Fairy Tale
9 Capítulo 9
Notas iniciais

No começo, admito que a estadia de Lucy Heartfilia em minha tribo me foi insuportável. Principalmente porque sua presença havia resultado numa nova atitude provinda de Natsu. Toda a sua postura era diferente. Ele falava com mais calma, e parecia estar sempre pensando no que dizer.
Notei a diferença logo no momento em que chegaram. Quando exigi explicações de seu desaparecimento, ele me pediu que conversássemos a sós, na Sala de Reuniões.
E só o fato de meu filho querer – pela primeira vez na vida – entrar naquela sala, já significava que notícias ruins estavam por vir.
Não ocorreu como o esperado.
– Está querendo me dizer que trouxe uma elfa pra cá, porque a fez de refém na viagem, e quer que ela fique conosco porque – pigarreei propositalmente. – Você, Natsu, teve piedade?
Sua expressão era indecifrável. Sentado com os pés em cima da mesa – respeitoso, como de costume –, ele me encarava. O olhar superior havia sido deixado de lado, e isso era imperdível.
– Ela não é como os outros. — foi o que ele disse.
Ri seco.
– Com os outros, você quer dizer a raça que fazia questão de me aconselhar o extermínio?! Natsu, se está pensando que vai bancar o diplomata aqui, sinto em dizer que se enganou. Seja sincero uma vez na vida e me diga porque raios a trouxe aqui! E não minta, pois se o fizer, eu saberei.
Meu filho suspirou cansado.
– Estou apaixonado por ela, pai. — admitiu, dando de ombros. Minha boca quase foi ao chão. – O que, pelo menos por enquanto, não mudou minha opinião quanto ao fato de detestar aquela maldita raça.
Olhei-o com atenção, avaliando cada palavra. Não havia mentiras ali, era visível. Entretanto, isso não tornava a situação menos problemática.
Decidi que o melhor a fazer, era pensar no presente, e não pressioná-lo quanto ao passado. Pelo menos não ainda.
– E o que pretende com isso, Natsu? Fazê-la largar seus costumes e cultura? Reeducá-la?
Ele massageou as têmporas. Não parecia menos preocupado do que eu, para meu alívio pessoal.
– Não vai ser fácil, eu sei. Mas é o que pretendo.
Previsível. Mudanças não aconteciam tão rápido, muito menos para um cabeça dura feito ele.
Talvez mereça uma explicação, meu amigo, eu compreendo. Ninguém melhor do que um pai para explicar as verdades de um filho.
Bem, Natsu não é do tipo que se submete a nada. Muito menos a mudanças muito radicais em sua forma de pensar. Ele não gosta de ver as coisas de outra forma. Para fazê-lo mudar, seria necessário mais que força de vontade. Mais que amor.
E não me pergunte o que pode ser maior que essas duas coisas, pois não faço ideia do que responder.
O fato é que: independentemente do quão apaixonado ele esteja, a garota ainda é uma elfa. E isso seria sempre um empecilho entre eles. Mas, em sua cabeça infantil, ainda havia uma última esperança. A de mudá-la, para que ele mesmo não tivesse de mudar.
– E esses chifres? – perguntei, erguendo as sobrancelhas. – Como derrotou os Dragões Gêmeos, melhores mercenários do Império?
Sorrimos ao mesmo tempo.
– Um chute na bunda já seria suficiente! Mas fui um pouco além. A porrada estancou, velho, você tinha que ver! – socou o punho na mesa, excitado. No entanto, algo em seu olhar vacilou, e ele logo ergueu o queixo.
– Mas, pai, … você vai deixá-la ficar, não é?
Estreitei os olhos. De certa forma, seria uma experiência curiosa.
– Se você assumir a responsabilidade, então que assim seja feito.
[…]
A Liga parecia bem maior nesse momento.
Lucy havia sido guiada por um educado homem chamado Makarov, que, depois de contar a ela informações unicamente básicas sobre a tribo, simplesmente abandonou-a com o exceed azul.
Happy mostrou os campos onde a maioria dos kanianos trabalhava, e os chalés que alguns deles habitavam, feitos de madeira e palha. Haviam construções mais sofisticadas, feitas com pedras, que ficavam mais no centro da vila, próximos da Sede da Liga.
Lá, Lucy viu Natsu desaparecer comigo. O que a incomodou bastante.
Observando de longe, e até mesmo de perto, ninguém gostaria de estar na pele daquela elfa. Não havia ambiente pior para se encontrar. Mesmo estando acompanhada de sua fiel escudeira, Virgo, não se sentia nem um pouco melhor.
Até porque, Virgo parecia estar em casa. Fora recebida pelos outros xadaganos desertores, e estava sendo praticamente tratada como sendo da família Fairy Tail.
Evidentemente, o mesmo não acontecia com Lucy.
E não eram só olhares tortos. A maioria a ofendia na cara mesmo, isso quando não ameaçavam agredi-la. Quando visitaram a parte do comércio, repleta de barracas e tendas, foi o que mais aconteceu.
