Fairy Tails

1 "Arisa no País das Maravilhas"?


Solumbrava, e os lubriciosos touvos
Em vertigiros persondavam as verdentes;
Trisciturnos calavam-se os gaiolouvos
E os porverdidos estriguilavam fientes.

Sentada na pedra perto da árvore, olhava a metade branca da lua que brilhava branca como o sorriso de Cheshire. Como chegara ali...?

Fushigino Arisa era uma garota comum do primeiro ano do colegial, de cabelos violeta e olhos amarelos; com seu uniforme vermelho e preto e seu estilo gothloli. Gostava muito de anime, manga, coisas diferentes e de Alice no País das Maravilhas. Algumas pessoas a chamavam de Alice pela semelhança entre as duas que era... na verdade nenhuma, mas “Alice” e “Arisa” eram nomes que soavam parecido. E ela não se incomodava.

Ela morava sozinha pois não tinha pais nem mães. Na escola se dava bem com todo mundo, mas não tinha nenhum amigo. Quando terminasse o colégio pretendia sair viajando pelo mundo e ficar no lugar que lhe parecesse mais interessante. Jinnie, a gata de sua vizinha, gostava muito dela. Arisa vivia num tipo de dimensão paralela e achava que a realidade era relativa.

Certo dia, quando voltava da escola (um pouco mais tarde pois tivera de dar um fora num garoto que veio confessar seu amor por ela depois da aula, e depois enfrentar as garotas indignadas por ela ter rejeitado aquele por quem elas dariam tudo), depois de ter comprado o manga que lia agora, Arisa viu um mokona branco que pulava fazendo acrobacias no ar, e dizendo “Okuretyaku! Okuretyaku! Sugu Kaeranakyaikenaityaku!” o que obviamente significa “Estou atrasado! Estou atrasado! Preciso voltar logo!” mas o que a impressionou foi o fato de ele estar de olhos abertos, o que, como todos sabem, acontece muito raramente com os mokonas.

Então ela foi atrás dele, curiosa para saber para onde ele precisava voltar que estava com tanta pressa. Então veio uma luz, seguida de uma “queda” por um túnel cheio de cenas de mundos diferentes e então ela e o mokona apareceram numa salinha vazia exceto por uma mesinha, um frasco, uma caixinha e uma portinha do tamanho de um mokona, pela qual o mokona passou logo após anunciar “Wonderland ni totyaku!” o que obviamente significa “Chegamos ao País das Maravilhas!”. Mas é claro que Arisa não conseguiria passar pela portinha (pois, como todos já devem saber, mokonas são bem pequenos), portanto ela foi até a mesinha, pegou a chave (que guardou entre os seios pois essas coisas a gente precisa guardar num lugar seguro), pôs a caixinha no chão, abriu o frasco (cuja etiqueta dizia “beba-me” — mas só falaria se você perguntasse) e bebeu dele. Quando olhou, a porta estava de seu tamanho. Mas ao olhar em volta viu que tudo continuava igual, o que a fez chegar à conclusão de que fora a porta que aumentara, e não ela que diminuíra.

Pegou a chave e abriu a porta. Foi levada pelo mar até ser jogada no litoral, onde encontrou animais estranhos e aleatórios que dançavam em volta de uma fogueira para se secarem, e começou a fazer o mesmo. Mas quando percebeu que cada vez que a maré subia tudo voltava a ficar molhado (apesar de, é claro, a fogueira não se apagar), desistiu e saiu andando. “Com o tempo acaba secando!” pensou; quando mais andasse, mais rápido secaria.

Foi então que viu mais uma vez o mokona branco, e saiu seguindo-o. Foi dar numa floresta e então numa clareira, onde perdeu o mokona de vista. Procurava por ele em volta quando deu de cara com dois Twedlees (para quem não sabe o que é, eles são uma mistura de garoto magro e baixo com bola de praia e fazem barulho de buzina quando pressionados): Twedlee Dee e Twedlee Doo. Arisa parou, de olhos arregalados, enquanto via os dois lutarem: nenhum se machucava, mas cada vez que um acertava a parte bola de praia do outro eles buzinavam. E então desatou a rir a ponto de cair no chão, ao que os Twedlees perceberam sua presença.

