Fallen World
4 O problema
Notas iniciais
Leonhard D'angelo – Z-day 4 — tarde
Era uma noite chuvosa, eu não sabia o que estava fazendo andando pelas ruas, meus pensamentos estavam embaralhados, eu sentia uma dor que não poderia explicar, uma angustia, uma tristeza como se algo tivesse sido tomado a força de mim, não sabia o porquê, mas apenas não conseguia parar de andar, a rua estava deserta, não havia pessoas, animais, errantes, nem nada, apenas chuva. Era uma rua asfaltada, suas calçadas brancas, haviam casas dos dois lados, feitas de madeira, caindo aos pedaços, a visão me mostrava que eu cheguei tarde demais para algo, muros destruídos, árvores caídas, poças de água formadas por onde eu passava mostravam meu reflexo, eu estava cansado, meu rosto era de melancolia, aquele lugar fora destruído a pouco tempo, talvez por homens, talvez por chuva, ou talvez por errantes, não havia como saber, meus cabelos arrepiaram ao som de um trovão ecoando no céu, minha roupa grudava em meu corpo, eu queria olhar pra trás e voltar, mas meu corpo se movia sozinho, em direção a algo que eu nem sequer imaginava o que seria, o vento soprava em meus olhos quando ví algo que me assustou, talvez mais que a morte de um ente, talvez mais que a dor de um tiro, quem sabe, mais que andar em uma rua deserta, sem se lembrar de onde estava antes, ou sem saber o que aconteceria depois.
Meus amigos estavam em minha frente, me olhando como se não me vissem, mas isso é obvio, o Thalles estava com um sorriso bobo, sangue escorria de sua boca, seus olhos, vidrados em minha direção, mas não era só ele, Lua, Gabriela, Heitor, todos eles, e até mesmo a Twanny estava olhando para mim, mas havia algo de estranho com eles, eu desejei estar errado, mas ao que parecia… Eles estavam todos mortos.
Acordei assustado, não fazia ideia de que dia era, a que horas, estava no quarto do hospital, haviam fios levando soro até minhas veias, um curativo foi feito no meu braço enquanto eu dormia, eu não sentia dor, mas estava cansado demais pra me levantar, não havia ninguém no quarto, ele estava com as luzes apagadas, um ventilador girava no teto, tão devagar que chegava a hipnotizar, bolsas estavam encostadas na parede, deduzi que ainda havia alguém por perto, então tentei me levantar, instantaneamente minha vista escureceu, meu corpo estava pesado, meu braço começou a doer… É, eu não deveria ter sido tão imprudente, fiz o máximo de esforço para sentar na cama, minha vista foi voltando ao normal e eu me senti um pouco melhor, depois de puxar os fios com dificuldade me levantei, eu estava com uma camisa azul, diferente da que me lembrava vestir antes, toquei o bolso da minha calça, minha chave ainda estava nele, não era um sonho dessa vez, fui em direção da porta e olhei para fora, ví meus amigos andando pelos corredores do hospital em direção ao quarto em que eu estava, respirei aliviado.
— Eu não fui deixado pra trás afinal… —
— Volta pra cama, eu não te dei permissão pra sair! —
Ela estava vestindo uma camisa regata verde e um short branco, seus cabelos estavam presos em um coque, a pesar da frase, o tom de voz era doce, deveria estar feliz de me ver em pé.
— Oi, lua. —
Assim que eles chegaram na entrada do quarto dei um abraço em Thalles e Heitor ao mesmo tempo.
— Você é doente, na próxima vez que se arriscar daquele jeito eu te mato. —
— Beleza, Bro. —
Ele estava vestindo uma camisa cinza e uma calça preta, com um boné vermelho e branco, escrito Fatal Fury, ele carregava uma bolsa nas costas.
Todos pareciam felizes em me ver.
— Achei que você não fosse melhorar mais, temos que conversar. —
— Desculpe por dar trabalho a vocês. —
O Heitor estava com uma bermuda preta e uma camisa branca, seu rosto estava feliz, mas sua voz carregava um tom sério.
