Fairy Tale
3 Capítulo 3
Notas iniciais

Um dia após o retorno de Lucy para o Reino dos Elfos, uma sensação estranha a atingiu. Quase como se já soubesse que algo estava começando a dar errado. Como se mais alguma coisa pudesse dar errado em sua vida.
— Alteza, quer que eu prepare algo de comer? — Virgo perguntou, assistindo a princesa retirar o cobertor do rosto, apenas para olhá-la com a expressão exausta. As cortinas pesadas e escuras do quarto foram abertas com violência pela criada, que não se deu ao trabalho de pedir permissão.
— Só quero dormir, Virgo. E feche essas cortinas!
— Já dormiu por horas seguidas, princesa. — a mulher insistiu, preocupada. — Está passando mal?
— Não quero…— ela suspirou cansada — ter que ver aquela mulher mais uma vez. Muito menos vê-la com meu pai.
— Não quer vê-la, ou não quer ver ele…? —Virgo dançou as sobrancelhas sugestivamente. A Heartfilia olhou-a com as bochechas coradas. — Ora essa, Virgo — ela escondeu-se de novo debaixo das cobertas, e acrescentou num tom bem mais baixo: — Por que eu não quereria vê-lo?
— Porque está com vergonha. — disse a mulher, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Ainda não me contou dos detalhes, princesa. Seguiu minha sugestão?
—Virgo! — a elfa a repreendeu, ouvindo a risada baixa da outra em resposta. — Você vive no mundo da lua. Não vou te contar absolutamente nada!
— Você vai me punir, princesa?
— Não! — Lucy bufou. — Certo, talvez eu esteja com um pouco de fome. Acha que consigo comer sem ter que ver meu pai e a bruxa juntos?
— Suponho que isso seja algo difícil. Ainda mais ultimamente. Andam mais colados do que nunca. Se tivesse almoçado com eles, teria tido náuseas.
— O que ela disse dessa vez?
— Que estava com desejo.
— Ora, faça-me o favor! Quem aquela bruxa dos infernos pensa que engana?! — a princesa chutou as cobertas para longe, pondo-se de pé num salto. — Estou farta dessas mentiras! Se meu pai não enxergou ainda, eu vou fazê-lo -
— Vai fazê-lo enxergar, Lucy? -— Aquarius permanecia recostada no batente da porta; um olhar desafiador, e o nariz empinado como nunca. Entretanto, havia algo de diferente nela. Agora mantinha uma nova expressão, dessa vez de raiva. E isso assustou Lucy Heartfilia.
Principalmente quando a bruxa passou a correr em sua direção, lançando-se contra seu corpo, fazendo com que ambas tombassem contra o assoalho num baque alto. As duas rolaram pelo chão, e a elfa só não ficou em estado de choque, porque sua fúria contida finalmente liberou-se.
Eram chutes, socos e arranhões, até que Virgo não se aguentou. Puxou o cabelo da bruxa com uma força desnecessária, arrastando-a para longe de sua mestra.
— Sua puta desaforada! — Aquarius pronunciou palavras estranhas, que fizeram os olhos da empregada encherem-se de um tom negro arrepiante. O corpo dela ergueu-se no ar, sem vida, e a princesa gritou desesperada pelo pai, que logo chegou ao quarto.
— Aquarius, já chega! — ele ordenou, confuso com a situação. A bruxa ergueu a mão e fez um movimento brusco, lançando o corpo da criada na parede com força total.
Jude engoliu em seco, aproximando-se da amante irritado ao extremo. Não gostava de se sentir impotente. Nem um pouco.
— O que pensa que está fazendo? — questionou o Rei, com os dentes cerrados. A Bruxa do Mar olhou-o de maneira hostil.
— O que eu penso que estou fazendo?! Pergunte à sua filha! — ela apontou em direção à loira, que se agarrava ao corpo imóvel da criada, como se ali estivesse um membro de sua própria família. — Essa maldita teve a cerimônia com o homem errado!
Os olhos de pai e filha arregalaram-se. Lucy abriu a boca, mas som algum ousou sair.
— Você está dizendo que… — o Rei cerrou os punhos bruscamente, e os músculos de Lucy tensionaram-se. Teria até tremido de medo do homem, se não estivesse tão chocada quanto ele. — Como pode ser possível?! Me diga!