- Ora mas quem é você? – perguntaram os dois ao mesmo tempo.

- Ah... hahaha... – Arisa fez seu máximo para parar de rir, levantar-se e tirar a sujeira da saia – Meu nome é Arisa, muito prazer – curvou-se levemente (como geralmente se faz no Japão).

- Ela disse que o nome dela era Arisa (FÉM) – disse Dee a seu irmão.

- Sim, ela disse; mas não era para ser Alice? (FÓM) – a cada fala um apertava a “bola” do outro, fazendo um barulho “FÉM-FÓM” muito esquisito, o que fez Arisa voltar a rir.

- Ora, rir dos outros é falta de educação, sabia? (FÉM-FÓM) – os dois olharam irados para Arisa.

- Ah... Ah hahaha... Ah... Ah... – parou de rir – Oh me desculpem, mas esse “FÉM-FÓM” é muito engraçado...

- Engraçado? Hmph!

- Ora me desculpem... Bem então eu vou indo... – virou-se e começou a andar.

- Vai pra onde? (FÉM-FÓM) – fecharam a passagem.

- Vou atrás do mokona.

- Por quê? (FÉM-FÓM)

- Quero saber para onde ele vai.

- Oooh, ela é curiosa... – os dois se entreolharam.

- E qual o problema?

- A curiosidade matou um gato... (FÉM)

- Oh, mas não aquele gato... (FÓM)

- E que gato é esse?

- Oh? (FÉM-FÓM) É o mestre gato, claro!

- Quem é mestre gato?

- Creio que ele gostaria dela! (FÉM)

- Oh sim, há tempos que não aparece por aqui uma menina bonita! (FÓM)

- Mas o que...?

- Agora temos que ir! (FÉM-FÓM) Boa sorte! – apertaram as duas mãos de Arisa e saíram buzinando floresta adentro até não dar mais para vê-los.

“Que carinhas estranhos...” pensou Arisa “’FÉM-FÓM’ Hahaha... Mas são muito engraçados! E quem será esse gato e por que ele gostaria de mim? Ah, só de pensar nisso a resposta não vai surgir, então de volta à caça ao mokona!” e como já estava seca passou logo pela floresta e seguiu por um caminho de pedrinhas roxas que deu numa casinha em forma de ovo com orelhas, a porta parecia uma boca, tinha uma janela redonda e vermelha no topo e mais duas pretas mais para baixo em forma de arcos; possuía enormes pés. Era em base um mokona gigante, com o que chegou à conclusão de que aquela casa pertencia provavelmente ao mokona que seguira.

Entrou na casa, pois estava curiosa para saber o que havia na casa de um mokona. Quando abriu a porta, viu o nada branco. Então a fechou e quando abriu de novo viu um monte de móveis brancos e vermelhos e alguns cor-de-rosa. Olhou a casa toda e encontrou uma caixinha de biscoitos nos quais se lia “coma-me” e Arisa comeu um. De repente cresceu tanto que quase não cabia na casa. Então o mokona entrou, ficou mekyo (olhos abertos) e saiu gritando “Bakemono! Bakemono!” o que, é claro, significa “Monstro! Monstro!” e então o lagarto voou e o Dodô resolveu queimar a casa. Pressentindo que seria queimada, Arisa comeu dos vegetais da horta do mokona (que eram feitos de marshmallow) e fugiu por debaixo da porta; correndo atrás do mokona que se distanciava.

Por causa de seu tamanho reduzido, logo perdeu o mokona de vista e acabou no meio de um monte de flores. Ora, não aquelas flores... Estou falando daquelas senhoritas de vestidos chiques e colares de diamante que adoram esnobar qualquer um que não seja como elas. Virou-se para fugir, mas antes que pudesse dar sequer um passo...

