6b

Na vila Shalltear, uma certa lâmia adolescente de cabelos púrpuros estava procurando por sua mãe.

Procurando por pistas quanto a sua localização, ela acabou indo parar na torre de vigilância na borda da vila.

—Pai! Paaaai!!! Você está aíííííí!?

—L-Lily!?

—Ora, olá Lily, como você cresceu! É bom te ver de novo, já faz um tempo!

Parecia que o seu pai estava passando o tempo conversando com a Moomo, de novo. Lily pensou que se Morgan tivesse visto isso, provavelmente teria dito algo como: “Me pergunto se o pai é muito corajoso ou apenas idiota, porque isso realmente poderia matar ele”. Mas a Lily tinha coisas mais importantes com as quais se preocupar do que o casamento de seus pais.

—Ah, oi Moomo! Estou bem, e você?

Sem tempo, Lily não espera por uma resposta e já segue com a conversa.

—Por sinal, pai, você viu a mamãe?

—(Quando a Lily diz “mamãe” se refere a Selena, certo? A Lapis e a Merry são as mães rosa e azul) Hmmm... Não, não acho que eu vi ela desde que eu saí de casa. Já tentou perguntar para a Lo? Parece que a Selena ia ajudar ela com o jardim.

Só agora, Lily percebe que está perguntando para a pessoa errada. Se o seu pai tivesse se encontrado com a mamãe antes, ele não estaria sendo capaz de conversar agora.

—Deixa quieto então, já conversei com a Lo. Ah, e quanto a Rach-nee? Você sabe onde ela está? Ela sempre sabe o que fazer.

—A Rachel? Ela foi chamada de volta para a capital, parece que era uma emergência. Não sei quando vai ser a próxima folga dela, então não acho que ela vai poder te ajudar... Ah, mas eu também sempre sei o que fazer, pode perguntar para o papai!

A Lily, e até a Moomo reviram os olhos.

—Entendo... (Talvez eu pudesse pedir para ele me arremessar em direção a cidade acadêmica? Isso poderia me economizar meio dia de viagem--- Não, calma, não acho que eu conseguiria me mover depois de quebrar minha cauda na queda...). Eu só preciso que a mamãe me teletransporte. Ou você sabe algum jeito mais rápido de viajar?

—Você precisa que a Selena te teletransporte para algum lugar, então? Pera... Hahá! Isso tem alguma coisa a ver com Morgan? (Agora que eu percebo, a Lily está fazendo uma cara de ciúmes. Hoho, que tipos de coisas divertidas será que Morgan está aprontando?) De qualquer jeito, não acho que a Selena te teleportaria por um motivo tão pequeno. Além disso, você só tem 14 anos, não pode ir tão longe assim sozinha, então também teria que convencer alguém a ir com você, antes... Mas ainda que conseguisse, você não tem escola amanhã?

—É só eu faltar!

—Oi, oi, por favor não declare isso em alto e bom tom para o seu pai...

—Mas é você quem sempre conta histórias sobre como você dormia nas aulas e fazia os professores encontrarem métodos de te acordar que não envolvessem explodir a sala!

—Hehe, teve uma vez em que realmente acabaram explodindo---

—Caham!

A Moomo decide interromper..

—Não pode fazer isso, Lily! Você tem que cuidar direito dos seus estudos, para crescer como uma adulta responsável!

—Hehe, acho que vou passar a parte de responsável---

Finalmente, o pai decide usar o trunfo escondido.

—Morgan não ia gostar disso, não acha?

...

—Eu vou tomar os meus estudos a sério...

—Ótimo! (Merry estava certa, isso realmente funcionou... Mas o fato de que ela ignorou o que eu disse completamente, enquanto mudou de opinião pela simples menção de Morgan, meio que fere um pouco o meu orgulho como pai...)

—Vou continuar a procurar pela mamãe, então!

—Oi, oi, espera aí, e quanto a conversa que acabamos de ter!?

—Só preciso fazer ela vir comigo, para nos teleportar de volta ainda hoje!

Lily grita, enquanto sai apressada.

—Mas se a Selena não deve nem querer te teletransportar, imagina ir com você---! E ela não está mais ouvindo...

Moomo ri ao lado do pai.

—Lily cresceu uma criança tão saudável!

—Só queria que ela usasse suas energias mais para si mesma, do que se preocupando com Morgan...

—Mas não é o mesmo?

—... Haha! Sim! Acho que um não excluí o outro!

Eles continuam a conversar, mesmo depois que a Lily se foi.

...

...

...

Dentro da clínica médica, a doutora da vila, a slime Merry, estava ocupada trabalhando mesmo durante um feriado. Por que as pessoas apenas apareciam para fazer check-ups gerais quando tinham longos períodos de tempo livre? Elas deveriam valorizar mais a sua saúde.

Comparada com as outras vilas próximas, Shalltear era a que ficava mais próxima de uma cidade, mas ainda assim ficava a um dia de viagem. Por isso, monstas e humas da região vinham se consultar com a única médica nas proximidades.

A clínica ficava ocupada mesmo durante feriados e finais de semana, ou melhor, principalmente durante esses períodos. Além disso, como a Merry não queria que sua filha Muzet perdesse o precioso tempo livre que lhe sobrava, ela decidiu trabalhar sozinha durante esses dias: “O tempo livre de uma criança vale muito mais do que o meu”.

Merry passava mesmo os seus dias supostamente livres na clínica. Mas ela não se importava, ou melhor, ela preferia que fosse assim, pois ela sempre gostou de ajudar as pessoas. Sim, foi exatamente por esse motivo que ela acabou conhecendo---

—Mãe! Mããããeeee!!! Cadê você!?

—L-Lily! Já não te disse para não gritar dentro da clínica!?

—Hehe, mas hoje é feriado, então não tem problema, não é mesmo? Quero dizer, ninguém com algum problema de verdade iria esperar até o feriado para vir fazer exames, certo?

—Ah, Lily, espero que você possa sempre continuar com esse seu jeito de pensar... Mas infelizmente não é bem assim que as coisas funcionam... De qualquer jeito, isso não interessa agora! Você não pode gritar dentro da clínica porque pode perturbar os pacientes em recuperação!

—M-mas tudo bem, é como dar um empurrãozinho para levantar os seus espíritos!

—O problema é justamente se você acabar empurrando eles para o outro lado... Quero dizer, Morgan não iria gostar disso, não acha?

...

—Tá bom, vou parar de gritar dentro da clínica...

—Que bom! (a Muzet estava certa, isso realmente funcionou...)

—Mãe, você viu a mamãe?

—Hmmm... A Selena deveria estar de folga hoje…. Você tentou procurar no quarto dela? As vezes ela cai em baixo de uma pilha de livros e esquece de se mover até terminar de ler alguns deles...

—Eu já passei lá, mas a porta estava trancada. Mas como ela não respondeu quando eu chamei, ela não estava lá.

—... Que bom que você é uma criança tão saudável e honesta!

Merry dá um abraço e acaricia a cabeça da Lily.

—Você pode procurar no quarto dela de novo. Se estiver trancado, você tem minha permissão para quebrar a porta.

—Hã!? Q-quebrar a porta!? Por que que eu iria---?

—Tudo bem, é só gritar algo do gênero, antes: “Não adianta se esconder, eu sei que você está aí! Estou entrando!”. E vai ficar tudo bem.

—T-tá bom então... Obrigada mãe, estou indo, então!!!

Lily grita, enquanto se vai rapidamente.

—E-ei, e a parte de não gritar mais...?

...

...

...

Dentro da casa dos Accelhearts, Muzet tinha acabado de preparar a comida e estava a caminho de chamar as outras para almoçar.

—Ah… Acho que já estou com saudades da comida que Morgan preparava…

No trajeto para o telhado, ela ouviu a voz de Lily, gritando próxima aos quartos.

—Hmmm... O que será que a Lily está fazendo...?

— N-não adianta se e-esconder! T-tô entrando!

—... Isso parece perigoso…

Muzet corre em direção ao quarto de Selena, e se depara com Lily, prestes a estraçalhar a porta com seus punhos.

—C-calma...! O que é que você está fazendo, Lily...!?

Lily olha para a Muzet, surpresa.

—Ah! Mu-nee! A mamãe não estava respondendo, então me disseram para quebrar a porta.

—Não não não não não não... Quem te disse para fazer algo assim...!? Além disso, a Selena nem está mais dentro de seu quarto, eu vi ela sendo arrastada para o telhado pela Lo a algum tempo atrás...! Olha...!

Muzet gira a maçaneta, e abre a porta destrancada, mostrando um quarto cheio de pilhas de livros largados ao chão e folhas de papel, algumas em bloco e outras soltas, mas sem ninguém dentro.

—Hã? Ela não estava aqui? Mas a mãe azul disse---

—Da próxima vez você tem que tentar abrir a porta antes, ok...? E mesmo se ela estiver trancada, não pode tentar botar ela para baixo...

