Fairy Tale
7 Capítulo 7
Notas iniciais

A situação era catastrófica.
Enquanto Lucy chorava o pranto dos desesperados na própria solidão, Natsu a observava atônito. E não pensem que o que se passava em sua cabeça era algo como “Ela é jovem demais para estar grávida!”. Não, de forma alguma. Uma mulher grávida, nesse contexto em que estamos agora, é quase tão normal quanto a existência de dragões.
O real choque de Natsu, era devido ao fato de ser Lucy a mulher grávida. A elfa educada e independente com quem estava convivendo durante essas semanas.
– O que disse? – ele tentou engolir em seco, falhando miseravelmente. Nem se quer havia saliva para isso.
Lucy não repetiu. Estava ocupada demais soluçando e enxugando as bochechas com as costas da mão. Dessa forma, o Dragneel não tornou a perguntar. Já sabia a resposta. Apenas desconfiava dela.
– Está achando que… o perdeu? – a nova pergunta fora vocalizada. Menos insegura que a primeira, mas não menos inconveniente.
A Heartfilia sacudiu a cabeça em negativa, permanecendo a abraçar o próprio ventre de forma protetora.
Pela segunda vez em tempos, meu filho pensou em mim. Pensou no que eu faria se estivesse em seu lugar, e no que era realmente importante naquele momento.
Primeiro, deveria ignorar – com esforço – a nudez da mulher. Segundo, deveria parar de fazer perguntas até que ela estivesse mais calma. E, terceiro, e mais importante, tinha de dar um jeito de descobrir como ajudá-la. Ainda que seu conhecimento sobre mulheres grávidas não o ajudasse nem um pouco.
E, quando estava prestes a se desesperar por se sentir inútil, ele viu. Ao longe, no céu, uma ave diferente. Um corvo. E corvos, naquela região em especial, não eram nada comuns. Muito menos um bom sinal.
– De onde esse bicho veio? – se perguntou, bem baixinho. Lucy o ouviu, mas ignorou plenamente. Cobriu-se mais com o colete dele, porque tremia de frio, assim como de medo.
A elfa balbuciava coisas inteligíveis, e isso preocupou o dragão verdadeiramente. Temeu que a loira enlouquecesse de vez, o tipo de insanidade que, quando vem, não há mais espaço para raciocinar. Toma posse de tudo.
– Lucy, por favor, eu preciso que você me escute. Está bem?
Ele, pela primeira vez, havia usado um tom realmente atencioso com ela. E, como consequência, Lucy parou o que estava fazendo para olhá-lo, mostrando que, em algum lugar dentro de si, ainda era capaz de pensar.
O que aliviou bastante o Dragneel.
– Tem certeza de que sangramentos são sinais de complicações?
Pode parecer insignificante para você, caro amigo, mas o uso da palavra “complicações” caiu como uma luva para ajudar a mulher. De repente, ela raciocinou melhor, e supôs que talvez estivesse exagerando.
– J-Já ouvi que não são um bom sinal… – ela respondeu, parando para pensar um pouco mais. – Aconteceu com uma amiga de longa data de meu pai, e, meses depois, tiveram de fazer um procedimento para retirar o bebê falecido antes do tempo normal.
– Mas você não tem barriga ainda, certo? Parece que está no começo da gravidez. Não acho que signifique qualquer coisa de muito ruim, Lucy. Pode apenas ser um sangramento, entende? – suspirou. – Sei que não sou tão útil no assunto, mas acho que está fazendo uma tempestade em copo d'água.
Ela o encarou em expectativa. Naquele momento, me orgulho em dizer que Natsu havia enfim agido como um verdadeiro líder. Dando esperanças aos mais desfocados, e dando a eles um motivo pelo qual continuar vivendo.
– Obrigada.
As palavras possuíam uma leveza bela de se escutar. As lágrimas ainda caiam, mas em menor quantidade, e a elfa tratou de enxugá-las bem rápido. Ainda estava abalada, mas bem menos enlouquecida.
E, observando isso, Natsu deu o primeiro passo. O primeiro na direção da Verdade, que cada vez mais se aproximava, feito as nuvens escuras de um dia chuvoso.
– Eu sei que não é a melhor hora para perguntar, mas, para ser sincero, não tô nem ai pra esse detalhe. Você… –
Ele não soube o que dizer. O que deveria perguntar, afinal? Haviam muitas perguntas a serem feitas, e ele queria a resposta de todas elas, simples assim.
A elfa notou isso, mas o assunto não deixava de ser complicado para si. Não sabia como contar aquela história sem que soasse constrangedora.
– Há quanto tempo?
