Notas iniciais
Este capítulo está cheio de ação, boa leitura.

Thalles Bogard — Z-day 2 – manhã

Se eu sabia que estávamos numa situação complicada? É claro que sabia, a maioria de nossas armas, nem eram armas de verdade, e estavam no porta-malas, o espaço pra se mover dentro do carro era anatômico, seria uma pistola contra dois homens armados, e um deles ainda tem um rifle de assalto, situação complicada? Acho que na verdade nem eu poderia pensar numa situação pior.



— FLASHBACK ON —

Estávamos correndo para fora da escola quando vimos a Júlia caída no chão, mortos iam em sua direção, eu tinha que salvá-la, depois de perder a minha irmã eu não queria ver mais ninguém morrendo, então corri para a salvar, acho que me surpreendeu o fato de que o Léo correu junto comigo para ajudar, acho que realmente fui meio duro com ele, mas… a dor de perder a Twanny não me deixaria pedir desculpas tão cedo, vou te dizer como é lutar contra um deles, você não sabe se está ganhando ou perdendo.

— Ei, eu vou pegar ele, só pega a garota. —

É, provavelmente teria sido um plano interessante, o Léo até falou com uma certa confiança, mas só se ele não tivesse com o braço machucado do outro zumbi que mordeu a minha irmã, assim o Léo tentou bater com a barra de ferro no morto-vivo, ele apenas segurou balançou os braços, jogando o Léo contra a parede, aquela coisa, com certeza era forte, a Júlia estava desmaiada, então apenas a deitei no chão, foi um alívio ver a luana chegando para ajudar.

— Cuida da Júlia, eu vou ajudar o Léo. —

Enquanto o morto andava em direção ao Léo que estava caído encostado na parede tentando se levantar, eu correndo na direção dele e saquei o meu canivete, ele foi um presente do meu irmão quando acampei pela primeira vez, eu nunca falei dele né? Você vai conhecer ele um dia.

— Aqui, seu otário! —

Pulei e cravei a lâmina na testa do morto-vivo assim que ele se virou para mim, porém, ele apenas deu alguns passos pra trás e ainda com a faca cravada na testa veio em minha direção, eu estava desarmado, recurei um passo e pensei em pegar a Júlia e correr, mas e o Léo? Meu corpo paralisou.

— Vamos lutar! —

Que frase imbecil de se ouvir, mas quando ele disse isso, enquanto passava correndo pelo meu lado, senti meu corpo voltar a responder minhas ordens, um pouco tarde demais, pois o Léo com um chute no rosto do monstro enfiou o canivete dentro da cabeça dele.

— Me ajudem a carregar ela, tem mais deles vindo. —


Eu e o Léo corremos em direção da Lua que estava segurando a Júlia nos braços pedindo por ajuda, dividimos o peso dela, entre nós dois, e fomos em direção do grupo, percebi que eles estavam entrando em um carro, eu falaria sobre isso, mas o Léo olhando para mim falou:

— Me desculpa, pela Twanny… se estiver com raiva de mim, eu entendo, mas pelo que estamos vendo essa situação só vai piorar, não só errantes como esses, como também pessoas que abandonarão sua humanidade e nos atacarão, temos que proteger nossos amigos. —

Não consegui responder com palavras, apenas assenti com a cabeça.

— Temos um carro! —

O Heitor falava com um rosto sério, mas eu não acreditei de primeira.

— O que? —
— Nós temos um carro! —

FLASHBACK OFF

Saiam do carro, ou mando todos pro inferno! —

Aquele maldito dizia isso como se fosse o dono do mundo, eu estava com a glock em mãos, se percebesse poderia, com um segundo eu é que mandaria ele pro inferno. Porém o Léo olhou para mim e me alertou.


— Era sobre isso que eu falava, mas lembra do que eu disse ontem? Vamos por aquele plano em prática. —

Ele abriu a porta do carro e desceu.

— Não atire! —

E foi para a frente do carro com as mãos levantadas.
— Esse retardado, quebrou qualquer chance de eu arrancar com esse carro por cima desses malditos. —

Dizendo isso o Heitor desceu do carro, também com as mãos pra cima.