A bruxa riu seco.
— Sting foi encontrado vagando pela floresta arrasado. Eram hematomas por todo o seu corpo, nu. Acordou esta tarde depois de receber os primeiros socorros e, quando fui questioná-lo sobre o que havia acontecido, ele contou que membros da Liga o atacaram e prenderam numa árvore. Numa maldita árvore! Aquele imbecil caiu feito um pato na armadilha deles!
As palavras tiveram seu peso imediatamente. Lágrimas não se importaram em deixar os olhos da princesa dos elfos, que apenas abaixou a cabeça, derrotada. Derrotada, foi o que eu disse? Não, o termo certo seria violada.
— Então… — Jude buscou as palavras, e não encontrou-as. Estava completamente furioso. E digo "furioso", para não ser informal ao ponto de enfatizar que, na verdade, ele se encontrava "puto". Tanto que não conteve-se ao olhar com puro nojo em direção à filha única.
— Ela deitou-se com o inimigo. — disse Aquarius, terminando a frase pelo Rei. O que só deixou-o ainda mais possesso.
— Isso não vai ficar assim! — ele ralhou entre dentes. — Ordeno que tropas de busca invadam aquela floresta e queimem tudo! Tudo!
— Não é uma floresta qualquer, Majestade — a Bruxa do Mar quase riu do homem, achando-o inteiramente patético. — Mas, se quer saber, o que realmente me preocupa é o depois. Sting não quer mais sua filha profana.
— Quem é você para falar do que é profano, Bruxa do Mar?! — Lucy conteve os soluços. — Foi um acidente! Sting sabe, e todos saberão!
— Não, ninguém pode saber disso! Teremos de comprar o silêncio de Sting e…— Jude massageou as têmporas. Muito complicada era a vida de uma ex virgem, então imagine uma ex virgem da realeza. Era um suicídio social que os elfos repudiariam até os confins de sua raça. — Não há o que fazer. Não poderá casar-se jamais.
— Isso será suspeito aos olhos dos outros, meu Rei — Aquarius aproximou-se do homem, envolvendo seus ombros lentamente, num movimento sensual e íntimo, que revirou o estômago da princesa. — Temo que não nos restem muitas opções. Posso tentar outros rituais. Não há problema quanto a isso. As únicas complicações são com relação à sua filha. Agora mesmo que não há chance alguma de se tornar herdeira de qualquer coisa.
E se as histórias afirmavam que apenas pessoas de bem achavam um lado bom mesmo nos piores tempos, elas estavam enganadas. O mal também tinha essa capacidade.
— Sinto muito, Majestade. Mas se eu estivesse em seu lugar, a exilaria. Para o próprio bem dela.
Lucy cerrou os punhos de imediato, sentindo-se subitamente meio bamba.
— Exílio? — o Rei repetiu, estreitando os olhos. — Não posso enviar essa garota para qualquer lugar.
O "essa garota" foi certamente a parte que doeu mais aos ouvidos sensíveis da loira mais nova.
— Não é qualquer lugar. Um vilarejo protegido no interior, quem sabe. — Aquarius sugeriu, forçando o tom casual, enquanto massageava os ombros do elfo com força. — Sinto em dizer que não poderá continuar vivendo normalmente depois -
— Querem saber, eu já estou cansada disso! Cansada de nunca me consultarem! — a princesa teve de morder com força o interior da bochecha para conter o choro. Não poderia deixar mais lágrimas caírem, nem os soluços taparem-lhe a garganta. Precisava ser forte. Como sua mãe teria sido. — Eu não vou para lugar algum! Já que por hora não haverá mais herdeiros, então voltamos ao começo, não é verdade? Eu peço uma segunda chance apenas. Irei até a Liga e trarei a vingança até aqui, papai, dou minha palavra.
Jude olhou-a de cima, erguendo uma sobrancelha. O atrevimento lhe era irritante, mas a coragem, não. Fazia-o lembrar-se de sua esposa, e do que o atraíra nela.
— E que vingança seria essa, Lucy? — questionou-a, sem um pingo de esperança no tom de voz.
— Eu prometo que vou montar num dragão de lá, e trazê-lo para o nosso lado, custe-me o que custar.
