Fairy Tale
8 Capítulo 8
Notas iniciais

A luz do fogo aquecia e iluminava os quatro seres sentados ao redor da fogueira. Na clareira escura e extensa, descansavam de três longos dias de caminhada. Somente as estrelas os observavam naquela noite.
E nem mesmo uma bruxa estragaria as surpresas daquela lua cheia.
De um lado da fogueira, Happy conversava com as duas mulheres, membros importantes do Império, que contavam a ele curiosidades sobre sua cultura e hábitos. Até mesmo as perguntas mais inconvenientes eram respondidas com prazer.
Entretanto, nenhuma era feita em troca. Na primeira tentativa de trocar informações, Lucy havia levado um baita corte de Natsu, que se opôs a compartilhar qualquer tipo de sabedoria provinda da Liga.
O que deixou a elfa bastante intrigada. E com razão.
– Alguém quer mais carne? – Natsu perguntou, interrompendo a conversa casualmente. Os três negaram, e ele levantou-se, no intuito de servir-se de mais um pouco.
Lucy o observou com atenção. Estava extremamente curiosa com as atitudes do dragão durante o período pós descoberta da paternidade. Até porque, Natsu havia mudado seu comportamento da água para o vinho com uma facilidade incrível. Tratava Lucy com o dobro de atenção, e ela não tinha do que reclamar.
Se não fosse por um detalhe.
Esse novo “afastamento” dos dois. Digamos que, após a revelação, algo entre eles houvesse se rompido. Aquela barreira que necessitaria de anos até que fosse destruída, que os impedia de se desejarem mais intensamente.
E, cá entre nós, a quebra dela havia sido algo muito satisfatório, ao menos para Lucy. Afinal, agora ela poderia finalmente admitir que sentia um desejo secreto por Natsu, e isso era – por mais que ela jamais admitisse em voz alta – uma coisa boa.
No entanto, Natsu não reagiu da mesma maneira positiva. Mesmo tomando um cuidado enorme com a mãe de seu filho, ele agora cavava – cada dia mais – um buraco entre os dois. Apesar da gentileza, ele não mais conversava abertamente, e se quer encarava Lucy por muito tempo.
O que, se analisar bem, caro amigo, era algo perfeitamente compreensível. Depois de descobrir ter violado uma pessoa que, atualmente, é alguém extremamente especial para si, nada mais normal do que reagir mal. Sentir raiva de si mesmo.
Mas Lucy, por sua vez, não via as coisas da mesma forma. Natsu havia feito um favor indireto a ela, e, mesmo que pelos piores motivos, havia ajudado-a. E isso era mais que suficiente para perdoá-lo. Então por que ele não podia se perdoar de uma vez? Digo, ela estava ficando impaciente!
E mulher, quando perde a paciência, só os deuses, espíritos, e etc, sabem do que são capazes.
Foi por isso que, naquela noite, ela fez questão de reverter o jogo.
– Não está com sono? – perguntou Lucy para Virgo, vendo a criada fechar os olhos brevemente. – Se quiser pode ir dormir, Virgo. É que não estou tão cansada. Posso ficar de vigia primeiro.
– Não gosto de deixá-la sozinha, princ – ela engoliu em seco. – Senhorita Heartfilia.
– Amanhã continuaremos a viagem. Não seria bom tê-la exausta ameaçando desmaiar, não acha? Será mais útil se dormir.
Virgo estreitou os olhos, estranhando a insistência de sua mestra. Havia notado os olhares curiosos que a loira havia lançado para Natsu Dragneel, mas pensou ter sido coisa de sua cabeça. Agora via claramente o motivo.
Sua criança estava crescendo, e aprendendo rápido.
Levantando-se devagar, ela alongou os braços, analisando a situação. Arrependia-se profundamente de não ter instruído mais a princesa dos elfos nesses assuntos, pois suas dicas lhe seriam bem úteis agora.