Observem que, de todas as perguntas possíveis, ele escolheu a pior. Como de costume dos homens, quando sob pressão.
– Semanas. – Lucy respondeu, olhando na direção de seu vestido, não muito afastado de si. Natsu entendeu o recado, e logo virou-se de costas, enquanto ela despia-se.
Quando ele virou-se de novo, ela já estava vestida, e devolvia seu colete, agora bastante úmido.
– É casada?
Dessa vez, sentiu-se um perfeito idiota. O tom fora levemente irritado, e pensou ter soado altamente patético. Ora, não era para menos. O que menos queria era que ela se atrevesse a pensar que ele estaria com… bem, aquela palavra com “c”.
– Não.
Natsu abaixou o olhar. Essa era uma resposta ruim, e ele sabia disso. Poderia significar muitas coisas. E, acima disso, muitos impedimentos.
– Ele está morto? Digo, o pai da criança.
– Quem sabe. Talvez, não sei ao certo.
O dragão arregalou os olhos. Não entendia porque, mas, naquele momento, achou a informação totalmente alarmante. Afinal, se Lucy não era casada com o tal cara, e muito menos sabia do paradeiro dele, isso só podia significar algo muito ruim.
– Quem é o pai?
– Não faço a mínima ideia.
Ele recuou um passo, assustado. Lucy fechou os olhos com força durante alguns instantes, abrindo-os em seguida. Ela não queria que ele pensasse mal dela, realmente não queria, então teria de se explicar de uma vez.
– Natsu, eu –
– Não, você não me deve explicações. — ele garantiu, olhando-a nos olhos, com um novo tipo de olhar. O tipo de olhar que lançamos a desconhecidos. E, afirmo, Lucy detestou com todas as suas forças recebê-lo.
– Não se trata de dever explicações! Eu apenas quero te dizer, está bem?! Então, por favor, antes de pensar qualquer idiotice, me escute. Não foi um caso de taberna, se é o que está pensando, e muito menos uma cerimônia oficial. Eu fui obrigada a deitar com ele, Natsu! E, na verdade, no final foi tudo um grande golpe.
– Não precisa me contar essas coisas, Lucy.
O rosado estava desolado. Por motivo algum em especial, ou ao menos era o que pensava, sentia-se como se houvesse descoberto uma traição. Não só uma traição, como também a pior traição de sua vida.
– Não, eu preciso sim! Fui forçada a participar de um ritual religioso num vilarejo na fronteira do Império com essa maldita floresta! Era uma cerimônia arranjada, uma espécie de caçada, mas tudo deu errado! Eu não sei como dizer isso, mas –
Ela não chegou a terminar a frase. Notou a expressão de horror que o dragão fazia, e a insegurança a abateu como nunca. Pensou que ele estivesse com nojo dela. Com nojo do tipo de coisa pelo qual ela passara. E ele teria toda razão do mundo de estar assim, se não fosse por um detalhe.
Natsu levou as duas mãos ao topo da cabeça, piscando diversas vezes. Seu coração batia descompassado, e ele sentia que o órgão seria capaz de voar através de sua boca.
“Não, não é possível!”
– Natsu, eu sinto muito!
Ele ergueu o olhar, e a expressão no rosto dele partiu o coração da loira em milhões de pedacinhos. Pelo motivo errado.
– Não, Lucy. Eu é que sinto.
As lágrimas voltaram a escorrer pelo rosto da Heartfilia.
– Deve estar com nojo de mim … e eu não o repreendo por isso. Também estaria! E estou! Todos os dias eu penso nisso, e em como minha vida teria sido se tivesse evitado –
– É de mim que eu tenho nojo, Lucy! – ele GRITOU furioso, assustando-a. A loira recuou alguns passos, caindo no chão desajeitada. Sentia-se imensamente menor perante ele, e isso dava medo.
– N-Natsu?
Ela não reconheceu o rosado naquele homem à sua frente. Mais uma vez os chifres revelavam-se, junto a algumas escamas aleatórias espalhadas pela pele branca. Os olhos de um vermelho sangue.
– Igneel sempre me disse isso. — “Você algum dia vai se arrepender de seus atos, Natsu. E ai, quando isso acontecer, eu quero ver que decisões vai tomar para corrigi-los.” Ele respirou fundo, encarando-a no fundo dos olhos agora. Tinha de tomar coragem, e sabia disso, pois precisava de uma confirmação. – Era Sting Eucliffe o cara com quem ia se deitar?
A elfa gelou.
– Como – uma pausa bem grande. Ela piscou os olhos, confusa, sem fazer a mínima ideia do que estava acontecendo. – sabe disso, Natsu?