Ambos os adultos riram instantaneamente. Não o tipo de risada divertida, devem ter deduzido. Nem mesmo o mais bem-humorado dos seres riria abertamente naquele momento. Ainda assim, a risada seca fora sincera. A proposta parecera completamente insana, e Jude Heartfilia chegou a cogitar que sua filha houvesse enlouquecido de vez.
— Ah, você, que mal sabe usar uma espada, vai me trazer um dragão da Liga?! — caçoou o Rei, rolando os olhos em seguida.
— Quer saber, a proposta não é de todo recusável. — Aquarius comentou. Lucy sabia que o sarcasmo estava presente. No entanto, se conseguisse fazer a bruxa morder a própria língua, tudo se tornaria ainda mais incentivador. — Um dragão da Liga não é uma proposta recusável. Mas seria pouco.
A princesa engoliu em seco. Pouco?! Trazer um dragão da Liga para territórios do Império?!
— Vamos melhorar isso, Alteza. — Aquarius sorriu debochada. Se possivelmente haviam segundas intenções por trás da fala de antes, agora estava tudo claro como água. — E que tal se fosse não só um dragão, como também o dragão herdeiro da Liga? Sabe, olho por olho, dente por dente. Eles retiraram a herdeira do nosso Rei, e você vai retirar o deles.
Fora um golpe forte em Lucy. Ela jamais conseguiria montar no filho do Chefe da Liga, e todos os presentes naquele quarto sabiam bem disso. Era uma verdade absoluta.
Talvez exatamente por isso Jude tenha concordado com tanta facilidade.
Minutos depois, a princesa se retirou do quarto, levando a criada para a ala médica do palácio. Tão atordoada com todos os acontecimentos, só havia se esquecido de um pequeno detalhe. Entretanto, o Rei não. E muito menos a bruxa.
— Se você não concretizou o ritual negro… — o homem deixou as palavras pairarem pela atmosfera tensa. Respirou fundo antes de continuar, num tom mais sombrio. — Então quer dizer que as Fogueiras de Beltrane fizeram seu papel, não é?
— Sim. A velha magia branca decidiu interferir diretamente, Majestade. Coisas assim não acontecem por acaso. Essa criança, essa união, está interligado. A antiga religião é forte, e vive até hoje na Liga. Esse herdeiro não pode nascer, Majestade. Ele é fruto de uma relação maldita.
— Aquela criança estúpida! — Jude trincou os dentes. — Mesmo quando faz o que mando, consegue arranjar um jeito de acabar com tudo!
— Um bom Rei sabe quando tem que fazer seus sacrifícios — a mulher proferiu, encarando o elfo misteriosamente. Suas orbes assumiam uma nova coloração forte, cuja cor púrpura representava um poder forte ilusório. — Um Rei não permite fraquezas em sua família. A criança deve morrer. E Lucy também, não é?
— Sim, Aquarius. Devem morrer.
[…]
Dois dias se passaram até que Lucy Heartfilia estivesse finalmente na estrada. Ela não avisara ao Rei que iria embora, é claro, e nem mesmo sua criada estava ciente da fuga noturna. Mas tudo fora previamente planejado. Afinal, a elfa não era idiota. Ela sabia que corria risco de vida. E não era preciso pensar muito para deduzir isso.
Entretanto, estava realmente disposta a realizar sua vingança. Que, na realidade, nem era tão vingativa assim. Ela apenas queria honrar de novo seu nome. Diferente de certas pessoas.
Com o arco e uma aljava de flechas nas costas, vestiu seu vestido favorito para a viagem. Branco e de bordados talentosamente feitos, não era longo como os outros, e lhe proporcionava uma leveza perfeita para corridas. Suprimentos suficientes para apenas três dias, e água para menos que isso. Sabia que a Floresta Negra guardava tais atributos, mesmo que tivesse de procurar bastante até ser capaz de achá-los. E, como esperado, um mapa.
Nada de cavalo ou guardas. Elfos não gostavam muito de montar em animais sem que houvesse necessidade. Além disso, teria chamado mais atenção do que gostaria se montasse em Deneb, seu unicórnio.