- Ora, ora... O que é que temos aqui... – uma das flores já a havia notado.

Com este comentário, é claro, todas as flores viram Arisa, o que obviamente é algo muito ruim.

- Isso aí é uma garota?

- Oh, não! Se bem que lembra um pouco...

- Mas veja o cabelo dela! É roxo e tão ridículo... Será de verdade?

- Não pode ser... Deve ser uma peruca...

- E essas roupas? São mesmo roupas?

- Parecem restos de renda e tecidos...

- E esses olhos amarelos... Parece um gato!

A esse comentário Arisa teve a impressão de ver um sorriso que causou um forte impacto sobre ela; precisava ir até lá e descobrir a quem pertencia... Mas sabia que para isso teria de livrar-se das flores.

- Escutem aqui, suas idiotas! – todas se calaram – Vocês não têm nada a ver com isso! Eu deixo meu cabelo como quiser (a cor é natural), me visto como achar melhor e gosto muito dos meus olhos! Agora me deixem em paz! – e saiu andando, sem nem olhar as flores estupefatas.

Esqueceu-se do mokona e de todo o resto, o que importava era encontrar o dono daquele sorriso que de tal forma a atraíra. Mas esqueceu o que procurava assim que avistou, deitada sobre um cogumelo, uma mulher de longos cabelos negros e olhos vermelhos, que vestia um kimono de borboletas e fumava um comprido cachimbo. Imediatamente seus pés, sem nenhum comando prévio de seu cérebro, moveram-se para perto dela. Parou a olhá-la fumar.

- Olá. Quem é você? – a mulher percebera a presença de Arisa.

- Eu? Bem, meu nome é Arisa.

- E o que está fazendo parada aí?

- Ora, eu mesma não sei... Estava procurando alguma coisa depois de ter perdido o de vista mokona branco e me livrado das flores lá atrás...

- Flores? Oh, aquelas garotinhas são realmente irritantes, não?

- Realmente... Mas acredito que todas as flores sejam assim mesmo...

- E são. – fez uma pausa para fumar – Continue o que estava dizendo.

- Oh, sim... Bem, sei que o que procurava era importante, mas não me lembro mais o que era exatamente... Sei que quando vi você meus pés se moveram sozinhos e aqui estou!

- Então você deve ter um desejo. Eu sou uma fada que concede desejos mediante pagamento. Se veio ate mim é porque tem um desejo.

- Como disse, meus pés se moveram sozinhos...

- Nada é por acaso, tudo faz parte do inevitável. E então? Qual seu desejo?

- Hm... Acho que no momento eu gostaria de voltar a meu tamanho original.

- Está certo. O preço é esta chave aí.

Arisa entregou a chave à mulher, que a fez voltar a seu tamanho original. Quando olhou o cogumelo outra vez na intenção de agradecer, a fada não estava mais lá.

Continuou então a andar, pois quem anda chega sempre a algum lugar. E o lugar onde ela chegou foi um daqueles caminhos de pedrinhas roxas, bem no ponto em que ele dava de cara (se é que caminhos têm cara) com uma enorme árvore onde estavam pregadas várias placas que diziam coisas como “por ali”, “é lá” e “siga por aquele ali”, mas só desatariam a falar se alguém chegasse perto o bastante, o que felizmente Arisa não fez. Procurava decidir por onde seguir quando aquilo começou.

“’Twas brillig, and the slithy toves

Did gyre and gimble in the wable:

All mimsy were the borogoves,

And the mome raths outgrabe.”

A canção vinha de não se sabe onde, mas Arisa tinha a impressão de já ter ouvido algo assim antes, e a voz que a cantava fazia despertar em seu coração um incrível fascínio, e lembrava algo como lua, sorriso, rosa, roxo, gato e cruz. Cruz? Não, nada a ver... É mais para xadrez, acho. Quando olhou entre os galhos da arvore, encontrou aquele sorriso que vira quando estava entre as flores. O impacto foi o mesmo, mas dessa vez pôde ver o dono do sorriso, que era um gato preto de olhos amarelos. Mesmo sendo amante de coisas diferentes e tendo visto muita coisa que poucas pessoas viram, tinha de admitir que nunca vira um gato sorrir. Ele parou de cantar.