– Está certo. Me acorde quando estiver cansada.
– Sem problemas – a elfa sorriu animada, e Virgo quase rolou os olhos. Aproximou-se bastante da orelha pontuda de sua mestra, e sussurrou, pouco antes de se afastar, um discreto:
– Só provoque.
Lucy corou até a raiz dos cabelos, seguindo sua criada com o olhar, até a mesma deitar-se a razoáveis poucos metros da fogueira.
– Lucy, o que ela te disse? – perguntou Happy, com os olhinhos curiosos brilhando. Era impressionante a capacidade daquele gato de ser inconveniente.
– Uma receita de sopa ai.
– Eca. Detesto tudo que é saudável. Tirando peixe. E peixe-frito, empanado… Mas, pera! Uma receita tão rápida?!
Maldito gato curioso.
– É da família dela! – Lucy se enrolou, sorrindo torto. Natsu, que terminava a refeição do outro lado das chamas, a observou atentamente, quase divertindo-se. – Eles não tinham muitos vegetais, porque passaram por uma fase difícil sabe, dai é só … batata. É, batata com água!
– Que coisa mais estranha. Menos estranho que você, Lucy. Mas ainda muito estranho.
– Ora, seu gato imbecil! – Lucy fingiu esganá-lo, envolvendo o pescoço do exceed com as duas mãos, e apertando de leve, fazendo-o rir.
– Hey, Luxxy… — ela soltou-o, sentindo Happy se acomodar em seu colo, distraído com os próprios pensamentos.
– Hm?
– É verdade que vocês escravizam os prisioneiros? Os sobreviventes da Liga…
A loira olhou-o com atenção, ponderando antes de responder. Devia responder o que ele queria ouvir, ou o que deveria ouvir?
– Alguns. — admitiu, dando de ombros. O gato arregalou os olhos. – Não de imediato. Se os prendermos, e num período de mais ou menos um ano, eles se comportarem bem nas prisões, então são levados a um centro de … reestruturação. Lá aprendem nossos costumes e nossas regras. Mas, se não se comportam, são levados para trabalhar em fazendas no interior.
– Sem remuneração. — comentou Natsu, do outro lado. Não havia nenhum sentimento específico em seu tom de voz, e Lucy estranhou essa ausência. – O que, em muitos lugares, é chamado de escravidão.
– E o que vocês fazem com nossos prisioneiros, Natsu? – ela questionou-o, erguendo uma sobrancelha.
De imediato, o rosado nada disse. Mas, após uns segundos de silêncio, respondeu em voz alta:
– Se forem orcs, nós matamos e queimamos em seguida. Se forem xadaganos, mas dispostos a se livrarem das heranças culturais do Império, então os aceitamos como parte da tribo. Trabalhando e recebendo por isso. — ao fim da frase, ela notou uma certa mágoa nas palavras do dragão, e isso a surpreendeu.
– Não… concorda com isso?
Natsu suspirou, olhando-a nos olhos diretamente, o que a deixou incrivelmente nervosa. Ele não a olhava dessa forma havia um bom tempo.
– Não. Não concordo com nenhuma dessas políticas moralistas do meu pai. Detesto essa mania de aceitar novos membros, quando já temos bem mais que suficientes.
– Talvez ele pense em juntar forças, para uma possível guerra entre Império e Liga.
Menina esperta essa, não?
Meu filho rolou os olhos.
– Já temos suficientes para vencê-la. Além disso, somos dragões. E somos muitos. É o tipo da vantagem que será suficiente numa possível guerra. Mas ele se opõe a tudo que inclui violência no pacote, é um pé no saco. Até essas malditas guerrilhas que vocês começam na linha de frente! Já notou como quase nunca revidamos?!
Lucy quase sorriu de canto.
