Fairy Tale
4 Capítulo 4
Notas iniciais

Você pode detestar uma floresta por vários motivos: muitos insetos, pouco conforto, calor insuportável de dia, e frio intenso de noite. Pode até detestá-la pelo simples motivo de ser uma floresta, se não for um apreciador nato da natureza.
Entretanto, quando se tratava da Floresta Negra, mesmo os amantes do ar livre se sentiam desconfortáveis. Era um lugar terrível, onde apenas os mais corajosos se atreviam a penetrar. E estes mesmos corajosos eram os únicos capazes de compreender os segredos que aquelas árvores guardavam.
Natsu era um desses corajosos. Desde criança, sempre me obrigava a levá-lo até lá ao nascer do sol — e, infelizmente, ao menos para mim, o horário fazia parte do ritual-. Ele gostava do perigo, e gostava ainda mais de desafiá-lo. Quando chegou na casa dos dez, não mais me pedia para levá-lo. Ele simplesmente ia, e voltava somente ao anoitecer, sempre com mapas improvisados na bolsa de couro atravessada. Natsu anotava cada detalhe, e cada nova descoberta. Até mesmo os problemas que tivera durante o percurso, que aumentavam conforme ele se atrevia a ir mais longe na mata.
Certo, devem estar pensando que sou o pior pai do mundo. Quem em sã consciência deixaria o filho único vagar por uma floresta maldita, não é mesmo? Mas eu sabia como era a sensação de liberdade para um dragão. Era ainda mais instintiva e natural. E tirar isso dele não era uma opção.
O fato é que não é de Natsu que devo falar nesse momento. Ele era um amante do ar livre, um amante de aventuras, e um legítimo herói em ação. Mas Lucy Heartfilia não o era. Criada num berço que custava cerca de treze casas de lenhadores, ela definitivamente não estava acostumada com: uma corrente prendendo seus pulsos; a fome fazendo com que sua barriga puxasse o vazio com força; a sede fazendo-a lamber os lábios ressecados; e, por último, mas não menos importante, um gato azul voador chamando-a de estranha, apelido dado pelo dono do gato, vulgo seu sequestrador.
Haviam descido uma trilha feita de pedras bem íngreme, e ela mal se aguentava nos próprios pés. Agora, sem trilha alguma para guiá-los, estavam apenas no meio de um amontoado de árvores de todos os tamanhos. A luz do sol já os abandonava, e a noite se aproximava cada vez mais.
Puxando o ar com força, Lucy tomou coragem para parar sua caminhada, pela primeira vez naquele dia.
A corrente que a prendia se afastou ao máximo, até que o comprimento acabou, e Natsu notou que o outro lado do objeto parecia estar imóvel. Lançou um olhar frio por cima dos ombros — o ombro que não era ocupado pelo gato, que mais parecia um papagaio de pirata naquele momento -.
–Posso saber por que parou? — ele questionou, num tom ignorante. A loira mais uma vez teve de reunir a coragem dentro de si para dizer:
–Estou cansada.
Seu sequestrador virou-se, e olhou o céu, analisando qualquer coisa que não interessava nem um pouco à princesa.
–Já vai anoitecer. Temos que andar o máximo que pudermos enquanto ainda é dia.
–Não, você não entendeu bem. Eu disse que estou cansada mesmo.
–Eu entendi. — o outro garantiu, rolando os olhos. — Apenas não dou a mínima pra isso. Agora bote esse rabo pra andar logo!
Ouvir uma frase nesse tom imperativo, em união com a palavra "rabo" fora demais para a elfa. Seu orgulho ainda estava vivo, e ela podia senti-lo borbulhar em puro ódio. Trincou os dentes e cerrou os punhos, puxando os pulsos com violência em direção à si mesma, mesmo sabendo que doeria — e doeu -, fazendo com que o rosado fosse puxado brutalmente em sua direção.
–O meu rabo vai ficar bem aqui, e se quiser que eu me movimente, vai ter que me carregar nas costas, ouviu bem? Não me trate feito uma cadela, porque não sou uma. — seus olhos amendoados faiscaram com a adrenalina do discurso.
Natsu até abriu a boca para retrucar, mas, por mais incrível que parecesse, ele não tinha argumento algum para usar em retorno. Felizmente, ou não, ele fora salvo pelo ronco estrondoso de seu próprio estômago.