—U-ugh! M-mas eu não entendo...

—Se você também começasse a quebrar a casa quando bem entendesse...... Não se esqueça Lily, a segunda regra da casa é: “Você acha que a Chrome faria isso? Se sim, é melhor não fazer...” Lembre-se de que obedecer a mãe azul e a Rach-nee é só a terceira...

—M-mas a Chrome não faria isso... Acho que ela daria um jeito para que a Tsubaki fizesse.

—Dá na mesma...

—D-desculpa então... Vou perguntar de novo para a Lo onde que a mamãe está.

—Tudo bem, já que não deu em nada... Mas já que você está indo para o telhado, pode chamar todo mundo para almoçar...? Vou encontrar a Chrome...

—Almoço? Desculpa, Mu-nee, mas eu não tenho tempo para isso! Quando encontrar a mamãe, vou pedir para ela nos teleportar para encontrarmos Morgan!

—Ah... Outra visão...? Quem está dando em cima de Morgan dessa vez...--- Quer saber, não interessa… Você tem que comer as três refeições do dia propriamente, então não pode pular o almoço... Morgan não iria gostar disso, não acha...?

—Uuu... Por algum motivo todo mundo tem me dito isso o dia todo… Tudo bem, vou almoçar antes, mas depois disso vamos sair! Vou chamar elas então!!!

Lily grita enquanto se afasta rapidamente.

—Morgan tinha razão afina de contas... Isso realmente funcionou... “O que você quer dizer com: ‘não conseguimos controlar a Lily’? Claro que não conseguem, e nem deveriam tentar! Quando você cria alguém, você dá o seu suporte, mas têm que deixar ela ter a sua própria liberdade. E quando tivermos algum conselho, temos que conversar com ela direito, para mostrarmos o nosso raciocínio e a nossa experiência. Por isso que ela me escuta, é só vocês fazerem o mesmo!...”

Muzet ri para si mesma.

—Mas ela só escuta a conversa quando tem a ver com você, Morgan...

...

No telhado, Lily se depara com a Tsubaki nua, tomando um banho de sol, enquanto se deita na terra do jardim. A areia já havia sido completamente substituída por terra nova, e agora só faltava plantar as mudas e sementes.

—Ah, Tsubaki, a Lo fez você trabalhar a sério?

—Fufu, as flores que ela encomendou já chegaram, mas ainda não tínhamos feito nenhum progresso na reconstrução... Então, por causa da minha boa vontade, vendo a minha irmãzinha tão desamparada, resolvi levar isso a sério. Com certeza não fui obrigada só porque a Lo fica extremamente assustadora quando o assunto envolve o jardim dela...

—Nossa, que legal de você, Tsubaki! E eu achando que você era só a irmã mais velha egoísta, mas que adora se gabar!

—... Fufu, vou fingir que você não teve a intenção de dizer nada de mal com isso. Mas saiba que as vezes é melhor ficar de boca calada, pirralha.

—Hehe, é mesmo? Ainda estou para encontrar uma dessas situações. E por sinal, por que você ainda está pelada, se você já terminou o trabalho? Por favor não use a sua força como uma desculpa para virar uma pervertida como a Hiki-neet—nee...

—Mas engraçado que mesmo com ela você usa o sufixo “nee”, enquanto comigo...

—Ah! Eu tinha que chamar vocês para o almoço! Cadê a Lo? E você viu a mamãe por aí?

-Fufu, as vezes me pergunto se vocês realmente não escutam parte do que eu falo, ou se só me ignoram... Mas se o almoço já está pronto, então é melhor eu me arrumar. Quanto a Lo e a Professora... Quando a Lo finalmente se deu conta de que a Professora estava sem fazer nada no seu quarto, ela resolveu levar ela para comprar adubo e nutrientes para as plantas. Elas foram para Cybele, se eu não me engano. Acho que vão almoçar lá.

—Cybele...

Lily põe um dedo na lateral de sua cabeça, enquanto pensa.

—Pera, acho que eu já ouvi falar desse lugar... Hmmm... Onde que era mesmo...? Calma, já tô lembrando! ... Não, esqueci...

—Fufu... Ignorando o problema de você não saber geografia básica, deveria pelo menos ter uma noção quanto às cidades que a Professora registrou para se teletransportar, nunca se sabe quando você pode precisar... Cybele é uma cidade principalmente de Alraunes, ao sul do continente dos monstas. Por isso, é ideal para comprar produtos especializados para jardinagem.

—Ah, isso mesmo! A Lo tinha escrito no resumo para a prova de geografia! Mas pera... Isso quer dizer que elas estão do outro lado do mundo agora!?

—Fufu... Do “outro lado do mundo” é um tanto quanto um exagero, mas sim, entendo o que você quis dizer.

—Ah, não… Vou ter que esperar até de noite, então...?

—Fufu, você precisava falar com elas para alguma coisa? Sua irmã mais velha pode te ajudar no lugar delas.

—Tem razão, eu deveria tentar perguntar para a Mu-nee... Mas não acho que ela consiga fazer nada também...

—Fufu... Quis dizer sua outra irmã mais velha.

—Hmmm... A Rach-nee teve que voltar para a capital... Alguém que poderia saber a solução seria Morgan, mas se Morgan estivesse aqui, nem precisaria me teleportar, não é mesmo?

—... F-fufu... Pense bem, você está se esquecendo de alguém…

—Hããã... Eu sou uns meses mais velha que a Lo, então tecnicamente a irmã mais velha seria eu... E quanto a Hiki-neet—nee eu nem comento...

—EU! E – U! E quanto a mim, droga!?

—Ah...

Lily olha para a Tsubaki ainda nua, suja e sentada diretamente na terra. Ela então tenta desviar o seu olhar discretamente.

—Ahaha, não está com fome, Tsubaki? Olha só que horas já são, ficamos aqui conversando e até esquecemos que a Mu-nee nos chamou para almoçar! Vamos comer antes, e pensamos em uma solução depois!

—...

—A-ah! Pera, o que é que você está fazendo!? M-me põe no chão! W-wow! Estamos indo rápido demais! Ugh! Estou ficando um pouco enjoada! Para onde estamos indo!? Ah! Essa daqui não é a sua loja? Você sabe que ainda está pelada, né!? Tá todo mundo olhando para cá com medo!!! Q-que caixa é essa que você trouxe!? N-não, pera, eu sou claustrofóbica!!!

Tsubaki enfia Lily dentro de um container, ignorando suas reclamações.

—Fufu, tem bastante água e comida aí dentro, e você pode usar esse pote para “aquilo”.

—“Aquilo’!? “A-aquilo” o que!?

—Fufu, acho que Morgan está na cidade acadêmica agora, não é mesmo? Então deixa eu ver, considerado o tempo que você vai demorar para chegar lá, e o cronograma que Morgan nos deu... Acho que deveria te mandar... Aqui?

Tsubaki conjectura, enquanto olha para um mapa.

—E-espera, Tsubaki! O que é que você está fazendo!? É muito mais rápido esperar a mamãe---!

—Fufu, ela não vai te levar. Ela prometeu para Morgan que não ia ficar se teletransportando para se encontrar toda hora. Senão não seria uma aventura, não é mesmo? Você quer ver Morgan? Então esse é o único jeito. Eu vou te dar cobertura, para que o resto da família demore mais para perceber que você saiu.

—T-Tsubaki, você iria tão longe por mim...?

—Fufu, é para a minha irmãzinha afinal de contas!

—Ah-hã! Obrigada, Tsubaki-nee!

—Fufu, agora é só esperar por alguns dias, até Morgan abrir a caixa para você.

—Sim!

Tsubaki fecha a tampa.

—Pera, você acabou de dizer “dias”? C-calma, Tsubaki! T-talvez eu devesse tentar convencer a mamãe, mesmo! E-ei, Tsuuubaakiiiii!!!

O container mágico não deixou nenhum som escapar para fora...

...

Tsubaki volta para casa e se senta na mesa de jantar.

A família toda estava reunida. Muzet, Chrome, Lo, Happy, Selena, e até mesmo Merry, que fez uma curta pausa para o almoço. Com exceção do pai, Lapis, Rachel, Morgan e, claro, Lily, que estavam ou trabalhando ou fora da cidade.

—Fufu, eu pensei que vocês duas iam almoçar fora...

Tsubaki diz enquanto olha para Lo e Selena.

—Ah, Tsubaki-nee, bom trabalho trocando a terra. Só queria que você não tivesse jogado tanto para fora do telhado... Nós só saímos para comprar umas coisas, mas ainda temos muito para fazer no jardim e, para o bem das plantas, é melhor fazer durante o dia, enquanto ainda tem sol.

—... Fufu... Então ainda tem mais coisas para fazer…

—Sim! Muito mais!