— Retardado? Na verdade acho que o Léo sabe muito bem o que podemos fazer. —

Desci do carro enquanto guardava a faca e a pistola na minha calça e fui seguido pelas meninas e pelo Adarlan.

— Isso mesmo, seus otários, eu vou ficar com esse carro. —

O maldito que estava no chão se levantou rindo, balbuciando qualquer besteira, ele escondia uma arma em mãos, provavelmente uma m4A1, não entendo como eles conseguiram armas tão rápido. Foi andando até o Léo e com o cabo da arma golpeou a barriga dele, que caiu no chão em dor.

— Ei, já saímos do carro, o que mais você quer? —

Foi uma pergunta idiota? Eu sei, eu deveria ter ficado de boca fechada.

— Se cala pirralho, eu odeio moleques de aparência insolente como a dele. —

Ele foi até o carro e se certificou que não havia ninguém dentro, um amiguinho dele cuidava dos errantes que se aproximavam com uma barra de ferro enquanto sorria, o outro usando o seu fuzil, nos intimidava, para que não reagíssemos enquanto seu parceiro revistava o porta-malas do carro.

— Bwa ha ha ha, olha só o que eu achei. —

Ele levantava a corda que tinha em mãos como se sua mente suja trabalhasse em uma ideia perversa.

— Carlos, vem aqui, eu vou amarrar esses otários, vamos ficar com essas belezinhas. —

Ao ouvir isso Lua deu um passo para trás e suas mãos começaram a tremer, Gabriela não teve uma reação muito diferente disso. Estava ficando muito complicado. Heitor cerrou os punhos, mas Adarlan colocou a mão em seu ombro, não teria como eles reagirem contra aqueles caras fortemente armados.

— Se qualquer um de vocês, encostar um dedo nelas… eu vou matar cada um de vocês. —

Ouvir isso gelou a minha alma, todos pararam por um segundo, o Léo estava se levantando devagar, com a boca sangrando, sua expressão era fria, quase psicótica, ele limpou o sangue do canto da boca e se levantou, porém o homem que até então estava assustado com o jeito que o Léo se levantou percebeu que ainda tinha sua arma em mãos e riu.

— Ha ha ha ha ha, NÃO FODE MOLEQUE. —

Então bateu com a coronha do seu fuzil no rosto do Léo que caiu no chão, desmaiado.

— Carlos, vem aqui, isso vai ser divertido. —

Seu parceiro o chamava, parece que eu não poderia contar com o Léo pra tirar a gente dessa.


Alguns minutos depois, dois deles tinham trocado de função, enquanto um matava os errantes que se aproximavam, o outro usou a corda para amarrar Eu, Adarlan e Heitor, estávamos sentados no meio da rua, amarrados de costas para os outros; O Léo ainda estava desmaiado no chão, as meninas tremiam de medo enquanto um deles apalpava o seio da Lua que se encolhia enquanto tentava recuar.

— Vamos deixar esses otários amarrados aqui, vão virar comida de zumbi, então a gente leva elas, tem uma pra cada um. E eu sempre quis foder uma colegial. —

— Não… por favor… —

As palavras que saiam das garotas apenas faziam eles rirem mais, eles pareciam nem sequer ligar mais pra gente.

— Ei, eu tenho um plano. —

Adarlan tinha uma voz confiante, mas baixa, eles não poderiam ouvir.

— O que? —

A pergunta foi necessária, pois eu tinha que saber o que era, mas independente se fosse bom ou não, eu aceitaria, não deixaria as garotas serem levadas e viraria comida de zumbi a toa.

— Eu também pensei em algo. —

Heitor e Adarlan explicaram rapidamente, o pior plano que eu já ouvi na vida.

Thalles, você ainda tem a faca né? —
— Tenho, se eles pegaram essa corda significa que já abriram nossas mochilas, mas eu guardei a faca na minha calça. —
— Eu vou pegar ela e cortar essa corda, depois disso vamos pegar eles. —
— O que? Esse é seu plano brilhante? —
— É o melhor que eu pensei… e o seu Heitor? —
— Eu pensei no mesmo, vamos logo, antes que eles nos deixem. —

O Heitor levou uma coronhada na cabeça de um deles, que riu e balbuciou.

— Calem a boca seus otários. —

Eles já estavam me enchendo o saco, jurei pra mim mesmo que se eu não morresse hoje, mataria a todos eles com as minhas mãos.