O rosado deu de ombros, apalpando a própria barriga.
–Parece que temos prioridades... — comentou, tentando desconversar. Lucy deixou um risinho seco escapar, revirando seus olhos. -Fiz alguma piada por acaso?
–De forma alguma. — ela negou com a cabeça, ironicamente. -O senhor tem toda razão. É que lembrei de algo engraçado. Envolvendo um sequestrador orgulhoso e seu gato voador metido a papagaio de pirata.
–Para a sua informação, loira, — Natsu ergueu o animal na altura do rosto dela, bem próximo. Tanto que ela pôde sentir que o bicho não tomava banho há dias. — isso é um exceed, e, assim como eu, ele também tem nome. Happy. E eu sou Natsu, não "senhor".
–Em primeiro lugar, não consigo chamar meu sequestrador pelo nome dele. Em segundo lugar, assim como vocês, eu também tenho nome. É Lucy, lembra? E em terceiro, não temos esses gatos estranhos no Império.
–Exceeds, você quis dizer. E claro que não os têm lá. Vocês não têm a mínima noção de bondade. Como poderiam cuidar de um animal tão raro quanto esse? Os espíritos jamais permitiriam uma idiotice dessas.
A princesa piscou os olhos curiosa, tratando de ignorar a parte ofensiva.
–Espíritos? — questionou-o, esboçando mais interesse do que deveria. Natsu notou, e desconfiou um pouco. Por um momento, não a achou tão ignorante quanto o inimigo normalmente parecia.
–Espíritos ancestrais — esclareceu, apontando para a montanha, uma das poucas coisas que mesmo as copas mais altas das árvores não ocultavam. Dá para se ter uma noção mínima do quão enorme a pedra coberta de gelo era. -Eles cuidam da ordem das coisas na natureza. Fazem as transformações. Dia vira noite; primavera vira verão.
–Oh, sua religião — Lucy observou, assentindo interessada. -Ouvi falar que a praticam na montanha, quando a aurora toca o chão.
–É a dança das luzes pelo céu. — disse o rosado, engolindo em seco em seguida. -Mas não é da sua conta.
A facilidade com a qual Natsu acabava com os climas agradáveis era notável aos olhos da loira. Achou-o rude, mas preferiu não insistir. Já havia reparado no gênio forte e irritante do mais velho, e em como perseverança de nada adiantaria.
Vendo por esse ângulo, ela teve certeza de que o outro jamais a deixaria concretizar seus objetivos, se não acontecesse uma mudança drástica no rumo das coisas. Ela teria de fazê-lo confiar nela. O que, se tratando daquele garoto, era uma tarefa difícil.
Teria de agir mais do que falar.
–Natsu, eu estou com fome! — o gato azul resmungou, mais parecendo um choramingo. -Quero peixe!
–Vou arranjar alguma coisa para comermos. Mas antes é melhor montar acampamento.
E com "montar acampamento", ele queria dizer puxar a loira com força pela corrente, prensando-a na árvore mais próxima e forte com violência. Lucy engoliu em seco, surpresa, e debateu-se, imaginando por que demônios aquele idiota estava fazendo aquilo consigo.
–Vai ficar aqui quietinha. — ditou Natsu, soltando a corrente que, em fração de segundos, enrolou-se magicamente ao redor da árvore, prendendo a princesa ali.
–Vai me deixar aqui sozinha?! — a loira arregalou os olhos, puxando os pulsos doloridos. -Essa floresta é amaldiçoada!
–O único inimigo de quem deve ter medo sou eu, Lacy.
–Será que pode parar de me chamar assim?!
–Não.
E virou-se com a ignorância habitual, deixando a pobre princesa ali, acorrentada numa árvore com calafrios só de pensar que estaria sozinha naquela floresta assim que a noite caísse.
[...]
A noite realmente caiu, mais cedo do que ambos os jovens esperavam. Natsu estava apunhalando o segundo coelho, depois de uma corrida frenética de quinze minutos seguidos e insuportáveis.
Não, ele não queria aquele coelho insignificante. Porque mesmo que houvesse caçado dois, da mesma família aliás, não faria a menor diferença. Continuava sendo uma refeição digna de pena para um dragão.
Segurou o bicho pelas orelhas brancas longas. Respirou fundo, tocando a testa do animal com os olhos fechados, em sinal de respeito, para em seguida apunhalá-lo no peito, onde esperava que estivesse o coração.