Lo diz com um lindo sorriso, sem perceber as caras de sofrimento de Tsubaki e Selena.

Selena então resolve interromper a conversa.

—A-ah! Mas por sinal, Tsubaki! Eu ouvi que a Lily estava procurando por mim, para teleportar ela para algum lugar!? Ahahaha, acho que tenho que ajudar minhas filhas de vez em quando, sabe!? Então que tal se você ajudar a Lo, que eu ajudo a Lily!?

—H-hã?

Tsubaki deixa transparecer sua surpresa quanto à declaração de Selena. Ao que Lo ainda complementa.

—M-mãe! Ugh! Acho que tudo bem… A Li estava tão preocupada, acho que seria bom para ela... E não ajude suas filhas só “de vez em quando”! Tem que ajudar sempre que precisarmos!

—Ahaha... V-vou pensar sobre isso…

Em seguida, é a vez de Muzet questionar Tsubaki.

—Mas cadê a Lily...? Por que ela está tão atrasada...?

—(U-ugh... A Lily já deve estar voando para longe nesse instante... Mas não faço ideia do trajeto que ela vai tomar até o seu destino... Já é impossível de alcançar ela agora...) F-fufu, me pergunto o mesmo...

—Hã…? Mas eu que disse para ela ir para o telhado te chamar… E eu vi vocês duas saindo agora a pouco…

—... F-fufu... F-ufufufu… Não tenho ideia do que você está falando...

...

Elas decidiram avisar a Lapis, para que ela fosse buscar a Lily quando chegasse no seu destino...

...

...

...

Na cidade acadêmica, o “Departamento de mana para pesquisa conjunta entre monstas e humas” havia encerrado suas atividades. Agora, Linda estava conferindo os documentos relacionados ao encerramento dessas pesquisas.

—Hmmm... Sim, está tudo aqui. O cancelamento dos fundos alocados, da reserva do edifício, dos equipamentos de pesquisa, realocação dos pesquisadores, terminação dos serviços voluntários de experimentação... Tudo devidamente assinado pelo conselho acadêmico... Mas o seu comentário de antes ainda está me deixando com uma pulga atrás da orelha, Morgan...

—Está desconfiada do que, Linda? O “Departamento de mana para pesquisa conjunta entre monstas e humas” teve as suas atividades encerradas, sem sombra de dúvidas. A academia não está mais financiando o projeto, e os seus pesquisadores e voluntários não estão mais participando. Acho que não precisa ficar com nenhuma “pulga atrás da orelha”, considerando os fatos.

—Não... Mas você disse...

—Eu disse que não ia causar problemas para você, e realmente não estou. Você completou a sua missão e pode ir lá reportar isso para os seus superiores incompetentes. Aqui, leva os documentos, eles comprovam os fatos.

—...

—(Clak clak clak! [Você sabe que só aumenta as suspeitas quanto mais você fala, não é?])

—(E o que eu deveria fazer, só ficar encarando ela em silêncio? Isso faria ela suspeitar ainda mais de mim!)

—(Clak clak clak! [Apesar de que eu acho que isso seria super efetivo nela...])

—Poderiam parar de sussurrar entre si, bem na minha frente? Isso é bem rude. Além de ser extremamente suspeito...

—C-calma, Linda... Acho que você está levando as suas suspeitas para fora de proporção...

...

—N-não acho que eu esteja! O mínimo que eu devo fazer então é examinar o laboratório, para confirmar com os meus olhos que as pesquisas realmente foram encerradas!

—Ah... T-talvez você não devesse... Quero dizer! Você já não causou amargura o suficiente aos pesquisadores...? Você acabou de destruir as pesquisas às quais eles vêm dedicando suas vidas todas, sabe!? E agora você planeja aparecer diante deles, enquanto estão deprimidos, se preparando para ir embora? Vai ser como se você estivesse lá só para rir da cara deles...

—N-não! E-eu nunca faria algo assim com uma intenção tão cruel... Além disso, as pesquisas não existem a tanto tempo assim, não faz nem três anos...

—Diga isso na frente dos pesquisadores que acabaram de perder os empregos!!!

—Ah, eu...

Linda, preocupada com a saúde mental dos pesquisadores, decide ir embora... Até finalmente perceber que Morgan está soltando um sorrisinho arrogante.

—Agora é que eu vou entrar lá para ver, mesmo!

—Ah! E-espera!

—Clak clak clak! (Você realmente não sabe como se comportar depois de vencer, hein?)

—Eu não quero ouvir isso justo de você!

...

—O-o que é isso!?

Linda se surpreende ao ver que no centro de pesquisas, as coisas ainda estavam funcionando exatamente como eram antes. Os mesmos pesquisadores e monstas estavam trabalhando juntos.

—Por que as atividades ainda estão continuando!? De acordo com os documentos, elas deveriam ter se encerrado!

—As atividades se encerraram, Linda. Como as suas ordens especificaram, tudo relacionado ao “Departamento de mana para pesquisa conjunta entre monstas e humas” foi encerrado.

—Então como você me explica isso!?

—... Parece que a academia decidiu criar um novo departamento, com o espaço que ficou em desuso e os pesquisadores livres. E olha, até alguns monstas decidiram colaborar, já que eles ficaram com um tempo livre, depois que um projeto do qual eles participavam foi encerrado... Esse aqui é o “Departamento de mana para pesquisa em união entre monstas e humas”.

—I-isso não pode---! Isso é algum tipo de piada, Morgan!? Vocês deveriam ter seguido as ordens antes, agora eu vou ser obrigada a fechar isso nem que eu tenha que usar a força!

—Calma, Linda, acho que você não entendeu direito. Antes, vocês da Religias estavam agindo com base em uma ordem oficial do Reino de Rosewald. Esse era o único motivo para que alguém da Religias pudesse fazer cumprir uma medida, dentro do território do Reino.

—Claro que eu já sabia disso!

—Então você também sabe que agora que a medida já foi cumprida, você não tem mais nenhuma autoridade aqui.

—Mas a medida não foi cumprida! As pesquisas ainda estão acontecendo!

—É um departamento diferente, com pesquisas diferentes, apesar de o conteúdo poder ser um pouco familiar. Você viu os documentos você mesma, não foi? O “Departamento de mana para pesquisa conjunta entre monstas e humas” já não existe mais. Quanto a esse novo departamento, acho que você deveria informar os seus superiores, para fazerem um novo pedido perante o Reino.

—Ugh! Eu só vou ter de voltar mais tarde, então!

—Sim, você pode repetir isso que acabou de dizer, mas com uma ênfase maior na parte do “mais tarde”. Parece que o chefe das pesquisas entrou em contato com alguns Ministros de Estado, que poderiam impugnar tais pedidos... E você sabe como essas coisas funcionam, quando tais pedidos entram no lado errado da burocracia, ninguém sabe quando que eles vão sair....

Linda fica parada e de boca aberta por um momento, encarando Morgan.

—(Clak clak clak! [Ei, ei, não parece que ela está bem brava agora?])

—(Tenho que admitir, acho que é a primeira vez que eu vejo ela ficando desse jeito. E olha que uma vez na cafeteria da escola eu vi quando a sobremesa acabou justo com ela sendo a próxima da fila)

—(Clak clak clak! [Acho que só você se lembraria de algo tão idiota relacionado a comida de anos atrás...])

—(E-era a sobremesa! Caham. Mas bom, apesar de que eu entendo que os ideais da Religias se assemelham quase que inteiramente aos da Linda, então faz sentido que ela fique bem chateada pelo que acabou de acontecer...)

—(Clak clak clak! [E você sabe que vai ter que se responsabilizar por isso, certo? Eu não quero ser evaporada do nada por um raio de luz aleatório!])

—(Na verdade, eles não são em nada aleatórios. Eles se movem paralelamente ao chão e perpendicularmente à direção em que o corpo da Linda está virado enquanto os conjura. Mas não seria tão ruim para mim se você conseguir ser atingida por um deles, já que eu poderia te mandar de volta para casa sob o pretexto de descanso por motivos médicos...)

—(Clak clak clak! [E de que adiantaria mandar de volta só as minhas cinzas!?])

—(Seria uma boa oportunidade para ver se você não tem alguns ossos de fênix em você. Já pensou se você voltasse das cinzas? Será que voltariam só os seus ossos, ou ainda surgiria algum tipo de tecido---)

—(Clak clak clak! [Que nojo! E nem inventa de querer fazer mais experimentos loucos comigo!])

—(Infelizmente, só acho que não vou ter a oportunidade, porque diferente de você, a Linda é uma pessoa meiga e com pleno controle sobre seus sentimentos. Provavelmente vai acabar comigo tendo de dar algumas desculpas, ter uma conversa sobre nossas ideologias divergentes, e sobre como vamos continuar com nossa pseudo amizade-rivalidade)

—(Clak clak clak! [Pft! Hahaha! Agora que você diz, isso se parece exatamente com algo que a representante de classe, senhorita estudante perfeita, faria!])

