Fairy Tail! Aratana Densetsu!
82 Minha força vem de vocês
Aaron Dragneel acordou meio zonzo, meio perdido. Tanto que demorou longos segundos para sequer estranhar o céu se abrindo e a ausência da neve negra que tinha acabado de lhe dar pesadelos. Seu corpo ainda doía, sim, a idade não perdoava, mas o que mais sinalizava em sua cabeça era a pergunta: não devia ter algo de errado aqui?
Olhou para sua esquerda e viu o filho Ace ainda apagado junto de seu Exceed, Lucky. Olhou para a direita e viu seu pai… Só que Natsu não estava inconsciente. Estava sentado, olhando na direção de sua velha casa — agora destroçada pela luta deles. E Natsu… Não estava mais em preto e branco.
Era meio translúcido, algo entre o existe-e-não-existe, e era aquele cabelo rosa.
— Pai? — Conseguiu soprar.
Natsu olhou para ele com uma feição confusa também. Ele não se lembrava do filho e do neto antes, não é? Será que algo tinha mudado?
— Ei, você sabe por que minha casa tá desse jeito? — Foi sua resposta.
Aaron quase riu.
— Bem… Acho que você exagerou.
— Aaaaaaaah! — Natsu coçou a cabeça. — Que saco!
— Naaatsuuuu. — Ah, a voz melosa do Happy acordando. — Que fome. Tem peixe aí? — Happy então olhou para Aaron, depois para Ace, ficou assustado e se recolheu para mais perto do parceiro. — Ei, Natsu, quem são esses aí?
O Dragon Slayer olhou de novo para Aaron.
— Ô, você me chamou de pai, né?
Ficou com medo de responder por um segundo e iniciar outra batalha, porém, Natsu tão lúcido, tão familiar, que o receio passou rápido. Queria pelo menos acreditar que estava falando com o pai mesmo.
— É… Eu sou Aaron. Você e a Lucy são meus pais. Esse aqui — apontou para o filho ainda desacordado. — É o Ace, o neto de vocês. E Lucky, o parceiro dele.
Os fantasmas ficaram olhando para os sucessores de sua família por um tempo. Não pareceram assustados, só… Processando a informação, talvez? Depois de instantes de silêncio, Natsu arregalou os olhos.
— Ah, é! — O coração de Aaron errou a batida por um milésimo de segundo. — Esse Ace foi duro de queda! Será que se eu acordar ele dá pra ter uma revanche?
— Natsu! — Happy ralhou. — Eles são seu filho e neto mesmo?!
O rapaz (céus, era mais novo do que Aaron naquela forma) levou a mão ao queixo, olhando de novo lá para sua casa.
— Hm… Não lembro direito deles, mas… Eu bem me lembro da Lucy barriguda.
— … A Lucy comeu muito peixe?
— Também lembro… de…
O de cabelo rosa olhou para os próprios braços enquanto parecia tentar encontrar algum gesto. Cruzou eles, como se estivesse para embalar um bebê no colo. Apesar da confusão no olhar, continuou entendendo aquela posição, e até fazendo o movimento lento de um lado para o outro.
— … Pai?
— Não me diga que se esqueceu também, Natsu.
Aaron sentiu o corpo arrepiar e as lágrimas brotarem só de ouvir aquela voz. Nunca pensou que a ouviria de novo.
As melhores histórias de ninar, o carinho mesmo depois das broncas quando queimava algo em casa, as músicas murmuradas enquanto estava em seu colo: toda a paz de suas memórias vinham dela. Como queria ter tido mais tempo…
— Ah, Lucy!
Obrigou o corpo a se erguer apenas o suficiente para ver sua mãe ali em frente. Jovem e fantasmagórica, mas sua mãe.
— Poxa, nós devemos ter sido péssimos pais pra não nos lembrarmos dos nossos filhos! — Ela exclamou.
— Você tá acreditando nisso também?
— É claro! Na hora em que a Jade me disse isso, não tive dúvidas. — Ela se afastou para o lado, e Aaron conseguiu ver: atrás de sua mãe, Loki e Capricorn seguravam Jade e Jet desacordados no colo, respectivamente. — Olha, Natsu, são sua filha e seu neto.
Os espíritos celestiais não pareciam translúcidos como seus pais, então quando Loki acenou para Aaron, teve certeza que eram os originais; ou seja, os que agora seguiam a Jade.
— Ah! Parece que esses aqui são seu filho e seu neto também, Lucy!