–Natsu, eu não goxxxto de coelhos! — o exceed azul se queixou, choramingando.
Natsu suspirou alto.
–Muito menos eu. Mas você mesmo disse que eu não podia me transformar em dragão para caçar!
–Porque você comentou antes que não achava bom a prisioneira saber que era um. — Happy argumentou, pousando na cabeça do dono. -Mas mudei de ideia! Queime um lago inteiro e me traga os peixes já fritos!
–Não, vamos levar esses dois coelhos e pronto. Já está de bom tamanho.
–Um pra cada um?! — o gato arregalou os olhos, incrédulo. -A gente devoraria cinco!
–Eu não tenho paciência pra matar esses bichos! Não sou rápido o bastante nessa forma idiota, e não temos armadilhas! Mas que merda!
–É, já vi que vamos passar fome hoje, Natsu! Que grande herdeiro é você, hãm. Gray iria querer ver isso.
–Nem tente apelar, Happy. Não vou pescar pra você.
–Não acha que se a prisioneira te visse como dragão não facilitaria as coisas?! — o gato gesticulou para enfatizar seu apelo. A comida era sua prioridade, definitivamente. Ainda mais quando se tratava de frutos do mar. -Ela ficaria ainda mais assustada!
–É, mas não é ela o maior problema. Tem algo nos seguindo, posso sentir. Ainda não sei o quê, porque não pretendo me transformar. Mas se aproxima rápido. Por isso queria continuar andando.
–Então vamos logo comer isso! Minha barriga tá doendo muito!
–Pra variar.
Não muito longe dali, uma certa elfa tremia de medo. É claro que, se perguntassem à ela diretamente, a garota afirmaria com sua vida que se tratava do frio apenas. Seu orgulho não era nada comparado ao de Natsu, afirmo, mas ela ainda o tinha.
Por isso, quando seu sequestrador e seu gato azul — cujo nome da espécie ela não fazia questão alguma de decorar, mesmo que nunca houvesse de fato não sabido- Lucy tensionou os músculos, implorando à Deusa que impedisse-a de tremer.
–Bem-vindos de volta — ela disse, com ironia explícita. Happy voou para próximo dela, encolhendo-se contra a árvore.
–Está frio, Natsu!
–Eu sei — o rosado concordou, aparecendo em meio aos arbustos. Mantinha atravessada no ombro uma vara, com dois coelhos pendurados já mortos.
A Heartfilia arregalou os olhos estupefata. Aquilo só podia ser brincadeira. Ela, princesa dos Elfos, filha do Rei dos Elfos, comeria carne de coelho?!
Ao notar a expressão indignada de sua refém, Natsu sorriu verdadeiramente. Nada o divertia mais que o sofrimento de seus inimigos. Mesmo que compartilhasse do mesmo sofrimento, já que detestava carne de coelho.
–Poderíamos acender uma fogueira. — a loira sugeriu, como quem não quer nada. O gato olhou-a desconfiado, para em seguida comentar:
–Tive uma grande ideia! Poderíamos acender uma fogueira!
–Acabei de sugerir isso! — Lucy retrucou impaciente. Aquele gato estava fazendo-a de idiota por acaso?
–Não ouvi — ele murmurou, fazendo-a ruborizar de raiva. Se quando era criança ansiava por um gatinho, agora agradecia mentalmente à seu pai por nunca tê-la presenteado com um.
–Com "poderíamos", vocês querem dizer eu, não é? — Natsu suspirou cansado.
Lucy deu de ombros.
–Se me libertasse, não demoraria muito.
–Ah, mas eu duvido muito! — ele riu cético. -Você cheira a nobre, elfa.
–Acenderia em um minuto apenas — ela afirmou, num tom desafiador. Natsu notou, mas, após ponderar um pouco — e notem que usei a palavra "ponderar" na mesma frase que Natsu pela primeira vez desde o inicio da história — decidiu ignorar o desafio.
–Fique ai onde está. É mais vantajoso.
Lucy ficou sozinha com o gato, já que seu sequestrador iria buscar lenha. E, apesar de não gostar nem um pouco do garoto, sentia-se melhor com ele do que com seu fiel escudeiro doméstico.
–Você é estranha — o gato reafirmou, pela quinta vez naquele dia. A loira ia ignorar, ela realmente iria. Mas não o fez.
–E você também!
