Falcão
16 CAPÍTULO 16: Divergências & Julgamento
Notas iniciais
FALCÃO
Escrita por Coffee
CAPÍTULO 16: Divergências & Julgamento
Estava furioso.
A teimosia de Sakura era tanta que o tirava do eixo. Como um ser tão pequeno podia ser tão teimoso? Tão petulante?
— Eu sei que posso fazer isso.
Qual a parte de “julgamento até a morte” ela não entendera?
Eu não posso nem ao menos pensar na ideia de perder você.
Ele quis dizer. Será que ela não entendia que já fora experiência o suficiente quando ela fora atacada por aqueles ninjas e apareceu naquele estado no hospital? No qual ele teve que interferir junto com Naruto e Tsunade para tentar salvar sua vida?
— Isso não é sobre poder fazer.
— É claro sim! ‘Se você não duvidasse tanto da minha capacidade como kunoichi aceitaria!
Ele não duvidava da capacidade dela. Não estaria junto dela se não a achasse uma mulher incrivelmente forte (não só literalmente), uma mulher muito capaz de defender a si mesma, as pessoas que amava e seus interesses.
Mas arriscar sua vida em um julgamento por combate não era uma opção. Não era sobre provar que ela tinha talento o suficiente para eliminar o ex-conselheiro.
Não vou colocar sua vida em jogo.
— Você sabe que por lei não posso recusar.
— Kakashi pode encontrar uma saída.
— Sasuke, dá para ter um pouco de fé em mim uma vez na vida?
Explodindo ele respondeu:
— ‘Se for e sobreviver, não precisa mais voltar.
Ela virou o rosto para ele. Os olhos verdes arregalados, a boca aberta em um “ó”, depois os olhos dela ferveram em ódio.
— Está abrindo mão de nós?
— Você que está abrindo, arriscando sua vida desse jeito.
Quando você vai entender que não existe um nós, se não existir você?
— Eu não aceitaria se soubesse que não poderia lidar com isso! Mas eu posso!
— Nós nem sabemos qual são os reais poderes dele!
— Seja qual for eu posso lidar!
— Pare de querer provar isso para os outros, para si mesma! Não estamos em uma prova da academia ninja!
— Então porque você age como um sensei, querendo me dizer o que posso ou não fazer?
Estou tentando te proteger.
— Estou tentando colocar algum pingo de sanidade na sua cabeça!
— E quando você se foi? Deixou que eu ou Naruto colássemos alguma sanidade na sua?
Foi o estopim. Ela abriu a boca desacreditada com o que ela própria tinha acabado de dizer.
Eles nunca tocavam no assunto do passado.
O passado machucava.
— Eu... Sasuke... Eu...
Ele não deu ouvidos, saiu andando deixando-a sozinha no centro da sala de estar, as mãos soltas ao lado do corpo, os olhos magoados.
♦ ♦ ♦
— Agora me sinto envergonhado por ter perdido a cabeça daquele jeito.
Estavam sentados no balcão do Ichiraku. Naruto falava já algum tempo, mas ele só ouvira a última parte e foi nela que tentou se focar para esquecer os outros problemas.
Não culpava o loiro, ele também teria perdido o controle se alguém falasse daquele modo de Sakura, do mesmo modo em que perdera o controle e expos sua intimidade aquela vez no bar.
— Cara... O que está acontecendo?
Ele tentou disfarçar, respondendo que também teria perdido a cabeça (o que não era uma novidade para ele, devido ao seu passado), mas o loiro percebeu que na verdade ele estava longe dali.
— Você nem ao menos estava ouvindo o que eu dizia, só ouviu essa última parte.
Não teve como negar.
— É a Sakura-chan, não é? O julgamento... Eu também não parei de pensar nisso um segundo desde que Kakashi-sensei nos contou...
Tinha aceitado sair para beber com o Uzumaki na esperança de esquecer aquele assunto, mas ao que parecia não tinha solução, o assunto sempre voltava em pauta.
— Essa clausula de não poder recusar é complicada, pra não dizer ridícula.
— O problema é que ela nem está pensando na possibilidade de recusar.
— ‘Se tem uma coisa que eu aprendi todos esses anos é que Sakura-chan sabe o que faz, se ela achasse que não daria conta, não aceitaria.
Pelo contrário. Sakura tem o dom de se envolver em problemas.
Não respondeu.
— Sei que está preocupado teme, eu também estou. Mas Sakura-chan é uma kunoichi forte e—
— Naruto, nós não poderemos interferir.
— Não vamos precisar.
— Como pode saber? E se ele estiver ganhando? Eu vou ficar lá a assistindo morrer?
Essas palavras trouxeram um arrepio no seu corpo, seu coração martelou.
O loiro ficou em silêncio por um tempo pensando nas suas palavras.
— Ela vai ganhar.
Queria socá-lo.
— Cala a boca.