– Acho sábio quando um líder desvia-se do caminho da guerra. Se quer saber, Natsu, seu pai está ganhando uma batalha muito maior que a disputa de territórios. Tem uma mínima noção de quantos de nós já deserdaram para se juntar a vocês? Um terço dos xadaganos não mais nos pertencem. Ano após ano, a Liga vem unindo diferentes povos. É como uma grande família, essa coisa que vocês têm. E é lindo.
A loira se perdeu fitando as árvores, sem nem notar que estava sendo observada atentamente por um dragão incrédulo. Natsu havia escutado cada palavra do discurso dela, muito semelhante ao meu, por sinal. Que ele nunca havia dado valor.
– Você fala como meu pai.
Eu não disse?
Não havia humor algum em sua voz. Era uma afirmação séria, e bem importante, se quer saber.
Natsu havia notado algo crucial, que, naquele momento, não foi capaz de concluir a linha de raciocínio.
Ela falava como uma líder.
– Vou aceitar como um elogio.
– Se te agrada. — deu de ombros, olhando para o gato no colo da elfa que dormia tranquilamente. – Bem que estranhei ele estar tão quieto. Já deve ter dormido faz tempo.
– Política não é assunto mais divertido de todos. Entendo o tédio dele.
Natsu caminhou na direção dela, esticando as mãos para erguer o exceed. Lucy embalou o gato contra si, querendo dizer que Happy podia dormir consigo, e as mãos do rosado acabaram tocando as coxas dela sem querer.
Ele engoliu em seco, afastando-as rapidamente, e desviando o olhar.
– Tá. Eu … bem, já vou indo dormir.
– Natsu.
Ele não se virou. Deitou-se numa das partes mais escuras, mas não muito afastadas da clareira, ignorando-a completamente.
Lucy bufou de raiva. Levantou-se num salto, colocando o gato com a cabeça apoiada na bolsa de couro de suprimentos, e marchou em direção ao Dragneel. E, observe que, quando um elfo marcha, o som de seus passos ainda assim não é audível.
Natsu estava deitado de barriga para cima, olhando as estrelas atentamente. Ela até considerou a opção de chutá-lo, mas descartou-a logo. Sabia que, se queria que Natsu contribuísse, teria de ser persistente.
Por isso, apenas deitou-se ao lado dele, as mãos juntas acima do ventre.
Olhou para as estrelas com a mesma admiração de todas as noites.
– Você disse que queimam os orcs. Disse que aceitam os xadaganos. Mas não disse o que fazem com os elfos.
E era impressionante o quão sincronizadas duas mentes conseguiam estar. Naquele momento, ambos tiveram a mesma lembrança, de um incidente ocorrido meses antes.
– Nunca tive o prazer de matar nenhum. Vocês são difíceis de se ver. — ele comentou, mudando de assunto o mais rápido possível. Virou o rosto na direção da elfa, que havia feito o mesmo, deixando ambos bem próximos. A respiração do dragão batendo contra o rosto da elfa. – Sabe, foi por isso que olhei estranho para essas suas orelhas naquela noite. São esquisitas. E nunca havia visto muito de perto.
– Não são esquisitas! – ela tapou-as, fazendo-o rir. – Digo, não tanto quanto essa sua pele esquisita de dragão! São escamas de réptil.
– Escamas que me são muito úteis. É a pele mais confortável. — ele sorriu orgulhoso, olhando-a com atenção. – Mas suas orelhas não são tão estranhas. Eu até gosto um pouco delas.
– Um pouco quanto? – a loira perguntou, arrependendo-se no segundo em que as palavras deixaram sua boca.
Um leve tom rosado coloriu as bochechas de Natsu.
– Bastante.
O Dragneel desviou os olhos de novo. Lucy estava no ápice da adrenalina. Ora, ela o desejava. Por que era tão difícil para ele correspondê-la logo e esquecer o resto?
– Natsu?
– Não precisamos falar sobre isso agora.