— Ei. —

Parecia que ele, gostava de apanhar, mas se levantando outra vez o Léo parecia ficar mais malvado a cada vez que era acertado, sua testa sangrava, seu rosto estava molhado de sangue, mas seus olhos estavam vivos e gelados, eu não gostaria de estar em seu caminho nesse momento.

— Eu disse que se encostassem um dedo nela, eu mataria todos vocês. —

Eles estavam tão perplexos quanto nós, não era fácil acreditar que um garoto era tão insistente, mas não parecia ser só surpresa, o Léo colocava medo neles, foi o momento perfeito pra cortar as cordas, ainda fingimos estar amarrados para preservar o elemento surpresa, mas o que veio a seguir tirou minha coragem de fazer qualquer coisa, e meu corpo foi tomado pelo ódio.

Garoto, sabe o porquê de eu odiar lixos com esse seu rosto petulante? —

O Maldito tinha o Léo nas mãos, a pesar da sua força para acordar e falar, ele não poderia fazer nada, segurando o queixo do Léo, olhou em seus olhos com desprezo.

— Porque você só tem papo, você fala como se fosse o dono do mundo, mas se não fossem por esses zumbis aqui em volta, eu comeria sua amiguinha na tua frente, só pra ver a tua cara. —

O Léo riu.

— Eu cansei de você garoto. —
— Agora! —

Nós nos soltamos e corremos para cima do cara, que apesar da surpresa. Ainda assim jogou o Léo no chão e atirou nele.

— NÃO! —

Eu saquei a pistola apertei o gatilho, ele deu um grito de surpresa enquanto uma bala entrava exatamente entre os seus olhos. O Heitor que estava com a minha faca, a cravou no pescoço do homem que estava com o outro fuzil enquanto Adarlan com um mata leão enforcava o último deles, que estava ocupado batendo em um errante com uma barra de ferro.

Gabriela e a Júlia sentaram assustadas no chão, enquanto a Luana foi ajudar o Léo, todos corremos para ver como ele estava.

— Ele tá perdendo sangue. —

A Lua parecia assustada, com medo, mas seus conhecimentos de medicina seriam colocados em prática agora, apenas rezei para que ela pudesse o salvar.

— É grave? —
— Eu não sei, a bala está presa dentro do seu braço. —
— Isso é bom… ao menos não foi fatal. Se ele tivesse atirado com o Fuzil ao invés da pistola ai sim teríamos problemas.—
— Temos que levar ele daqui, os sons de tiro chamaram os zumbis das proximidades para aqui, não vai ser igual antes que só um cara conseguia segurar eles. —

Com dificuldade o Léo Falou:

— Z- zumbis nã- não existem… —

Eu estava feliz por poder ouvir a voz desse idiota.

— Heitor, pega o carro, vamos tirar ele daqui. —
— Certo. —

Estávamos carregando o Léo para o carro quando o Adarlan apareceu com uma jaqueta de couro, como se nada tivesse acontecido, todos olhamos pra ele.

— Que? —
— Cê tá zoando né? —
— Isso é Bad Ass —
— Ele tá me zoando. —

Então o Heitor que foi pegar o carro parou do nosso lado.

— Peguem as armas deles. —
— Eu já fiz isso. —

Enquanto eu coloquei o Léo dentro do carro, A lua entrou e sentou do lado dele, ela tentava usar a camisa do Léo pra fazer pressão na ferida e parar o sangramento, o Adarlan pegou as armas deles e colocou dentro do porta-malas enquanto entrávamos no carro e mudamos o curso para o hospital mais próximo.

Vou te falar, foi complicado achar um hospital, mesmo tentando ir pelo caminho mais rápido, as vezes entrávamos em uma rua bloqueada por errantes e tínhamos que dar a volta, o Léo perdia sangue, e quando achamos um hospital, ele estava parcialmente destruído, envolto em mortos-vivos, possivelmente saqueado, o Léo estava desmaiado, mas seu sangramento havia parado, Descemos do carro, e quanto o Adarlan o colocou nas costas, as meninas saíram do carro e pegaram as nossas coisas, Não poderíamos correr o risco de sermos roubados.