Porém, ela parecia estar sob os cuidados da pessoa certa. Mesmo que essa pessoa se quer fosse realmente uma pessoa. Happy parecia aliviar possíveis conflitos com bastante facilidade, por ser a mascote dos Dragneel.
– Bem, os kanianos moram quase todos no campo, porque trabalham por lá mesmo. Os gnomos vivem mais pra cá, porque o mestre deles é o chefe do comércio.
– Que seria aquele gnomo que me guiou mais cedo, não? – Lucy recordou-se. – Makarov Dreyar.
– Sim, o velhote. Ele também é um dos principais Conselheiros da Liga. O que é uma baita responsabilidade.
– Vocês quase não têm estradas. — ela observou, enquanto fitava a vastidão de grama que aquele local possuía. Isso porque estavam bem próximos do comércio, onde só haviam caminhos feitos de pedra, para passagem das carroças. – Por que?
Happy piscou os olhos.
– Como é que eu vou saber? – perguntou, parecendo ofendido. – Sou só um gato!
– Ora, seu gato idiota! – Lucy bufou. – Não tinham um guia menos sem noção pra mim?!
– E quem é que ia querer guiar uma aberração feito você, elfa?
Lucy virou-se assustada.
Atrás de si, uma mulher alta e forte parecia erguer o queixo de forma superior. Possuía cabelos escarlates longos, e mantinha a mão direita apoiada na bainha da espada.
– Erza! – Happy engoliu em seco. – N-Não ligue para o que ela diz, a Lucy é estranha mesmo.
– Sabe, Happy, não me interessa os motivos pelos quais estamos deixando esse monstro vivo até agora. Mas, se pensa que ele vai ofender um membro da Liga de idiota, e sair impune, está muito enganado.
– Eu não estou vendo monstro nenhum. – Virgo rebateu, cruzando os braços rente ao busto. Havia se posicionado ao lado de sua mestra, que ainda parecia um tanto desnorteada com a situação.
– Mas eu estou vendo dois. — a frase agora partira de uma outra pessoa. Um homem. De aparência bem assustadora para as duas mulheres, na realidade. Gajeel Redfox era moreno, e se tinha algo que sobrava nele, esse algo eram os músculos.
Que pareciam implorar para serem usados contra um oponente.
– Erza, Gajeel! – Gray Fullbuster bufou. Havia se colocado no meio do caminho entre a elfa e os irmãos de tribo. – Quantas vezes vou ter que impedir vocês de tentarem ameaçar alguém?
– Eu não sei se você notou, Fullbuster, mas aquela coisa ali não é um “alguém”. É um elfo. – Gajeel apontou, torcendo o nariz.
– Sinto muito em interromper a discussão – a voz melodiosa se fez presente, dessa vez de forma mais audaz. – Mas, acho que todo mundo já entendeu que sou realmente uma elfa. Podemos pular essa parte?
Os olhares se voltaram à loira.
Havia muita ousadia naquela pergunta. Muita. Fora quase como um golpe no estômago de Erza e Gajeel, e, bem, isso era ruim.
Muito ruim.
Entretanto, Lucy não podia evitar. Ela era uma princesa, e nunca em sua vida inteira deixou que alguém a menosprezasse.
Não ia ser agora, no território inimigo, que isso ia mudar.
– Quem pensa que é pra falar assim?! – Erza afrontou-a. – Você é apenas a escória do mundo, uma merda qualquer! Aqui é o território da Liga, e você não é bem-vinda aqui! Posso matá-la agora mesmo com minha espada, e cortar essa sua garganta pálida de uma vez por todas!
Prepare-se para o que vem a seguir, eu imploro. Eu mesmo hesito todas as vezes que conto essa história, sempre que chego a esse maldito ponto.
Lucy ergueu uma sobrancelha.
– Você pode tentar.
Virgo riu baixinho, sacudindo a cabeça em negativa. Conhecia aquela menina como ninguém, e sabia que, para Lucy, desaforos eram inaceitáveis. Ela não engoliria mais nenhuma ofensa, era oficial.
E, por mais incrível que parecesse, Virgo não se meteria no que viria a seguir.
Erza estreitou os olhos, cerrando os punhos. Estava furiosa. Nunca, em toda a sua vida de guerreira, alguém ousou desafiá-la de tal forma. Afinal, ela era a Titânia. Quem entrasse em seu caminho seria massacrado.
E, independentemente do quão querida aquela criatura loira fosse por seu líder, naquele momento, ela era o inimigo.
Erza Scarlet retirou a espada da bainha num piscar de olhos, e, enquanto girava-a no ar, uma roda de pessoas – que antes nem se quer estavam ali – se formou ao redor delas.
– Natsu vai me matar! – Happy tapou os olhos.
Lucy já havia considerado a hipótese de ser atacada, por isso, desde o surgimento da ruiva, buscou com os olhos qualquer tipo de defesa. E, felizmente, na barraca mais próxima, que vendia carnes, havia um machado cravado num toco da madeira. Certamente usado para decapitar frangos e outras aves.
Oh, devo ter esquecido de mencionar, mas, não, ela não estava com seu arco. Natsu havia feito questão de levá-lo consigo para um “lugar seguro”.