— Ei, como tá o seu braço? —
— Ele dói um pouco, mas acho que tá melhor que da ultima vez que eu acordei, falando nisso a quanto tempo eu estou dormindo? —
— À dois dias. —
A Júlia estava com uma calça branca e uma camisa de mangas compridas puxadas até o cotovelo cor de vinho. Eu estava feliz em ver todos, mas quando ouvi a Gabriela falar comigo tirei um peso da consciência, então sentei na cama. Ela estava com um short preto e uma camisa verde-claro, escrito BTS na frente.
— Oi. —
— Oi, Gaby, então você tá bem, né? —
— Eu fiz besteira, Léo… —
— O que? —
— Eu fiz com que o Adarl- —
Ela foi interrompida pelo Heitor.
— Ei, não jogue as palavras desse jeito, vai complicar tudo, temos que conversar Léo.
— O que houve? —
— Umas coisas aconteceram e o Adarlan se separou de nós, ele combinou um jeito de nos encontrarmos. —
— Ele tá bem? —
— … Não sabemos, mas ele não seria tão burro ao ponto de se separar de nós sem um plano. —
— Vamos até ele agora? —
— Primeiro você tem que descansar, enquanto você estava dormindo nos dividimos entre cuidar de você e ir nas proximidades, achamos uma loja de roupas e um supermercado. —
O Thalles tirou uma muda de roupas da bolsa e me entregou.
— O Adarlan levou o carro, junto com nossas bolsas, sobraram umas armas e umas barras de ferro, mas o resto tá com ele, veste ai, acho que você vai gostar.
Ele me entregou uma camisa preta com uma cruz branca no meio junto com uma calça jeans preta, um sapato de cano alto preto e um casaco branco.
— Obrigado, que dia é hoje? —
— Não se preocupa com a data, isso não serve mais pra nada, mas se está preocupado com o porto, nós temos mais três dias. —
— Isso não é muito tempo… —
— Quando você melhorar, podemos pegar uma das ambulâncias e ir até lá em menos de um dia. —
— Como estão de errantes por perto do hospital? —
— Ontem não haviam muitos, mas hoje já existem ao menos cinco deles em cada rua, eles foram atraídos pelo Adarlan quando ele saiu, mas agora, mais apareceram. —
— Entendo, eu quero saber sobre o que aconteceu depois, nesse hospital tem Água não é? —
— Sim, há uma ala com banheiros e chuveiros no andar de baixo. —
— Certo, vou tomar um banho e trocar essa roupa. —
Me levantei da cadeira, levando comigo as roupas, meu corpo não doía tanto, acho que estava começando a me acostumar a ficar deitado, me sentia mais leve, acho que perdi peso enquanto dormia. Algo que provavelmente me traria problemas no futuro, quando eu cheguei à porta o sonho que eu tive veio em minha mente mais uma vez, então olhei para trás, o Thalles estava sentado, conversando com o Heitor, a Lua recolhia os remédios que estavam espalhados em cima de uma bancada ao lado da cama, enquanto a Gabriela e a Júlia guardavam duas bolsas algumas roupas que provavelmente teriam pego a mais na loja.
— Eu não vou deixar que nenhum de vocês morram, me desculpe por ficar debilitado esse tempo, isso, com certeza, atrapalhou o nosso grupo, e obrigado por me salvar, eu não vou esquecer disso. —
O Thalles jogou um saco de soro e uma faca pra mim.
— Agradeça a Luana, ela cuidou de você esse tempo todo.
Foi difícil pegar os dois uma mão só, então achei que estivesse me zoando, me virei à Luana e agradeci.