O dragão não tinha mais escolha. Não poderia esconder uma informação daquelas. Ele nutria um sentimento conturbado por Lucy, e enganá-la só pioraria sua situação.
Tinha de ser firme e direto, e ele seria.
– Não há outra forma de dizer isso. Você já sabe que não foi Sting o cara daquela noite… e eu também sei. Porque estava lá. Eu sou o Gamo Rei daquela cerimônia.
Seria uma mentira dizer que ela não compreendeu de imediato. Lucy compreendeu, sim, mas negou-se a acreditar durante curtos segundos. Digo, ele era o sequestrador desconhecido dela, não é mesmo? Era improvável que, de uma hora para outra, se tornasse seu amante de uma única noite.
O impostor que destruíra sua vida.
E, agora, ela se via de frente para ele. Convivendo com ele durante dias e mais dias. E gostando disso cada vez mais.
Era inaceitável.
– Mas – ele engoliu em seco, sem fazer ideia do que deveria ser dito. Do que poderia ser dito, melhor dizendo, porque, naquelas circunstâncias, seria sábio nem se quer abrir a boca. – Eu juro que tive motivos. Eu precisava me vingar do Império e … e –
Um tapa.
Pouco, não acham?
Foi por isso que começou com um tapa.
Lucy Heartfilia estava furiosa. Cerrava os punhos com um ódio novo, e mordia o interior da boca com tanta voracidade que sentia o gosto de ferro invadi-la cada vez mais. O nojo irradiava de cada célula de seu corpo. Tinha nojo de si mesma, mas, acima disso, tinha nojo de Natsu.
De repente, um soco – cuja força fora surpreendentemente grande – estalou contra o nariz vulnerável de Natsu Dragneel, entortando-o por inteiro. O dragão estava tão inerte que cambaleou para trás, com a guarda baixa, fato que foi devidamente aproveitado pela elfa.
Ela avançou com outro soco no estômago, que fizera-o curvar-se para frente, os olhos arregalados e o vômito ameaçando deixar a boca.
– Sabe o que eu penso de você? – ela tascou as unhas no rosto do homem, fazendo-o rugir de dor tão alto, mais tão alto, que mesmo Happy, longe dali e inerte no sétimo sono, tivera de acordar. E, imagine a intensidade do arranhão, para que tenha atravessado tanto a camada de pele comum, quanto a de escamas.
– Que você é o pior herdeiro que a Liga poderia ter! Porque o tipo de pessoa que se motiva pelo próprio orgulho é de dar pena! – e ela CUSPIU bem no rosto de Natsu. O que era extremamente assustador para uma princesa. O cuspe parou a poucos centímetros do arranhão, que deixou uma marca que mais parecia uma fenda ensanguentada.
O Dragneel tocou o ferimento com a ponta dos dedos, com uma expressão indecifrável estampada em seu rosto. Entre a dor, e algo mais, que Lucy não se deu ao trabalho de tentar adivinhar a natureza.
E, você, que comparece a essa cena de fora, deve entender que ninguém melhor que Lucy Heartfilia para dizer aquelas palavras. A elfa que buscava “vingança”, não por seu orgulho, mas por seu povo. Temendo que sofressem nas mãos de uma bruxa cuja ambição não tinha tamanho.
Se pensou que Lucy havia terminado com sua sessão de golpes, sinto em dizer que está enganado. Ela finalizou-a com um grand finale espetacular; um chute diretamente nas partes baixas, que fizera meu filho cair de joelhos na terra, desarmado, com as mãos na virilha dolorida.
Oh, sem falar no urro de dor que ecoou por toda a Floresta Negra.
– Isso é pra ver se amasso essas bolas malditas e te amaldiçoo a uma vida medíocre e infértil, seu babaca!
E, assim, a princesa dos elfos deu as costas ao seu antigo sequestrador, sumindo em meio às árvores e mato. Porque, naquele momento, a única coisa que ela poderia fazer, seria pensar.
E chorar bastante.
[…]
O sol já começava a se pôr quando aconteceu.
Natsu estava desolado no próprio silêncio, sentado no que um dia fora um tronco forte, e agora não passava de uma madeira tombada repleta de líquen. Ele tinha em mãos o arco e flecha de sua ex refém, e dedilhava-o com uma ansiedade nova para si.
Uma ansiedade angustiante.
– Naaaatsu – Happy choramingou, usando o rabo para cutucar a panturrilha de seu dono. – Você tá estranho. Nem reclamou de fome ainda! E eu estou com muita! E você ainda não me disse onde conseguiu esses machucados, e onde está a Lu -
– Não pronuncie esse maldito nome! – o rosado ralhou, apertando o arco com força. – Não na minha frente!