– Vai, Titânia, acaba com a raça dela! – Gajeel socou o punho no ar.
Lucy respirou fundo. Tinha de pensar num modo de atravessar parte da rodinha e chegar ao machado.
– Sai da frente! – rosnou, empurrando metade das pessoas que se encontravam no caminho.
É, o plano havia sido simples.
E como esperado, Erza mordeu a isca. Passou a perseguir a loira em sua trajetória, e, assim, afastaram-se da roda de pessoas que poderiam vir a atrapalhar Lucy.
A elfa lançou-se contra o toco quando finalmente o alcançou, arrancando-lhe o machado e girando a arma na mão, com o objetivo de testá-la. Era pesada, mas não o bastante para impedir seu uso.
Erza não tardou a alcançá-la.
As armas se chocaram com violência. Lucy usou o cabo do machado para bloquear a espada de Erza.
– Bons reflexos. – a ruiva comentou, forçando ainda mais sua arma.
E que força era aquela. Lucy suou frio. Posicionou melhor os dois pés, para em seguida dar uma rasteira na Scarlet, que cambaleou.
– Você não luta com dignidade! – alguém comentou ao fundo.
O que era verdade. Quando a disputa era de armas, outros golpes não deveriam ser usados. Uma rasteira, por exemplo, era golpe baixo.
Lucy ignorou a afirmação.
Mais uma vez, as armas se chocaram. Erza foi com mais força, e a loira quase foi ao chão, mantendo a pose. Agora as lâminas se enfrentavam, o que era ainda mais perigoso.
Outro choque, e outro, e outro. Lucy respirava com dificuldade. A espada de Erza girou e desceu num estrondo contra o machado de Lucy, que foi ao chão.
As duas se encararam.
Erza trocou a espada de mão, e quando ia enfiá-la contra o ombro da Heartfilia, Lucy reagiu. Seus olhos se fecharam, e os pés, descalços desde cedo, fizeram seu trabalho. A conexão elfo-natureza estava sendo feita.
A grama magicamente se agarrou aos pés da Scarlet, fixando-a na mesma posição. Lucy recuou o bastante para assistir a oponente olhar para os próprios pés, sem compreender o que acontecia.
A distração foi suficiente.
A elfa agarrou o machado de novo, e preparou-o para atingir a espada da outra.
No entanto, dessa vez não houve o estrondo. As lâminas nem chegaram a se tocar.
– Mas que porra está acontecendo aqui?!
Os pulsos das duas mulheres eram segurados com firmeza. Natsu soltou-os, e empurrou forte os ombros de Lucy, fazendo-a cambalear para trás.
– Qual parte de não se meter em confusão você não entendeu?! – ele perguntou aos berros, virando-se em seguida para a kaniana. – E qual parte de não encostar um dedo nela você não entendeu, Erza?! Pensei ter deixado bem claro!
– Foi essa elfa nojenta quem começou a confusão, Natsu! – Gajeel explicou, avançando na direção do rosado. – Ela veio cheia de si, e desafiou a Titânia aqui, como se fosse a tal da parada.
Natsu olhou para Lucy irritado.
– Você por acaso sabe com quem está lidando? – ele perguntou, num tom assustadoramente baixo. – Essa é a melhor espadachim da Liga, Lucy. A melhor. Perdi a conta de quantas vezes fui derrotado, só nesse ano.
– Ela sabia disso desde o início. – Erza garantiu, sorrindo de lado. – Muito esperta a sua nova fêmea, Natsu. Ela trapaceou justamente por saber que, se lutasse pelas regras, não teria chance alguma. O que me surpreendeu bastante, elfa, admito. Jurei tê-la achado da nobreza, mas parece que me enganei. Então existem elfos com menos sofisticação.
– Na verdade, não. – Lucy entregou o machado a Natsu, que a olhava incrédulo. – Mas mesmo os ricos aprendem a malandragem por ai, Erza Scarlet. É um prazer conhecê-la.
– Não digo o mesmo.
As duas sorriram uma à outra, e os homens ali presentes se perguntaram se haviam enlouquecido.
Mais uma vez, as mulheres lhes passavam a perna.
– Amanhã à noite haverá uma de nossas cerimônias – Erza comentou. – Fique à vontade para vir até minha casa para conversarmos antes disso. Será bom aprender mais coisas sobre o Império.
– Para que possamos destruí-los. – Gajeel acrescentou, no tom educado habitual.
Lucy assentiu.
– Obrigada.
Estava prestes a virar-se, quando teve seu braço segurado com firmeza.
– Você. Conversar. Agora. — foi só o que a raiva permitiu a Natsu dizer.
– Natsu, eu juro que foi tudo culpa da Lucy! – Happy afirmou de uma vez. Lucy arregalou os olhos.
– Seu gato maldito! – cerrou os punhos. – Você podia ter feito –
– Agora! – Natsu trovejou. As pessoas ao redor afastaram-se alguns passos.
Ele definitivamente estava furioso.