— Me desculpe pelo trabalho, obrigado por me salvar. —
— Não se preocupa, você também me salvou, eu teria feito isso por todos. —
Mostrei um sorriso fraco e saí da sala enquanto ouvia ao fundo:
— Não é melhor alguém ir com ele? —
— Ele não gosta de ser dependente, isso deve ter sido complicado, deixa ele se exercitar. —
Z-Day 5 — manhã
No dia anterior após tomar um banho e me vestir, joguei minhas roupas no lixo, não teria como me preocupar em lavar roupas, no máximo falaria com os outros para antes de irmos ao encontro de nosso companheiro, passar na loja de roupas para que eu pegasse mais algumas para quando as minhas estivessem sujas de sangue ou poeira, o que no estado atual do mundo não demoraria muito. Nós comemos um jantar que eu fiquei feliz em preparar com ingredientes que foram pegos pelos meninos enquanto eu estava descansando e fomos ao terraço do hospital, para ver como a situação estava, mesmo a noite, as ruas estavam bem iluminadas pelos postes e pelas fortes luzes do hospital, errantes podiam ser vistos nas avenidas e acabamos concluindo que o melhor jeito de irmos à Williamsburg Bridge seria de manhã, para caso algo saísse do controle, teríamos o resto do dia para resolver.
Quando acordamos, junto com o nascer do sol, nos reunimos para pensar em algo, assim como toda falha, tem que ter um plano antes de tudo dar errado.
— Vamos até a loja de roupas? —
— Não precisamos, acredite, já pegamos mais que o suficiente. —
— Certo. —
Eu me propus a pensar em um plano junto com Heitor, que se intitulou o segundo estrategista do grupo, porém, todos se reuniram para ouvir, estavamos animados em sair do hospital, iriamos nos encontrar com Adarlan se tudo desse certo, e estariamos a um passo do porto, assim poderiamos nos encontrar com o governador, e saber como sair deste inferno.
— Eu acho que deveríamos seguir reto para a ponte, temos um encontro marcado com ele as 19h, mas não temos como esperar que tudo dê certo, então só dessa vez o caminho mais rápido pode ser o melhor. —
— É, não acho que apenas dar voltar para evitar a multidão irá adiantar de algo, pelo que me contaram, não há errantes aqui perto porque Adarlan levou todos com ele, mas lá vai ser diferente, terão errantes atraídos por humanos, e humanos que morreram tentando chegar a ponte. —
— Podemos pegar uma ambulância e seguir até a ponte, evitando apenas as ruas lotadas, ainda temos algumas armas para lidar com emergências. —
— E munição? —
— Um dos fuzis ainda tem o cartucho cheio, o outro tem algumas balas, mas não tá completo. E nossa pistola foi levada por Adarlan. Ainda temos algumas barras de ferro e uma faca. —
Esse era o bom de ter o Thalles no grupo, ele entende de armas.
— O que deu pra pegar no hospital? —
— Anti-inflamatórios, analgésicos, bandagens, coagulantes, soro, temos bastante coisa. —
E esse era o bom de ter a Luana no grupo, fico feliz de não ter ficado nesse mundo sozinho depois que tudo mudou.
— Certo, vamos para a ambulância antes que o sol fique forte, temos que ter tempo para comer durante a tarde e nos preparamos para a noite, com a baixa visibilidade da ponte será difícil encontrá-lo. —
— Beleza. —
Nós fomos até a sala da diretoria do hospital, pegamos algumas chaves para ligarmos uma das ambulâncias, encontramos também uma pistola que o Thalles falou que era uma Imbel, e mesmo não gostando de armas, ele me obrigou a ficar com ela, já que ele e Heitor já carregavam os fuzis, nós não tínhamos armas pra todos, então as garotas ficaram desarmadas, isso poderia ser complicado se nos colocássemos em uma situação como a anterior, poderia ser complicado, mas se eu soubesse na coisa que estávamos próximos a nos meter, eu nem sequer ligaria de pegar essa pistola, pois ela não ajudaria em nada.
Quando entramos na ambulância, sem objeção o Heitor assumiu a direção, Thalles, com o mapa, sentou do seu lado, enquanto os outros de nós ficamos atrás, dentro da ambulância haviam mais alguns remédios, mas nada que nós já não tivéssemos visto, então não pegamos nada, seguimos durante uma hora por avenidas desertas, com alguns errantes que apareciam subitamente de vez em quando, mas eram facilmente evitados quando trocávamos de rua, notamos que o caminho estava ficando cada vez mais lotado de errantes quando percebemos que o número deles estava aumentando, me fez pensar o quão terrível isso era, crianças, homens, mulheres, adultos, idosos, nenhum deles escapava, nas minhas lutas anteriores com eles, pude sentir que não tinha medo de se machucar por estarem mortos, então a falta de limitação nos músculos pelo cérebro compensava a falta de coordenação motora.
