Fake Hiro

7 Especial de Halloween 2021


O festival de Halloween é um evento antigo, celebrado tanto por humas quanto por monstas. Ninguém sabe exatamente quais as suas origens, mas é um festival respeitado, que teve continuidade mesmo durante os períodos de guerra. Nele, as crianças se vestiriam com fantasias e sairiam pelas ruas, visitando casas e pedindo doces.

Claro que ele também é celebrado na vila Shalltear e dentre as comemorações, existe ainda uma competição na praça central pela melhor fantasia do ano, na qual o vencedor é coroado como a abóbora do festival e lidera um desfile pelas ruas.

Com isso dito, na casa da família Accelheart, os integrantes estavam se preparando para o festival.

Rachel, uma arachne e a irmã mais velha, estava no meio de uma conversa com suas irmãs mais novas: Lily, uma lâmia de 14 anos; Lo, uma vampira também de 14 anos; e Happy, uma pequena harpia de apenas 3 aninhos.

Morgan (humas, 18 anos), que havia voltado para casa apenas para participar desse evento, estava na sala também, mas por algum motivo estava fora da conversa.

Rachel dizia para Lily e Lo:

—Lembrem-se, vocês duas são as irmãs mais velhas, então têm que tomar conta direito da Happy. É o primeiro Halloween dela, então têm que ir devagar e ensinar para ela como funciona. Além disso, não percam ela de vista.

Ao que Lily responde:

—Ouviu, Lo?

—S-sim, Rach-nee! Ou melhor, Li, ela estava falando com você também!

—Hehe!

—N-não me venha com essa risadinha... Mas não precisa se preocupar, Rach-nee!

Lo olha para a Happy.

—Nós vamos ficar de mãos dadas o tempo todo, não é, Happy?

—Ôo!

Happy responde, enquanto usa suas duas pequenas asas para segurar a mão de Lo.

—A-ainda não precisava segurar minha mão, mas tudo bem...

Lo responde, corando de felicidade, enquanto segura com firmeza a mão de sua irmãzinha.

Finalmente, Morgan resolve entrar na conversa.

—Não se preocupe, Rach-nee! Eu também vou estar cuidando delas!

Rachel solta um suspiro, enquanto se vira para responder.

—Nós já tivemos essa conversa, Morgan... Esse ano você vai ficar em casa, lembra?

—Eu sei que o plano era eu ficar em casa para atender as crianças que viessem visitar... Mas por algum motivo, a Mu-nee escondeu todos os doces! Ela disse que ela mesma ia cuidar disso esse ano também...

—“Por algum motivo”... E você não acha que esse motivo teve alguma coisa a ver com o fato de você já ter comido os doces que compramos para serem distribuídos, duas vezes...?

—Não, não. Você percebe, quando as crianças vão pedir doces, elas dizem: “doces ou travessuras”. Portanto, contanto que eu tenha convicção o suficiente para aguentar as “travessuras”, tudo bem se eu comer todos os doces!

Rachel abaixa sua cabeça e põe a mão no rosto.

—Acho melhor você ficar no quarto, junto da Chrome hoje...

—P-pera! M-mas se eu não sirvo para ficar em casa, então não é melhor eu simplesmente sair com elas para as ruas também? Foi o que fizemos ano passado, então não deve ter problema esse ano também, não é!? É só um ano de diferença!

—Ano passado eu ainda deixei passar, mas o que você acha que as pessoas vão pensar se você for pedir doces, de novo...? Todo mundo da vila já estava feliz que poderia comprar três vezes menos doces esse ano...

—Entendi... Então só preciso usar uma máscara, para não saberem que sou eu, não é mesmo?

Morgan cobre a sua cabeça com uma máscara de ninja.

—Não, esse não é o problema! Deixe-me ser mais exata, o que você acha que as pessoas vão pensar se virem uma pessoa de 18 anos pedindo doces como se ainda fosse uma criança?

—Ah! Agora percebi qual é o problema... Então é só não deixar as pessoas me verem!

Morgan joga uma bomba de luz no chão. Quando suas irmãs recuperam os sentidos, Morgan já desapareceu dentre as sombras.

—Não, isso é pior ainda! Desse jeito você vai estar só roubando os doces!

Rachel ainda tenta responder, mas parece que Morgan já foi embora da casa.