–Você tem orelhas estranhas! — ele ofendeu-a. A elfa bufou de raiva.
–E você tem uma cabeça desproporcional ao corpo!
–E você anda engraçado!
–Você é o que afinal?! Um gato ou um pássaro?! Nem uma espécie definida você tem, bicho estúpido!
Se a expressão do gato antes era de zombaria, ela transformou-se em cerca de milésimos. Um bico fofo — na opinião de todos, menos de Lucy — e tristonho apareceu ali subitamente, fazendo-o parecer realmente ofendido.
–Você! — Natsu apontou com o indicador na direção de Lucy, partindo pra cima dela feito um furacão. A loira arregalou os olhos e chutou o ar, tentando desprender os pulsos da corrente. — Quem pensa que é pra falar assim com o Happy, sua infeliz?! — fechou as mãos ao redor do pescoço dela, apertando-o com uma força desnecessária. Lucy sentiu o ar faltar, e socou os braços dele, tentando afastá-lo.
–Nunca, jamais, diga algo desse tipo à ele, ouviu bem, elfa imunda?! Vou fazer questão de jogá-la na primeira fossa! Meu povo têm nojo de você, e de toda sua raça repugnante, que se acha muito superior!
Digamos que o mundo da princesa dos Elfos tenha parado naquele momento. E não a julguem por isso, eu imploro. Ela teve motivos corretíssimos para que isso ocorresse. Lucy fora insultada no fundo de sua alma. Na verdade, não só insultada. Algo nas palavras de seu sequestrador fez com que ela lembrasse do dia em que sua mãe decidiu apresentá-la de verdade ao povo.
A princesa achou que fosse algo semelhante a uma comitiva que se apresentaria no máximo na enorme varanda do palácio, para acenar ao povo. Entretanto, Layla Heartfilia sempre fora pensou mais alto que os outros seres. Ela acordou a filha antes do nascer do sol, e guiou-a em direção à cidade. Ambas vestidas com trajes considerados indigentes aos olhos da nobreza.
Visitaram o comércio quando os comerciantes ainda arrumavam suas mercadorias, cumprimentaram os sacerdotes antes que os sinos do Templo Élfico fossem tocados, e até mesmo ajudaram a cuidar dos doentes cujos sintomas eram mais leves. Afinal, Lucy ainda era uma criança, e sua imunidade não era das mais inabaláveis.
Que criatura incrível sua mãe fora. As tardes de ambas eram passadas treinando o arco, num momento de mãe e filha que jamais poderia ser apagado da memória de Lucy.
Aprendera coisas essenciais para evoluir não como princesa, e sim como espírito. E, de repente, tudo fora tomado de si com violência. Estava sem mãe, sem pai, sem seu título nobre, sem sua casa. Até mesmo sem seu precioso arco, herdado da matriarca.
Nada poderia ser mais terrível do que isso. Dessa forma, as lágrimas não tiveram de lutar muito para cair.
Eu disse cair? Perdoem-me, pois o termo certo é desabar.
Um soluço esganado saiu de sua garganta, que mais parecera um pranto desesperado, enquanto as cachoeiras de lágrimas formavam-se numa linha reta que atravessava sua bochecha.
Natsu arregalou os olhos, completamente atônito. A verdade era que ela realmente havia tido pena dela naquele momento. Infelizmente, para si pena era uma demonstração de fraqueza.
–Natsu... — Happy murmurou, assistindo a menina recolher-se na própria tristeza arrepiante.
Era uma cena comovente até mesmo para seus maiores inimigos, sem sombra de duvida. Eu garanto, se estivessem lá, teriam chorado, tal como choro interiormente toda vez que chego à essa parte da história.
O Dragneel não fazia ideia do que fazer. Pela primeira vez na vida perguntou-se sobre o que eu faria se estivesse em seu lugar, para terem uma noção de sua perplexidade. E, ainda desnorteado, ele caminhou na direção da loira, tocando a corrente de forma que a mesma abriu-se, libertando os pulsos marcados da elfa.
–Está doendo? — ele perguntou, sem saber ao certo o que deveria fazer. Se antes era um poço sem fundo de fúria, agora era de confusão. -Quer colocar água?
Lucy continuava soluçando incansavelmente. O típico choro agonizante que, quando começa, pouco pode ser feito para pará-lo. Abraçou suas próprias pernas, ignorando a dor dos pulsos machucados, e escondeu o rosto nos joelhos.