– Mas em algum momento vamos voltar ao normal, não vamos? – ela olhou-o em expectativa. O dragão suspirou, assentindo.
Lucy quase sorriu. Entretanto, um lampejo de ideia ocorreu em sua mente naquele instante. E não poderia ter acontecido coisa melhor.
– Feche os olhos.
O Dragneel bufou.
– Se acha que vou cair nessa, e deixar você me roubar um beijo, está muito -
– Só feche a droga do olho logo, Natsu!
O rosado riu, obedecendo-a em seguida. Sabia que tinha de confiar mais nela, pelo bem do relacionamento deles. E logo. Por isso, apenas deixou-se levar pelo momento.
Que valeu cada segundo de espera.
A Heartfilia pegou a mão direita do rapaz, segurando-a firmemente, para em seguida levá-la para a região um pouco mais acima de seu útero.
– Coivië. — ela pronunciou no idioma tão antigo quanto o tempo. O feitiço fora eficaz. Mesmo não sendo uma das magias mais fortes, ainda era de efeito imediato, e consequências inacreditáveis.
Os olhos de Natsu se abriram, arregalados. No exato momento em que ela pronunciou a palavra, algo dentro dela, especificamente naquela região, se manifestou. Ele pôde ouvi-lo. Aquela forte porém baixa batida de coração.
Uma lágrima ameaçou escapar.
– É ele, não é? – perguntou, a voz embargada. Lucy sorriu gentilmente, trocando um olhar significativo com o dragão. – Ou ela. Ele… se manifestou?
– Não sei como não pensei nisso antes. Aquele dia, quando achei que o tinha perdido. Devia ter usado esse bendito feitiço logo. — ela respirou fundo. – De qualquer forma, serve para encontrar formas de vida em lugares aparentemente mortos. Tipo desertos, ou até mesmo os morros acidentalmente queimados. As plantas e animais sobreviventes são importantes no ciclo da vida. E temos de preservar o ciclo.
– É uma ordem de manifestação da vida? – concluiu Natsu incerto. Ela concordou com um manear de cabeça. – Faz sentido.
– Oh! Quase me esqueci – ela riu baixinho. – Não é ela. É ele.
– Como você sabe?
– Era uma cerimônia para conceber um herdeiro homem ao Império, já que uma mulher eles já tinham, e não era suficiente. Então, não resta duvidas. É um menino.
A voz da loira saíra extremamente trêmula. Havia ressentimento nas palavras, e Natsu notou isso. Logo trataria de consolá-la, mas, antes disso, tinha de fazer suas perguntas. Começou pela mais básica:
– Por que você, e não outra elfa ou xadagana?
Lucy trançou uma mecha de seu cabelo, pensando numa resposta plausível, que não fosse uma completa mentira.
– Minha família é influente no Reino dos Elfos. Foi como um voto de confiança ao Rei Jude.
Ele engoliu a justificativa. Afinal, nem mesmo tinha um motivo para desconfiar da mesma. Por isso, tratou de voltar ao assunto inicial logo, antes que se esquecesse.
– Deve ser … injusto, suponho. Toda essa coisa de herdeiros terem de ser homens. Se bem que, cá entre nós, eu teria feito o mesmo que aquele Rei babaca de vocês.
– Ah, você teria? – ela ergueu uma sobrancelha. Coisa que, infelizmente, Natsu não notou.
– Claro! Na real, não tem chance alguma de uma mulher ser a comandante do Império. Seria a época perfeita para nossos ataques! Eu, pelo menos, votaria mil vezes no Conselho para que atacássemos vocês bem no dia da maldita coroação!
Se a intenção, em algum momento, fora consolá-la, ele havia falhado miseravelmente.
– Engraçado você dizer isso. Então, mesmo que ela tenha treinado a porra da vida inteira para assumir esse posto, talvez até o triplo que você com esse seu rabo acomodado de dragão, ainda assim ela não teria chances de se igualar?! – Lucy levantou-se num salto, dando um chute na lateral do corpo do rosado, como havia planejado desde o início. – Faz todo sentido!