– Lucy! – o gato gritou. Natsu ficou vermelho de raiva.
– O que foi que eu acabei de -
Então ele a viu. Caminhando em sua direção com o mesmo andar gracioso que parecia impedir que seus pés tocassem o chão. Os olhos inchados e vermelhos partiram uma parte de seu coração que ele nem sabia ainda estar ali.
O dragão quis ter o que dizer, mas, devido ao nervosismo, apenas pôs-se de pé num salto, segurando o arco e flecha com as mãos suadas. Engoliu em seco algumas vezes, sentindo-se um perfeito idiota. Nem ao menos sabia dizer se a estava odiando, ou desejando do fundo de sua alma o perdão dela.
Lucy se aproximou mais alguns passos, e estendeu a mão, num pedido mudo de que o Dragneel devolvesse sua arma. Afinal, ela só precisava daquilo para ir embora de vez.
– Eu… Você…
Era impressionante a capacidade dele de nunca saber o que dizer. Pelo menos não nos momentos mais precisos.
– Me dê meu arco. – ela ditou firme. Quase como se estivesse falando com um dos prisioneiros condenados a morte dos tribunais dos quais fazia parte, vez ou outra, em sua facção. Cordialidade em primeiro lugar, e nojo em segundo.
– Onde pretende ir? – ele questionou-a, tomando coragem.
– Não é da sua maldita conta! Me dê meu arco e vamos acabar logo com toda essa droga!
– Mas é claro que é da minha maldita conta! Porque, nesse momento, meu filho está -
– Retire o que disse! Ele não é seu filho! Ele é MEU filho, e apenas MEU!
Ela tomou o arco das mãos dele, e no exato momento em que fez isso, um novo som interrompeu a discussão totalmente. Não muito longe dali, algo entre um rugido e um urro se iniciou. Ficava mais alto a cada instante, mesclado ao barulho de asas batendo.
Natsu reconheceu imediatamente. Virou-se para Happy com os olhos arregalados.
– Saia daqui!
– M-Mas, Natsu!
– Agora! – ordenou impassível. – Esconda-se bem longe!
– O que foi? – Lucy perguntou, engolindo o orgulho por alguns instantes. Estava assustada demais com a situação, e tinha de enfrentar um problema de cada vez.
– Se eu te pedisse para levar ela, acha que conseguiria? – Natsu perguntou ao gato.
Lucy mal teve tempo de questionar antes que o rabo do exceed envolvesse sua cintura, tirando-a do chão. Suas pernas se debateram, e ela trocou um curto olhar com o Dragneel antes de subir cada vez mais.
Poucos segundos depois, finalmente entendeu.
Aproximando-se feito uma tempestade, os Dragões Gêmeos finalmente apareceram. E ela teria concordado plenamente em assisti-los matar Natsu Dragneel, se não fosse por um único detalhe.
Nas garras enormes de um deles havia uma pessoa cujo lugar no coração de Lucy jamais podera ser substituído.
Virgo.
A reação fora imediata. Se antes a Heartfilia se debatia, agora se remoía em protestos e movimentos bruscos, tentando loucamente descer ao chão.
– Happy, me coloque no chão! – ela berrou, chamando a atenção tanto dos dragões, quanto de Natsu, já com os chifres a amostra, e escamas começando a tomar posse de seu corpo. O Dragneel e ela trocaram um olhar rápido, mas foi suficiente para que o rosado notasse que algo estava muito errado.
E, notando que naquele momento, ele poderia ser sua única chance de salvar Virgo, Lucy esqueceu totalmente o contexto em que se encontravam, e praticamente suplicou:
–Salve a Virgo para mim, pela Deusa! Eu não posso perdê-la!
Natsu apenas sacudiu a cabeça, transformando-se totalmente.
E Lucy nunca se esqueceria do quão magnífico fora assistir a aquela metamorfose.
[…]
Fumaça era a parte mais visível da batalha que acontecia nos céus. O choque de corpos fazia um som semelhante ao de um trovão, quando unido com os rugidos das três criaturas. Haviam se passado poucos minutos apenas desde que Lucy e Happy haviam se afastado da luta. E isso não os deixava menos ansiosos.
Happy mantinha o canto dos olhos encharcados de lágrimas, e Lucy não estava muito melhor. Entretanto, por motivos diferentes.
Em seu interior, travava uma batalha coordenada por uma dúvida cruel: salvar Virgo e dar as costas ao exceed e seu maldito dono, ou ajudar o exceed e seu maldito dono, para, em seguida, salvar Virgo.