[…]
A elfa perdeu a conta do quanto haviam andado. Subindo aquele maldito morro, ela já sentia suas pernas fraquejarem. Ainda assim, Natsu não parecia disposto a fazer uma pausa. Ela andava mais atrás, de cabeça abaixada. Sentia-se envergonhada, por nenhum motivo em especial.
Nem mesmo Virgo fora autorizada a segui-los, o que era deveras assustador. Lucy não fazia ideia do que pensar, mas, se tinha uma coisa da qual tinha certeza, era que havia deixado-o louco com aquela briga.
O vento bateu forte contra seu rosto, fazendo seus cabelos bagunçarem-se ainda mais.
Estavam quase no topo do morro, quando ela não aguentou mais. Estava com os músculos doloridos, e precisava parar. Por isso, levou a mão até o braço do rosado, que simplesmente empurrou-a por reflexo.
Encarando-o agora de frente, Lucy notou que havia mais do que raiva em seu olhar.
– Natsu? – se quer reconhecia-o ali.
– Por que você teve que desafiar ela?! – ele foi direto ao ponto.
Lucy bufou. Então era esse o bendito motivo?
– Porque ela me chamou de aberração, monstro, dentre outras coisas que eu, a elfa nojenta, não vou ouvir! Nunca em minha vida ouvi insultos como esses, e não vai ser agora que isso vai mudar!
– Ela podia ter te matado! Na verdade, era exatamente o que ela pretendia fazer! Ela e todo mundo em volta! Todos eles querem te ver morta, e só estão esperando uma maldita desculpa pra acabar com você! E você, esperta como sempre, deu essa porra de mão beijada pra eles, Luce, que parte você não entendeu?! É tão imbecil assim?!
A Heartfilia trincara os dentes.
– Pois eu prefiro morrer a ter meu orgulho ferido!
Natsu ficou vermelho de ódio, segurando-a pelo vestido e erguendo-a no ar, feito um boneco. Os rostos a poucos centímetros de distância. Os olhos se enfrentando com violência.
– É tão difícil pra você entender isso?! Eu vou queimar por você! Vou queimar com fogo e fúria! Porque o que você carrega é meu bem mais valioso agora! Se eu tiver que matar cada um deles, eu não vou hesitar em fazer isso! Porque, por mais ilógico que isso pareça, agora você tem a minha vida. E eu não quero ter que matá-los! É a última coisa que eu gostaria de fazer, Luce.
Lucy engolira em seco. Havia sido a coisa mais profunda que já escutara em toda a sua vida. E, de certa forma, a mais bonita. Era bom saber que ele também era capaz de sentir aquela ligação com o bebê. Mesmo que ele não passasse do tamanho de uma unha.
Natsu colocou-a no chão lentamente, respirando fundo.
– Me desculpe. – Lucy pediu, abaixando a cabeça ainda mais envergonhada. – Devia ter pensado melhor antes de agir.
O rosado suspirou.
– Não precisa se desculpar. — garantiu, fitando o horizonte que já assumia uma coloração alaranjada. – Eu teria feito o mesmo.
A mão dela procurou a dele, e Natsu notou o ato. Mas, aquele morro em especial, que lhe trazia outras lembranças – lembranças de um antigo amor – ele não podia se permitir fazer aquilo.
– Vamos voltar. – ele disse, antes que ela pudesse tocá-lo. – Ah, e … bem, ninguém pode saber que você está grávida, certo? Pelo menos não ainda. Meu pai surtaria. Preciso que ele aceite sua presença, pra depois contar isso.
– Natsu, … — Lucy respirou fundo. – Você sabe que é mais complicado do que isso, não sabe?
Ele a encarou, franzindo o cenho.
– O que quer dizer?
– Quero dizer que eu não sou um membro da Liga. Você sabe disso.
Ele deu de ombros.
– Pelo menos não ainda.
– E se eu não quiser ser?
Natsu não respondeu.
– Está tarde. Igneel pediu que eu te levasse para jantar lá em casa, mas disse que hoje não daria. Você e Virgo vão ficar na casa do Makarov.
E deu as costas, ignorando completamente a pergunta chave da elfa, que apenas suspirou. Sentia que o pior ainda estava por vir.
[…]
– Ele nem se quer vacilou no olhar? – Virgo perguntou, enquanto mordia um pedaço do pão.
Lucy negou com a cabeça.
– As vezes não o compreendo. Sempre foge dos assuntos difíceis.
– É uma coisa típica do Natsu – Makarov comentou, surgindo na cozinha. As duas mulheres se endireitaram, sentindo-se expostas. – Sinto muito em interrompê-las, damas. Mas tinha de avisar que as camas estão prontas. Fica no último quarto do corredor.
– Ah, muito obrigada, Makarov.
– Se eu fosse você, criança, investiria em formas de fazê-lo entender. Mas, antes, por que não se abre um pouco mais?
– Como assim?
Ele sorriu.
– Pode ser uma grande oportunidade de conhecer o outro lado da moeda, sabe. A Liga tem muitas coisas boas a oferecer. É só você se deixar levar um pouco. Talvez Natsu queira lhe provar isso. E você devia deixá-lo ao menos tentar.