— Levem ele pra dentro, fiz um curativo rápido com a manga do casaco dele mas preciso tratar ele rápido. —

Eu sabia que poderia o confiar a Luana, ela não o deixaria morrer tão fácil, porém tinham muitos errantes em volta. Acho que a razão disso foi a mesma pela qual o Léo estava preocupado ontem.

FLASHBACK ON

Eu estava sentado em cadeira na varanda do apartamento do Léo, olhando o céu, eu queria sentir que tudo aquilo era um pesadelo e eu acordaria em breve, mas sempre que eu olhava para baixo e via aqueles errantes, percebia que não era. Eu realmente tinha perdido a minha irmã, desejei nunca ter me formado, nunca ter ido à aquela formatura, mas meus pensamentos foram interrompidos quando o Léo sentou do meu lado e me entregou uma lata de refrigerante.

— Tenho que falar com você sobre uma coisa. —
— O que? —

Peguei a latinha e abri, olhando para ele com um rosto de dúvida, eu achei que ele iria se desculpar pela Twanny novamente, mas foi diferente.

— Eu deveria falar sobre isso com Heitor, ele parece ser tão estrategicamente calculista quanto eu, ma- —

— Ninguém é tão calculista como você, você tem que ir procurar tratamento, isso sim —

Ele riu.

— Escuta, a partir de agora, temos que pensar como se o grupo estivesse sempre precisando de algo, nunca teremos o sentimento de comodismo, então eu tenho que te mostrar parte do meu calculo. —
— Você deveria parar de pensar a frente ao menos por alguns segundos, vai dormir. —
— É sério cara, caso ainda esteja bravo eu vou falar sobre isso com outra pessoa, apenas quero garantir a segurança do nosso grupo. —
— Fale. —
— Bom… Infelizmente sem pessoas pra trabalhar, restaurantes, fast foods, hospitais e outros lugares como estes não funcionarão, mas isso não é necessariamente ruim, eu posso cozinhar caso tenha os ingredientes certos, a Lua tem um conhecimento médico espantoso, acredito que mesmo antes de ir pra faculdade, ela já tenha feito algum curso preparatório ou pesquisado sobre o assunto, você tem família militar, é nosso armeiro, pode ensinar as garotas como atirar, o Heitor parece visar a sobrevivência acima de tudo, mas isso pode ser bom, vamos ter um ponto de vista diferente do meu para as estratégias. —

Ele não parava de falar, mas fazia sentido, então parei pra ouvir.

— A Gabriela já fez escotismo, se ficarmos em alguma zona rural, mata ou algum ambiente assim, ela pode ser útil e o Adarlan provavelmente é mais forte que eu e você juntos no combate corpo a corpo, com uma boa arma ele pode exterminar alguns zumbis rapidamente, não somos um grupo ruim, acho que foi por acaso, mas acabei me tornando o líder do grupo a partir do momento em que todos perceberam que estrategicamente eu sou o mais adequado como o cérebro do grupo, ainda assim, se por outro acaso algo aconteça comigo, não deixe todos entrarem em pânico, e se lembre, em cada lugar, um de nós pode ser Deus, a Lua em um hospital salvaria a todos nós, em um supermercado eu escolheria os melhores ingredientes e vocês teriam o melhor jantar de suas vidas, assim como minhas estratégias são sempre bem calculadas… bem… exceto quando estou com raiva, haha, enfim, cara, você entendeu não é? —

Ele realmente havia pensado em tudo.

— Está bem, mas não deixe nada acontecer com você, salve ao menos um de nós antes disso, assim eu te perdoo pela minha irmã.—

— Obrigado, cara, mesmo nessa situação horrível, quando eramos menores, sempre nos perguntávamos o que faríamos em uma situação de pós-apocalipse não é?
— Isso me traz lembranças. —

— Não vai dormir? —
— E você, não vai dormir? —
— Eu estou cansado, mas acho que vou tomar um banho antes.—
— Quem sabe quando vamos tomar outro né? Pois é cara, eu sinto como se- —

Fomos interrompidos pela Lua, que entrou pela varanda.

FLASHBACK OFF

— Não usem as armas, isso chamaria mais deles, usem o bastão de basebol, as facas e os bastões de ferro, protejam as meninas a todo custo e levem ele pra dentro do hospital, lá dentro obedeçam a Luana, o hospital é o lugar onde ela entende mais que qualquer um de nós.