Ela solta mais um suspiro, antes de se voltar mais uma vez para suas irmãs mais novas.

—E vocês, quais fantasias vão usar?

Lo responde excitada.

—Ah! Deixa eu te mostrar, Rach-nee! Eu fiquei encarregada de fazer a fantasia da Happy!

Lo pega a Happy em seu colo e sai rapidamente da sala. Elas retornam após alguns minutos.

Lo usa um vestido longo verde, decorado com diversas plantas, e uma coroa de flores em sua cabeça. Enquanto Happy usa um chapéu-coco em sua cabeça e um vestidinho, roxos, com 8 pequenos tentáculos se estendendo da saia, feitos com o cuidado de deixarem uma distância razoável do chão.

—Oh! Um polvo e uma samambaia!

A Lily é a primeira a reagir.

—Não, Lily! A Happy é um Kraken, e eu a Alraune Rainha... Ou pelo menos era a intenção... As fantasias ficaram ruins...?

Rachel responde rapidamente.

—Elas ficaram bem impressionantes, Lo, pode ter orgulho das suas criações. Os tentáculos da Happy foram feitos de pelúcia para não a machucarem?

—Sim, também não queria que eles ficassem muito pesados...

—E as suas plantas e flores vieram do seu jardim? Apesar de que eu não estou sentindo o perfume característico das flores...

—Ah, eu não faria algo como cortar parte das minhas plantas apenas para usar de acessórios. Eu fiz as plantas do vestido com papel machê, e a Tsubaki fez a coroa para mim, são flores de origami.

—A Tsubaki, é? Mas o que mais me impressiona é que logo você tenha pego personagens tão assustadores da ficção... Apesar de a representação deles ter ficado tão fofa...

—É Halloween afinal de contas, Rach-nee!

As bordas do lábio de Rachel se curvam, quase em um pequeno sorriso, imperceptível.

—Entendo... E quanto a você, Lily? A Lo também te ajudou?

—Hehe, Rach-nee! Eu já consigo cuidar da minha própria fantasia! Observe!

Lily abre a bolsa que carregava consigo, cheia de suprimentos para o Halloween, ou seja, lotada de papel higiênico. Ela pega um dos rolos e o usa para cobrir o seu corpo.

—Pronto! Uma múmia!

Ela levanta os braços e dá uma pequena voltinha para mostrar sua fantasia improvisada.

Rachel abaixa usa cabeça e põe a mão no rosto. Lo balança sua cabeça para os lados. Happy solta uma alta risada e bate suas asinhas excitadamente.

...

—E vocês se lembram das regras?

Lily responde primeiro.

—“Limitar as travessuras apenas para usar papel higiênico! E acima de tudo, não colocar fogo em nada!”

—Isso mesmo, Lily, mas não se esqueça que você só pode fazer as travessuras se eles não te entregarem os doces depois de você pedir por “doces ou travessuras”. Nada de dizer “travessuras ou travessuras” e depois queimar as sobrancelhas deles, entendeu?

—Pft! Hehe! Hehehehe! Mas ano passado isso foi muito engraçado! Metade da vila passou dois meses sem sobrancelhas---!

Lily percebe Rachel a encarando, com seus 8 olhos abertos.

—T-tá, desculpa, não vou fazer de novo... S-só papel higiênico, ok...

Rachel volta a fechar 6 de seus olhos, como de costume.

Em seguida, é Lo quem diz outra regra.

—“Visitar cada casa apenas uma vez. Nada de bater na porta logo após a fecharem, repetidamente, até acabarem os doces da casa. E nada de assaltar a despensa das pessoas a procura de comida como se fosse uma travessura, depois que nós pegamos todos os doces da casa.” É uma regra estranhamente específica, para falar a verdade.

—Eu só gostaria que Morgan ainda estivesse aqui, para ouvir ela mais uma vez...

Por fim, Rachel se vira para Happy, ainda segurando as mãos de Lo.

—E a última regra?

Ao que Happy responde.

—“Êe dibedi”!

—Isso mesmo, Happy, “se divertir”! Se divirtam!

As três irmãs saem de casa. O céu está tingido de laranja e amarelo, o crepúsculo indica que a noite está logo por vir.

...

...

...

—“Doces ou travessuras!”

—Desculpe, mas os doces já acabaram... Eu achei que tinha comprado mais...