Finalmente a Linda se recompõe, mas diferentemente das expectativas do par...

Linda grita em direção a Morgan.

—Morgaaaaaan!!!

—“Hã?” “Clak clak clak! (Hã?)”

—É sempre a mesma coisa! Todas as vezes, desde que éramos crianças, você fica passando o pano para os monstas! Mesmo que eles estivessem jogando lixo no chão, quebrando as coisas dos outros, tentando comer alguém, ou fazendo bullying! E quando eu tentava contar para alguma autoridade, você sempre vinha com a ideia de fazer uma aposta, para eu não falar nada!

-Pera, não era você que me desafiava, porque odiava perder? Além disso, não estavam jogando lixo no chão, estavam descamando, então ficavam caindo pedaços... E eu recolhia eles. Também quebravam coisas como pratos ou copos, porque eram crianças e ainda não conseguiam controlar direito a própria força. Além disso, não estavam tentando comer ninguém, era só uma garota abelha que queria tomar o nosso suor depois da aula de educação física. Por fim, na verdade eu bati naqueles bullies e fiz eles pararem, mas eles não eram monstas, eram humas...

—Clak clak clak! (Pelo que eu me lembro, os monstas que estavam descamando tinham pedido licença para não irem para a escola durante esse período, mas foi Morgan quem os obrigou, “para fins de pesquisa”... É verdade que teve um pessoal que quebrou um monte de coisas na cafeteria, mas foi porque teve uma pessoa louca, que por acaso está do meu lado agora, que no dia de inspeção das malas deu a descarga em uma bomba caseira e destruiu uma das privadas, dando um susto em todo mundo... No caso da Bia, que queria tomar o suor do pessoal, não posso discordar, ela sempre foi uma garota meio estranha... Mas é engraçado ninguém se lembrar que quem estava na liderança dos valentões do colégio não era ninguém além de Morgan...)

—...

—Não é assim que eu me lembro das coisas, Morgan! Mas não acredito que é você me criticando por odiar perder, quando que na verdade, sempre que eu te vencia, você dizia que não contava!

—C-claro que não contava! Você sabe que eu não consigo usar magia, então nada nas aulas de magia contavam! Além disso, em todas as outras vezes, só tinham coisas sem importância nas apostas, como doces, ou algum outro tipo de comida, então eu não sentia vontade de dar 100% de mim!

—Como se você considerasse qualquer outra coisa como mais importante do que comida! Além disso, as provas das aulas de magia não eram práticas, eram só da teoria! Não interessava se você conseguia usar magia ou não!

—Fácil dizer para alguém que sabe usar três tipos diferentes de magia, sua trapaceira!

—Clak clak clak! (Já começaram...)

—É isso então! Eu vou fechar esse centro de pesquisas, seja pela força ou o que for! Se você quiser me parar, então só tem um jeito!

—Heh, vamos lá para fora então.

...

Linda desembainha a espada.

—Agora sim estamos falando a mesma língua, Linda! Mas tem certeza de que você quer me desafiar para um duelo com espadas...? Vou te dar uma vantagem então, vou lutar sem usar nenhuma arma.

Morgan deixa as duas espadas embainhada em seu quadril, e levanta as mãos em posição de combate.

—Não subestime uma virtude!

—Você está se achando demais para uma mera humas!

—Clak clak clak! (Que atrevimento! Pior é você que até fala como se não fosse humas também! Vai, representante de classe! Dá um golpe certeiro no coração! Acaba com Morgan!)

—Ei, Violeta, se prepara, que depois da Linda você é a próxima.

—Talvez você devesse prestar atenção na luta!

Linda prepara um corte vertical contra Morgan.

—E talvez você devesse não cair em um bait tão óbvio...

Enquanto Linda prepara o seu braço e move o corpo, Morgan já está dando um passo para frente e colocando uma de suas mãos no punho de Linda que segura a espada, enquanto envolve o ombro da garota com o seu outro braço. Morgan então dá de costas para Linda, se agacha e a joga por cima de suas costas.

—Kyaaa!

Linda é jogada ao chão, mas como se a sua armadura mágica tivesse absorvido todo o impacto, ela imediatamente rola e se levanta de novo, sem nenhum arranhão.

—Você pode estar se movendo mais rápido por causa dos encantamentos nessa armadura, mas se você quiser fazer um golpe tão largo, ainda deveria esperar por um contra-ataque, não acha, Linda?

—Ugh---! Se prepara então para isso!

Linda avança com outro corte longo, dessa vez horizontal. Mas Morgan simplesmente se dobra para trás, até colocar as mãos no chão, fazendo um arco com suas costas. A lâmina passa por cima de Morgan, errando completamente.

Imediatamente em seguida, Morgan levanta uma de suas pernas e se impulsiona usando a outra e seu abdômen, dando um chute na cara de Linda. Morgan então faz uma parada de mão antes de voltar a colocar os pés no chão e se levantar.

—Hahaha! Vamos lá, Linda! É só isso que você consegue fazer sem magia?

Linda põe uma de suas mãos em seu queixo. E então grita.

—Morgaaaan!!!

Linda avança mais uma vez em direção a Morgan, dessa vez realizando uma série de golpes rápidos.

—Agora sim...

Morgan desvia de todos, por um triz, de maneira calculada, sem fazer movimentos desnecessários. Se deslocando de forma fluída e simples, habilmente mantém o equilíbrio. Seus passos seguem um ritmo, que para algum observador até poderia se assemelhar ao de uma dança.

E então de repente, enquanto Linda dobrava o seu braço em frente ao seu peito, para realizar mais um golpe, Morgan, ao invés de se desviar, avança para cima dela. Segurando o cotovelo dobrado de Linda com uma mão e o ombro da garota com a outra, Morgan empurra Linda, enquanto passa uma de suas pernas por entre as pernas dela, jogando-a ao chão mais uma vez, antes que ela entendesse o que Morgan estava planejando fazer.

—Huehe.

—Kyaaa!

Sem soltar do braço de Linda, Morgan também vai ao chão e logo se reposiciona, travando o braço da garota em uma chave de braço.

—Ugh!

—Hora de se render, Linda. Mesmo que você esteja mais forte que eu por causa dos encantamentos na sua armadura, apenas os seus bíceps não são mais fortes que o meu corpo todo.

—Agh! Argh!

—Não tem mais nada que você consiga fazer agora, Linda. Se você continuar a se debater pode acabar se machucando. Claro que eu iria te soltar se visse que estava para chegar nesse ponto, mas aí vai contar como sua derrota ainda assim. Então é mais fácil desistir de uma vez. Vamos, quero ouvir você dizendo que desiste.

—Clak clak clak! (Grande S você hein, Morgan...)

—Já disse que você é a próxima, Violeta...

—Clak clak clak! (“Hyah~ Adoro quando você me olha desse jeito frio~” Achou que eu ia responder com algo assim...?)

A mão de Linda começa a brilhar.

—Hã? Já começou a trapacear de novo, é Linda!?

Morgan rapidamente solta o seu braço e rola para longe. No momento seguinte, uma esfera de luz se forma, e um raio laser é disparado da mão de Linda.

Ela se levanta mais uma vez, agora com uma veia saltando em sua testa.

—Que tal começarmos a brincar seriamente, hein, Morgan?

Várias esferas de luz, similares à que emanou de sua mão momentos atrás, começam a levitar ao redor de Linda.

—Heh, se é assim que você quer...

Morgan desembainha sua espada prateada, a “Estrela Silenciosa”, e começa a mover seus pés, quase como se realizando uma dança complexa.

—Clak clak clak! (A-ainda bem que ela mandou essa magia em direção ao céu... Foi de propósito, né? Ela sabe que estamos no meio da cidade, né...?)

—Hah!

Linda exclama.

E atira outro laser na direção de Morgan, que apenas sai do caminho com um passo para o lado.

O laser atinge uma casa localizada atrás de Morgan, e o trio logo escuta um grito.

—Clak clak clak! (Ai, caramba...)

—Nãooooo!!! Minha filha---!

Morgan e Linda se entreolham com os olhos arregalados.

—O cheesecake que eu fiz para a minha filha!!! Por que!? Ai, por que isso tinha que acontecer!?

Morgan e Linda expiram com alívio.

—Q-que coisa feia, Linda! Como você pôde destruir o cheesecake da filha daquela pessoa!?

—C-culpa minha!? Por que que você desviou, Morgan!? Foi culpa sua! Por que você acha que eu só atirei uma!? Você deveria ou ter recebido o tiro, ou se defendido com a sua lâmina, não era para desviar!

—Me avisasse antes, droga! Lógico que eu não iria usar a minha espada sendo tão mais fácil desviar!

—Então usa agora!