Sim, um unicórnio branco, como o dos contos de fadas legítimos. Criaturas maravilhosas e raras, como reza a lenda. Infelizmente, não muito domesticáveis. Mas Lucy tinha um talento natural para fazer com que até mesmo os mais selvagens se curvassem perante si. Coisa que descobriria mais tarde.
Mas ela não estava exatamente sozinha. Junto a ela, escondida em meio às árvores, sua criada a acompanhava. Ainda ferida devido ao episódio com a bruxa, teve de manter-se longe de sua mestra.
Virgo.
Depois de meia hora, Lucy finalmente notou a presença. Estava sendo seguida, e agora já reconhecia o odor bem o bastante para deduzir por quem.
— Eu sei que está aí. Saia já!
A criada assim fez, revelando sua forma esguia. Aproximou-se da estrada ainda escura, onde a princesa estava parada a observando.
— Eu sinto muito, Alteza. Ia visitá-la em seus aposentos hoje, e então a vi fugindo. Não podia deixar que fizesse isso.
— Não vai me impedir de ir, Virgo. Sabe disso! Eu vou ser morta se ficar!
— E se for também, princesa. Aqui posso defendê-la.
— Não, você não pode. Viu o que ela fez com aquela maldita magia negra?! Aquela mulher está manipulando meu pai, e não vou deixá-la assumir o comando dessa forma baixa!
— O trono é seu por direito, Alteza. E já sei que não sou capaz de convencê-la a retornar. Tal como sua mãe, você pisa firme quando quer alguma coisa.
Lucy sorriu, sacudindo a cabeça em negativa. Era verdade. Seu pai sempre lhe dizia isso. —Então o que veio fazer aqui, Virgo?
— Precisa saber de uma coisa, princesa. Diferente do que pensa, não irá sozinha nessa viagem. Há mais alguém conosco aqui.
A princesa ergueu as sobrancelhas, desconfiada. Por um instante achou que o feitiço de Aquarius houvesse sequelado sua criada.
— Hm?
— A cerimônia deu errado, certo?
— Sim, ao que parece…
— Nem mesmo a pior das feiticeiras engana a boa e velha magia branca, Alteza. Você está esperando o novo Gamo Rei.
[…]
Sei que estão ansiosos para o que virá em seguida, e não os culpo por isso. Afinal, se trata de uma descoberta emocionante, onde a protagonista se descobre grávida de um desconhecido, e se atira de cabeça numa última esperança, determinada a se tornar a Rainha que seu povo precisa. Mas, sinto em dizer que terão de esperar, pois, diferente do que imaginam, aqui uma parte essencial se inicia na história.
Afinal de contas, os vilões sempre merecem um destaque extra.
— Eu tenho um trabalho para vocês.
O loiro sentado na cadeira de prata ergueu os olhos da mesa à sua frente, repleta de moedas e joias. Olhou a mulher com uma irritação evidente, revelando olheiras e cortes espalhados pelo rosto pálido.
— Não me diga. É o segundo num curto período de tempo. E, sabe, o primeiro me deu um problema desnecessário, como ficou sabendo. Tô fora das suas ordens, madame. Trabalho por dinheiro, e você não faz valer a pena nem uma montanha de ouro.
— Que eu saiba, vocês são uma dupla — a mulher comentou, apontando para a cadeira ocultada pela escuridão, próxima à do dragão loiro. Aparentemente vazia, na verdade revelava uma figura ameaçadora e jovem, cujos poucos anos foram suficientes para oferecer a experiência necessária.
— Eu trato dos negócios, e ele executa-os. — Sting foi curto. Não estava no clima de jogos, e muito menos de conversa jogada fora. Queria se ver longe daquela mulher o quanto antes.
— Me parece meio sem graça. — a Bruxa do Mar riu sozinha, puxando de dentro do decote um frasco esquisito, cujo líquido era de um púrpura forte. Balançou-o de um lado para o outro, provocantemente, tendo seus movimentos assistidos pelos dois homens. — Sabem o que é isso, rapazes?
— Mandinga — a voz rouca se fez presente pela primeira vez. Sting não conteve a risada, servindo sua própria taça com vinho do porto. Adorava quando seu parceiro estava de bom humor.