– Lucy … — o gato azul choramingou bem baixinho, num tom que somente crianças assustadas usavam. – Você não pode ajudar ele? Por favor.
O medo estampado naqueles olhinhos pretos fora suficiente para convencê-la. Fizera-a lembrar-se do dia em que perdera sua mãe, e do que seria de seu filho futuramente.
– Você tem de me ouvir, Happy. Vai me deixar o mais perto possível deles, e, logo em seguida, vai voltar pra cá, certo? – ele assentiu, e ela respirou fundo, tomando coragem. – Vamos!
Happy não tardou a envolvê-la pela cintura, abrindo as asas brancas e deixando o galho da enorme árvore. Ganharam altura rapidamente, e, mesmo estando distantes, conseguiam ver – e ouvir – perfeitamente a batalha entre dragões.
Lucy forçou um pouco a vista e, com seus olhos de elfo, enxergou bastante da situação tensa. Os dragões não estavam muito distantes das copas das árvores, o que, ao menos para ela, seria uma grande vantagem. Rajadas de chamas de diferentes cores coloriam o cenário medonho, e, mesmo no meio de tantas cinzas, ela conseguiu ver o momento em que Natsu foi atingido no peito por uma rajada mais intensa de chamas negras.
O dragão vermelho urrou de dor, e seu exceed tremeu o corpo todo no mesmo instante. Quase como um filhote que pressente quando os pais estão em perigo.
– Natsu! – o exceed choramingou, voando meio desnorteado. Lucy sentiu pena dele.
– Continue assim, Happy! Não perca o foco!
Piscando os olhos arregalados algumas vezes, o gato assumiu outra postura. E, enquanto se aproximavam do “campo de batalha”, as engrenagens giravam dentro da cabeça de Lucy Heartfilia. Tentava formular diversas estratégias que a ajudassem a segurar as pontas, ao menos com um único dragão.
Natsu já devia estar bem ferido, e seu maior problema provavelmente era a duplicidade dos inimigos. Separá-los seria como um presente. E, mesmo que um presente fosse a última coisa que Lucy pretendia dar a Natsu, ela teve certeza de que era o mais sensato a fazer. Além do mais, só poderia usar seu truque se estivessem em terra. Próximos das raízes das árvores.
Quanto já estavam bem próximos, ela ordenou bem alto para Happy:
– Você vai voar o mais alto que puder, e, quando eu contar até dois, vai me lançar na direção do dragão mais próximo, sem ser o Natsu, fui clara?!
– O quê?!
– Só obedeça! – ralhou, sem paciência alguma. Já estava com medo suficiente, e não precisava ouvir de mais ninguém, além de sua consciência, o quão insano era aquele maldito plano.
– Mas, Lucy, por que no dois?! Não seria no três?!
A elfa não acreditou. Três dragões lutavam ferozmente à sua frente, e o maldito gato azul estava preocupado com números. Tinha como ser mais sem noção?
– Porque não vou ter coragem de ir no três, droga!
Os Dragões Gêmeos haviam feito uma espécie de furacão, girando colados um no outro, em perfeita sincronia, e fizeram com que Natsu fosse ao chão num baque ensurdecedor. Lucy tapou as orelhas sensíveis, e uma dor aguda atingiu seu tímpano.
– Natsu!
Os dois dragões se separaram, e, ao ver a fumaça deixar as narinas do dragão branco, que Lucy deduziu – corretamente – ser Sting Eucliffe, a elfa teve certeza de que um único golpe seria aplicado como finalização.
Mas não tão cedo.
– Dois! – berrou ao preparar seu arco, armando-o com uma flecha. O gato não hesitou, lançando-a no ar na direção do dragão negro, cuja lenda rezava chamar-se Rogue Cheney. O corpo da elfa cambaleou em pleno ar diversas vezes, até atingir, certeiramente, a espinha dorsal do dragão.
Lucy pensou em atirar ali, ela realmente pensou, mas, no último instante, hesitou. Aquela criatura era membro de seu povo, desde que se entendia por gente. Não tinha motivos para matá-lo. Entretanto, naquele instante, era ele o inimigo.
E assim seria tratado.
Mirou na asa, soltando a flecha, que atravessou certeiramente as escamas firmes que mantinham o animal no ar. O dragão rugiu de dor, e virou o pescoço, na intenção de ver quem o atingira. E, enquanto ele fazia isso, ela se aproveitou para atirar na outra asa, fazendo-o perder totalmente o equilíbrio.
Precisava levá-los ao chão, de toda forma.