Linda atira outro laser na direção de Morgan, que dessa vez coloca a “Estrela Silenciosa” no caminho. O raio de luz desaparece ao tocar a espada.

—Pronto, feliz? Já posso te derrotar agora?

—Heh! Esse foi só o primeiro estágio, vou aumentar a dificuldade agora!

Linda atira três lasers simultaneamente na direção de Morgan.

—Droga, Linda!

Morgan consegue pegar dois com a sua espada, mas tem que se desviar do terceiro.

Logo, escutam um novo grito.

—Nãoooooooo! Meu filho---!

Morgan e Linda se entreolham com os olhos arregalados.

—O vestido favorito do meu filho!!! Ficava tão bem nele!!!

Morgan e Linda expiram com alívio.

—Caramba, Linda! Agora você destruiu o vestido do filho daquela outra pessoa!

—Por que é que você não pegou o último laser, Morgan!? Isso é culpa sua depois de você ter ficado se achando daquele jeito! Isso conta como derrota sua!

—Você acha que eu consigo me mover na velocidade da luz, Linda!? Eu só tenho UMA espada absorvedora de magia, então se você atirar tudo isso de uma só vez, lógico que eu não vou conseguir parar eles!

—Tch! Tudo bem, então, vou atirar um de cada vez... Mas em intervalos irregulares! Se um deles passar por você de novo daí vai ser derrota sua!

—Tá, pode mandar! Mas eu vou dar um passo para a frente sempre que parar um deles, então quando eu te alcançar, você perde!

—Se você acha que consegue chegar até aqui, então pode tentar!

—Clak clak clak! (Vocês não estavam brigando? Quando foi que isso virou um jogo...? Ou melhor, não façam um jogo tão perigoso no meio da cidade...)

...

Morgan avançava em direção a Linda com um passo constante, enquanto se defendia dos diversos lasers que eram atirados.

—Huehe, esse é um bom jeito de treinar meus reflexos, cognição espacial e predição da trajetória de projéteis, Linda. Mas já está ficando fácil demais agora que me acostumei, não dá para aumentar o ritmo?

—Hãããã!? Tem certeza? Então se prepara!

Linda começa a aumentar a frequência dos disparos cada vez mais. Morgan começa a ter dificuldades em defender, mas continua a avançar, vagarosamente e tendo de parar de tempos em tempos.

—O que foi, Morgan!? Ficou rápido demais agora? Por que você não tenta dizer algo como: “Está rápido demais para mim, Linda, eu desisto!”

—Vai sonhando!

—Clak clak clak! (Tá perigoso isso aí, parem de atirar lasers de forma tão irresponsável no meio da cidade!)

Logo, o fuzilamento contínuo de Linda força Morgan a parar completamente de andar. Até que finalmente Morgan não consegue defender e tem de desviar de um dos lasers.

—Harf harf... É isso aííííííí!!! Quem que venceu agora, hein, Morgan!? Ahahaha!

—Tch! Olha quantos lasers você teve que usar! Se fosse pelo número deles que eu parei, então eu teria vencido! É só que eu não estava mais conseguindo andar---

—Uma boa desculpa para alguém que perdeu, nééé? Se você não conseguia mais andar, é problema seu~~~

—Não é---!

—Clak clak clak! (Ei ei, só porque das duas primeiras vezes em que isso aconteceu acabou não dando em nada – além de uma pequena destruição de propriedade... – não significa que vai estar tudo bem dessa vez! Isso foi na direção daquela fábrica, sabiam!?)

Logo, escutam mais um grito.

—Nããããooooo!!! Meu colega de trabalho---!

Morgan e Linda se entreolham, dessa vez de maneira desinteressada, já esperando pelo fim da próxima piada.

—A perna do meu colega de trabalho!!!

Morgan e Linda se entreolham com os olhos arregalados, e dizem ao mesmo tempo.

—“P-perna!?”

—Clak clak clak! (Eu sabia! Vocês tinham que abusar da sorte! Agora vão passar o resto das vidas no xilindró! E daí vão morrer e ser enterrados nos cemitérios de indigentes, e eu finalmente vou poder pegar os seus ossos, Morgan! Hahaha!)

—Cala a boca, Violeta, não tá vendo que a situação ficou séria!?

Morgan olha para a Linda.

—É melhor não nos envolvermos, ok? E se você parar para pensar, na verdade isso é uma coisa boa, não acha? Isso deve contar como um acidente de trabalho, então aquele “colega” provavelmente vai receber uma indenização e descanso remunerado para se recuperar, certo? Deveriam é estar nos agradecendo, certo? Dinheiro é tudo!

—É-é mesmo...?

—Clak clak clak! (Como vocês podem dizer isso!? Demos, monstros!)

—Agora ele não vai mais conseguir se encontrar com sua filha nos finais de semana!!! Ele sempre tinha de andar só-ele-sabe-por-quantas-horas, para se encontrar com ela todas as semanas! Essa era a única parte positiva de sua vida, e tudo do que ele sempre conversava quando saíamos para beber!!! Ele é tão pobre que nem pode pagar por um serviço de transporte!!!

—N-não é problema nosso... E-ele vai ficar bem, ele vai receber um dinheiro extra, então mesmo que não consiga mais andar, pelo menos agora vai poder pagar para levarem ele...

—É-é mesmo...?

—Clak clak clak! (Monstros de coração frio!)

—Mas o dinheiro não interessa de qualquer jeito, porque não tem nenhuma empresa de transportes que leve as pessoas daqui até lá, por que não compensaria economicamente! Não é tão longe assim, então o preço pelo serviço seria mais caro em comparação a ir a outros lugares, e todas as pessoas que teriam interesse em ir até lá não tem tanto dinheiro assim, e não teriam interesse em pagar preços tão caros!!! Tudo o que ele queria era conseguir ver a sua filha todos os dias, e agora ele não vai mais conseguir ver ela por quatro meses, até se recuperar---!

—Caramba, Linda! Tá esperando o que!? Não pode ir logo curar aquele coitado!? Dá um montão de dinheiro para compensar também!

—Clak clak clak! (*Sniff sniff* Goidado do hobeeeem! Buaaaaah! Bor gue a bida dem de zer dão gruel gom bezoas boaaaaas!?)

—Uuuuu coitado do homem! Eu vou curar ele! E vou propor um serviço da Religias para ajudar a reunir as famílias de todos os trabalhadores da Cidade Acadêmica---! Não, de todo o Reino!!! *Sniff sniff*

O grupo corre em direção a fábrica.

...

...

...

No dia seguinte...

—Bã dia, Rodolfo! Ovi co cê se machuco ‘perando a serra, cê tá bem?

—Oh, bom dia Tati! Obrigado pela preocupação, já estou bem.

—É memo? Dissero que corto ’través do’sso.

—Sim... Eu acabei cochilando enquanto operava a serra, e ela cortou através da minha coxa... Foi tão ruim, eu nunca tinha sentido tanta dor em toda a minha vida... Eu só conseguia pensar na minha pequena Laura na hora...

—I o Fernando?

—Bom, você conhece ele... Ele só continuou gritando, enquanto narrava os fatos da minha vida, ao invés de realmente ajudar em algo...

—Ah... Cosigo vê isso ‘cotecendo...

—Mas foi quando eu pensei que estava tudo acabado, que a ajuda apareceu...

—Oh?

—Um anjo, com cabelos coloridos como mel, apareceu e usou magia de cura em minha perna.

—Magia d’cura!? ‘Quela coisa dos rei, e dos ricaço que nada im dinhero?

—Sim! E ela nem pediu por nenhuma retribuição por isso! Realmente um anjo! Além dela, também tinha o seu ajudante que se parecia com um demônio...

—D-demônho!?

—Sim! Um monstas sem nenhuma pele ou carne! Era uma criatura feita apenas de ossos, e assim que ele se aproximou, eu fiquei com medo que iria tentar roubar os meus ossos, que estavam expostos...

—Caramba! Que cagaço que daria...

—Não é? Mas eu estava completamente errado! Ele na verdade ajudou a anjo, mostrando para ela como os ossos deveriam ser unidos! Foi uma coisa estranha ver esses dois seres opostos se ajudando... Mas quem sabe como a minha perna não poderia ter acabado se não fosse pelos dois!

—Que bão pro’ cê!

—Sim! Mas a parte mais estranha foi no final, quando essa garota de cabelos vermelhos que estava acompanhando os dois jogou para mim uma barra de chocolate!

—Hã?

—Eu também não entendi! Ela simplesmente disse “compensação” e me jogou o chocolate! Nem é tão caro nem nada, mas vou dar para a minha filha depois...

—É-é memo?

—Mas por agora, eu decidi tomar uma xícara de café todos os dias antes do trabalho, para que o acidente não se repita... Eu quase perdi tudo, Tati, tudo... A partir de hoje, sem mais beber após o trabalho, apenas uma xícara de café nas manhãs.