— Teme, ela também deve estar com medo! Ela não pode recusar... Só o que podemos fazer é apoia-la, como ela sempre nos apoiou a vida toda.
Apoia-la nessa maluquice? Sem chance.
♦ ♦ ♦
Era quinta-feira. Eles haviam se evitado de todos os modos possíveis. Sakura passara mais tempo no hospital do que o aconselhável e ele treinando. Fingiam que estavam dormindo quando o outro chegava, e, quando por azar pegavam o outro acordado, conversavam sobre uma banalidade qualquer.
Quando acordou ela não estava mais na cama. Viu-a sair do banheiro, o short negro, o vestido vermelho, os protetores nos cotovelos e joelhos. Roupas de batalha.
Sua garganta pareceu fechar-se instantaneamente.
Ela olhou para ele em dúvida, andou pelo quarto e finalmente tomou coragem:
— Sei que você não aprova isso, mas eu não tenho escolha.
— Você nem ao menos lutou para ter uma!
— Eu não quero brigar.
Ela se sentou na beirada da cama, parecia psicologicamente exausta.
— A luta será na mesma arena dos exames chunnin. Não abriram para a população, mesmo todos querendo assistir depois do pronunciamento de Kakashi. Somente o Hokage, o advogado e alguns amigos íntimos estarão presentes.
Acenou positivamente. Ela se levantou, andou até ele que já tinha se sentado na cama, e beijou sua testa passando a mão pelo seu rosto em uma carícia suave.
— Eu espero que você esteja lá.
Ela comentou, e saiu. Deixando-o sozinho com seus pensamentos e seu sentimento de impotência.
♦ ♦ ♦
A arquibancada estava vazia, somente em um canto bem lá em cima estava Naruto, Hinata, Kakashi, Shikamaru, Sai e dois homens que ele não conhecia, supôs serem advogados. Ele entrou em silêncio e se colocou em pé ao lado do Uzumaki.
O loiro olhou para ele instantaneamente, lhe enviou um sorriso triste e voltou a olhar para a arena. A rosada entrou sozinha, ajeitando as luvas nas mãos, e em seguida entrou Umiko acompanhado de dois guardas.
As algemas foram tiradas dele, ele se preparou e em seguida Kakashi deu a ordem para que o julgamento começasse.
A última coisa que aconteceu antes do ataque foi Sakura olhar diretamente para ele.
O ataque durou algum tempo sem que nenhum dos dois fosse atingido. Umiko desviou bem de todas as investidas da kunoichi assim como ela. Quando viram que não teriam êxito naquele ataque se separaram e se prepararam para o segundo.
O ex-conselheiro mexeu as mãos em uma conjuração rápida e algo voou em direção a Sakura, líquido, mas não era água. Ela bateu no chão, pisou em uma rocha solta, levantando-a e formando um escudo rapidamente.
Assim que o líquido atingiu a pedra, começou a derretê-la.
Ácido.
Ele fez menção de ativar o sharingan, tudo que queria era colocá-la dentro de seu susanoo e tirá-la dali, mas foi parado pela voz de Kakashi.
— Sasuke, não.
Tentou relaxar os ombros tensos, desistindo da ideia e voltou seu olhar para a luta. Uma pequena parte da rocha permaneceu intacta quando o jutsu acabou e a Haruno tinha apenas uma parte do braço corroída pelo ácido.
Por algum motivo, talvez para economizar chakra, ela não se curou, nem reclamou de dor, apenas se colocou em pé novamente observando, tentando prever o próximo ataque com os enormes olhos verdes.
— Vaaaaaaaaai Sakura-chan! Quebra ele!
Naruto gritou ao seu lado. A médica correu novamente em direção ao conselheiro, os punhos brilhando de chakra, em uma sucessão de golpes conseguiu atingi-lo uma vez e ele voou, mas quando atingiu o muro da arena desapareceu em uma fumaça.
Um clone. Todos os presentes o procuraram com os olhos, assim como ela, que estava no meio da arena. Novamente o ácido veio sem eles nem ao menos encontrarem o autor, e Sakura foi atingida em cheio.
Quando Naruto soltou um som de horror, vendo a amiga derretendo, ela também sumiu em uma fumaça e reapareceu intacta há alguns metros à frente.
— Bem pensado!
O loiro gritou novamente comemorando. O ex-conselheiro apareceu, os dois se engalfinhando em uma luta corpo a corpo. A Haruno conseguiu o atingir, dessa vez nele de verdade. Ele voou alguns metros e parou cuspindo sangue.
Outro jutsu foi feito, uma névoa tomou conta da arena, e eles nem ao menos podiam enxergar lá em baixo. Houve som de armas e socos, até que a névoa se esvaiu. Umiko estava em um canto da parede ofegante e a médica no canto oposto, o corpo cortado em várias partes, um pouco de sangue escorrendo pelo queixo.
Deu as costas.
— Sasuke! Sasuke! Onde você está indo?
Naruto perguntou, segurando seu ombro.