- Olá. Quem é você? – perguntou.

- Eu sou Arisa. Fushigino Arisa. Muito prazer!

- Imagino. – então ele saltou da árvore para aterrissar ao lado dela. Mas já não era um gato, mas um garoto mais ou menos da idade de Arisa, muito bonito, e tinha orelhas e uma cauda de gato – Há muito tempo não aparecia alguém de lá por aqui...

- Está falando de Alice?

- Alice? É, acho que esse era o nome... Você a conhece?

- Não pessoalmente, mas li o livro e vi os filmes... Aliás, por que o que eu vejo não tem nada a ver com o que ela escreveu?

- Bom, algum tempo passou e ela era só uma inglesinha de sete anos... Esse mundo se mostra diferente dependendo de quem o vê.

- Quer dizer que é mesmo um sonho?

- Sonho? Oh não, não dia uma coisa dessas! Mas não que sonho e realidade sejam coisas assim tão diferentes... Pessoas sem criatividade sonham com a realidade, sabe?

- Oh, claro...

- Parece... Que meu tempo está acabando. – a ponta de sua cauda começava a sumir.

- Oh, que pena! Mas para onde vou agora?

- Para onde quiser... A “lebre” fica para lá... e o chapeleiro para lá... – apontou as direções – Foi muito bom conhecê-la! – beijou-a (é, assim mesmo) – Sou o gato de Cheshire, se precisar – e desapareceu.

Arisa ficou alguns segundos parada em choque, até processar que havia sido beijada por um gato (nos dois sentidos), que fora maravilhoso q que precisava escolher um caminho. Resolveu ir até a “lebre”.

O lugar onde chegou era muito diferente do que pensara: uma enorme casa em estilo japonês em cuja entrada havia uma placa escrito “LARG” (ela não falava). A porta estava aberta, deixando ver um rapaz com vários chapéus, uma menina vestida ao estilo lolita e um mokona preto que brindava com o chapeleiro (porque menininhas não devem beber saquê) cantando algo como “Um bom desaniversário para ti, para mim e para nós”. A menina tomava chá e também cantava. Arisa foi até lá.

- É uma garota puuu! – gritou o mokona preto de pedra azul quando a viu.

- Garota? – o chapeleiro olhou – Veja só, é mesmo! Há quanto tempo não recebemos visita!

- Garota? – a menina olhou – Uma garooota! Yay! – pegou então Arisa pelo braço e a fez sentar-se à mesa. ¹

- O q...? Quem são vocês?

- Eu sou o mokona preto, meu nome é Larg puuu! Mas me chamam também de “lebre” puuu!

- Eu sou o que chamam de “o chapeleiro maluco”, mas meu nome é Watanuki!

- E eu aqui sou a Yuki, do ano do rato!

- E o que estão fazendo?

- Celebrando nosso desaniversário puuu!

- Desaniversário?

- É! O ano tem... 365 dias, sabe? E só um deles é seu aniversário... E só se celebra um dia e é meio chato, não? – começou o chapeleiro.

- Oh, sim...

- Então para compensar nós comemoramos os desaniversários!

- Isso. Eles são os outros 364 dias que não são seu aniversário, sabe?

- Oh, que maravilindo!

- Não é? Não é?

- E hoje é desaniversário de vocês três?

- É isso aí puuu!

- Ora mas que coincidência, é o meu também!

- Feliz desaniversário para você! – disseram os três, e começavam a cantar a música quando...

- Esperem! – todos pararam – Por que esse mokona fala outras línguas que não japonês?

- Ora, é porque é um mokona preto!

- Exato... E mokonas pretos, sendo mokonas de comunicação, têm de falar várias línguas.

- E os mokonas brancos?

- Mokonas brancos servem para transporte. Por isso só falam japonês, apesar de qualquer um conseguir entendê-los.