—Num seria mai’ fácil só dormi mai’ cedo?

—Haha, não posso me dar ao luxo, Tati. Eu tenho que costurar uma nova boneca todos os dias, para deixar a minha filha feliz! Quão triste não seria se eu aparecesse lá sem levar nada...

—(Uma buneca todo dia?! ‘Sso é loucura...) N-num siria melhó só compra?

—Mas daí eu não teria dinheiro para um pônei todos os meses!

—É-é memo...?

—Ah... Seria tão bom se fossemos ricos...

—(Num é só para de joga dinhero no lixo...?)

—Haha, então vamos lá tomar café antes do trabalho.

...

—Por que é que tem esse furo enorme na cafeteira?

...

...

...

De volta a batalha entre Morgan e Linda, após ajudarem o trabalhador da fábrica.

—Ok... Eu já mandei um formulário para os meus superiores na central... Mais nenhuma família vai ter de viver separada! Agora vamos terminar com isso, Morgan!

—Você se recuperou bem rápido depois de quase acabar com a vida de alguém... Mas ok! Vamos a sério dessa vez!

—Clak clak clak! (Ei ei, vocês seriamente vão continuar com isso dentro da cidade!?)

A crítica da Violeta foi simplesmente ignorada...

—Sem mais truques, Morgan! Vamos decidir isso só eu, você e as nossas espadas!

—Calma... Deixa eu ver se entendi. No primeiro round nós fizemos isso e você tomou um pau. No segundo você usou magia, e apesar de eu tecnicamente ter ganhado, posso te entreter em pensar que você ganhou, só porque isso está divertido---

—...

—Clak clak clak (...)

—Mas agora você quer que o terceiro round seja igual o primeiro? Você só vai perder de novo.

Linda segura a espada com ambas as mãos e a coloca a sua frente, voltada para cima, não em uma posição de batalha, mas sim como se ela estivesse em algum tipo de cerimônia solene.

—Dessa vez vai ser diferente. Assim que eu proclamar o encantamento da minha espada, vou liberar um ataque supremo, que vai te derrotar completamente, Morgan!

Então, Linda começa a pronunciar em voz clara um encantamento, e a joia na base da espada começa a brilhar em resposta.

—“Ó Espada do Testamento, ilumina o teu conhecimento sobre mim! Traga o amanhecer do”--- Queee!?

Ignorando as preparações de Linda, Morgan desembainha sua espada e traça um golpe rápido, ao que Linda consegue reagir justo a tempo de desviar.

—O-o que você pensa estar fazendo!? Não pode atacar alguém que está se preparando para a batalha!

—Que tipo de pessoa se prepara para a batalha no meio da batalha!? E ainda por cima na frente do inimigo!? Lógico que eu não posso deixar você terminar o encantamento!

—Tch! Tanto faz! Depois que eu já comecei, não tem mais como parar! Eu só preciso terminar de falar!

Assim como Linda disse, a espada continua a brilhar com a mesma intensidade.

—Ué, então por que é que você não simplesmente deixa o encantamento pronto, faltando só as últimas palavras, para você conseguir usar na hora durante as batalhas?

Linda para e pensa um pouco.

—... O-o motivo é irrelevante! Você só precisa saber que seria muito fácil para eu te derrotar se fizesse algo assim! Pelo menos agora estou te dando uma chance!

—Mas você acabou de falar para eu não te atacar enquanto você se prepara...

—É-é que como eu vou vencer de qualquer jeito, então é mais fácil se você parar de resistir!

—Você não tinha pensado nisso antes de eu falar, não é mesmo?

—C-cala a boca!!! “Esclarecimento, e me conduza pelo caminho da glória!”

Vendo que Linda terminou o verso, Morgan se afasta rapidamente, e se prepara para o golpe--- Que não veio. Linda simplesmente continua.

—“Ó Espada da Vitória, acenda as chamas do vigor em meu Âmago!”

—Calma, ainda tem mais!?

—“Quebre as correntes do desejo e oblitera os meus inimigos!”

—Droga!

Morgan mais uma vez se prepara para um ataque--- Que não vem. Linda continua.

—“Ó Espada da Honra, proteja meus colegas de tudo que os deseja o mal!”

—Clak clak clak! (Sério!? Vai demorar quanto tempo ainda!? Morgan realmente vai começar a te atacar daqui a pouco, sabia!?)

Justo como a Violeta disse, Morgan rapidamente avança em direção a Linda, apostando que o encantamento ainda vai ter mais alguns versos. Mas Linda continua a pronunciá-lo, enquanto desvia da série de golpes rápidos efetuados por Morgan.

—“E me guie com segurança através do caminho da”--- Kyaaa!!!

Até que Morgan passa a perna nela, e ela cai ao chão.

—“Tentação!”

Linda rapidamente termina a sentença enquanto ainda está no chão, e Morgan instintivamente recua mais uma vez, ao invés de prosseguir com a investida.

Isso dá tempo para que Linda se levante mais uma vez e---

Continue com a encantação...

—“Ó Espada da Justiça”---

—É sério isso!? Quanto tempo demora para falar tudo!? Não tem como você usar em uma batalha de verdade, não é!?

Ignorando as reclamações, Linda simplesmente continua com o pronunciamento, apreciando o tempo que Morgan está lhe dando.

—Tch!

Morgan mais uma vez tenta se aproximar para atacar...

—(...) “extermina todo o mal!”

Mas ela mais uma vez termina o verso, e Morgan tem de se afastar.

Antes que a Linda volte a começar outro verso novamente.

—Ei, Violeta! Me dá a minha mala para eu calar a boca dela!

—Clak clak clak! (Como assim? O que aconteceu com todo aquele papo de “apenas espadas são permitidas”? Hahaha, já perdeu a sua confiança toda, é, Morgan!? Que bom! Então agora é só desistir de uma vez, e deixar a representante de classe te exterminar! Bwahahaha! Logo seus ossos serão meus!)

Violeta foge para longe, mas Morgan não pode se afastar demais de Linda, ou a situação poderia ficar pior.

—Droga, Violeta!

Morgan rapidamente volta a olhar para a Linda, assim que ela termina outro verso. Mas mais uma vez, não acontece nada.

Linda está usando uma das Espadas do Destino. Então Morgan sabe que se deixar ela terminar de carregar o seu ataque, é muito provável que não consiga se defender. Claro que a chance não é zero. Considerando que sua espada pode absorver magia, se for um ataque mágico com uma trajetória previsível, ele pode ser defendido, mas é um risco que é melhor ser evitado.

O problema é que se para evitar isso Morgan decidir atacar com tudo, para impedir que Linda termine a encantação, e falhar, pode ser que acabe tomando o ataque da Linda em cheio.

Se Morgan demorar demais, a Linda com certeza vai terminar o encantamento. Mas por não saber exatamente qual é o encantamento, esse risco também se apresenta ao final de cada verso.

Já faz um tempo desde a última vez em que Morgan teve de enfrentar uma decisão dessas.

...

...

...

Ao mesmo tempo em que Morgan e Linda batalhavam, dentro da casa dos Accelheart, Chrome estava sentada no sofá enquanto comia um sorvete de cone, passando o tempo.

Então, Lo, que estava passando por ali justamente nesse momento, não pôde deixar de se lembrar de um certo acontecimento.

— Hehe, Chrome-nee, te ver comendo esse cone fez eu me lembrar de uma história entre você e Morgan.

Há alguns anos atrás.

Morgan tinha acabado de comprar dois cones de sorvete da mulher de neve que vivia na vizinhança. Um deles obviamente iria para o estômago de Morgan, enquanto o outro foi um pedido da Lo.

Porém, no caminho de volta, Chrome pegou um dos cones para si.

Frente a tal situação, Morgan teve de lutar para pegar o sorvete de volta. O problema é que a cada movimento, aumentava o risco de derrubarem alguma das bolas dos sorvetes, e além disso, se a luta se estendesse por tempo demais, então os dois derreteriam.

Assim, Morgan só pôde ver uma solução.

Entre se render a um risco certo a longo prazo, ou apostar contra um possível risco imediato... A melhor solução seria...

...

Chrome responde ao comentário de Lo.

— Quer dizer quando Morgan jogou um sorvete na minha cara e depois roubou o meu~? Se eu me lembro bem, depois disso vocês se divertiram dividindo o meu sorvete, enquanto eu fiquei sem nada...~

Chrome não esperava que Morgan ia partir para cima com tudo e até sacrificar o seu sorvete só para pegar o dela...

— Hehe, a parte mais engraçada foi quando a Tsubaki veio lamber o sorvete da sua cara!

— Sim... Super engraçado...

...

...

...

Enquanto isso, Morgan havia começado a pressionar Linda, com suas técnicas de combate, tentando derrotá-la antes que pudesse terminar seu encantamento.