— Palpite meio óbvio, ouso dizer. Não é apenas mandinga, senhor. É um elixir conhecido como Maçã Envenenada. Uma gota dele é suficiente para contaminar um lago inteiro.
— Imagino que a morte seja uma consequência — Rogue comentou, mais uma vez, para a surpresa de Sting.
— Palpite mais uma vez óbvio. E não menos verdadeiro.
— E quem você quer que seja envenenado?
— A princesa Lucy Heartfilia está viajando pela floresta. Quero que sigam-na e tenham certeza de que ela vai tomar um gole da felicidade eterna.
— Me pede para trepar com ela, e agora para matá-la? — o loiro riu seco. — Mudança drástica nos planos, não acha?
— Sabe o que eu acho? — a mulher voltou seus olhos frios ao dragão, ameaçadoramente. — Que você está me escondendo, por algum motivo, quem te deu aquela surra, só porque é orgulhoso demais pra admitir. Você pode se achar esperto, Euclife, mas eu sou mais. Já sei quem foi o puto que fodeu com ela no seu lugar, e sei porque se incomoda tanto. Sua rixa com Natsu Dragneel é antiga, não? Creio que não tenha compreendido porque justamente ele.
O silêncio se fez presente. Mais alto que o grito de uma criança que busca pela mãe. Mortífero, até. E nem Sting teve coragem de quebrá-lo. Estava incrédulo demais para isso.
— Para falar a verdade – uma vez na vida –, eu também não entendi. Só sei que ele é herdeiro da Liga, e ela do Império, e é o tipo da história que eu não quero que se concretize. O fruto de uma relação entre eles poderia significar o fim de uma guerra da qual não pretendemos perder. E declarar paz é quase tão vergonhoso quanto perder, não acham, rapazes? O fato é que é inegável que há algo maior entrelaçando esses acontecimentos. Mas, independentemente disso, quero que a mate, e faça isso logo. Ou vou espalhar para o Reino dos Elfos o que aconteceu naquele ritual, e será desgraçado por toda a sua vida idiota.
— Quanto vai me pagar?
— Ela vai pagar com o silêncio. — Rogue afirmou, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Seu amigo devia cuidar dos negócios, Sting. Alguém com seu intelecto reduzido é inútil no mundo real. Não pense que ter asas o coloca acima de alguém.
[…]
A Floresta Negra era conhecida por suas ilusões de ótica. Rumores afirmavam que fantasmas de índios moicanos vagavam por ali, e poucos se arriscavam a cruzar aqueles territórios sem estarem ao menos em grupo. Além disso, a mata era densa e fechada, tornando a movimentação mais difícil. Cavalos eram pouco úteis por ali.
Dessa forma, quando o primeiro grito ecoou em meio as árvores, Lucy Heartfilia pouco se importou. Estava com fome, sede, cansada, e há três dias numa floresta sem saber mais distinguir a realidade da insanidade. Sabia que as árvores se moviam por vontade própria, os pássaros não cantavam, e as copas eram tão altas e volumosas que mal enxergava estrelas, sol ou o que quer que estivesse acima de si.
— Happy!
Entretanto, quando o segundo grito fez-se presente, ela não pôde mais ignorá-lo. Sabia que não era apenas uma alucinação.
— Happy!
"Mas que demônios é Happy?!", ela perguntou-se aturdida. Tratou de pegar o arco e posicionar a primeira flecha no mesmo, caminhando a passos leves em meio aos arbustos espinhentos. Toda discrição era pouca.
— Happy!
Estava definitivamente mais perto. Mais do que deveria.
Lucy deu mais alguns passos, e, desviando de um tronco, teve a perfeita visão de um homem de cabelos cor-de-rosa empunhando um facão – e o detalhe importante sobre o utensílio, ao menos aos olhos da princesa, era que sua lâmina brilhava perigosamente-. Era o tipo de arma pertencente a Liga, já que seu povo utilizava apenas espadas e arcos nos combates.
Pensando nisso, tratou de mirar certeiramente na nuca do indivíduo, retirando apenas um dedo do elástico, enquanto posicionava o arco da melhor forma possível. A coluna perfeitamente ereta.
Não admitiria erros.
— Nem pense nisso! — a voz aguda e infantil viera de trás da loira, que antes de virar-se já havia sido erguida do chão, e mantinha os pés a metros de altura do mesmo.