- Pu puuu! Você encontrou Soel?

- Soel?

- O mokona branco!

- Na verdade foi por causa dele que eu vim parar aqui...

- Então ela veio de lá!

- Oh, ela é uma garota de lá! Devemos brindar a essa ocasião!

- Brindar puuu!

- Mas terá que ser com chá!

- Chá, puuu!

- Por que com chá?

- Porque garotinhas não devem beber saquê!

- Sim, sim, são as regras... Vamos para a outra sala! – e os três levaram Arisa à sala ao lado, onde estava posta uma mesa de chá.

Na mesa havia chás e geléias e manteiga e torradas e bolos e doces e todo o resto. Eles iam começar a cantar quando começou: “Okuretyaku! Okuretyaku! Sugu Kaeranakyaikenaityaku!”, ao que o chapeleiro abriu a porta.

- Soel puuu!

- Larg! Hisashiburi da na! – “Larg, quanto tempo!”

E os dois mokonas começaram a conversar, e Arisa achou melhor is embora. Levantou-se.

- Aonde vai? – perguntou a menina.

- Não sei, acho que vou atrás do gato...

A menina paralisou e os outros taparam a boca de Arisa. A menina começou a tremer.

- Ga... ga... ga... ga-ga... Ga-ga-ga-ga... – parou — GAAAAAAATO! – e começou a correr, em pânico, gritando “GATO! GATO! GATO!”.

- Calma Yuki! Calma, ele não vai aparecer agora puuu!

- Watanuki! Are wo shite puuu! – “Watanuki! Faça aquilo puuu!”

- Então o chapeleiro abraçou a menina e, numa nuvem de fumaça cor-de-roxa, ele estava abraçando um ratinho histérico que esperneava e gritava “GATO! GATO! GATO!” com a voz da menina.

- O... O que foi isso?

- Você fez a Yun-Yun entrar em pânico puuu!

- Como?

- Você falou nele...

- Oh, perdão! Mas qual o problema?

- É que ele tentou comê-la, sabe...

- Oh... – enquanto Arisa imaginava qual seria o sentido de “comer” naquela frase, o chapeleiro deu mel à menina-rata, que dormiu.

Visto o pânico que causara, Arisa resolveu ir embora seguindo o mokona branco que se retirava por estar atrasado. E ela mais uma vez o seguiu até perder de vista, e então estava perdida no meio da floresta. Mas esta era diferente da outra, talvez por estar escuro (já era noite). Vários bichos estranhos (como óculos-pássaros e sapos-pratos) povoavam a floresta, eram bastante amigáveis.

Após vagar um pouco sem rumo pela floresta, Arisa achou melhor procurar um caminho para seguir. Encontrou alguns daqueles caminhos de pedrinhas roxas, e seguiu por um deles. Mas o caminho desapareceu e ela estava então perdida numa clareira com uma pedra no meio. Chegou à conclusão de que estava irremediavelmente perdida e resolveu desistir.

Sentada na pedra, olhava a metade da lua que brilhava branca como o sorriso de Cheshire. Como chegara ali...?

Lembrava-se de todas as aventuras que vivera naquele dia... O mokona branco, os animais da fogueira inapagável, os Twedlees, o lagarto, o dodô, o mokona preto, o chapeleiro, a menina-rata... E Cheshire. Seu sorriso estava gravado em sua memória, ainda sentia o calor de seus lábios. Talvez ele soubesse para onde ir agora... Suspirou, fechando os olhos.

“’Twas brillig, and the slithy toves

Did gyre and gimble in the wable:

All mimsy were the borogoves,

And the mome raths outgrabe.”

Quando olhou para trás, viu o garoto Cheshire deitado preguiçosamente no galho de uma árvore próxima.

- Cheshire? Que faz aqui?

- Eu? – olhou para ela – Gosto de aparecer quando você está perdida...

- Por quê?

Ele apenas sorriu.

- Veja só, a floresta sumiu... Você vai sumir também?

- Talvez...