Após algum tempo, Morgan até deixou de se importar tanto com o fato de Linda ter terminado algum verso ou não, se focando apenas em terminar a luta o mais rápido possível.

Para qualquer um que estivesse olhando de fora, pareceria que a Linda estava se defendendo com tudo o que tinha apenas para continuar o encantamento, enquanto que Morgan a estava oprimindo com uma sequência interminável de golpes. No entanto, a verdade é que Linda é mais veloz e forte. Então ao lutar defensivamente, demoraria muito para que Morgan finalmente conseguisse uma vantagem sobre ela. E tempo era justamente o problema.

—Você não vai conseguir terminar o encantamento Linda, desiste logo!

Morgan joga Linda ao chão mais uma vez.

Mas ela apenas simplesmente continua a proclamá-lo enquanto se levanta, sem dar bola às palavras de Morgan.

—Tch! (Nada do que eu digo parece atrapalhar ela... Desse jeito ela vai acabar conseguindo completar o encantamento... É o que eu pensaria normalmente, mas tem algo muito errado aqui...) Ou melhor, esse encantamento é mesmo de verdade!? Você já começou a proclamar ele faz quase uma hora e meia, mas ainda não tem sinais de estar acabando... Ainda falta muito!?

Linda continua o encantamento, sem responder.

—(Talvez eu deva tentar pressionar ela mentalmente, para que ela cometa algum erro?) Ei, Linda! Quer saber do que eu acabei de me lembrar? Lembra daquela vez que você deu uma maçã para a professora de matemática, Olivia, mas a maçã explodiu na cara dela e você acabou sendo suspensa por uma semana?

Linda olha para Morgan desconfiada.

—Bom, é que na verdade eu precisava de um pouco de cianeto para um experimento e já que a maçã também seria um bom recipiente, eu decidi usar ela. Mas antes do intervalo acabar, eu tive de ir no banheiro, mas esqueci que eu tinha usado a sua mesa, então deixei a maçã lá... Quando a professora Olivia mordeu a maçã, provavelmente acionou o dispositivo e ela explodiu...

Linda olha para Morgan com muita raiva, e começa a proclamar bem mais rápido do que antes.

...

—... Dizer isso agora pode não ter sido uma das minhas melhores ideias...

...

...

...

Na cidade acadêmica, Morgan e Linda continuavam sua batalha.

Independentemente do que Morgan fizesse ou dissesse, Linda continuava a proclamar o encantamento. Ainda que fosse a intenção de Morgan terminar a batalha rapidamente, quanto mais tempo passava, mais deveria voltar o seu receio de receber uma retaliação, a cada verso que Linda terminava. Não ter noção do quão longo era o encantamento, deveria trazer o receio de continuar avançando descuidadamente.

Ou pelo menos deveria ser assim. Mas quanto mais tempo passava, mais Morgan começava a se irritar... Três horas foi o limite.

—Linda, você está de brincadeira né!? Quanto tempo demora para completar isso!? Não tem como isso ser uma das armas mais poderosas existentes na história, não é mesmo!?

Morgan pergunta, mas mais uma vez Linda não responde e continua a proclamar a encantação.

Se Morgan não tivesse de recuar de tempos em tempos, permitindo que Linda se reposicionasse, já teria conseguido remover a armadura mágica dela, e provavelmente terminado a luta. E era justamente o que planejava fazer, agora que o seu grau de irritação superou sua razão.

—Argh! Não aguento mais! Seja o que for!

Morgan finalmente começa a avançar sem ligar mais para a possível retaliação, com o objetivo de terminar a luta imediatamente.

—“Ó Espada de”--- Uah! Ghhh!!!

Morgan finalmente consegue terminar de remover a armadura que cobria o torso de Linda, ao cortar todos os elos que a uniam, e acerta um chute em seu abdômen.

—Arf! Arf! Uhe! Hue hue hue! Agora acabou, Linda!

—Metatron!

A armadura voa do chão e se reconecta a Linda.

—...

—...

—Nãooooo! Você só pode estar de brincadeira!

Linda simplesmente dá de ombros e continua a proclamar o encantamento.

—Droga! Por que você não para de fugir e me enfrenta direito?! Se o encantamento da sua espada demora mais de três horas para ficar pronto, então não pode mais ser considerado uma técnica de espada! É só uma magia! Vai para a retaguarda com o resto dos magos! Então a nossa disputa de espadas está cancelada!

Linda ignora as reclamações de Morgan e continua com o encantamento.

—Aaaargh!

Morgan finalmente desiste de querer ver como a espada lendária funciona em uma luta e decide desarmar Linda para acabar com o desafio.

Porém, Linda que percebeu a mudança de planos, começa a abusar de sua agilidade e se mover ainda mais para se afastar de Morgan, ao invés de simplesmente se defender com sua armadura.

—Nãooo! Para de fugir!

Violeta volta, depois de terminar o seu passeio pela cidade.

—Clak clak clak! (Que? Por que é que você ainda não morreu, Morgan? Hã!? A representante de classe ainda não terminou o encantamento!?)

—Ah, Violeta, voltou, é...? No começo eu queria que essa fosse uma batalha épica, e eu pudesse dizer que venci de alguém usando uma das Espadas do Destino... Mas a Linda não usou ela ainda! Já faz tempo demais! E agora que eu quero só acabar com a luta do jeito mais rápido, ela não me deixa!

—Clak clak clak! (Tá, tá, para de gritar nos meus ouvidos... Ugh, ou melhor, você poderia simplesmente não chegar perto de mim? Olha todo esse suor, e o seu cheiro está ainda pior do que de costume...)

—Ei, ei, você fala como se eu normalmente já cheirasse mal... Ugh... Admito que eu perdi um pouco a confiança quando a Lily me deu aquela colônia, mas você não precisava dizer isso tão claramente... Só que não! Você tá morta! Não só não tem orelha, como não consegue sentir cheiros! Não saia por aí dizendo coisas só para fazer eu me sentir mal, então!

—Clak clak clak! (Não estou morta, sou uma morta-viva! Mas não interessa o quanto você negue, não muda os fatos. Mas mudando de assunto, eu voltei porque fiquei entediada, vamos comprar uns quadrinhos)

Morgan olha para Linda, logo em seguida, sua barriga começa a roncar.

—Quer saber... Ei, Linda! Que tal darmos uma pausa?

Linda continua com o encantamento, imaginando que poderia ser uma armadilha de Morgan.

—Tch!

Era uma armadilha de Morgan...

—Ok! Tudo bem, agora sério, vamos fazer uma pausa! Me chama quando você terminar o encantamento...

Morgan finalmente parece desistir de esperar e mostra a intenção de querer postergar a luta para até quando Linda terminar o encantamento.

—Vamos, Violeta, estou com fome...

—Clak clak clak! (Você não vai só dar a volta e atacar a Linda pelas costas, não é mesmo?)

—Estava tão óbvio? Tanto faz então, vamos logo achar algo para comer.

—Clak clak clak! (Não se esqueça dos meus quadrinhos!)

Morgan e Violeta vão embora. Linda para o seu encantamento por um momento.

—Morgan vai dar a volta para me atacar pelas costas a qualquer momento, não é mesmo?

Linda continua com o encantamento, enquanto espera por Morgan.

...

...

...

Na manhã seguinte.

Morgan e Violeta estavam conversando sobre a noite passada, sem perceberem que tinham se esquecido de alguém.

—Clak clak clak! (Olha, Morgan! Kana Estaca, a criadora da mulher vampiro, assinou o meu cachecol ontem!)

Violeta cuidadosamente dobra o seu cachecol de papel seda vermelho, e o guarda dentro de seu crânio. Logo depois, ela tira do mesmo lugar um tubo de papel seda vermelho, puxa um longo pedaço e enrola no pescoço como um novo cachecol.

Ignorando esse evento cotidiano, Morgan responde com excitação.

—Nossa, sério!? Não acredito que estava tendo uma convenção de quadrinhos aqui! Que sorte que conseguimos participar do último dia! Olha, eu também consegui umas figures da mulher arachne, do elfo ferreiro e da general yeti!

—Clak clak clak! (Caramba! Mas você realmente gastou bastante ontem, hein?)

—Claro! Você sabe quão caro elas ficam depois se você não conseguir comprar diretamente dos criadores!? Esses fãs ficam o ano todo fazendo essas figures, para conseguirem vender nos eventos! Foram todas criadas manualmente, uma por uma, são extremamente raras! Eu nunca conseguiria colecionar de outra forma! Olha, eu até comprei uma do dragão, para a Chrome, e ainda por cima consegui que o autor dos quadrinhos assinasse a base, ele estava distribuindo autógrafos depois de participar em uma sessão de entrevistas no evento!

—Clak clak clak! (Óóóóó! Essa daí foi muito bem-feita! Tem até a escama reversa embaixo do queixo! Apesar de eu nunca ter entendido o porquê de sua irmã gostar tanto assim de um personagem que só destrói tudo...)