Virgo levantou-se para ajudar a lavar a louça, e Lucy retirou-se para tomar um breve banho. E, depois de pensar bastante nas palavras do sábio gnomo, percebeu que talvez ele tivesse razão.
[…]
O amanhecer estava belo naquela manhã. O sol ainda não havia dado as caras, mas as cores azul e laranja pareciam disputar o céu numa batalha lendária. Claro que, independentemente de quem vencesse, assim que o Astro Rei decidisse aparecer, não haveria espaço para mais ninguém.
Ele sempre seria a estrela principal.
Natsu caminhava pelos campos mais rápido do que de costume. Nunca antes havia acordado tão cedo, mas tinha de admitir que era uma situação diferente. Estava preocupado. Havia deixado sua cama apenas para acordar a Heartfilia, e, ao chegar na casa de Makarov, o gnomo disse a ele que ela não se encontrava.
Se perguntou onde uma bendita elfa poderia estar nos territórios da Liga.
Mas não tardou a encontrá-la.
– Você tem que regar menos a terra, – ela afirmava, retirando o regador das mãos de Wendy Marvell. Um dragão jovem, e uma das raras fêmeas ainda existentes. – e deixar que a chuva faça isso. Ou elas vão morrer.
– Mas vovó disse que não há saída. – Wendy choramingou, coçando os olhos que ameaçavam derramar lágrimas. – Tudo nessa terra morre! Não importa quantas vezes eu a regue!
– Shh! – Lucy levou o indicador aos lábios da menina, delicadamente. – Se você disser isso, ela acreditará!
Natsu quase riu da cena, cruzando os braços enquanto assistia.
– Eu vou fazer um truque, está bem? Mas você não pode revelar a ninguém. Promete?
Wendy fez que sim com a cabeça.
– Ótimo.
Lucy levou as mãos ao bolso falso do vestido, localizado entre as “pétalas de tecido” da saia branca. De lá retirou um conjunto de sementes de um verde-musgo forte. Não cheiravam o melhor dos odores.
– São sementes de que? – Wendy perguntou.
– O que sua avó queria que esse lugar fosse?
– Um vinhedo.
– Nesse caso, serão sementes de uva. Sua magia é do vento, certo?
Wendy assentiu.
– Então me ajude com isso. As espalhe pela terra.
A menina a obedeceu. Rajadas fortes arrastaram as sementes ao longo dos campos, soterrando-as pouco a pouco, sem deixar nenhuma de fora.
Quando o trabalho terminou, Lucy fechou os olhos, mais uma vez se concentrando, e formando o elo. Uma brisa, dessa vez natural, passou por elas, e, depois de retirar as botas, e plantar os pés no chão, a elfa forçou a mente.
Um sentimento engraçado invadiu o peito de Natsu, no exato momento em que aquilo começou a acontecer. Da mais simples terra, surgiram ramos, que iam crescendo cada vez mais, criando galhos, que criavam folhas, de onde nasceram frutos.
Era a segunda manifestação que Natsu assistia, e a segunda que balançava com suas crenças e sentimentos. O peito doía, como se seus sentimentos já não coubessem mais ali.
– Espíritos Ancestrais! – Wendy tapou a boca, incrédula. Tremia dos pés à cabeça. – Lucy, o que é isso?!
– Achei que quisesse as uvas. – Lucy murmurou, sentindo-se envergonhada. – Você … não gostou?
– Nunca vi nada parecido! – a garota agarrou-a feliz. – Muito obrigada! De verdade!
Lucy sorriu orgulhosa. Já ia devolver o abraço, quando teve sua ação interrompida.
– Luce, já está fazendo merda essa hora da manhã?
– E você já está falando merda? – Natsu quase saltou com a voz atrás de si. Era Gray. E, ao lado dele, uma mulher segurava sua mão docemente.
– Bom dia, Natsu – ela o cumprimentou, sorrindo levemente.
– Bom dia, Lucy – Gray disse, fazendo a mulher ao seu lado olhá-la com certa irritação. – Vim aqui para chamá-la. Erza quer que passe o dia com as mulheres.
Os dois homens torceram o nariz. – Ela irá te levar até lá, não é, Juvia?
A kaniana nada respondeu. Avaliava a loira com certa cautela, e, de súbito, puxou o namorado com força, fazendo suas bocas irem de encontro.
Gray não corresponderia, em circunstâncias normais. Sabia que era mal educado sair por ai agarrando sua fêmea na frente dos outros. Entretanto, hoje era a noite do mês onde os hormônios falavam mais alto. Também conhecida como Noite dos Dragões, era uma espécie de tributo ao dia fértil das fêmeas dragônicas.
A noite dos acasalamentos coletivos.
Era uma completa loucura, e também a noite mais divertida para todos. Filhos eram concebidos, e novos amores eram encontrados. Bebida e comida não faltavam, combinadas às danças típicas daquela tribo.
O beijo dos dois passou a ficar mais quente. As pernas da mulher de cabelos azuis envolveram a cintura do moreno, que agarrou as coxas de prontidão. Natsu e Lucy se entreolharam, e a Heartfilia estava tão vermelha, mais tão vermelha, que o rosado se pôs a gargalhar.