As três irmãs estavam pedindo doces pela vila.

—Isso! Hehe! Vamos, Happy!

Lily se empolga enquanto ajuda sua irmã a jogar papel higiênico por cima da casa.

Lo faz uma pequena expressão apologética ao dono da casa, já conformado, enquanto vai se juntar as suas irmãs.

—Bwehehe!

—Wêêê!

-Li, não acha estranho? Já é a terceira casa esta noite em que os doces acabaram... Mas o festival acabou de começar...

—Hehe! Quem liga!? Assim é muito mais divertido!

Lily só para após o rolo ficar completamente vazio. Em seguida, as irmãs continuam a percorrer a vila.

Na praça central, várias crianças já se reuniam, desfilando perante os juízes, com a intenção de se tornarem a abóbora desse ano do festival.

Cruzando a multidão, Lily ia na frente guiando o caminho, enquanto Lo seguia, segurando a mão de Happy.

Até que de repente---

—Fantasia bonita, dentuça!

Um garoto humas, seguido por seu grupo de amigos, corre por trás de Lo e rouba sua coroa de flores, seguindo correndo para as ruas ao redor da praça.

—Kyah!

Lo grita, enquanto leva suas mãos para sua cabeça, por reflexo.

Lily olha para trás, e entendendo a situação vai atrás do grupo, para recuperar a parte da fantasia de sua irmã.

—Jeremias, seu moleque imbecil, volta aqui!

Jeremias era um garoto que frequentava a mesma escola que Lily e Lo. Ele e seu grupo gostavam de importunar a Lo sempre que tinham a oportunidade, mas dessa vez Lily estava lá para ajudar a irmã, e não ia deixar isso passar barato.

—Li, espere, tudo bem! Não precisa--- Happy? Happy, cadê você!?

Assim que Lo abaixa sua mão para pegar a de Happy novamente, ela percebe que sua irmazinhã não estava mais lá. Ela olha ao seu redor, mas não encontra sinais dela. Desesperada, ela tenta chamar Lily de volta para ajudar a procurá-la, mas sem resultados, pois a garota irritada já estava longe demais.

Rapidamente, Lo começa a procurar por Happy no meio da multidão, sozinha.

...

...

...

—Lo! Finalmente te encontrei! Por que é que você veio até aqui?

Lily se reencontra com Lo nos arredores da praça central. Ela tinha conseguido recuperar a coroa de flores.

—Li!

Lo corre em direção à Lily, enquanto chora.

—Eita, calma, Lo! Eu consegui recuperar a sua coroa, e também dei uma lição naqueles moleques! Não precisa chorar.

—Não! Li, sua boba, isso não interessa agora! A Happy... A Happy sumiu! Eu procurei por toda a praça, mas tem muitas pessoas, não consegui encontrar ela!

—O que?!

—Li, continua procurando ela por aqui, enquanto eu volto para casa para avisar a Rach-nee! Pelos Deuses, que nada aconteça com a Happy...

—Calma, Lo, você não está pensando direito!

—Hã?

—Já é de noite, então só pode ter acontecido uma coisa.

—Como assim?

—Você não conhece a história? O bicho-papão vai atrás de crianças que estão sozinhas e as sequestram para comer! A gente não tem tempo de voltar para casa agora! Temos que encontrar a nossa irmãzinha antes que seja tarde demais!

—Hã? Li, não seja boba! O bicho-papão é só uma analogia que os adultos usam sobre as coisas ruins que podem acontecer com as crianças. É só uma história de fácil entendimento para que as crianças se comportem! É claro que o bicho-papão não existe de verdade---!

Repentinamente, de um beco escuro ao lado das garotas, elas escutam uma risada maligna.

—Bwahaha! Garotas espertas, parece que vocês descobriram o meu plano... Isso mesmo, eu, o bicho-papão, levei a criancinha para o meu esconderijo!

—Hã?

Lo continua parada, com a boca aberta, enquanto Lily reage.

—Eu sabia! Apareça, bicho-papão!

—Aparecer? Eu já estou parado na sua frente.

Após dizer isso, a escuridão sai da parede e se move para frente das garotas. Isso revela que as sombras que pareciam formar um beco escuro, na verdade eram o próprio bicho-papão, que preenchia uma área enorme da parede.