—Tenho quase certeza de que esse é um dos principais motivos pelos quais ela gosta tanto... Além disso, também tem uma história mais complexa por trás do personagem---

Violeta ouvia, enquanto dobrava uma capa vermelha para colocar no seu crânio.

—Pera, isso é a capa da Ultra-Coelha?

—Clak clak clak! (A mesma versão que ela recebe quando descobre que na verdade nasceu na lua, momentos antes dela ser destruída)

—Sem chance! Ou melhor, da onde você tirou o dinheiro para comprar isso!?

—Clak clak clak! (De nenhum lugar. Na verdade, eu recebi ela como prêmio de primeira posição no concurso de cosplay)

Violeta tira um balde de tinta vermelho de dentro do seu crânio.

—Clak clak clak! (Eu pintei minha cabeça de vermelho e eles disseram que eu me tornei a personificação exata do arqui-inimigo da general yeti, na saga de antes dela ser congelada por milhares de anos)

—Que? Mas o formato do seu crânio é completamente diferente!

—Clak clak clak! (Bom, o fato de eu ser a única monstas participando provavelmente me rendeu alguns pontos)

—Agora que você diz, é verdade que a maioria dos monstas que eu vi eram os que estavam como vendedores... Acho que a maioria dos fãs monstas não se dariam ao trabalho de vir até o reino, quando as principais convenções são realizadas no continente deles... Realmente temos que agradecer pelos autores e vendedores que vieram até aqui só para agradar os fãs... Ainda assim, o que mais me surpreendeu foi que eu não vi a Chrome em nenhum lugar lá. Ela costuma ser tão fanática sobre tudo relacionado, além de ter criado uma própria multidão de seguidores. Até perdi a conta de quantas pessoas me pararam para perguntar dela... Será que aconteceu alguma coisa para ela não poder vir? Logo ela...? Talvez seja uma boa ideia mandar uma carta para casa perguntando se está tudo bem...

...

...

...

Dentro da residência dos Accelhearts, Lo havia decidido sentar no sofá, para passar um tempo com sua irmã mais velha, Chrome.

—Ah, por sinal, Chrome-nee, a mãe azul me deu essa carta de manhã, ela pediu para eu entregar para você.

—Hmmm~~? O que poderia ser~~~? Mas por que ela não me entregou pessoalmente~?

—Ela estava atrasada, e você estava dormindo. Parece que o contêiner que a Tsubaki-nee enviou, contendo a Lily, era muito pesado – sem querer fazer nenhuma implicação -, e para uma cidade distante, então a mamãe acabou se atrasando para suas outras entregas.

—É mesmo~? É bem a cara daquela raposa jovem-adulta acabar impondo pedidos completamente absurdos nos outros~ Não que seja problema meu~~~

—Hehe, duvido que alguém conseguiria impor um pedido em você, Chrome-nee! Qualquer coisa que falassem se dissolveria assim que você sentasse no sofá!

—Heh~~~ Esse é o tipo de comentário que eu esperaria de Morgan~ Se você também começar a seguir o exemplo da cerejinha, vai acabar perdendo sua fofura~~~ De qualquer forma, vamos ver o que é que a carta diz~

—Finalmente~~~!

—Hmmm? Boas notícias? O que está escrito?

—Nada de muito interessante para você~ Mas vai ter uma convenção de quadrinhos na cidade acadêmica~~~ Eu estive esperando o ano todo por isso~~~

—Ó, Morgan também vai gostar.

—É uma pena~~~ A cerejinha não vai poder ir porque está viajando~~~ Eu vou comprar um montão de coisas, e quando a cerejinha voltar, vou mostrar tudo para dar inveja, hehe~~~

—Uwa... Como esperado de você, Chrome-nee.

Chrome aperta o nariz da Lo.

—Vamos ver quando que vai ser para eu reservar os dias~~~ Aqui está, vai ser em~~~

...

Chrome deixa a carta cair.

—Hã...? Acabou... Ontem............?

—Ai, sinto muito, Chrome-nee...

—Hããããããããããããã???!!! Que po---???? Mas eles sempre mandam esses avisos com dias de antecipação! Não faz sentido! Completamente sem sentido!!! Eu perdi os talkshows com os autores!!! Como vou saber o que esperar da próxima temporada de quadrinhos?! Também perdi meu buffet, presentes e estadia gratuitos!

—C-Chrome-nee!? Você está se desviando do seu jeito normal de falar!? E por que te dariam buffet, presentes e estadia de graça?

—Eu sou uma súcubos, Lo! E todos os outros fãs são um bando de virgens, o que você acha!?

—H-hãããã???

—Você disse que foi culpa daquela bola de pelos estúpida que a correspondência atrasou!?

—H-hã!? A Tsubaki-nee? S-sim, foi o que a mamãe disse, mas por que---

—... Eu vou fazer ela me comprar a passagem pro próximo evento que tiver no continente dos monstas. Vai ficar mais caro, mas ela que vai ter que cobrir os meus gastos, nem que eu tenha que fazer ela vender todo o pelo das caudas! Vai ser um saco ter de ir tão longe, mas pelo menos vou poder ver as novidades, além de comprar as minhas figures... É bom que a gatinha_@superfigures esteja no próximo evento também, ela ia lançar uma nova figura do dragão... E como juros ainda vou fazer a bola de pelos me comprar dez vezes mais coisas do que eu compraria agora! Ooooaaaahhhh!!!

Em uma fração de tempo menor do que meio piscar de olho, Chrome sai voando do sofá e atravessa a janela fechada, espalhando estilhaços de vidro por toda a sala.

—Q-qu-que---!? Calma, Chrome-nee! A Tsubaki-nee não tinha como saber, foi sem querer!

Lo corre atrás da Chrome, que estava completamente tiltada.

Diário de Monstros, por Morgan Accelheart

Orichalcum

O metal sagrado. Dizem que os Deuses, quando começaram a presentear os mortais com magia, ficaram preocupados que poderiam descontrolar o equilíbrio do mundo ao garantir poder demais apenas aos escolhidos. Assim, eles decidiram por garantir um meio pelo qual mesmo alguém incapaz de usar magia pudesse enfrentar um mago, caso se desse ao trabalho de procurar por tal poder.

Orichalcum é um metal prateado, com a segunda maior resistência entre os metais conhecidos, capaz de cortar através da escama de um dragão — apesar de que com alguma dificuldade – e de absorver qualquer tipo de magia. Porém, também é uma das substâncias mais raras existentes.

Mesmo encontrar o suficiente para fazer apenas uma laminação, já equivale a uma fortuna. E não sem razão. Uma simples decoração em uma tiara, já te deixaria imune a lavagem cerebral da magia de horror, mesmo sem que você tenha recebido qualquer tipo de treinamento. Uma lasca no escudo, já te permitiria bloquear magias com muito mais facilidade. Um fio na lâmina de sua espada, já te permitiria cortar através de qualquer barreira.

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Diz-se que até mesmo magos poderiam usar o Orichalcum, já que eles conseguiriam utilizar da mana que o metal absorveu para dar combustível aos seus próprios feitiços.

A minha espada, a Estrela Silenciosa, que me foi dada pela senhora Mono no meu aniversário, é feita inteiramente de Orichalcum. Ela disse que como ninguém conseguia usar magia enquanto segurava a espada, e já que “súcubos não conseguem nem comer sem usar magia, então só estava ocupando espaço na sala de tesouros”, seria muito melhor ficar comigo então. O que é estranho, já que certamente existem vários relatos de magos utilizando a mana que o metal absorveu. No entanto, ao realizar testes com os outros membros da minha família, realmente ninguém foi capaz de utilizar magias, não apenas ao segurar, mas simplesmente ao tocar a espada. Mesmo a minha mãe vermelha, com todo o seu conhecimento sobre magias, e enorme quantidade de mana, disse que não conseguia sentir nenhuma mana dentro do metal, e que a espada sugava toda a mana que ela tentava direcionar a magias, em suas palavras: “isso parece absorver toda a mana que encontra”. Talvez por causa da quantidade de metal, seja necessário que muito mais mana seja absorvida antes que ela possa ser utilizada... Não que isso vá me ajudar em algo.

Mas de qualquer forma, tendo experimentado em primeira mão, entendo o quão terrível Orichalcum pode ser contra qualquer usuário de magias.

Uma vez, durante um dia quente de verão, minha irmã Chrome estava tentando usar horror em mim para eu comprar um sorvete para ela, da mulher de neve da vila. Então, eu acertei a cabeça dela com a espada, com o lado cego, claro. Isso fez com que ela parasse imediatamente. Ainda por cima, ela parou de me incomodar por umas boas horas, até acordar de novo... Pensando bem, talvez isso não tenha muito a ver com as propriedades absorvedoras de magia do Orichalcum...