– Hey, calma aê! Me desculpa! – ele levantou-se também, erguendo as mãos em rendição. – Não quis diminuí-la, seja lá quem for ela.
– Tá brincando, não está?
– Olha, eu não sou tão machista quanto está parecendo agora para você, okay? Se quiser, admito aos berros que, naquele dia, você me deu uma surra daquelas. Nem soube o que fazer, se quer saber. O fato é que, é desvantajoso para o Império ter uma mulher, quando a Liga tem um dragão. São níveis de poder diferentes.
– Não esquece que, se não fosse pela mulher aqui, você estaria morto! Queimado feito churrasco, sem esse seu valioso chifre!
– Eu sei, eu sei, esquentada. — ele riu. – Está deixando meu moleque com dores de cabeça.
– Talvez ele goste de ver o papai apanhando. – Lucy sugeriu, fazendo-o rir. – Porque se continuar com essa sua opinião ridícula, é isso que acontecerá.
– Já pedi desculpas, não pedi? Fui um idiota.
– Para variar.
– Também não exagera, Luce!
Ela piscou os olhos.
– Do que me chamou? – questionou, engolindo em seco. Natsu franziu o cenho.
– Não gostou? É um apelido, sabe… o que damos aos amigos. Tipo um derivado de nome.
– Eu sei o que é um apelido, Natsu – a loira rolou os olhos. – Só… nunca tinha recebido um de ninguém. Não que eu tivesse amigos para me darem um, de toda forma. Virgo era minha única companhia.
O rosado observou-a com atenção.
– Ainda não me disse quem é ela em seu círculo social.
– E nem pretendo dizer. — ela cortou-o logo. Natsu franziu o cenho. – Sinto muito, mas enquanto não me der informações sobre você, não farei o mesmo.
– Interesseira você, hãn – riu debochado. – Sua história é assim tão triste, milady? Por um momento pensei que fosse me dizer que apanhava de ferro quente.
E, finamente, explodiu em gargalhadas. Lucy até tentou socá-lo de raiva, mas só o que conseguiu fazer foi rir, e rir de verdade. O tipo da gargalhada alta e tosca que todos escondem a sete chaves. Natsu se espantou tanto com a espontaneidade da risada dela, que parou o que estava fazendo para admirar a cena.
A cena cômica.
– Eu quero te beijar. Sei que disse que não queria falar sobre isso, e, bem, já tive provas suficientes de que não é o que quer agora. Mas – respirou fundo. – Eu só queria que soubesse disso.
Natsu engoliu em seco. Sabia que uma garota tinha de ter muita coragem para dizer coisas assim. E, se ela soubesse o quanto ele gostou de ouvir aquilo, se surpreenderia com o fato dele não ter pulado em cima dela ali mesmo.
– Se ao menos você … compreendesse … — ele mordeu o lábio inferior, em apreensão. – É difícil pra mim, bem mais do que pra você. Mas essa culpa, eu não posso ignorá-la ainda.
Lucy suspirou. Aproximou-se sorrateiramente do mais alto, envolvendo-o pelo pescoço com seus braços, e aproximando-os num abraço caloroso. Natsu não retribuiu de primeira, por estar um pouco chocado com a espontaneidade do ato.
Não costumava abraçar muito as pessoas. Apenas durante brigas, mas aquilo não devia ser considerado um abraço. Estava mais para uma tentativa de assassinato por sufoco.
– Quando estiver pronto, então. – ela concordou, fazendo-o suspirar aliviado em seu interior. Em outros tempos, diria que já havia nascido pronto.
Mas eram novos tempos. Novas escolhas.
E um novo amor.
– Você é incrível, Luce. — elogiou-a, fazendo a elfa corar. – Melhor ir dormir um pouco. Amanhã chegaremos à Liga, e ainda há muito o que andar. Até meio dia chegaremos em Fairy Tail.