Ele assume uma forma arredondada na frente delas, como se fosse um slime gigante, com mais de cinco metros de altura, feito de nada além de escuridão.

—Hã?

Lo continua com a boca aberta enquanto observa.

Já Lily, nem um pouco impressionada por esse acontecimento extraordinário, continua.

—O que você fez com a nossa irmã?! Cadê ela?!

—Bwaha! Se vocês querem as respostas para as suas perguntas, então vão ter de responder as minhas primeiro---!

Lily interrompe o bicho-papão.

—Traz ela de volta agora mesmo! Ou eu vou ter de te forçar!

Lily levanta os seus punhos, que queimam com sua magia de fogo.

Seguida por Lo, que recuperou os seus sentidos.

—Não me interessa se você é o bicho-papão, papai Noel ou coelho da páscoa! Se você realmente pegou a nossa irmã, então é melhor devolver imediatamente! Eu não quero ter de te machucar!

Os olhos de Lo brilham em um carmesim profundo, enquanto ela prepara sua mana para atacar o bicho-papão com suas magias.

—Bwahahahaha! Façam o seu melhor.

Incitadas por suas palavras, as duas atacam em união.

Lily se aproxima rapidamente e lança uma sequência de golpes, que explodem ao fazerem contato com a massa negra. Após poucos momentos, o corpo inteiro do bicho-papão entra em combustão.

Enquanto isso, Lo conjura um redemoinho, que aumenta a intensidade das chamas. E logo em seguida conjura placas de terra, que o prendem de maneira similar a um forno.

Após alguns segundos, o bicho-papão consegue sair de sua prisão, consumindo tudo com suas trevas. Mas as irmãs já o esperavam do lado de fora.

Nesse meio tempo, com suas magias de fogo, terra e ar, elas haviam conjurado uma bola gigante, umas três vezes maior que o bicho-papão, e feita de magma liquefeito, que iluminava a noite como se o sol já tivesse voltado. Assim que o bicho-papão reaparece, elas jogam a bola nele.

—"Engole essa!" "Haaaaa!"

O corpo do bicho-papão se abre como se formando uma boca, e tenta envolver a bola de magma. Após alguns segundos a magia é envolvida por inteiro e o corpo dele começa a diminuir, até voltar ao seu tamanho original.

—O sabor não estava nada mal. Mas admito que o apimentado da magia de fogo não é uma das minhas preferências.

—Ó não...

—Maldito! Você consegue comer Magia?!

—Bwaha! Eu consigo comer qualquer coisa, até mesmo magia.

Nesse momento, um brilho malicioso passa pelos olhos de Lily.

—Heh, já que esse é o caso, então vamos ver até quanto você aguenta comer!

Lily enfia suas duas mãos dentro da massa negra, que começa a inflar mais e mais.

—L-Li, o que você está fazendo?!

—Me ajuda, Lo! Vamos encher ele até ele explodir de dentro para fora!

—Pelos Deuses, Li, que ideia macabra! M-mas tudo bem, acho que podemos continuar até ele ter uma azia ou algo do tipo!

Lo se junta a irmã, e começam a conjurar magias diretamente dentro do bicho-papão.

...

...

...

—*Burp!* Já acabaram?

—“Urgh...” “Harf... Harf...”

As irmãs sentam ao chão para recuperarem o folego após gastarem quase toda sua mana. Já o bicho-papão continua parado do mesmo jeito que estava desde o começo do confronto.

—P-pensando bem, talvez essa sua ideia não tenha sido tão boa, Lo...

—Admito que eu também pensei que era uma boa ideia quando eu estava com a cabeça quente, mas a ideia foi sua, Li...

O bicho-papão solta mais uma risada do mal.

—Bwahaha! Já estão prontas para me ouvir?

—O que é que você quer com a gente?! Por que você sequestrou a nossa irmã?!

Lily grita em resposta.

—Bwaha! Muito simples... Eu quero os meus doces!

—“Hã?”

As duas reagem fazendo uma cara de ponto de interrogação.

—Isso mesmo! Doces! Doces! E mais doces! Vocês não conhecem a história por trás do Halloween?

Lily responde primeiro.

—Nós precisávamos de uma desculpa para recebermos doces de graça?

Ao que Lo reage.

—Claro que não, Li! Originalmente o Halloween começou como um período destinado a honrar as almas dos falecidos, e que depois foi se associando a diferentes festivais, até assumir a forma que conhecemos hoje.