- É impossível ter certeza das coisas por aqui, não é?

- Deve ser. Você quer voltar para casa?

Arisa olhou a lua, a escuridão em volta e voltou a olhar Cheshire, que mantinha os olhos amarelos cravados nela.

- Na verdade... – suspirou – Não, não quero não.

O gato perdeu o equilíbrio e quase caiu do galho em que estava, com uma expressão de pura surpresa no rosto.

- NÃO? – Arisa arregalou os olhos com a reação do gato.

- Não...

- Mas... Não sente falta do seu mundo?

- Não. Por que sentiria?

- Não tem nada de que sente falta de lá?

- Não.

- Então... Você vai ficar aqui?

- É o que pretendo.

Cheshire saltou da árvore, aterrisando ao lado da garota. Como da outra vez beijou-a; mas dessa vez mais demoradamente e com mais sentimento que da outra.

E então Arisa compreendeu o porquê de ali chamar-se “País das Maravilhas”. Era como se ela tivesse finalmente encontrado aquilo que estivera procurando por tanto tempo sem saber o que poderia ser.

Quando ele a soltou e ela voltou a abrir os olhos, a paisagem havia mudado para um vasto gramado. À sua frente, um arco aberto numa parede feita daquela planta que se usa para fazer labirintos, estendendo-se para os dois lados até o infinito. Fazia sol.

O garoto-gato encostou-se de costas ao lado do arco.

- Se pretende ficar é melhor conhecer quem mora para lá. – indicou o arco com um movimento da cabeça.

- Está bem... – olhou para Cheshire – Voltarei a te ver?

- Talvez. – e desapareceu com seu sorriso característico.

Tendo ficado só, Arisa decidiu-se a passar pelo arco. Deu com um tipo de labirinto. Eram duas paredes daquela planta cheias de curvas formando a “estrada principal”, com várias entradas laterais. Numa dessas entradas, viu três cartas de baralho com mãos e braços ocupadas em pintar uns cravos vermelhos de branco, cantando algo como “Vamos pintando breve, os cravos da cor da neve!” e dançando. Arisa ficou tão intrigada com a prática que foi falar com as cartas.

- Ahn... Olá?

Ao ouvir sua voz, todas as cartas assustaram-se e pularam, respingando tinta branca para todo lado.

- Calma, eu não sou perigosa (eu acho)!

- Ora, mas quem é você? – perguntaram as três ao mesmo tempo.

- Eu sou Arisa... Fushigino Arisa.

- Oh, é só uma menina... – as três suspiraram aliviadas.

- O que vocês estão fazendo?

- É que nós plantamos os cravos vermelhos por engano...

-... e a Rainha queria brancos, para combinar com rosas vermelhas...

-... e se ela souber do engano nos manda degolar!

- Oh, céus... Não querem uma ajuda?

- Qualquer coisa! – disseram as três, dando a Arisa um pincel e um balde de tinta.

- Os quatro pintavam felizes os cravos vermelhos de branco, quando se ouviram as trombetas.

- ‘Copas’ no Ojou-sama puuu! – “A Rainha de Copas puuu!”

As cartas jogaram para o alto seus pincéis e latas de tinta, correndo para todos os lados em pânico. Já Arisa deixou seu balde e seu pincel no chão e foi até a abertura que dava para a “estrada principal”. Vindos do arco pelo qual ela mesma viera há pouco, viu a Rainha, o Reizinho, dois guardas em forma de ases e o mokona branco, Soel, fazendo aquelas acrobacias aére o mokona branco, Soel, fazendo aquelas acrobacias ama de ases ouviram-se as trombetas.

odo lado.

eas pulando de um lado a outro e fazendo soar a trombeta.

Pelo jeito ouviram a barulheira das cartas, pois começaram a vir em direção à abertura em que estavam. Arisa só teve tempo de sumir com seu balde e seu pincel antes que o grupo irrompesse pela abertura.

A Rainha foi até os cravos e olhou-os de perto. Então, com uma expressão de pura ira, gritou:

- Quem andou pintando breve, os cravos vermelhos da cor da neve?