Desvencilhou-se do toque do loiro e voltou a andar saindo dali sem olhar para trás.
Não consigo ver isso Naruto.
Não suporto vê-la machucada e não poder fazer nada.
Pensou, mas não disse em voz alta. Apenas andou até a saída, deixando Sakura ali arriscando a vida.
♦ ♦ ♦
Observou-a. Havia cortes no corpo, mas ela ainda não tinha ativado o byakugou, isso significava que ela não estava nem perto do limite. Tinha que arrumar um modo de desgastá-la mais, cansá-la para que conseguisse a vitória.
E tinha que tomar cuidado com os ataques dela. Até o momento ela tinha o acertado apenas uma vez e ele já sentia algumas costelas quebradas por um único soco.
Tinha a escolhido por cogitar que ela fosse a mais fraca dos três. Mas se enganara, mesmo não tendo um olho poderoso ou até mesmo uma raposa dentro de si, ela conseguia prever seus ataques facilmente e ainda conseguira enxergar suas armadilhas através da névoa.
Ser conselheiro os enferrujava. Constantemente protegido quase nunca treinava e isso deixava seus recursos escassos. Ela pareceu perceber.
— Acho que você esqueceu que o essencial para o ninja é o treino.
Ela o atacou novamente. Usou um clone para sair dali, mas ela percebeu e já estava se encaminhando para a árvore onde ele realmente estava.
— Talvez você devesse ter gastado menos tempo planejando colocar a vila como soberana, casamentos e maldades, e gastado mais tempo desenvolvendo suas habilidades.
Eles lutaram por algumas horas. Agora estavam ambos ofegantes e cansados.
Caso tivesse escolhido o julgamento comum sabia que iria pegar prisão perpetua. Não suportaria passar o resto da sua vida naquele lugar imundo, com aquela comida insossa. No julgamento de combate tinha a chance de se vingar, de matá-la, e, mesmo que morresse seria uma escolha mais confortável do que ir para a cadeia.
Seja qual fosse ele estaria satisfeito. Ainda sim tinha o desejo de matá-la, assim ela não ficaria mais com o Uchiha e pagaria pelo que tinha feito a ele. Já ele ganharia tecnicamente sua liberdade, mas não era idiota, sabia que mesmo que ganhasse o Hokage jamais o deixaria livre, acabaria o acusando de alguma outra coisa e o prenderia novamente.
Era uma missão suicida, afinal.
Ela olhou pela décima vez para a arquibancada. O Uchiha tinha saído logo no início da luta e ela parecia olhar para lá com esperança que ele voltasse. Mas isso não aconteceu, em compensação o loiro barulhento berrava a cada dois segundos incentivando-a. Observou-a respirar fundo e voltar seu olhar para ele, o adversário.
A kunoichi estralou os dedos, arrumando as luvas no lugar, canalizou o chakra que tinha (não muito), ignorou as feridas espalhadas pelo corpo e olhou-o com determinação.
Aquela determinação que ele (em segredo) sempre admirara nela.
— Vamos acabar com isso logo.
Ela disse. Ele também se preparou, a dor das costelas atingidas e de um braço quebrado (do segundo soco que ela acertara) foi ignorada.
— Acaba com ele Sakura-chan!
Acumulou chakra e moveu as mãos rapidamente. Sete clones mais ele se colocaram em volta dela, fechando-a em um círculo. Como sempre ela percebeu sua intenção.
Os riscos se espalharam pelo corpo da médica, o byakugou finalmente ativado. Ela sabia qual jutsu ele usaria, mas será que o poder de cura dela era tão bom a ponto de conseguir curá-la ao ser banhada de ácido?
Ela olhou em volta, tentando descobrir qual deles era o verdadeiro.
Moveu as mãos novamente, o ácido voou em direção a ela.
Observou-a respirar fundo, como se esperasse o líquido, mas antes que isso acontecesse, ela se moveu, mergulhando em direção ao mar de ácido e ao seu verdadeiro eu.
Viu-a se aproximar, seus clones se desfazendo já sem chakra, e ela se aproximou correndo. O corpo cheio de queimaduras do ácido se recuperava em uma velocidade absurda.
A última coisa que pensou antes que ela o atingisse foi que ele fez bem em amá-la. Era uma puta surpreendente, e era uma pena que ela fosse continuar com o Uchiha.
Sentiu o golpe, tão forte que ele ficou sem ar, sendo jogados alguns metros à frente. Quando estava estirado no chão, o pulmão lutando em busca de ar, provavelmente perfurado pelas suas costelas, ela veio até novamente. O loiro gritava em glória.
— Saiba que o essencial para o ninja não é vir de um clã renomado. É ter força de vontade.
Ela se abaixou.
— Eu deveria te deixar assim, morrendo lentamente, sentindo a dor no seu corpo, igual você mandou que fizessem comigo. Mas vou te dar uma morte mais tranquila.
As mãos dela se aproximaram dele e tudo ficou escuro.
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