— Um verme neural, mudando as estruturas do cérebro, com certeza, por isso não podemos ser mordidos, em pouco tempo eles irão para o cérebro e viraremos um deles. —
Foi o que a Lua falou, e não vou mentir, fazia sentido.
Faltavam poucos quilômetros para chegar a ponte, em um relógio da ambulância, marcava [ 10:32 ], ainda teríamos tempo de sobra, mas ao virar na esquina, nos deparamos com o “problema”, esse foi o apelido carinhoso que demos a situação, vimos uma garota com aparência entre 17~20 anos que foi reconhecida pelo Thalles como Sasha, correndo junto de um garoto ferido de aparentemente alguns anos mais velho que ela, nós inicialmente tivemos uma rápida discussão com dois pontos, entre eu Thalles contra Heitor, sendo eu optando por ajudá-los e o Heitor optando por irmos em frente, infelizmente como ele não diminuiu a velocidade iriamos passar sem nem sequer sermos vistos por eles, que cruzaram a avenida apressadamente, quando descobrimos o porquê deles estarem fugindo, nossa ambulância foi jogada contra a parede de uma loja e todos balançamos dentro dela que tombou de lado, os vidros estouraram, o impacto fez com que a ambulância ligasse a sirene sozinha como se o som da batida já não estivesse machucando suficiente os nossos ouvidos, e infelizmente, nenhum de nós sabia desligar, e além do mais, estávamos muito ocupados, tentando sair dela, que estava virada de lado.
— Tá todo mundo bem? —
Eu não havia me machucado, e pelo visto os outros também não.
— Estamos bem, mas… o que foi isso? — Heitor conseguiu dizer.
— Eu machuquei meu braço, mas não foi nada grave. — A Gaby não parecia sentir dor, mas, com certeza estava machucada.
Fomos aos poucos saindo da ambulância, enquanto ouvimos um som estranho, eram errantes se aproximando, o barulho da sirene não atraiu só os dois jovens que corriam machucados a procura de ajuda, também atraiu errantes a procura de vítimas, e atraiu ele, o nosso carinhoso “problema” com o triplo do nosso tamanho, e dezenas de vezes a nossa força.
Eu caí em cima da Gabriela, que machucou o braço ao tentar se segurar na ambulância, os meninos que estavam de cinto não sofreram danos, e por sorte a Júlia e a Luana estavam encostadas do lado certo para amortecer o impacto da batida, não estávamos muito machucados, então conseguimos sair do veículo rápido e olhar em volta, a Sasha e seu colega estavam olhando para nós, com um rosto aterrorizado, gritando que ele estava vindo, nós estávamos limpando nossas roupas da poeira e preparando nossas armas pra lutar contra os errantes que se aproximavam, quando um “trem” passou por nós, acertando a nossa ambulância que antes fazia barulho e dessa vez foi destruída pelo impacto, nós fomos arremessados longe, o que foi nossa sorte, pós o impacto sobre a ambulância foi tão forte, que a colocou dentro do prédio que nós batemos, derrubando toda a loja, que eclodiu em cinzas, seja lá o que foi que passou por nós, com certeza estava soterrado, nos levantamos com dificuldade e limpamos a poeira, preparando as armas, quando a Sasha gritou:
— ISSO NÃO ADIANTA, TEMOS QUE FUGIR, AGORA!! —
Não entendíamos a situação. Quando passamos a entender, e desejaríamos ter esperado todo o tempo do mundo para sair do hospital e não ter passado nessa rua a essa hora para sempre, saindo da poeira, caminhando em direção a nós, paralisando cada músculo do meu corpo, ele rugiu e me fez perguntar.
— O que diabos é isso? —
.
Fale com o autor