Então, lançando um olhar às cartas pintoras que se haviam lançado ao chão com os pincéis e baldes de tinta em volta, fez a conexão.

- CORTEM AS CABEÇAS!

Os ases então pegaram as cartas pintoras que imploravam por piedade e as levaram para não se sabe onde.

Então a Rainha, ao virar-se para voltar à estrada principal, viu Arisa.

Olhou para cima, para baixo, para frente, para trás, para os lados e para as diagonais. Então mais uma vez olhou para Arisa.

- De onde vieste?

- Do arco que dá para o gramado...

- Como?

- Com os pés...?

- Ah. – a Rainha pareceu aliviada, mas logo reassumiu sua expressão autoritária – Quem és tu?

- Meu nome é Fushigino Arisa.

- Oh, uma menina... Há tempos que não tínhamos uma por aqui. – parou como que a lembrar de algo, mas logo voltou – Jogas mini golf?

- Acho que sim...

- Então venha, vamos jogar...

A enorme Rainha então passou um braço pelos ombros de Arisa, e foram as duas mais o Reizinho e Soel pela “estrada principal” em direção ao palácio.

Pouco antes de chegarem lá, entraram por um arco lateral que dava para o campo de mini golf. Algumas cartas limpavam, consertavam, arrumavam e transportavam coisas por toda parte. À entrada da Rainha, todas se curvaram e colocaram-se às ordens, ao que ela mandou que preparassem tacos e bolas para ela e Arisa.

E o jogo começou. Ao ver a grande Rainha agachada com o pequeno taco preparando-se para acertar a bolinha menor ainda, Arisa teve de utilizar-se te toda força de vontade para não cair na gargalhada, pois rir da Rainha seria pôr em perigo seu pescoço.

A primeira tacada da Rainha foi péssima, e cada tacada seguinte era pior que a anterior. Mas de alguma forma ela sempre acertava o buraco (com uma pequena ajudinha de seus servos), o que Arisa achou perfeitamente normal. Se bem que logo estava pensando que a ajuda não era necessária, pois suas tacadas eram ainda piores que as dela.

Sendo assim, Arisa não provocara de modo algum a ira da Rainha, mantendo seu pescoço a salvo. Isto até o último buraco.

Bem na hora em que Arisa ia acertar sua bolinha, um raio de sol refletido numa pedra preciosa na coroa do Reizinho refletiu em seus olhos, fazendo-a se distrair e bater na bolinha de qualquer jeito, acertando em cheio a cabeça da Rainha. E todos sabem o que aconteceu.

- CORTEM-LHE A CABEÇA!

- O quê?

E antes que pudesse entender qualquer coisa, Arisa já tinha sido pega pelos guardas.

Sua sorte foi que bem naquela hora o Reizinho começou a dar uns puxõezinhos na saia da Rainha.

- Será que... Não poderia haver um julgamento? – fez aqueles olhinhos de filhote – Só um julgamentozinho, bem pequenininho...

Meio a contragosto, a Rainha aceitou o pedido, e Arisa dói conduzida ao Tribunal.

O Tribunal era um salão enorme. No lugar do juiz sentava-se o Reizinho com a Rainha a seu lado. O júri estava cheio de mini velhinhos meio carecas com compridos cabelos e barbas brancos, tinham orelhas pontudas e vestiam-se de púrpura. Não pareciam ter a memória muito vasta.

O mokona branco sentava-se num banquinho bem alto, de onde faria os anúncios.

Assim que a Rainha fez o público calar-se, o mokona fez o primeiro anúncio.

- (...), haitenassai! – “Que entrem as testemunhas!”

Os primeiros a entrar foram os animais da fogueira inapagável. Mas na verdade nenhum deles se lembrava de Arisa, então foram logo dispensados. Logo depois entraram os Twedlees, buzinando feito um carro de palhaço.

- E então... o que vocês sabem a respeito da menina? – perguntou o Reizinho.