E ela conseguiu isso. Rogue Cheney, em sua forma dragonóide, não tardou a cair no chão feito uma fruta podre, perfeitamente esparramado. Rugia de dor devido as flechadas, que haviam atingido não só suas duas asas, como também os pontos mais dolorosos delas.
Um dos macetes que Lucy havia herdado de sua mãe, Layla. Sempre sabia onde atirar para doer mais, ou menos.
Fazendo um rolamento para o lado, a Heartfilia tocou o chão com a palma das mãos, proclamando palavras que mesmo o tempo já havia esquecido. Com os olhos fechados, mas ainda sendo capaz de enxergar, ela fez com que as raízes de cerca de três árvores da Floresta Negra envolvessem os membros do Dragão Gêmeo, que rugia descontrolado. As raízes eram fortes o bastante para segurá-lo por algum tempo. E, com a magia de Lucy em auxílio, poderiam durar cerca de minutos.
Desde que Natsu se pusesse de pé novamente.
Desnorteado com os ataques muito repentinos, Rogue rugiu na direção de seu parceiro, pedindo ajuda.
Felizmente, assim que Sting Eucliffe aproximou-se o suficiente para queimar a elfa viva, ele fora surpreendido pelo corpo gigantesco de Natsu sendo jogado contra o seu. Os dois rolaram longe, e uma nova batalha passou a ser travada.
Os caninos de Natsu, afiados como nunca, foram de encontro com o pescoço do Eucliffe, procurando uma veia ou qualquer coisa do tipo, capaz de matá-lo de vez. Infelizmente, a mordida fora dolorosa, mas não fatal, dando tempo ao dragão branco de revidar os golpes.
Mordidas, arranhões e cabeçadas eram trocados numa sequência que, caro amigo, seus olhos nem em sonhos seriam capazes de ver. Eles voavam para acima da copa das árvores, e logo em seguida retornavam, numa velocidade desumana.
Natsu notou as narinas de Sting expandindo-se, e se deu conta de onde aquela luta pararia. Seria uma disputa de chamas. E disso ele não tinha medo algum. Sabia que havia herdado meu fogo, e isso era a melhor vantagem que poderia ter. Dragões da primeira geração jamais poderiam ser derrotados nesse quesito.
A recíproca fora verdadeira. Ambos os peitos sobrenaturais dos rivais se encheram de ar, e chamas, para em seguida liberarem, através das bocas, rajadas cuja temperatura jamais poderia ser descrita.
– Natsu! – o berro assustado partira de Lucy. Ela arregalou os olhos, assistindo a batalha no ar temerosa.
Não fazia ideia de quanto tempo aguentaria segurar aquele maldito dragão no chão, já que o mesmo se debatia incansavelmente. Felizmente, ela tivera a brilhante ideia de amarrar-lhe a boca com as raízes firmes, impedindo-o de incendiá-la, ao menos temporariamente.
Acima deles, com o que restou de seu bendito fôlego, Natsu finalizou a luta. Com outra estufada de tórax, conseguiu uma rajada mais intensa, que invadira a boca do dragão branco, fazendo-o cair para trás abatido. Tombando numa velocidade incrível, Sting Eucliffe abriu uma cratera ao atingir o solo.
Entretanto, ele ainda não estava morto.
Com uma troca de olhares significativa entre os gêmeos, uma nova estratégia, mais suja, fora revelada. O rabo livre e espinhosa do dragão branco moveu-se sorrateiramente na direção de uma das árvores.
E, quando viu o que ele planejava com aquilo, Lucy gritou de ódio.
Logo abaixo da zona onde a árvore atingiria ao cair, estava o corpo inerte de Virgo, repleto de hematomas.
Ela não pensou duas vezes. Soltando as raízes de vez, lançou-se na direção do corpo da criada, puxando-o com uma força surpreendente. Fora rápida o bastante para salvá-la da árvore.
Mas não do dragão negro, agora liberto. Abrindo a boca para liberar a rajada, Rogue Cheney mal notou quando seu rabo fora cruelmente mordido, ao ponto de jorrar sangue, pelos caninos de Natsu Dragneel.
No entanto, a rajada já havia sido liberada. Mas, como a movimentação anulou a direção calculada do ataque, a coisa acabou dando errado. Para os gêmeos. As chamas atingiram em cheio o corpo de Sting, que pouco pôde fazer se não proteger a si mesmo com as asas.
E aquela foi a segunda cena mais espetacular e terrível que Lucy assistiu ao longo de seu dia péssimo. As asas brancas do dragão simplesmente pulverizaram-se, desaparecendo ao passo em que se tornavam um punhado de cinzas.
Fora também uma das cenas mais tristes que ela já havia presenciado. Mesmo partida de quem teoricamente deveria ser considerado seu inimigo.