– Você é estranha, Lucy!
Ela arregalou os olhos. – Não sou eu que estou me agarrando com alguém no meio de uma conversa!
– Eles são um casal. – Natsu afirmou.
– Isso não torna menos constrangedor!
– Logo você entenderá. Erza deve lhe explicar os detalhes da noite de hoje …
Suspirou cansado, o que não passou despercebido pela elfa.
– O que veio fazer aqui afinal, Natsu?
Ele deu de ombros.
– Queria falar direito com você. Soube que –
– Juvia vai levá-la agora – a kaniana os interrompeu. – Erza deve estar esperando.
A loira olhou-o apreensiva, vendo o dragão assentir.
– Nos vemos mais tarde, Luce. Pode ir.
As duas mulheres passaram a caminhar, se afastando pouco a pouco. Natsu observou Lucy ir com um certo sentimento de abandono. Descobriu que não gostava de dividi-la, e, pela primeira vez, se arrependeu de ter deixado a Floresta Negra.
– Vocês são muito íntimos para tão pouco tempo juntos.
– Mas já a conheço.
– Hm?
– Precisamos conversar.
[…]
Olhando para os vestidos de Erza Scarlet, Lucy descobriu que elfos eram muito menos maliciosos do que as outras raças. Por exemplo, os vestidos curtos, que ela mesma costumava usar com as pernas nuas e livres.
Na Liga, vestidos curtos como os dela deveriam – e eram – usados com o auxílio de uma calça comprida. A maioria dos vestidos era pesado, e abaixo dos joelhos. O que, para Lucy, era incrivelmente desconfortável. Além disso, quase todos eles estavam mesclados a armaduras. Ombreiras de metal, e corpetes de aço, feitos para impedir a perfuração das lâminas. O que, na verdade, era bem feminista. Uma exigência das mulheres da Liga.
No entanto, haviam alguns abertos demais. Tecidos quase invisíveis na parte dos seios, e com fendas que mostravam parte da bunda. Lucy achou-os completamente fora de contexto.
– A maioria dos vestidos é longo. – ela observou, tentando soar casual. – Mas alguns aqui são abertos em demasia.
– É porque foram feitos estritamente para essa noite do mês. – Mirajane explicou. – Revelam as partes mais … sensuais, propositalmente. Para atrair os parceiros.
– E porque os normais são tão fechados?
– É uma ofensa aos nossos homens deixar tanta pele descoberta – Levy explicou, suspirando cansada. – Se já temos um macho, podemos nos descobrir um pouco mais. Mas, se não, é melhor andar bem protegida por ai.
– Do que vocês se protegeriam?
– Dragões e kanianos têm épocas de produção de hormônios em maior quantidade. Hoje, por exemplo, o fogo é incontrolável nos homens, e até em algumas mulheres – ela apontou com o olhar para Juvia, que borrifava um perfume de flores diversas vezes na região do pescoço.
– Juvia não liga para a implicância de Levy. Ela quer seduzir Gray até o último segundo dessa noite. E de todas as outras, na verdade.
As mulheres em volta riram, mas Lucy permaneceu em silêncio. Sentia que a kaniana a detestava, e por isso preferiu ficar na sua, permanecendo a fitar os vestidos, que pareciam tão diferentes dos seus.
– Por que tão séria, Lucy? – Erza perguntou, sentando-se na beirada de sua cama. – Não gostou de nenhum deles?
– Não, não é nada disso. – a loira garantiu, erguendo as mãos. – É só … não me sentiria bem usando-os. São diferentes do meu povo.
– Não é como se alguém aqui tivesse vestidos de elfo guardados – Juvia comentou seca.
– Meninas, eu posso levar nossa convidada para meu chalé? – a voz da anciã se fez presente. Todas olharam na direção da velha senhora de cabelos cor-de-rosa fixos num coque no topo da cabeça. Devido às vestes e ao silêncio respeitoso que se fez presente, Lucy deduziu não ser uma idosa qualquer. – Se importaria de vir comigo, elfa?
– O nome dela é Lucy, vovó – Wendy afirmou, puxando a senhora pela barra do vestido. Só agora Lucy reparou na presença da menina, que sorriu-lhe simpática.
– Então, Lucy, venha conosco, por favor.
– Sim.
No caminho até o chalé de Grandine, que Lucy descobriu ser apenas o nome dragônico de Porlyusica, as três mulheres puderam ver perfeitamente as preparações da tal Noite dos Dragões. Velas eram acendidas ao longo de todo o bosque, e, mais afastado da Sede da Liga, uma enorme fogueira estava sendo acesa. Espécies de tapetes eram distribuídos ao longo da grama, junto a algumas mesas baixinhas, onde copos estavam sendo colocados.
– Pra quê iluminar o bosque? – Lucy perguntou.
Porlyusica olhou para Wendy, um tanto hesitante.
– Bem, nessa noite, as mulheres interessadas em arranjar um parceiro, ou apenas em festejar sem compromisso, devem se aprontar, como pôde notar, e, na hora certa, fugir.