- Não muito, na verdade (FÉM)

- Nós conversamos muito pouco (FÓM)

- Mas o mestre gato deve saber! (FÉM-FÓM)

- QUEM? – a Rainha levantou-se e bateu na mesa com força, muito irada.

- Ninguém, majestade! (FÉM)

- Estamos quietos, majestade! (FÓM)

- Juramos que não sabemos de nada! (FÉM-FÓM)

Com isso, a Rainha pareceu se acalmar, e os Twedlees foram dispensados. Então vieram o lagarto e o dodô, que disseram algo a respeito de um monstro e uma tentativa de queimar a casa do mokona branco, mas pelo jeito nunca tinham visto Arisa, e foram dispensados.

Assim que eles saíram, entraram o mokona preto, o chapeleiro e a menina-rata, em forma de menina.

- E vocês? O que sabem? – perguntou o Reizinho.

- Bom, ela chegou de repente, vinda da Árvore das Placas.

- Quando comemorávamos nosso desaniversário!

- E ela disse que conhecia Soel puuu!

Mas então ela falou nele e a yuki entrou em pânico e quando vimos ela tinha desaparecido...

- Muito bem, testemunhas dispensadas! – disse o Reizinho – O júri pode dar seu veredicto!

Mas antes que o júri pudesse falar qualquer coisa, começou aquela música que Arisa já conhecia tão bem...

“’Twas brillig, and the slithy toves

Did gyre and gimble in the wable:

All mimsy were the borogoves,

And the mome raths outgrabe.”

A Rainha começou a ficar vermelha feito um tomate assim que a música começou, o Reizinho ficou branco feito cera e todo o tribunal ficou em silêncio.

Foi nesse momento que ele apareceu, Cheshire, o mestre gato, sentado sobre o banco das testemunhas em sua forma humana. Todos os olhares se dirigiram para ele, a Rainha de tão vermelha começou a ficar roxa.

- Ora, ora, ora... – disse o gato – Parece-me que se esqueceram de uma “testemunha”...

- O QUÊ VOCÊ ESTÁ... – começou a Rainha.

- Esta menina – a Rainha calou-se, pelo jeito temporariamente incapaz de gritar – é minha protegida, e eu tenho certeza de que ela não fez nada para merecer uma execução.

- VOCÊ...

- Majestade. – Cheshire dirigiu seu olhar para o Reizinho, branco feito cera e tremendo mais que vara verde.

- O-o-o ju-ju-juri pode d-dar seu v-veredicto a-a-agora...

O olhar do gato dirigiu-se então ao júri, que unanimemente decidiu absolver Arisa.

- Foi um prazer encontrá-la, Majestade – Cheshire fez uma leve reverencia à Rainha, que parecia prestes a explodir de raiva – Pegarei de volta minha garota agora.

Com isso, Cheshire pegou Arisa pela mão e saiu do Tribunal, ao que se seguiram gritos histéricos da Rainha e um certo pânico da multidão.

- O que aconteceu lá dentro agora...? – perguntou Arisa.

- Nossa querida Rainha deve estar mandando cortar várias cabeças, e o Reizinho deve estar perdoando as vitimas sem que ela saiba... o de sempre. – respondeu Cheshire – Tem certeza de que quer continuar aqui?

Arisa sorriu, balançando a cabeça afirmativamente.

Daquele dia em diante, Arisa passou a viver com Cheshire no País das Maravilhas, que passou a ter um gato e uma gata de Cheshire.

E todos viveram felizes e malucos para sempre, como em qualquer outro conto maluco de fantasia...

Notas finais
¹A partir deste ponto, resolvi não colocar quem fala o quê pois ficaria cansativo ler “disse (...)” o tempo todo, e também porque não tem mesmo muita importância. Se interessar, o mokona sempre termina a frase em “puuu”, o chapeleiro fala mais explicativamente e a menina fala coisas bobas geralmente terminadas em exclamação (ex: Uma garota!). O estilo de fala de Arisa é o mesmo do resto da história.