Os sons ainda eram audíveis mesmo a distância.
–Happpy, vamos acender o fogo — Natsu disse, engolindo em seco. -Fique aqui com ela enquanto faço o jantar...
Dessa vez, o gato obedeceu sem contestar. No fundo, sentia-se até mesmo culpado por ter magoado uma criatura que, agora, parecia tão frágil.
Afinal, mesmo que fosse uma legítima elfa, Lucy não deixava de ser uma garota. Jovem e inexperiente.
[...]
Lucy sentou-se no tronco velho próximo do fogo, como fora orientada pelo membro da Liga. Os dois coelhos giravam num espeto improvisado ao fogo, e o exceed os observava com uma careta desgostosa evidente.
O cheiro não era dos melhores.
Haviam montado uma fogueira no espaço mediano entre as árvores, onde o chão era coberto de folhas secas e uma grama mais baixa, se comparada ao mato que cobria grande parte do solo na floresta.
Natsu ainda olhava pelo canto dos olhos para sua prisioneira, hesitante. Com um medo evidente de que ela desaguasse em lágrimas de novo.
–Vai demorar muito? — Happy perguntou, ouvindo sua barriga normalmente estufada roncar.
–Quantas vezes vai me perguntar isso, Happy? — o rosado suspirou. -Tem que cozinhar totalmente.
Olhou de novo na direção da Heartfilia, que massageava os próprios pulsos visivelmente doloridos.
–Happy — Natsu o chamou, num tom comedido. O gato fitou-o com curiosidade. -Fique de olho na comida. Não deixe queimar.
–Por que? — o gato questionou desconfiado. O rosado levantou-se, afastando-se das chamas e caminhando na direção de suas coisas. Revirou a bolsa de couro, tirando de lá um kit improvisado de primeiros socorros.
Lucy estava distraída demais com os próprios pensamentos para notar que ele caminhava em sua direção. Só constatou a presença dele quando o mesmo já havia sentado-se ao seu lado no tronco velho e coberto de líquen verde musgo.
–Posso? — perguntou, apontando com o queixo na direção dos pulsos dela, envolvidos por uma marca vermelha forte. A pele havia irritado graças ao atrito com o aço da corrente.
A elfa recuou os pulsos alguns instantes, estudando a hipótese.
–Não vou jogar mijo ai não, loira! — Natsu rolou os olhos, com a delicadeza habitual. A loira arregalou os olhos, e o riso não se conteve ao deixar seus lábios secos. Ela nem sabia ao certo se aquilo havia sido uma piada, mas a situação parecia tão insana, que não lhe restara outra opção senão rir.
Ele observou os olhos dela fecharem-se, conforme a expressão divertida tomava posse do rosto pálido da garota. Era uma visão bela, tinha de admitir.
Pigarreou alto, chamando a atenção dela de novo:
–Posso?
Lucy assentiu sem muita determinação, erguendo os pulsos lentamente, e apoiando-os no colo do rosado, que tratou de examiná-los com habilidade.
Ele tateou a bolsa atrás do cantil de água, que depositou grande parte em cima das feridas, assistindo a Heartfilia morder os lábios de dor.
–Vai arder — garantiu, jogando um líquido desconhecido por cima, que fizera a garota saltar agoniada. -Fica parada, elfa!
–Eu estou parada! — ela devolveu impaciente, fazendo-o depositar ainda mais o líquido em sua pele. -Minha Deusa! — ela rosnou de dor.
–Fresca — Natsu rolou os olhos, mais uma vez, jogando mais água na ferida. -Não faça com que eu me arrependa de desperdiçar água com isso.
Os dois ficaram em silêncio, e Lucy observou-o mexer novamente na bolsa, retirando de lá um pote pequeno, contendo uma espécie de pasta verde e aparentemente grudenta.
O rosado colocou um pouco de água no conteúdo, enfiando três dedos no potinho e espalhando a "coisa" por cima das feridas, cuidadosamente. Tão cuidadosamente que Lucy chegou a desconfiar que fosse veneno pastoso.
–Posso fazer uma pergunta? — os dois perguntaram ao mesmo tempo, acredite ou não. Ambos engoliram em seco.
–Pode... — Lucy confirmou. O rosado não a olhou nos olhos, continuando concentrado no tratamento dos machucados. Espalhava com destreza a pasta pela pele irritada, coisa que já havia feito centenas de vezes antes.
