Fairy Tail! Aratana Densetsu!

80 Primeiramente, obrigado por confiarem em mim.


Uma hora antes.

Mestre Taylor não era uma pessoa pra lá de religiosa, muito pelo contrário, mas enquanto esperava ali na guilda ele rezou como nunca em toda a sua vida.


Era isso ou ser consumido pelos nervos; não aguentava mais ficar parado. Sua vontade era de rodar por toda a cidade, espancando cada um daqueles fantasmas da geração anterior e castigá-los, um por um, por estarem fazendo seus filhos sofrerem.


Mas precisava continuar ali, garantindo a proteção da guilda e preparado para descontar tudo na última batalha. Precisava confiar que as crianças conseguiriam.

“Deus, seja lá quem você for, só te peço que proteja eles”.


Tentava a todo o custo limpar da cabeça todos os cenários sombrios que ela insistia em imaginar; não precisava disso agora, precisava ficar firme. Sabia que já estava velho e sua força não era mais a mesma de antes, então se cabeça saísse do lugar, não teria nenhuma chance. Afinal, conhecia as histórias: Makarov-dono de jeito nenhum podia ter a força julgada por aquele corpo franzino.


Só não conseguia deixar de pensar em cada membro da Fairy Tail. Todas aquelas crianças que o irritavam tanto e que o faziam repetir mil vezes que sua guilda não era uma creche, mas que se tornaram aqueles que mais quer, e precisa, proteger. Será que já tinha dito a eles o quanto os amava? Ou que achava todos infinitamente mais fortes do que ele? Provavelmente não… Era um velho tolo e orgulhoso.


Jurou que diria isso quando tudo acabasse.


Ouviu o som de uma sirene: as runas diante das guilda se acenderam de novo, e uma voz mórbida saiu dali:


— Combatentes de X789 caídos. Hora da última batalha.


“Parabéns, crianças.”

Sem perder tempo, Makarov-dono apareceu e se posicionou na entrada de guilda, cara a cara com Taylor.


— Aqui, não — pediu o atual Mestre. — Peço que lutemos em outro lugar.

Makarov soltou um grunhido descontente, mas abriu espaço para Taylor guiar o caminho.


. . .

Devia ser uma heresia ir lutar diante da Catedral Kardia depois de toda aquela oração, mas fazer o quê? Foi o primeiro lugar com espaço e sem pessoas à vista que achou.

Os dois Mestres posicionaram-se para a batalha, o mais velho jogando a capa dos 10 Magos Santos no chão para exibir os músculos. Taylor copiou o movimento e jogou a capa de Mestre também, só para tentar intimidá-lo um pouco, só precisou ignorar a sensação de ser um idiota fazendo isso.


— Eu te desafio, Makarov-dono! — Gritou.


Era a deixa necessária. Com um sorriso terrivelmente empolgado, Makarov fez o punho ficar gigante e se esticar para martelar Taylor como um inseto; esquivou bem na hora com um salto para trás, e aterrissou já conjurando um círculo mágico roxo no chão.


— Purple Flare: Hantaa!

Duas cobras gigantes de chamas roxas se esgueiraram a partir do círculo mágico e avançaram famintas, uma de cada lado, se preparando para dar o bote. Taylor correu no meio delas até o alvo, com um novo círculo mágico se formando em uma das mãos; mais uma vez o punho gigante de Makarov veio em alta velocidade, mas dessa vez Taylor o segurou firmemente e continuou agarrado enquanto ele o jogava para o alto. Apertou a mão com o círculo mágico em sua pele.


— Purple Flare: Wana!

Uma lâmina de seu fogo perfurou o punho do inimigo, e continuou entrando e saindo de sua pele na diagonal, descendo por todo o braço alongado. No chão, as cobras, ao mesmo tempo, mergulharam na direção de sua presa. O braço gigante se retraiu. Taylor se segurou para não cair, agora com um braço coberto de chamas roxas pronto para atacar Makarov no rosto.


Mas quando chegou mais perto, as cobras derreteram, e o que o recebeu foi um raio de luz negra conjurado pela outra mão do velho.


Nada que não esperava, porém. Um punhado de chamas protegeu seu rosto no último momento, deixando só o bigode ser chamuscado — ele odiaria ter que raspar àquela altura —, e Mestre Taylor rolou no chão para trás do adversário; o braço direito na direção das costas dele, o braço esquerdo recuado como se preparasse uma flecha, um e círculo mágico no meio deles. Makarov olhou para trás com um descaso muito maior do que ele.