—Bwaha! As duas estão completamente erradas!

—Hã?! Como assim?!

—Pft! Hehe, que pena, hein, Lo!

—Há muito tempo atrás a minha fome era tanta que eu tinha de percorrer o mundo comendo plantações, florestas, rios e devorando a magia daqueles que tentavam ficar em meu caminho.

Lo o interrompe.

—Então foi daí que você recebeu esse nome, bicho-papão? Porque você também devorava as pessoas que ficavam em seu caminho!?

—Ugh, claro que não, odeio carne. Eu sou vegetariano.

Ao que Lily reage.

—Ah! Nisso podemos concordar!

—Enfim, em uma das vezes em que eu fui devorar uma das plantações, fui interrompido por um dos fazendeiros, que me ofereceu uns doces como oferenda no lugar das plantas. Eu resolvi experimentar, e qual não foi a minha surpresa ao descobrir que esses pequenos alimentos lotados de açúcar e calorias podiam conter minha fome de um jeito tão mais eficiente do que as toneladas de frutas e verduras! Os rumores se espalharam, e logo todos me ofereciam doces, no lugar de suas plantações. Após alguns anos, essa prática foi condensada em apenas um dia, no qual eu receberia doces o suficiente para me manter pelo resto do ano.

—Mas o que isso tem a ver com a nossa irmã?

—Esse é justamente o ponto ao qual eu quero chegar. O problema é que ultimamente, as pessoas não vêm me entregando doces quando eu peço, mas eu percebi que elas entregam para vocês, crianças! Por isso mesmo, eu convidei uma criança para o meu esconderijo, para que ela me explicasse o que eu tenho de fazer para que eu possa voltar a receber doces! O problema é que ela ainda não sabe falar direito, então não entendi nada do que ela disse! Eu deixei ela lá comendo as reservas que eu ainda tinha dos últimos anos, mas ainda não sei o que fazer!

Lo pergunta.

—Então, se te ensinarmos a conseguir doces, você vai devolver nossa irmã?

—Eu ia tentar conversar com ela até o fim da noite para ver se aprendia algo. Então sim, se vocês me ajudarem, acho que posso convencê-la a voltar mais cedo.

Lily responde contente.

—Boa! Combinado então!

Lo então continua.

—Só para fins de referência, como você faz na hora de pedir doces?

—Ué, eu fico parado aqui nessa parede, esperando as pessoas me trazerem as oferendas.

Ao que Lily reage.

—Hehe! Que idiota, é óbvio que é por isso que você não está recebendo nenhum doce!

—C-como assim!? Foi isso que eu sempre fiz!

Lo responde:

—Para conseguir doces, você tem que vestir alguma fantasia, e visitar as casas das pessoas, dizendo “doces ou travessuras!”. Além de que eu acho que você já parece meio velho para fazer isso.

—Velho? Mas eu não envelheço... Se isso é sobre o meu tamanho, pode ser resolvido.

O bicho-papão começa a encolher, até ficar com apenas um metro de altura e largura.

Lily cochicha para Lo.

—(P-pode isso, Lo?)

—(N-não sei, parece bastante com a desculpa que a Chrome-nee tentou dar antes de ser trancada no quarto... Mas acho que não temos outras opções aqui...)

—Mas onde que eu vou arranjar uma fantasia agora?

—Ah! Isso eu resolvo.

Lily diz, antes de tirar um rolo de papel higiênico de sua bolsa e enrolá-lo no bicho-papão, de maneira similar à sua própria fantasia.

—Pronto, agora você é uma múmia também, hehe!

—Ó! Que garota esperta!

—Ugh, tudo bem dessa vez, mas não se acostume a fazer esse tipo de coisa que nem a Lily. Você tem bastante tempo até o Halloween do próximo ano, então faça uma fantasia de verdade até lá...

—Entendo... A sua fantasia realmente parece ser mais refinada do que a nossa... Isso tem alguma influência na quantidade de doces que vamos receber?

As garotas continuam a ensinar o bicho-papão sobre os novos costumes do Halloween, e se preparam para saírem em busca de doces mais uma vez

...

...

...

Após visitarem um bom número de casas. Lily, Lo e o bicho-papão estavam comemorando a boa safra de doces.