–Você disse "minha Deusa" — ele recordou-a, tentando soar casual. -Como funciona essa religião?
–O Culto a Deusa. É a mulher que nos criou — ela respondeu sincera. Notou a careta engraçada que o outro fazia, e deduziu que houvesse sido rasa demais. -É como uma personificação da natureza, sabe. Ela cuida de nós, e com "nós" não digo apenas os seres de raciocínio. Os animais, as pedras, as nuvens. São todos nossos irmãos.
–Quanta hipocrisia — o Dragneel murmurou, mais para si mesmo que para a princesa. Ainda assim, ela ouviu e irritou-se.
–O que há de hipócrita numa religião?
–O problema não está na religião. Está em sua raça. Como podem acreditar em algo tão puro, se no fundo agem como se fossem a raça superior à todas as outras? Vocês se autointitulam Império, e não há nada mais hipócrita do que isso.
Você, leitor moralista, cujo ponto de vista é semelhante ao de meu filho, ao menos nessa situação, deve estar concordando com ele plenamente. E, de fato, era a realidade. No entanto, para Lucy a realidade era outra. Ela fora criada com base naqueles ideais, e por isso não se deixou levar pelo discurso democrata do mais velho:
–Os Xadaganos há anos tentam nos passar a perna e assumir o controle. Mesmo com todo seu potencial de governo, não conseguem se organizar politicamente nunca. Só sabem fabricar armas e servir aos outros. A natureza submissa não os permite ter pulso firme ao ponto de serem capazes de assumir o posto dos Elfos. Orcs são burros feito portas, e só enquadram-se em cenários de guerra explícita. Não se importam com o conceito de ordem, portanto, se no controle, pouco seria feito em nome de um "bem maior". Já os Elfos estão no comando há séculos. Somos organizados, e mesmo que não plenamente igualitários, ao menos tentamos fazer o máximo para atender os pedidos das castas mais baixas.
Natsu olhou-a com uma curiosidade nova. Achou-a curiosa por inteiro, por diversos motivos. O primeiro deles, fora a forma como ela discursara aquelas palavras. Parecia algo que fora instruída a vida toda para dizer, e era o típico discurso que exigia uma educação diferenciada.
Ele sabia disso porque tivera a mesma educação política, desde muito jovem.
Apenas pessoas importantes tinham aquele conhecimento bélico e estratégico. E, vindo de uma mulher, Natsu teve certeza de que aquela elfa não era uma qualquer.
O segundo motivo da curiosidade, fora a fé reproduzida naquelas palavras. Como ela podia achar aquele tipo de governo baseado na superioridade algo que prezava a ordem?
–Se fosse algo baseado em superioridade ou inferioridade de castas, certamente não seriam vocês os governantes, elfa. — o Dragneel garantiu, com um brilho ameaçador no olhar. -Os dragões seriam.
–Há! — a loira riu debochada, rolando os olhos imediatamente. -Só pode estar de brincadeira.
–Não estou. — garantiu, enfaixando os pulsos dela com uma força desnecessária, que a fizera morder os lábios de novo, evitando que choramingasse. -Eles governam a Liga, e todos sabem que, se não fosse pela opressão do seu povo no restante, muitos mais já teriam se juntado à nós!
–Os dragões acham que são os donos do mundo! Eles tomam vidas com uma facilidade gélida! — a loira ralhou, num tom alterado. Ela engoliu em seco em seguida, sacudindo a cabeça em negativa, e a luz exterior que ela normalmente irradiava de repente apagou-se. Natsu notou que o assunto era delicado, e, cansado demais para insistir, optou por ficar em silêncio.
Assim que terminou os curativos, Happy aproximou-se, avisando que os coelhos estavam cozidos o bastante.
–Obrigada. — Lucy agradeceu baixo. O rosado nem se quer olhou-a, caminhando em direção à fogueira e ajudando o gato a dividir a refeição.
Natsu e Happy devoravam o primeiro coelho e a metade superior do segundo com uma facilidade incrível. Haviam se recostado na árvore mais próxima, e comiam feito selvagens canibais, ao menos aos olhos inocentes de Lucy.
Entretanto, quem olhasse mais de perto, e com mais atenção, veria que a coisa não era bem assim. Na realidade, Natsu se controlava para não cuspir o mamífero o mais longe possível, jogando aquela carne horrível no primeiro valão.