— Purple Flare: Hoshokusha!


Sua águia colossal desceu do céu queimando o ar para atingir seu alvo, o grito preenchendo tudo. No segundo que durou sua descida, Makarov girou o punho gigante. O bico da água penetrou seus dedos, e ela continuou tentando abrir ainda mais o buraco, contudo, relâmpagos negros acenderam no punho. O choque percorreu todo o corpo da ave flamejante, até ela rugir de dor e ser obrigada a soltar sua presa.


Enquanto isso, Makarov encarava Taylor, e Taylor estava estático. Amaldiçoou a lerdeza da velhice. A próxima vez que o antigo Mestre abriu a boca, saiu uma voz monstruosa que parecia estar soando de algum outro lugar:

— Suma!


Com a rajada de vento que ele soltou, Taylor sentiu que poderia tê-lo cortado ao meio se quisesse. Ao invés disso, ele e a águia predadora foram arremessados no ar na direção da Catedral; o Mestre se apressou para criar rédeas flamejantes para se prender à ave, o que não impediu o impacto que perfurou uma das torres da igreja. Caiu no chão milagrosamente ainda agarrado às rédeas e com a predadora resistindo.

Suas costas doíam tanto. Droga. Precisou se convencer a tentar ficar de pé, e olha, foi difícil. A sensação era que os ossos estavam prestes a esfarelar.


Imagina então a sensação quando olhou para frente de novo e viu Makarov assumindo a forma de gigante…


Muitas crianças da Fairy Tail estariam empolgadíssimas para estar naquela luta… Podia imaginar Luke e Ace babando com a oportunidade. Taylor, não. Ele não gostava de lutar, algo talvez contraditório demais considerando a guilda onde estava. Aliás, ele com certeza era mais fraco do que a maioria de seus membros, e sabia disso desde que eram só crianças. Sentia-se um inútil na maior parte do tempo.


Ainda assim… O que ele tinha de força foi construído apenas para proteger aqueles magos idiotas em momentos assim. Não podia permitir que os filhos fizessem o trabalho pesado na maior parte do tempo, vez ou outra precisava engolir o medo para fazer alguma coisa.


— Como ousa… — O vozeirão de Makarov inundou a área. — Machucar… Os meus fedelhos?!


Parecia uma alma perdida falando algo no automático, sem emoção nenhuma.

Ainda assim: que filho da mãe.


— Nenhum de nós queria essa batalha, Mestre! Mas se vocês machucam meus filhos, eu não posso mostrar misericórdia!


Transmitiu energia mágica para a água através das rédeas para ela se recuperar, e a soltou.


— Purple Flare: Chuujitsu.


A nova criação de suas chamas era seu leal pégaso preparado para o voo de uma guerra. Preparou novas rédeas só para ele e montou em suas costas, sem se incomodar com o fogo pinicando as costas. Respirou fundo. Deus, como queria beber agora.


Na mão estendida para o céu, uma lança de guerra foi conjurada.


— Avante! – Berrou.


Era como lutar contra um vulcão ativo. O calor do fogo negro de Makarov era insuportável e relâmpagos estouravam por todos os lados. A águia passou zunindo do lado do ouvido de Taylor para alcançar uma maior altitude, enquanto o bravo pégaso trotava de frente para o colosso, com seu dono fazendo o melhor para continuar respirando.


Apesar do tamanho, Makarov era ágil. Precisava se concentrar em esquivar dos socos e raios de luz antes de pensar em atacar. Voando para cima e para baixo, conseguiu achar uma brecha no tronco; avançou, fincou a lança com toda a força, e acabou com a garganta gritando para o cavalo alado subir, a lâmina cortando toda a pele no trajeto, o prazer e o sofrimento de ouvir o inimigo gritando de angústia.


Sua pele queimava. Sentiu um relâmpago acertando o braço que empunhava a lança, porém, precisou gritar com o cérebro e todos os nervos para ignorar.


Finalmente lá em cima, o corte foi finalizado atravessando o ombro do morto-vivo e uma chuva de sangue cinzento. A águia seguia trabalhando para machucá-lo com suas garras, embora, por mais estranho que fosse a visão, as chamas de Makarov estivessem queimando as chamas roxas do corpo dela. Taylor sentiu outro raio o pegando bem no rosto: uma explosão nos ouvidos, um momento de escuridão, e quando enxergou algo de novo, lá vinha a palma da mão monstruosa para o pior tapa da sua vida.