—É a minha primeira vez me divertindo tanto coletando as oferendas! É especialmente divertido pregar peças nas pessoas se elas não te dão doces!

—Hehe! Essa também é a minha parte favorita!

—Mas Li, você não achou estranho que tantas pessoas estavam sem doces para o Halloween esse ano?

—Não é culpa nossa que eles não se prepararam direito, Lo. Eles estão plantando as sementes que colheram!

—É quase isso, Li... Mas bom, acho que você está certa, não adianta nos preocuparmos...

Lily então se volta para o bicho-papão.

—Nós cumprimos com a nossa parte do combinado, agora é a sua vez.

O bicho-papão solta uma risada, que talvez não seja tão malvada assim.

—Bwahaha! Sim, você está certa, Lily! Agora as oferendas vão durar até o ano que vem, e como já aprendi o novo estilo de obter oferendas, vou poder---

*Cabrum!*

A conversa do grupo é interrompida por um trovoar repentino, seguido por uma chuva pesada. O trio corre para encontrar algum abrigo, e esperam por alguns bons minutos embaixo de um toldo que encontraram na frente de uma das casas. A chuva passageira se encerra rapidamente, mas o estrago já havia sido feito.

—Ai, não! A chuva destruiu todas as plantas da minha fantasia...

Lo disse cabisbaixa, enquanto percebia que apenas o seu vestido verde sobrou de sua fantasia.

—Viu, a minha fantasia é barata, mas por causa disso também pode ser refeita facilmente.

Lily diz, enquanto limpa os restos de papel higiênico molhado em seu corpo.

—Vem aqui, Lo, eu posso te emprestar um pouco do meu papel higiênico, para você se unir ao time múmia--- Ai, droga...

Lily abre a sua bolsa para retirar mais rolos de papel higiênico, mas percebe que o conteúdo de sua bolsa também ficou completamente encharcado, deixando o papel inutilizável...

—Infelizmente, isso não é tudo, garotas... Olhem para as nossas sacolas de doces...

Assim como o bicho-papão disse, o açúcar dos doces em contato com a água da chuva dissolveu completamente, fazendo com que eles escapassem das sacolas de pano do trio, deixando apenas um rastro de gosma melada.

Lo reage primeiro, com algumas lágrimas se formando nos cantos de seus olhos.

—Tudo o que a gente conseguiu nesse Halloween---!

—E o pior é que até perdemos nossas fantasias. E se tivermos de voltar até em casa para colocarmos umas novas, vai ficar tarde demais para pedirmos por mais doces...

Além disso, a pior parte... As garotas olham para o bicho-papão, que continuou calado depois de apontar a perda dos doces.

Percebendo o olhar das garotas sobre ele, ele finalmente volta a se manifestar.

—É um infortúnio, mas vocês cumpriram com a sua parte do combinado, garotas... Além disso, sempre tem o ano que vêm para conseguirmos mais doces. Acho que nesse ano eu posso me contentar com as frutas das florestas e as plantações dos fazendeiros da vila...

Lily reage primeiro.

—Mas isso não é justo! Depois de todo o esforço que você teve para aprender a pedir doces no Halloween... Você não deveria ser obrigado a ter de voltar a comer frutas e legumes, ao invés de quilos e mais quilos de açúcar!

—*Sniff sniff* O Halloween é o dia do ano em que incentivamos as indústrias de doces viciantes e cheios das porcarias mais gostosas e destrutivas já inventadas! Não conseguir comer nenhum deles e ser obrigado a voltar a comer comidas saudáveis, iria completamente contra o espírito do Halloween! Deve ter algum jeito ainda!

Lo complementa, agora chorando de vez.

Até mesmo o bicho-papão responde com sua voz trêmula, tocado pelas palavras sinceras das garotas.

—Garotas, eu não sabia que vocês se preocupavam tanto comigo... Mas nesse ponto, não sei mais o que fazer...

É então que das sombras do toldo surge mais uma pessoa, carregando uma enorme sacola em suas costas, que chegava quase até o chão.

—Lily, Lo, então era aqui que vocês estavam. Achei estranho que vocês não estavam na praça central também. Vocês estavam ajudando um amigo?

As garotas reagem juntas.

—“Morgan!”

Morgan aparece, ainda com sua fantasia de ninja.