Chocada demais com a cena, e segurando o corpo de sua “parente” mais amada, ela não fez nada além de assistir Natsu finalizar com o outro dragão.
[...]
Quando o Dragneel retornou a sua forma humana, respirava com uma dificuldade agonizante. Em seu abdômen, uma espécie de buraco havia sido formado, de onde o sangue parecia praticamente espirrar.
Lucy observou-o caminhar com imensa dificuldade na direção dos dois corpos, agora metade humanos, dos Dragões Gêmeos, deitados lado a lado, aparentemente mortos.
Aparentemente.
Natsu tocou o pulso de ambos, verificando que ainda estavam vivos. E, lançando um olhar significativo na direção de Lucy, que o encarava aflita, ele entendeu o que tinha de fazer.
– Vão viver. – disse em voz alta. A elfa suspirou aliviada.
Ainda assim, ele sentia-se compromissado consigo mesmo. Por isso, esticou a mão na direção do cifre a amostra de Sting, envolvendo-o com firmeza, para em seguida arrancá-lo num único puxão.
Lucy escondeu o rosto nas próprias mãos, impedindo que o rosado visse seu sofrimento. Mas não o impediu. E nem o poderia. O Código dos Dragões deixava bem claro o que deveria ser feito caso você matasse um.
Arrancar-lhe os chifres como prêmio.
E assim Natsu fez, com ambos os gêmeos, pegando um exemplar de cada um.
Preto e branco.
– Lelya imi sérë. (Fiquem em paz) – ela pronunciou, baixo, porém alto o bastante para que a Deusa a ouvisse.
[...]
– Natsu! – o gato azul, Happy, que havia finalmente retornado ao local, recebera o rosado com o maior e mais forte abraço que o dragão poderia receber naquele momento. Mesmo partido de um alguém tão pequeno.
–Oe, Happy! — o dragão retribuiu o abraço, igualmente aliviado com o reencontro. Entretanto, algo ainda o incomodava. Por isso, depois de alguns segundos, passou a girar o corpo dolorido, para visualizar melhor a área com seus olhos cansados.
Encontrou a Heartfilia não muito longe de si, abraçada à mulher desconhecida que tivera de se arriscar para salvar mais cedo.
Suspirou pesadamente. Seu inferno parecia não ter fim.
– Happy, sabe onde está a bolsa?
– Aham.
– Então a traga aqui pra mim.
– Certo!
Assim que o exceed retornou, Natsu caminhou trôpego na direção da elfa e de sua criada, trazendo consigo a bolsa de couro atravessada nos ombros. Agachou-se a pouco menos de meio metro de ambas, e retirou de um dos compartimentos o compacto potinho contendo a espécie de pomada. Antes havia sido utilizada nos ferimentos de Lucy, quando essa usava as algemas, e agora seria igualmente útil.
De uma composição gosmenta e aparência não muito melhor, a erva pastosa fizera com que a xadagana, Virgo, torcesse o nariz.
– Ela também é analgésica. — o rosado afirmou, fazendo com que a elfa olhasse-o diretamente. Virgo observava-os atentamente. – Sei que não vai querer que eu ajude, então pode usar você mesma. Desde que não esfregue, apenas espalhe pela região ferida.
Ele estendeu o pote, e Lucy analisou minunciosamente a mão do rapaz, agora ensaguentada.
A elfa não o respondeu com palavras, apenas pegando o pote cuidadosamente, tentando evitar a todo custo o toque de suas mãos. Queria ficar o mais longe possível do Dragneel, e ele notou isso.
Por um momento, Natsu sentiu-se furioso. Perguntava-se como uma pessoa conseguia ser tão ingrata, levando em conta que ele havia salvado a maldita amiguinha dela, por puro capricho da loira. Isso sem falar que salvara aquela elfa idiota de brinde! Por acaso não era suficiente?
A resposta era não. E ele sabia disso.Por isso contentou-se em bufar frustrado, afastando-se em silêncio.
Virgo observou-o ir em choque, abrindo a boca para dizer algo, e sendo logo impedida pela mais jovem:
– Não diga nada até que eu conte a história toda.
– Eu não ia contestá-la, Alteza. Só estranhei um rapaz com um rombo na barriga ceder um pote de pomada analgésica com tanta facilidade. Na verdade, estranho o fato dele se quer conseguir andar.
– Ele estava quase caindo. – Lucy rolou os olhos.
– E ainda assim veio aqui.
A elfa engoliu em seco. Bem, de certa forma, era verdade. Mas isso não revogava todos os outros erros dele. Que, cá entre nós, haviam sido muitos.