Um grito assustado escapou de seus lábios e ela debateu-se, erguendo o rosto a tempo de ver um gato azul – repito, um gato azul – com asas – repito, com asas – segurando-a pelo rabo azul e felpudo – o que não é tão anormal, considerando que já se tratava de um gato voador azul-.
— Happy! — o rosado, parado ao chão com os braços cruzados, mantinha uma expressão ameaçadora no rosto. — Onde você estava? E onde arranjou essa coisa?
A parte da "coisa" soara altamente ofensiva aos ouvidos sensíveis da elfa. Quem ele pensava que era para tratá-la dessa forma?
— Mande esse seu gato idiota me pôr no chão! — Lucy ordenou, furiosa. Continuava se debatendo, mas parou assim que notou que o garoto olhava diretamente para o vão entre suas pernas. A situação lhe deixou vermelha feito um tomate, e tratou de fechar as pernas ao máximo, puxando o vestido para baixo. — Seu tarado! Me tire logo daqui!
— Natsu, ela é pesada! Não vou aguentar muito tempo! — o gato afirmou, choramingando. A loira ruborizou ainda mais. Um gato havia acabado de chamá-la de gorda?
— Deixa ela cair, que aparo na faca. — Natsu fez questão de sorrir debochado, e Lucy debateu-se de novo, pouco se importando para a visão privilegiada que o outro teria de seu corpo.
A princesa choramingava súplicas, e seu inimigo sorriu ainda mais, divertindo-se. Entretanto, assim que o cheiro da loira fora captado por seu nariz aguçado, um certo desconforto o atingiu.
Era uma elfa.
E, num pensamento estúpido e rápido, ele chegou a acreditar que pudesse ser a mesma elfa da cerimônia. As curvas e a coloração do cabelo o faziam acreditar que sim, mas estava bêbado demais para lembrar-se de todos os detalhes.
Sacudiu a cabeça em negativa, ignorando a ideia. Seria impossível.
— Happy, trás ela aqui. É um deles.
A expressão do gato transformou-se imediatamente. Seus olhos arregalaram-se, e ele logo soltou a garota, depois de descer um pouco.
Lucy rolou na grama, parando com as costas no chão, e o rosto direcionado para o desconhecido, que já segurava a lâmina na altura de seu pescoço. Natsu literalmente pisara no ombro da princesa, e sua expressão não era nada simpática naquele momento.
— Quem é você, e o que está fazendo no meu território?
Ela gelou. Então ele era mesmo um membro da Liga.
— Esse é um território neutro. — acabou apelando para a ironia, rolando os olhos em seguida, para enfatizar seu posicionamento descontraído. O que exigia um esforço imenso, já que estava prestes a ser degolada.
O outro estreitou os olhos.
— Isso é o que o Império diz. Mas a Liga é quem manda por essas bandas, guria.
— Guria?! — Lucy riu seco. — E você, "Senhor Maturidade"? Não creio que seja mais velho que eu.
— Já tenho dezoito anos.
— Dezessete.
Natsu escondeu o sorriso, mas não hesitou em provocá-la.
— Te perguntei alguma coisa?
— Ora, seu — ela rangeu os dentes. — Mas eu digo mesmo assim!
— Olha, eu adoraria continuar com a brincadeira, mas tenho prioridades. Você é uma elfa, e por isso não vai sair viva daqui.
Por alguma razão, a ameaça não soara nem um pouco convincente. Natsu era perfeitamente capaz de matá-la ali, sem sombra de dúvidas. Mas algo na garota o deixara intrigado. Principalmente o arco dela, que parecia tão familiar aos seus olhos.
Além daquela mesma impressão de já tê-la conhecido.
— E o que está esperando? — ela questionou-o, com um tom debochado tão sutil que quase não fora notado. Quase.
— Você responder quem é, e o que está fazendo aqui.
Então Lucy Heartfilia entendeu que, se queria sua vingança, aquela era sua melhor oportunidade. Se infiltrar na Liga seria a única forma de chegar ao menos próxima de seu alvo.
— Lucy Greenleaf. E… — engoliu em seco, olhando para os lados compulsivamente, como se estivesse com medo de ser escutada. — Eu fui exilada.