A loira engoliu em seco.
Era isso o que a preocupava. Estava cada vez mais distante de casa.
[…]
Hibiki Lates estava bem atrasado. O tipo de atraso inadmissível, do qual muitos se arrependiam de cometer durante dias como aquele.
Porque, naquela manhã, o Império estava agitado, e seu membro mais influente convocou seus mais fiéis guardas para ajudá-lo numa decisão.
Tropeçando pelos corredores do enorme palácio, Hibiki se viu aliviado quando finalmente chegou ao seu destino. A Sala de Reuniões do Império, que possuía uma única cadeira. E não uma cadeira qualquer, caro amigo.
Um trono de ouro.
E nele um Rei opressor fitava seus fiéis com uma frieza que poderia ser considerada anormal.
– Está atrasado.
– Sinto muito, Capitão. — bateu continência rapidamente, aproximando-se do trono, e logo pondo-se de joelhos. – Perdoe meu erro, Sua Graça. Tive infelizes problemas no caminho, mas corri o mais rápido que pude.
– Temos de agradecer por não ser parte da equipe de mensageiros, não acha, xadagano? – havia apenas desprezo na voz do Rei.
Os mensageiros, como devem ter deduzido, eram os responsáveis por entregar recados e cartas pessoais do Rei. Obviamente, tinham de ser rápidos.
Agora, perdoem-me, mas antes que continuemos com a história, devo avisar-lhes de uma coisa. Hibiki não costumava ser tão próximo do Rei Jude Heartfilia. Era uma novidade para ele comparecer àquelas reuniões. Entretanto, dias antes, quando foi escolhido pelo próprio Rei para espionar a amante do mesmo, cumpriu seu trabalho com competência.
Agora, aqui estava ele.
– Não perderei tempo. Vamos direto ao assunto. Minha filha está desaparecida desde o incidente do ritual de acasalamento. Sting Eucliffe foi enganado naquela maldita caçada, e um membro da Liga infiltrou-se em seu lugar.
Hibiki não ouviu mais nada. Sua boca escancarou-se, quando finalmente a fixa caiu.
Lucy Heartfilia era a nobre daquele ritual.
E nada podia ser pior do que isso para a Liga.
[…]
Era meio dia quando finalmente pararam de andar. A pouco mais de meio quilômetro da Liga, o quarteto estava nos limites da Floresta Negra.
As pernas de Lucy estavam bambas. Felizmente, não havia ninguém para assisti-la tremer tanto, já que Virgo e Happy haviam ido buscar frutas, e Natsu estava sabe-se lá onde.
Escorando-se na árvore mais próxima, a elfa apoiou as mãos nas coxas, sentindo a cabeça rodar. Não sabia dizer se estava com vertigens devido a gestação, ou simplesmente nervosa demais para se quer respirar.
Estava tão insegura que poderia vomitar. Se é que fazia algum sentido.
– Luce? – ela saltou de susto ao ouvir a voz do rosado. Natsu estreitou os olhos, tentando ler a expressão corporal da mulher.
– Você tá bem?
– P-Por que não estaria?! – riu nervosa, trançando o próprio cabelo com os dedos trêmulos.
O dragão suspirou.
– Olha, eu sei que não deve ser a melhor situação do mundo entrar em território da Liga. Mas não se preocupe com isso, está bem? Ninguém vai te fazer mal algum.
Era a afirmação que faltava. O fósforo na pólvora.
– Não, é?! Você mesmo disse que poucas vezes pegam um elfo! Você mesmo me tratou feito um monstro desde o início, e agora está querendo dizer que vou ser bem recebida?! Eles vão arrancar minhas tripas, Natsu! E de Virgo! Eu não devia ter envolvido ela desde o início, e agora estamos aqui, prestes a ser mortas, interrogadas e sabe-se lá mais o que! É o meu fim! – as lágrimas ameaçavam cair dos olhos dela. A loira escorregou o tronco pela árvore, abraçando os próprios joelhos indefesa. – Vou perder meu –
Numa fração de segundo, já havia uma mão tapando a boca de Lucy com firmeza. Natsu a encarou.
