eu realmente não sei. Não pensei que ela reagiria dessa forma, se não eu nunca contaria isso para ela, eu juro! – seus olhos suplicavam.

– Esqueça isso Maree, está tudo bem. Depois eu me resolvo com Carie. Mas te bater foi demais. O que foi aquilo? Ela nunca foi agressiva!

– Eu pensei a mesma coisa. Ela esta assim há mais ou menos um mês, e eu também não sei o que esta acontecendo. Ela anda muito estranha, e não me fala mais as coisas. Fica só de segredinhos com a Becca.

– Isso é estranho. Outro dia tento falar com ela. Vou deixar ela se acalmar, por agora.

– Obrigada.

– Pelo que?

– Por me defender dela. Ela podia me machucar de verdade, ainda mais do jeito que ela estava. E pelo gelo – riu.

– Não foi nada. – ri também – Quer que eu te leve pra casa?

– Sim, se não for muito incomodo. Carie era minha carona. – ela parecia envergonhada.

Fui para sala de novo, acompanhado de Maree.

– Mãe? Vou levar Maree em casa, volto logo.

– Tudo bem filho. – ela gritou lá de cima.

Foi uma viagem silenciosa. Quando chegamos lá, Becca e Carie estavam em frente à casa de Maree.

– O que estão fazendo aqui? – Maree desceu do carro e disse, sua voz subindo uma oitava.

– O que ele tá fazendo aqui? – Becca se prontificou.

Desci do carro.

– Vim trazer ela em casa. Qual é o seu problema comigo?

– Cala a boca, não falei com você!

– Parem! – disse Carie.

– Agora você é a calma? – falei com raiva.

– Eu não fiz aquilo de propósito!

– Ah, claro, porque dar um tapa sem querer é super normal. – meu sangue fervia.

– Por favor, Land, pare. – ela fez cara de quem ia começar a chorar novamente.

– O que acontece com você pra você estar agindo dessa forma? Quando eu te conheci você não era nem perto de agressiva! Como uma pessoa pode mudar tanto? Cadê a Carie por quem eu me apaixonei?

Quando eu disse isso, senti meu rosto esquentar e começar a arder, pelo tapa que Becca tinha acabado de me dar.

– Por que fez isso?

Ouvi Carie e Maree arfando.

– Não... Fale assim com ela! – agora ela estava com mais raiva do que eu jamais tinha visto.

Uma lágrima, apenas uma, rolou por seu rosto, lágrima de raiva.

A maioria das lágrimas desse dia foram derramadas por raiva. Como a minha vida ficou tão louca a ponto de passar de calma e tranquila à tempestuosa e cheia de ódio em uma semana?

Cansei. Fui para o carro e dei partida, cantando pneu.

***

Já em casa, minha mãe me enchia de perguntas.

– Nós terminamos mãe, terminamos.

– Por quê? Você a amava tanto!

–Foi ela quem terminou. Eu ainda a amo mãe, ela só mudou demais. Não viu o que ela fez com a própria amiga?

– Vi, e nunca pensei que Carie seria capaz disso. Você fez alguma coisa para ela terminar com você?

– Não mãe, eu tentava dar o meu melhor, sempre, mas mesmo assim ela terminou. Você já sabia que tínhamos terminado, por que deixou ela entrar?

– Porque eu pensei que vocês só estavam em uma crise, que já iam voltar. Ela deve ter seus motivos.

– Deve mesmo, mas ela não me explicou o porquê.

Ficamos em silencio, cada um com seus próprios pensamentos.

– Mãe, vou dormir. Estou esgotado. Foi um dia cheio. Boa noite. – dei um beijo em sua testa.

– Dorme bem meu filho, fica com Deus. E tudo vai melhorar, você vai ver.

Sorri para ela, mas naquele momento eu não queria sorrir.

A pergunta que ela fez, “Você fez alguma coisa para ela terminar com você?”, me incomodou. E se eu realmente fiz alguma coisa e não percebi? Ela não quis me falar qual era o motivo. E Becca aparentemente me odiava. Sem motivo. Ou talvez pelo mesmo motivo que Carie terminou comigo. Um motivo que Maree não conhecia, já que continuava a mesma comigo. Isso é tudo estranho.

Pra deixar tudo mais confuso, ainda teve a festa de ontem, em que eu bebi além da conta, mesmo sem perceber, era pra esquecer tudo o que estava acontecendo a minha volta. Acabei beijando Elisa, que não tinha nada a ver com essa bagunça, e me arrependi, porque eu ainda estava perdidamente apaixonado por Carie, por mais que parecesse inútil e que não fosse uma coisa que era correspondida. Eu só não conseguia ver o porquê não amar Carie. Pelo menos não até hoje, até ver como ela agiu com Maree. Por que Carie não podia simplesmente me contar o que estava acontecendo, para que eu concertasse o que estava fazendo de errado, e tudo ficasse bem?

Eu só queria que tudo voltasse ao normal, que Carie ainda me amasse, que nós estivéssemos juntos, que ela e Leslie continuassem a se odiar a distancia, e coisas assim. Queria a minha vida de volta. A única coisa que eu tinha agora era um vão, um vão por onde eu estava caindo, e que aparentemente não tinha fundo. Não parece como minha mãe diz. Não parece que “tudo vai ficar bem”. Então eu estou em queda livre, sem saber como parar de cair, ou se vou parar de cair.

Com tudo isso, minha mãe se esqueceu do meu castigo. Pelo menos uma coisa boa.

E com esse pensamento, adormeci.

Notas finais
O que acharam? Comentem, por favorrr! Até o próximo capítulo!