– Fugir? – a elfa engoliu em seco. – Do que?
– Dos homens. – Wendy sussurrou, com as bochechas coradas. – Eles perseguem elas!
– As vezes mais de um. Se torna uma batalha, e o macho vencedor acasala.
– Isso não parece meio… selvagem?
– Veio dos dragões, essa tradição. Costumam brigar por tudo. Por isso, eles exibem os chifres dos outros oponentes que já mataram para as fêmeas, feito um pavão que revela suas penas.
– Então elas fogem dos machos que querem elas? Mas, se o objetivo era acasalar desde o início, pra que fugir?
– Ora, criança, é para ser divertido. É uma festa, não um ritual!
Lucy engoliu em seco. Até ouvir aquela palavra lhe dava arrepios.
– Há alguns lugares “privados” ao longo do bosque, com menos velas, e menos árvores. Para que a relação seja fértil, é necessário que os casais tenham o coito na mata abençoada pelos espíritos.
– Os … espíritos?
Grandine riu.
– Pergunte tudo isso ao Natsu, quando tiverem tempo. Vocês têm muito o que descobrir ainda, um sobre o outro. É melhor que façam isso sozinhos.
Lucy assentiu. Enquanto caminhavam, viu um grupo de homens rindo, conforme pintavam os braços. Haviam diversos símbolos geométricos diferentes, a maioria em forma de círculos, de diversas cores.
Assim que saiu da banheira, Lucy foi recebida no quartinho simplório de Wendy, onde a menina a aguardava com um sorriso interesseiro.
– Por que está me olhando assim? – Lucy perguntou rindo, vendo a garota balançar uma escova de cabelo.
– Posso fazer uma trança especial?
– Fique à vontade.
– Mas, antes disso, a vovó me pediu pra te entregar sua roupa.
A menina retirou uma caixa do criado-mudo próximo da cama. Abriu-a devagar, desdobrando um vestido que – aos olhos da Heartfilia – não poderia ter sido melhor. Não faço ideia de como se descreve um vestido, além de ressaltar que ele acentuava os pontos certos do corpo.
Era um tecido creme, sem nenhum diferencial senão um acessório de pedraria no meio da roupa.
Os olhos da elfa brilharam. – Muito obrigada, Wendy, é lindo.
– Agora senta ai, vamos te vestir logo.
[…]
Natsu estava sentado num dos tapetes mais extensos – e mais vazios – daquela festa. Do meu lado direito, mais especificamente, e do lado oposto de Makarov. Bebíamos o vinho mais gostoso conhecido até então, que era colocado nos copos feito água.
Os homens riam e brigavam, rolando pela grama em lutinhas amistosas e infantis, típicas dos jovens. Socos estalavam no ar com força, e pratos voavam repletos de comida.
Comida essa que não faltava. Haviam carnes, frutas e doces até onde se podia ver. E cheiravam maravilhosamente bem.
Entretanto, a noite ficou boa realmente, quando as mulheres chegaram. Perdoe-me o machismo, mas eram o prato principal. Os vestidos colados, alguns até mesmo transparentes, esvoaçando as barras ao vento. Elas chegaram em grupos, espalhando-se pouco a pouco, ocupando os tapetes com seus perfumes.
Lucy Heartfilia estava distante, num tapete junto à Erza Scarlet e seu namorado, Jellal Fernandes. Eles conversaram e riam, e, apesar de conversar com eles, a elfa não parecia das mais entretidas. Na realidade, a festa toda estava num mormaço sem sal.
Afinal, fazer a mesma festa durante todos os meses perde um pouco a graça.
Exceto quando, ocasionalmente, se tem uma elfa presente ali. Seria a situação perfeita para tornar tudo mais divertido.
Reparei nos olhares que ela e Natsu dirigiam um ao outro – não ao mesmo tempo – durante o banquete, e decidi que já estava na hora de agitar as coisas. Levantei-me devagar, erguendo o copo. Pouco a pouco, todos se calaram, encarando-me em expectativa.
– Mais uma noite de festa, não é verdade, Liga?! – sorri ao final, e o bosque explodiu em urros de excitação. – É, eu sei como vocês gostam de beber, amigos, além daquela outra surpresa pro final da noite.
Os homens riram. Algumas mulheres também.
– Mas sejamos pacientes. Que tal começarmos com música? – sugeri, ao mesmo tempo em que tambores e flautas eram preparados por alguns kanianos musicistas.
O povo comemorou.
– Ótimo. Mas não vamos parar por ai. Quem gosta de ouvir música, gosta de dançar, não é verdade? Que venham os casais apaixonados, então. Mas, primeiro, nossas lindas damas!
A maioria das mulheres se pôs de pé. Usavam cada uma um véu de uma cor, e estavam unidas numa roda. Os quadris passaram a mexer ao mesmo tempo em que os tambores batiam. Um ritmo lento e tocante. Os véus unidos no alto, ainda na roda.