Soltou o pégaso e se deixou cair no vazio.


O cavalo pegou a deixa: subiu para se desviar também, deu a volta, e reencontrou seu senhor em um mergulho desesperado. Taylor estava tonto, o olho direito nem abria mais, mas o mandou subir de novo. Tinha que deixar os instintos o controlarem.


Viu a águia explodindo com um soco.


Praticamente rosnou para o pégaso ir mais alto, embora tivesse quase certeza de que era ele quem o segurava agora. Em algum ponto por trás daquelas nuvens horríveis, pôde ver um céu claro. Lembrava ele o calor de cada momento na guilda. A balbúrdia vivificante de todas as brigas idiotas lá dentro. A esperança que cada uma de suas crianças o fazia sentir.


Girou a lança entre as mãos, pois precisava chamar pelo inferno agora.


— PURPLE FLARE: KEEBATSU!


Esperava deixar os Dragon Slayers orgulhosos: seu titânico dragão do julgamento despencou do céu para pintar o inimigo com o desespero flamejante. O calor do rugido para Taylor foi aconchegante como o abraço do velho pai.


Mesmo que… Soubesse que não tinha muito mais jeito para ele. Makarov encarou o dragão enquanto o pégaso voou para o mais perto possível da superfície antes de desaparecer pela falta de energia mágica — era mesmo um parceiro muito leal.


Taylor caiu do restante da altura direto no chão de concreto. Queria vomitar, o corpo rejeitava a ele mesmo. O dragão abocanhava a cabeça de seu almoço e seguia para engolir toda a montanha de seu corpo, enquanto Makarov lutava com dificuldade para afastá-lo.


O Mestre atual apagou por um instante. Quando despertou, assustado, se deparou com a cena de seu veterano rasgando o corpo do dragão de dentro para fora ao mesmo tempo em que diminuía de tamanho; parecia um monstro saindo do casulo. A fera ainda assim continuou a seguir em frente na sua missão, mas quando chegou ao chão, explodiu com a luz negra de Makarov.


Taylor se agarrou ao máximo ao relevo do chão para não ser jogado pelo impacto da explosão. Quando passou, porém, Makarov continuava de pé: o corpo destroçado, cortado de ponta a ponta, mas de pé e com aquela maldita e tenebrosa luz gritando ao seu redor. Conhecia aquela magia, chamava de Wrath, não é?


Conhecia a outra também. A que preparava com aquele sinal das mãos. Executaria o Fairy Law.


— Todos que machucam minhas crianças devem pagar por isso — ele disse naquela voz moribunda de novo.


Era irritante para Taylor como o discurso soava vazio naquela voz. Acreditava que Makarov estava ali em algum lugar, realmente se preocupando com a guilda que conhecia, mas quando abria a boca, parecia mais uma marionete sendo controlada por sentimentos falsos.


O velho rugia enquanto carregava sua magia sagrada. Taylor tinha que pensar rápido. Podia fazer seu próprio Fairy Law ou o Fairy Glitter, só que estava tão fraco que temia não conseguir terminar a magia antes de desfalecer. Então, que o desespero tomasse conta. Usou o resto de força para correr até o inimigo — sentia vestígios de penas do pégaso e da águia o impulsionando pelas costas —, se forçou a passar por seu campo de luz, e agarrou seus braços.


— Fique longe dos meus filhos. Desconte sua raiva em mim.


Makarov hesitou um pouco, por milagre, mas logo continuou. Taylor rugiu também; achava animalesco, mas parecia ajudar. Sabia que não podia impedir o Fairy Law. Contudo, precisava ao menos impedir que mais pessoas fossem machucadas.


Decidiu que seria o único alvo.


O grande círculo mágico em preto e branco nasceu no céu chamando pelo juízo final. Em volta de Makarov e Taylor, ondas de luz verdadeira e chamas roxas os envolviam em uma barreira, um casulo resistente.


Só tinha um buraco: em cima, de onde a força de Fairy Law cairia. Tinha palavras finais? Nenhuma, além da conjuração: a chamada de sua versão de Fairy Sphere.


Makarov gritou o nome de sua magia também.


Para Taylor, foi uma explosão. Sabia que seu peito tinha estourado. Depois, um clarão insuportável. Se sentiu morto antes de estar.


Se bem que não demoraria muito de qualquer forma.


Pelo menos, era o fim.