Falei com confiança, enquanto com a faca, matava os zumbis que se aproximavam e corria para a entrada do hospital.

— E quem foi que fez de você o líder? —

O Heitor riu enquanto perguntava, ele estava zoando, eu não levei a sério.

— O nosso líder. —



Algumas horas depois.


Gabriela Park — Z-day 2 – noite

Vou ser sincera, eu não gosto de ficar sem fazer nada, porém é como a Lua tava ocupada cuidando do Léo que não queria acordar e os meninos se revezavam entre pegar remédios que ela pedia e matar zumbis que entravam no hospital que estava vazio além de nós, eu e a Júlia estávamos sendo deixadas de lado, eu usei esse tempo pra tentar saber um pouco mais sobre ela, mas chegou um momento que o Léo ficou com febre, e como a Lua não podia sair do lado dele e os meninos estavam de guarda, a Júlia se voluntariou pra ir buscar uma toalha molhada, então saiu junto com o Thalles que iria a proteger caso algum zumbi surgisse do nada, acabei ficando sozinha sentada numa cadeira, eu sabia que assim que o Léo melhorasse iriamos sair do hospital, então achei que seria útil ir atrás de mantimentos para nós, me levantei e falei enquanto saía.

— Eu já volto, vou ver se tem algo útil no hospital pra gente. —

Foi estúpido sair sozinha? Foi idiota sair desarmada? Foi, mas experimenta ficar parada sabendo que todos estão se esforçando. Na hora eu imaginei que se tudo ocorresse bem, eu traria algo útil para nós e nada mais que isso. É… eu estava completamente enganada, só não imaginava o quanto.

Eu andei pelo hospital, eu não sentia medo, apenas vontade de ajudar a todos, eu procurei pelas salas do hospital, mas só então percebi que eu não tinha conhecimento médico para saber o que poderia ser útil ou não, então tentei voltar, mas eu estava perdida, refazer os passos é uma coisa complicada quando você não sabe onde está, então apenas fui andando pelos corredores do hospital, ele era enorme, eu achei a cafeteria dele, acho que ao menos de comida eu entendo não é? Acho que todos se animariam caso eu levasse uma torta pra eles, o Léo gostaria disso ao acordar, então eu peguei uma torta de chocolate e coloquei em um pratinho tampado que estava em um armário atrás do balcão da cafeteria.

— Vocês vão gostar disso não é pessoal? —

Então tentei ao máximo me lembrar de onde o pessoal estava, fui caminhando pelos corredores, o chão era liso, era cinzento, mas bonito, as paredes do hospital com um forro em madeira, haviam cadeiras derrubadas pelos lugares, um lugar que provavelmente era a recepção, estava com papéis derrubados pelo chão, as pessoas que estavam aqui antes provavelmente viram mortos andando como nós, e perderam pessoas também, assim como nós perdemos a Twanny, pensar nisso me fez lembrar da minha irmã, dos meus pais, isso também estava acontecendo do outro lado do mundo, eu amo meus pais, mas a pessoa que eu mais gosto na minha família é minha irmã mais nova, o nome dela é Anna, uma Park, assim como eu, costumávamos brincar de balanço quando eu era menor, ela era que me balançava, eu sei que uma irmã mais velha deveria empurrar a irmã mais nova, mas nos divertíamos muito, então ela não ligava, eu espero muito que nada de ruim esteja acontecendo com ela. Ela é só uma criança.

Eu estava perdida em pensamentos, quando virei em um dos corredores do hospital e ví um zumbi, minhas pernas ficaram moles na mesma hora, eu acabei usando toda a minha força pra me esconder atrás de um balcão, ele tinha me visto, mas não veio atrás de mim, meu coração estava acelerado, eu coloquei o pratinho com a torta no chão, tentei me acalmar, minha respiração estava afobada, eu estava com medo, comecei a suar frio, estava tonta, mas me forcei a pegar a torta e me levantar.