Ele havia ficado com a parte do rabo, que tratou de retirar o mais rápido possível. Começou comendo a barriga e as partes distantes das patas — que já sabia terem um gosto horrível — e, ao chegar no bumbum do bicho, se deu conta de que vomitaria se engolisse mais um pedaço se quer.
Olhou na direção de seu mascote que já havia devorado todo o animal cozido — exceto pela cabeça -, e deitara-se em sua coxa, caindo no sono logo em seguida.
–Você não tem jeito... — o rosado riu sozinho, e só parou ao ouvir um ronco alto característico de barriga vazia. Observou a loira que agarrava-se ao próprio corpo, devido ao frio da noite.
Suspirando cansado, levantou-se devagar, indo em direção a metade do segundo coelho, que havia sido inicialmente reservada para o almoço do dia seguinte.
Assoviou alto, chamando a atenção da loira, que ergueu o rosto surpresa.
–Toma — lançou o espeto de coelho na direção da princesa, que agarrou-o com rapidez, dando a primeira mordida com um desespero que era novo para si.
Para a Heartfilia, fome era apenas apetite. Mas naquele momento não. A coisa se tratava, pela primeira vez, de necessidade.
Contudo, quando o primeiro pedaço fora engolido, ela finalmente prestara atenção no gosto e na textura daquela carne. Era dura, nojenta, e com um gosto terrivelmente ruim.
Natsu observou a expressão dela transformar-se em repulsa, e sorriu de canto sarcástico, sentando-se ao lado dela de novo, e mordendo um pedaço da bunda do coelho — que não tinha um gosto nem um pouco melhor-. Forçou seu orgulho ao máximo para ajudá-lo a conter o enjoo e manter a pose de "não possuo frescura alguma".
–Sabe, o gosto da comida fica sempre melhor quando realmente precisamos, não acha? — questionou-a, num tom repleto de segundas intenções evidentes. -Têm gente por ai que nunca soube como era passar fome. Incrível, não é?
–Ah é. — Lucy olhou para o espeto mais uma vez, mordendo um segundo pedaço, e quase cuspindo-o na fogueira, junto com o restante do bicho. -Incrível.
–Por que demora tanto a engolir? — Natsu perguntou, erguendo uma sobrancelha. Havia deboche em sua voz, Lucy finalmente notou. -Não gosta de coelho?
A resposta real era: "Não gosto de carne de segunda". Ambos tinham certeza e, mesmo que a Heartfilia não soubesse, Natsu compartilhava da mesma opinião.
Apenas era muito mesquinho para admitir.
–Fica melhor na parte da bunda — o rosado comentou sacana. Lucy Heartfilia levou os dentes para próximo do local indicado, e, assim que aproximou-se para abocanhar, o cheiro invadiu suas narinas sensíveis, e não conteve-se ao atirar o espeto inteiro no fogo.
O membro da Liga arregalou os olhos teatralmente.
–Mas o que-
–Isso é horrível. Fede e é a carne mais dura que já provei.
–Não tinha coisa melhor aqui perto, Senhorita Riqueza em pessoa! — ele levantou-se, fingindo uma indignação que nem se quer era real. No fundo, ele também teria queimado aquele coelho bem na primeira mordida. -Está sentindo falta de seus escravos trazendo a refeição?
–Eu poderia muito bem caçar outra coisa para comer, se não houvesse sido amarrada numa árvore! Você tomou meu arco, minha liberdade, e espera que eu coma esse... troço horrível?! Podia ao menos me obrigar a caçar sua refeição, se é tão esperto, e não correr atrás de um bicho tão não comestível.
–Eu estava pensando em te deixar sem correntes pra dormir, mas, quer saber, mudei de ideia.
–Mas e os curativos?! — Lucy engoliu em seco. Definitivamente não queria ser amarrada de novo.
–Você ainda tem os tornozelos, certo? Vai servir.
–Ora, seu -
–E se reclamar, ai sim jogo mijo nas suas feridas, ouviu bem? Não ache que somos amiguinhos ou algo do tipo, elfa. Ainda tenho nojo do seu cheiro, e ainda mais nojo da sua raça miserável.
–Não pense que não é recíproco, kaniano.
O Dragneel sorriu debochado após virar-se.
Ela achava mesmo que ele era um Kaniano?
Quanta ingenuidade.
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