Colocar um pouco de verdade numa mentira é a chave para torná-la crível.
— Ah, você. Exilada. — o rosado não conteve o riso sarcástico. — Só falta me dizer que o crime foi bárbaro.
— Terrível. Te deixaria surpreso.
— Sério mesmo? — Natsu olhou-a cético. A princesa deu de ombros, assentindo. —Tente.
— Se te contasse, teria que te matar.
— Oh, eu não acho que esteja em posição de dizer algo desse tipo, Luigi.
— É Lucy!
— Que seja. — ele rolou os olhos. — Se é assim, a situação muda. Talvez você venha a ser útil. Happy!
— Aye! — o gato azul voou em direção a eles.
— Vamos levá-la como prisioneira. Fique de olho na elfa, Lacy.
— Lucy! — ela empurrou a perna dele de cima de si, e o rosado prensou-a com o pé ainda mais, divertindo-se. E por breves segundos, ela olhou-o de verdade pela primeira vez.
Eu preferiria não descrever a aparência de meu próprio filho como sendo "atraente", entretanto, creio que, se tratando de um filho meu, é quase impossível que isso seja ignorado. Natsu era bonito. Tinha um porte atlético – que pode até não ter puxado de mim, mas ao menos se espelhou em mim – e os mesmos olhos escuros que eu encarava nos espelhos. Éramos exóticos, e Lucy notou isso naquele momento.
Não me peçam para entrar em detalhes, porque não o farei. Posso apenas esclarecer que, sim, ela achou-o o rapaz mais belo que já havia visto.
— Nem pense em fugir — ele ameaçou, olhando-a com um ar superior. — Não vai viver pra chegar muito longe, então não me obrigue a perder tempo perseguindo-a.
Lucy ruborizou, dessa vez de raiva.
— Não fique se achando. — murmurou contrariada, enquanto o outro retirava o pé do ombro dela. Ergueu a mão para receber ajuda, o que não aconteceu. Natsu alternou o olhar da mão para o rosto da loira, achando aquilo absurdamente patético.
— Eu não vou te dar nada não, elfa — ele disse, erguendo uma sobrancelha. — Tá esperando escurecer?! Levanta logo dai!
— Acho que ela quer dinheiro, Natsu — o gato opinou, e Lucy levantou-se num salto.
— Eu não preciso de esmolas, gato idiota! Apenas achei que ele seria cavalheiro o bastante para me ajudar a levantar. E meu nome não é loira. É Lucy. Você é Natsu, não? — não importou-se em sorrir simpática. Muito menos Natsu.
— É. Natsu Dragneel. E se esperava um cavalheiro, elfa, é bom que saiba que suas expectativas passam longe da realidade. E vou logo ditando as regras. Eu e Happy comemos muito, então só o que restar irá pra você.
— Aye! — o gato riu de forma divertida, mas Lucy teve certeza de que soara um tanto maléfico.
— Nada de dormir! Não temos tempo para paradas! Ah, e nem pense em tomar banho. Ainda temos três dias de viagem até a tribo, e não posso nem pensar em parar! Apenas para comer, e quando for muito necessário. O que é de três em três horas, mas, enfim, trouxemos comida reserva.
— Mais alguma coisa, senhor? — a elfa rolou os olhos castanhos.
— Eu não suporto ironia. — ele respondeu curto, e de forma altamente sombria. — Muito menos deboche. Então, já que está em desvantagem, sugiro que nem pense em bancar a engraçada.
Lucy Heartfilia assentiu, e, diferente do que esperava, teve seus braços presos um no outro por uma corrente branca e fina, que, apesar de parecer frágil como uma joia, ao forçar o pulso, notou que tratava-se de um objeto mágico.
Natsu olhou-a cautelosamente, segurando a outra ponta da corrente, fazendo com que Lucy realmente parecesse um objeto pertencente a ele.
— O que… -
— Você é minha prisioneira, lembra? Isso aqui não é viagem de verão. Não perderia tempo tentando me soltar, se fosse você.
Assim, a jornada teve início. E, mesmo que não soubessem, ao longe, nas montanhas, as luzes se manifestaram. O destino traçava suas primeiras teias, que, em breve, se tornariam uma só.
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