— Isso garota. —

Eu imaginei minha irmã conversando comigo

— Você consegue! —
— Eu não quero morrer…—
— Você não vai morrer. —
— Eu não quero morrer… —

depois de me levantar, tentei dar um passo, mas caí sentada no chão, minhas pernas não me respondiam, ele deu um passo a frente, estava vindo em minha direção, meu corpo não obedecia, senti tudo girando, lágrimas caíam do meu rosto e eu coloquei a mão na boca para que não gritasse, ele se aproximava cada vez mais, minhas pernas mexiam, mas eu não me levantava, o tempo estava em câmera lenta, eu pude ver sua camisa azul rasgada, sua bermuda cinza, sapatos pretos, sua pele estava pálida mas eu pude ver que antes de morrer ele era bonito, seus olhos estavam sem vida, cinzentos, paralisados olhando para a frente, como se alguma coisa chamasse sua atenção, ele passou pelo meu lado como se eu não estivesse la, eu estava chorando, minha mão impedia algum som de sair, mas tudo que meu corpo podia fazer era ficar quieto, ele seguiu andando, eu suspirei,

— Eu estou viva, Anna. —


Eu não deveria ter falado isso, ele se virou para mim e rosnou, eu tive sorte na primeira vez, mas não seria morta, peguei a torta e corri, ele me perseguiu enquanto eu gritava, ao virar outro corredor, dei de cara com Adarlan, que com o bastão de basebal separou a cabeça do zumbi do corpo.

— O que estava pensando saindo sozinha? —
— Desculpa, eu… —
— Vem, precisamos de você. Não faça isso de novo. —

Eu estava feliz por ele ter me salvo, mas acho que o que me animou foi saber que precisariam de mim, então limpei as lágrimas do rosto e respirei fundo.

— Ok.—

Adarlan Muller — Z-day 2 – noite / 10 minutos antes.

O Léo ainda meu havia acordado, estava deitado em um dos leitos do hospital, a Luana ainda cuidava dele, imaginei que ela estivesse cansada, mas não tinha o que fazer, ela era a única que podia salvar o Léo, o que o Léo disse pra o cara que estava ameaçando levar as meninas ainda ecoava em minha mente, eu ainda tenho toda a certeza de que não valeu fazer toda aquela coisa e depois levar esse tiro, mas eu espero nunca ter que lutar com ele, seu rosto me assustou, eu estava olhando pra ele quando ele acordou e olhou em volta e com dificuldade balbuciou algumas palavras.

— Oi… —

A lua foi a primeira a falar com ele.

— Seu imbecil, pra que você foi se arriscar daquele jeito? —
— Voc-Você tá bem? —
— Fica quieto, você perdeu muito sangue, já se passaram algumas horas, você também precisa comer, não tenta se levantar, ok? —
— Desculpe ter d-deixado ele te t-tocar daquele jeito, eu não conseg-guia me mover. —

Eu me aproximei da cama.

— Descanse, ninguém vai encostar nela, eu, Thalles e Heitor vamos cuidar da guarda. —

A Júlia se aproximou da cama e entregou um vidro a Luana.

— É esse? —
— Sim, obrigado Júlia. —
— Léo, eu vou aplicar um anti-inflamatório em você, isso vai doer… —
— Espera… —
— Não podemos esperar, tem que ser agora, antes de infec- —

Ele segurou na camisa dela.

— N-Não é isso, onde tá a G-Gabriela?

Nesse momento todos que estávamos no quarto e o guardando na porta nos tocamos que ela tinha desaparecido, o Heitor foi o primeiro a comentar:

— Eu tava bem aqui. —
— Isso é problemático, alguém pode ir atrás dela? —

O Thalles estava tomando conta da situação até então, realmente seria bom alguém ir atrás dela, então me voluntariei.

— Eu vou, não se preocupem, ela é meio doidinha, mas não ia se matar. —

Peguei o taco de basebol, uma das pistolas e fui em direção da porta, mas fui parado pela Luana.

— Trás ela de volta. —
— Ta. —

O Hospital era grande, foi complicado de a achar, eu não tinha nem ideia de onde procurar, apenas fui correndo pelos corredores, eu poderia sentir que algo aconteceria, parei de correr quando ví um morto-vivo parado na esquina de um corredor com o outro, ele estava quieto, então fui me aproximando com o bastão em mãos, se ele não me visse eu o mataria ali mesmo, porém, ele olhou pra mim, eu estava pronto para correr para matá-lo, mas ele apenas olhou para a frente de novo e foi andando.