– Não me deixe confusa, Virgo! Você nem ao menos o conhece!
– Seria bom se contasse a história logo, prince-
– Shh! – a loira fez um sinal de silêncio com o indicador, olhando em volta. – Eles não podem nem sonhar que sou quem sou, Virgo. Aqui sou Lucy Greenleaf, uma elfa como qualquer outra.
E então, Lucy Heartfilia – digo, Greenleaf – contou sua história.
[...]
Natsu gemia de dor ao tentar alcançar as próprias costas com um pedaço de pano úmido, provindo de seu colete cujo tecido definitivamente não era liso. Havia umedecido-o apenas, e agora tentava limpar o ferimento, sem obter êxito.
Arrastou o tecido sem querer numa região bem ferida, e acabou por grunhir de dor. Não podia nem ao menos se curvar, e a bunda doía de tanto ficar sentado naquele maldito tronco caído.
Mesmo que estivesse ali a apenas uma hora. Talvez menos.
– Natsu.
O Dragneel ignorou completamente o chamado. Na verdade, se quer ouviu-o. Estava ocupado demais resmungando sobre a maldita dor.
– Natsu – dessa vez, o tom fora menos paciente, e mais alto, atraindo finalmente a atenção do dragão. Ele ergueu os olhos, encontrando Lucy à sua frente, com os braços cruzados rente ao busto.
Não sabia o que dizer, e também não teve oportunidade de pensar, pois ela foi direto ao ponto:
– Quer ajuda?
Seus olhos deviam ter brilhado incondicionalmente, pois a expressão antes endurecida da elfa logo suavizou-se. Ela tomou o pano das mãos dele, arrancando um novo da saia branca de seu vestido. Pegou o cantil colocado na grama, e derramou grande parte de seu conteúdo diretamente nas feridas do rapaz.
Natsu grunhiu novamente, dessa vez bem mais alto.
– Fique quieto! – ela ordenou, rindo baixinho ao vê-lo contorcer-se de dor. Um pouco cruel, admito. Como toda mulher.
– Não entendi a graça. – o rosado comentou emburrado. Lucy diminuiu o sorriso gradativamente, respirando fundo.
O Dragneel estranhou o silêncio, mas, mais uma vez, não teve tempo de dizer nada.
– Me desculpe. Fui mal educada ainda agora, quando veio ajudar Virgo. Agradeço por tê-la salvo, de toda forma. Foi muito importante pra mim.
Algo no tom, ou talvez na própria voz da Heartfilia, contribuiu para a formação daquele sorriso orgulhoso no canto da boca de Natsu. Ainda que bem ferido, digo, bem ferido mesmo – se levar em conta o rombo na barriga –, ele sentiu-se melhor, ao menos em seu interior.
– Eu sinto muito, por tudo. Mesmo que não pareça, eu não sou tão… egoísta quanto está pensando! – ele trincou os dentes ao sentir o pano passar por seus ferimentos, limpando-os. – Sei que ainda sou o mesmo idiota de sempre, mas … eu não sabia, Lucy. Se quer pensei no que –
– Se quer me explicar os motivos que te levaram a fazer o que fez, Natsu, então desista de uma vez por todas. Nunca vou entender a capacidade de alguns de se motivarem por princípios tão fúteis. Entretanto, eu sou capaz de aceitar suas desculpas. E até de perdoá-lo, como estou tentando, de verdade, fazer agora.
Ele engoliu em seco. Ela não o entenderia se não contasse toda a sua história. E isso teria de ficar para depois. Por hora, o perdão era bem mais que suficiente.
Ainda assim, não entendia o porquê.
– Oe, Lucy … posso fazer uma pergunta?
– Hn.
– Não é que eu não queira isso, espero que fique claro. Mas por que está tentando me perdoar afinal?
A elfa não respondeu de imediato. Terminou de limpar o ferimento, e passou a espalhar a pomada natural pelos machucados, enquanto pensava numa resposta plausível. Assim que a encontrou, ela disse:
– Percebi que de todos os homens que poderiam estar no lugar de Sting naquela noite, você, atualmente, era o único que eu realmente desejaria que estivesse. E você estava. E mesmo que por linhas tortas, e motivos fúteis, reverteu um destino cruel para o Império, e principalmente para mim. Esse meu filho teria ido para uma maldita bruxa, usuária de magia negra. E você impediu isso, Natsu, mesmo que não intencionalmente.
Aquela fora a primeira vez, em semanas, na qual o rosado fora capaz de sonhar. Também a primeira vez, em meses, que as bochechas de Natsu coraram de novo, mesmo que não houvesse recebido um elogio, propriamente dito.
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