– Não diga isso jamais.
Retirou a mão aos poucos, respirando fundo. E antes que a Heartfilia tivesse chance de se pronunciar de novo, seus lábios haviam sido tomados.
Era o primeiro beijo de muitos outros.
Algo no estômago da elfa revirou-se, socando as paredes para sair. Um sentimento que não cabia no corpo.
Começou breve feito um selinho, e aprofundou-se com o passar dos segundos para um movimento mais ritmado. Ainda sem que utilizassem as linguas.
E sem elas o beijo se encerrou. Curto, porém suficiente.
– Ninguém vai tocar um dedo em você. – o dragão garantiu firme. – Eu mato quem se atrever. Você é minha fêmea agora.
Mesmo tendo adorado ouvir aquilo, Lucy franziu o cenho. Jamais poderia ignorar seu lado feminista.
– Eu deveria me sentir bem com isso? – ela questionou, erguendo uma sobrancelha. – E você o que seria meu, Natsu? Meu macho? Meu dono?
– Que outro nome me daria? – provocou-a, sorrindo maroto ao final da pergunta. – Estou brincando, Luce.
– Você é ridículo.
– E você estranha, se não me falha a memória.
– Oh, então você também sabe palavras difíceis, príncipe da Liga!
O rosado riu.
– Só o bastante para seduzir as mulheres.
[…]
Era impressionante como as coisas podiam ir e vir com tanta facilidade. Num momento, você estava sentado, tapando o rosto exausto de tantas noites sem dormir. No outro, alguém invadia a Sala de Reuniões, aos berros, com notícias capazes de balançar toda a facção.
Ao ouvir a frase, “Natsu retornou” ecoar pelo salão, não pensei duas vezes. Já estava de pé voando para for a da Sede da Liga. Nada mais importava.
Minhas pernas tinham vontade própria, e me guiaram para a multidão que formava um corredor extenso em meio às casas simplórias. Os kanianos e gnomos estavam atiçados. Cochichavam em grupos gigantescos, e pareciam eufóricos com qualquer coisa que se aproximava.
Assim que notaram minha presença, uma passagem se fez presente no corredor de pessoas. Um vão me permitiu ver bem perfeitamente a figura alta de meu filho, que caminhava com seu exceed nos ombros. E, em cada um de seus antebraços, havia um novo acessório. Um preto e um branco.
Dois chifres de dragões.
Engoli em seco conforme ele se aproximava. O povo fez silêncio.
Foi quando a vi. Um pouco mais atrás, facilmente reconhecível. Uma da espécie maldita.
Uma elfa.
Caminhando ali, ela recebia olhares de nojo do povo. Cuspes eram direcionados aos seus pés, que ela desviava assustada. Se observasse bem, era possível notar que tremia e batia os dentes. E, um pouco mais atrás dela, uma xadagana bancava a guarda-costas, devolvendo os olhares furiosos.
– Olá, pai. – ele sorriu divertido, fazendo-me notá-lo com mais atenção. O corpo estava coberto de hematomas e arranhões. – Não mereço um abraço de boas vindas?
Olhei novamente para a intrusa. Também tinha alguns machucados, mas em menor quantidade. Estava posicionada atrás de Natsu, à sua esquerda. Curiosamente, meu filho seguiu meu olhar, e assim que notou minhas suspeitas, seu corpo posicionou-se de maneira protetora.
– Pode me explicar o que significa tudo isso, Natsu? – questionei, já imaginando as intermináveis dores de cabeça que a situação geraria. – E onde esteve todo esse tempo?
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