Lily então começa a explicar a situação, mas Morgan a interrompe antes que ela precise dizer qualquer coisa, olhando para suas sacolas. Morgan então aponta para a sacola que carrega.

—Impermeável. Nunca se sabe o que vai acontecer. Se ela resiste a ficar submersa enquanto me escondo em uma fonte no jardim, uma chuvinha dessas não é de nada. Aqui, deixa eu repor os doces de vocês. De qualquer jeito, agora que a noite está acabando, eu posso terminar de pegar todos os doces que sobraram nas casas, sem que o pessoal suspeite.

Morgan entrega três novas sacolas, dessa vez impermeáveis, cheias de doces, salvando o Halloween.

—Se a Rach-nee perguntar, digam que eu passei a noite toda ajudando com o festival na praça central.

Morgan então volta a desaparecer nas sombras, como se nem tivesse estado lá para começo de conversa.

—Parece que a situação se resolveu sozinha, garotas. Agora vamos, vou levar vocês para a sua irmãzinha.

...

...

...

No meio da floresta nas proximidades da vila havia uma árvore antiga, que se estendia imponente, se destacando perante as outras. No tronco dessa árvore havia uma entrada para um sistema de túneis subterrâneos que se formaram com a expansão de suas raízes. Esse túnel havia sido decorado com diversas pedras brilhantes, que emitiam uma luz artificial, bem como diversos móveis e objetos de decoração, que ofereciam conforto e um certo charme para a moradia.

—Aqui estamos, garotas.

—Nada mal para uma casa em baixo da terra.

—Não diga isso desse jeito, Li! A sua casa é muito bonita, sr. Bicho-papão. Parece ser bem confortável de se viver.

—Bwaha! Agradeço os elogios. Agora deixe-me chamar a criança.

O bicho-papão se volta para um dos túneis.

—Isabel! Eu voltei! Também trouxe as suas irmãs, que parecem estar bem preocupadas com você e querem te levar de volta para casa!

Lily e Lo reagem juntas.

—... “Quem é Isabel...?”

Logo em seguida, uma garota humas sai correndo de um dos túneis e se encontra com o grupo.

—Não quelo fala co elas! Elas abandonalo eu pla pega mais doces! Ilmãs suas malbadas---! Quein são elas...?

Lily, Lo e Isabela se encaram, suas caras substituídas por grandes pontos de interrogação.

O bicho-papão assiste a cena sem entender o que aconteceu.

...

...

...

Após as garotas devolverem Isabel para os seus pais e os instruírem para que dessem uma boa bronca em suas irmãs, Lily e Lo se despendem do bicho-papão. Elas se sentam tristes e cansadas na praça central, perdidas sobre o que deveriam fazer.

Lily é a primeira a quebrar o silêncio.

—Mas se não era o bicho-papão que estava com a HAPPY, então onde é que ela pode estar...?

—Não sei Li... Eu sabia que a primeira coisa que deveríamos ter feito era avisar para a Rach-nee que perdemos a HAPPY... Não sei por que eu fui dar bola para toda essa história do bicho-papão... Não adianta ficarmos aqui de bobeira agora, temos que ir avisar a Rachn-nee o mais rápido possível... Estou preocupada com a HAPPY.

Lo se levanta e começa a voltar para casa. O fato de elas estarem destacando tanto o nome de sua irmãzinha com certeza não deve ter nada a ver com o mal-entendido que tiveram com o bicho-papão...

Mas então, Lo é parada por Lily, que segura sua mão.

—Espera, Lo! Olha, o desfile!

Lo se desvencilha da mão de sua irmã.

—Sinceramente, Lily, quem liga para o desfile de Halloween agora? É muito mais importante encontrarmos a HAPPY... E também ainda temos de nos preparar para a bronca que vamos levar de todo mundo...

—Não, Lo! Olha!

Lily segura a cabeça de sua irmã com suas duas mãos e a volta em direção ao desfile.

Liderando o desfile, sentada sobre o trono da abóbora e sendo carregada como a vencedora do concurso de fantasias, está uma pequena harpia com sua fantasia de Kraken, sorrindo alegremente para a multidão.

Lily e Lo se entreolham sorrindo, enquanto dizem juntas:

—“Happy!”

Após o final do desfile, as três irmãs voltam juntas para casa. Todas felizes com as aventuras que tiveram nessa longa noite de halloween.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.