— Ele é cego? —

Parei por um momento, eu esperei ele se distanciar um pouco sem virar o corredor, para o pegar desprevenido por trás, fui me movendo lentamente, ele deveria se guiar pelo som, porém tomei um susto quando ouvi os gritos da Gabriela e corri na direção do outro corredor, quase bati nela quando ela passou por mim, e assim que o morto-vivo entrou na minha linha de visão, bati com toda minha força na sua testa, arremessando a cabeça pra fora do corpo.

— O que estava pensando saindo sozinha? —

Pensei em brigar com ela, falar que ela não deveria ter feito aquilo, mas ao olhar a torta em suas mãos, entendi que ela teria ido buscar comida para nós, não pude ser rude.


— Desculpa, eu… —
— Vem, precisamos de você. Não faça isso de novo. —
— Ok. —


Eu a estava levando de volta, quando o morto-vivo que eu tinha visto antes virou o corredor e veio andando em nossa direção, a Gabriela se assustou e quase correu, mas eu tapei a boca dela com a minha mão e a encostei na parede, o monstro apenas passou andando por nós, ela olhava para mim surpresa, então tapei os meus olhos, dando a entender que eles eram cegos, ela assentiu com a cabeça e nos continuamos a andar, quando a Gabriela pisou em um banco deixado no chão e ao escorregar bateu com seu ombro em mim, a torta que ela segurava caiu no chão assim como meu bastão que ao cair fez um barulho do ferro ecoando chamando a atenção do morto-vivo que até então apenas andava sem rumo, eu não teria tempo de pegar o bastão, apenas saquei a pistola e rapidamente o matei. Foi a coisa mais burra que eu fiz no dia.

Mortos-vivos começaram a tentar entrar no hospital, nós não tínhamos trancado a porta ou algo assim, salvar o Léo foi a prioridade, eu não teria tempo de chamar os outros, logo o hospital estaria cheio deles, por todos os lados.

— Eu vou dar um jeito de tirar eles daqui, suba a escada e vá até o final do corredor, conte o que aconteceu. —
— Não… o que você vai fazer? —
— Calma, eu vou pegar o carro e chamar a atenção deles. —
— Não é melhor chamar os outros? —
— Vamos ficar presos no hospital, não se preocupa, para que nenhum deles fique na região, vou matar quantos puder e fazer o máximo de barulho possível. —
— Como vamos encontrar você novamente? —
— Depois que o Léo estiver melhor, sempre vão a ponte de Williamsburg as 7 da manhã e da noite. —
— E se não pudermos ir? —
— Vocês vão poder. —

Três mortos-vivos estavam entrando no hospital.

— Vai! —

A Gabriela correu em direção das escadas, matei os dois primeiros deles com o taco de basebol e com um tiro matei o outro, corri pra fora do hospital e continuei a matar cada um deles até que a pistola ficou sem munição, entrei no carro e tentei fazer ligação direta, na primeira vez que conectei os fios, apenas uma faísca saiu e eu levei um choque, mais deles se aproximavam, porém, acredito que por ser o segundo dia ainda não tinham tantos pela rua, eu poderia ter chamado os outros. Meu plano foi um lixo, mas era tarde demais pra voltar atrás, o carro ligou, apertei a buzina e acelerei, todos os mortos-vivos da região me seguiram enquanto disparei com o carro.

— Um bastão de basebol, um carro, uma pistola descarregada e morrendo de fome. Isso vai ser divertido. —

Liguei a rádio do carro no máximo e disparei pela avenida, olhei para o retrovisor, a frente do hospital estava limpa, porém, não poderia deixar eles aqui, meus amigos estavam sem o carro, então virei a esquina e parei o carro, quando mais deles chegaram perto acelerei novamente, eles vinham atrás de mim como idiotas, enquanto isso mais mortos-vivos de outras ruas estavam vindo.

— Para mortos cegos, seus ouvidos funcionam muito bem. —

Coloquei o pé no acelerador e mudei a marcha, Eles não descolariam de mim tão fácil, fui a toda velocidade, sem direção, apenas afastaria eles dali.

Notas finais
Eu falei que a história ia embrasar não foi? Obrigado por ler.