Logo outros instrumentos se juntaram, e a coisa ficou mais rápida. Alguns homens, os mais ousados, caminharam até suas fêmeas, posicionando-se atrás delas, e roubando-lhes os véus. Assim, eles enrolavam os véus ao redor dos quadris delas, e movimentavam-se juntos, roçando os corpos com aparente necessidade.
Lucy Heartfilia estava boquiaberta. Nunca havia visto uma dança tão promíscua. Os casais se tocavam, se mexiam juntos, parecendo serem um só corpo. Alguns olhos fechados, outros trocando olhares. Tudo aparentemente muito profundo.
A elfa permaneceu sentada educadamente. Levava uma taça de vinho vez ou outra até os lábios, bebericando com desinteresse. Agora que Erza havia ido dançar, estava sozinha no tapete, apenas assistindo toda aquela festa que lhe parecia tão primitiva, e ao mesmo tempo tão intensa.
Em muito lhe lembrava o bendito ritual, e isso a assustava um pouco.
Observou o casal formado por Gray Fullbuster e Juvia Lockser. Ele era um pouco mais travado nos movimentos, mas toda vez que a tocava, a tocava com firmeza, agarrando sua cintura com um fogo que parecia vir de dentro. Irradiar feito um incêndio.
Ela engoliu em seco, sentindo-se de repente com calor. E, tomando um pouco de coragem, ela tomou a iniciativa. Levantou-se devagar, olhando diretamente nos olhos de Natsu. E, quando ele encontrou o olhar dela, ao mesmo tempo em que a elfa se aproximava.
Observando-a de onde eu estava, tive uma ideia. Uma ideia perigosamente boa. Porque, como pai, eu queria ver o circo pegar fogo.
Me coloquei de pé novamente, e a música no mesmo instante parou.
– Sinto muito interromper o clima, jovens. É que fiquei curioso. – cocei a barba, olhando na direção da convidada. – Temos uma intrusa imperial esta noite, e ela parece muito parada, na minha opinião. Lucy Greenleaf! – chamei-a alto, fazendo a garota estremecer. – É verdade que o Império se diverte?
As pessoas riram, gritando “não” consecutivas vezes. Quando tornaram a fazer silêncio, ela respondeu:
– Sim, senhor. Se surpreenderia se assistisse.
– Suponho que sim – sorri, exibindo os caninos afiados. – Mas, sabe, como vocês se divertem? Bebem, cantam, comem … dançam?
Lucy assentiu. Abri ainda mais o sorriso.
– Oh, então vocês dançam. E você sabe dançar?
– A dança típica dos elfos. – comentou, dando de ombros. Natsu olhou-me com irritação. Já havia notado onde aquilo ia parar.
– E pode nos mostrar?
Ele e ela sacudiram a cabeça em negativa, ao mesmo tempo.
– N-Não! Não é necessário!
Ergui uma sobrancelha.
– Não sei se você sabe, mas eu é que decido o que é e o que não é necessário por aqui. – iniciei, fazendo todos urrarem em concordância. Não havia nada mais instigador que um líder exibindo poder com o inimigo. – E eu decido que vai dançar.
Ela não discutiu. Não depois do olhar que Natsu lhe lançou. O tipo do olhar que dizia muito, e significava muito pouco.
Lucy caminhou até próxima da fogueira. Os casais se afastaram conforme a elfa andava, e a leveza com a qual os movimentos eram realizados encantou cada um ali. Isso porque estava apenas andando.
Ela se posicionou encolhida no chão, e, assim que a música recomeçou, os movimentos vieram com uma tranquilidade natural.
Todos a observavam com atenção. E, até mesmo a brisa parecia dançar com ela naquela noite. O corpo se movia feito a água dos rios, os pés giravam feito o vento das tempestades, e a cabeça ia e vinha feito as ondas do oceano.
Era um conjunto perfeito. O Elo entre a natureza e outra criatura.
Até mesmo as chamas da fogueira se moviam no mesmo ritmo. Os músicos tornaram a melodia mais lenta, para se sincronizarem também. Ninguém queria ficar de fora.
Muito menos Natsu. Por isso, ele não demorou a levantar-se.
E, quando o olhei de novo, já estava atrás dela. Um puxão com violência fora suficiente para colar o quadril dela na virilha dele.
O povo urrou extasiado.
– Acho que é hora de finalizar, pessoal! Alguns aqui estão ficando com calor. – comentei divertido, fazendo a maioria rir, e voltar às atividades normais. Os mais velhos voltaram a beber, e os mais novos a dançar.
Lucy estava um tanto chocada. E ficou ainda mais quando sentiu a boca do dragão roçar em sua orelha, sussurrando:
– Minha vez.
Ele agarrou a cintura dela, ditando os movimentos, fazendo-os dançarem no mesmo ritmo mediano.
– Você não consegue passar um dia sem chamar atenção, não é? – Natsu bufou.
– Sinto muito se seu pai me obrigou a dançar sozinha na fogueira! – ela rebateu, fazendo-o rir seco.
– O velhote estava me –
Os tambores agora assumiam um ritmo mais forte. Os outros instrumentos cessaram, e as bebidas pararam de ser servidas.
Estava na hora.
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