Lucy se voltou devagar para o filho mais novo, depois para Ace, e então para ele de novo. Aaron percebeu que estava chorando quando ela sorriu.
— Que cabelo lindo. — Nunca tinha ficado tão feliz por puxar o loiro dela. — Qual a sua magia?
— Fogo! — Natsu respondeu primeiro enquanto se levantava para ir até ela. — E o Ace ali é um Dragon Slayer igual a mim!
O caçula dos dois magos mais fortes que conhecia ficou parado observando os pais conversando entre si, entre risadas e olhares de cumplicidade, Happy se aninhando no colo de Lucy para tirar uma soneca. Ficou se lembrando de todas as vezes em que eles se divertiam quando podiam sair para alguma missão juntos, quando algum amigo podia cuidar dele e de Jade por algumas horas, e como sempre voltavam rindo, mesmo se estivessem machucados. E também as brigas que tinham por besteira, que sempre acabavam com os dois rindo no fim do dia. Lembrava de encontrar os dois abraçados na cama quando ia ao quarto deles em noites de pesadelos, e de ouvir o pai resmungando um pouco por precisar soltar sua mãe para acolher a criança entre eles.
Lucy estava comentando sobre como Jet enfrentou seus espíritos celestiais e do poder incrível de Jade para suportar quatro portões abertos por um momento. Foi mais ou menos aí que Aaron começou a se esforçar para ficar de pé.
Na memória mais antiga que tinha da Fairy Tail, estava em cima dos ombros do pai, Jade bem ao lado com a mãe. Natsu balançava seus bracinhos e berrava que “os futuros mais fortes estavam bem ali” até alguém (talvez tio Gajeel) berrar de volta para ele calar a boca. Ainda se lembrava bem daquelas palavras: os mais fortes. Jade com certeza era uma prodígio, mas Aaron? Sequer conseguiu herdar a magia de Dragon Slayer.
Natsu e Lucy se foram muito de repente; não deu tempo para uma despedida ou para ter aquelas últimas palavras significativas. Talvez a última coisa que dissera a eles foi “tá bom, até mais” ou algo trivial assim, muito longe do que mereciam. Ao longo dos anos, as palavras finais que queria mesmo ter deixado se encaixaram em um lugarzinho de seu peito que às vezes atrapalhava a respiração.
Loki e Capricorn tinham deixado Jade e Jet no chão, e o casal estava agora em volta deles, murmurando palavras de carinho e afagando suas cabeças. Lucy deu um beijo terno na testa de cada um. Aaron trocou um olhar com Loki enquanto mancava até lá; o Leão chorava por cima de um sorriso meio triste, meio feliz. Aaron também.
Quando Lucy e Natsu se levantaram e viraram para trás, Aaron estava bem diante deles. As costas curvadas, o nariz escorrendo… Parecia um bebê grande. É que desejava muito para ser só o filho caçula deles por mais alguns minutos.
— Está tudo bem. — Mamãe disse com todo o carinho do mundo. Podia sentir o sorriso quente de papai.
Não conseguia acessar a última memória que tinha deles juntos, por mais que quisesse. Ao invés dela, pensava em como o abraçaram no dia de seu casamento, e no jeito como dançaram na festa: um mundinho de amor só deles, resistente a tudo, ainda lutando juntos o tempo todo. Lembrava de sentir o orgulho e a benção de ter as maiores referências de amor bem ao seu lado.
Aquela pecinha no peito afrouxou.
— Não tive tempo de dizer a vocês… Desculpa, eu não sou o mais forte… Mas toda a força que me orgulho de ter vem de vocês. Todo o meu amor vem dos dois. Pai, mãe, eu amo tanto vocês. Obrigado por serem meus pais.
Soluçava, o rosto já encharcado. Passou um flash de memória de quando era pequeno: sempre que se machucava e ia chorando até a mãe, ela fazia um carinho na bochecha dele para limpar as lágrimas e dizia “olha, sumiu”.
— Olha, sumiu. — Ela disse, agora, no presente, com a mão na bochecha dele, depois de ter erguido seu queixo. Piscou. — Haha… Não sei de onde veio isso. Me desculpa… Queria muito conseguir me lembrar melhor de vocês. Mas mesmo assim, eu consigo sentir no meu coração… Que amo muito vocês. — Sua mãe fez mais um carinho na bochecha. O toque era gelado. — De algum jeito, eu simplesmente sei que vocês foram a maior alegria da minha vida. Obrigada.
Natsu colocou a mão em sua cabeça.
— Eu também não entendi direito ainda, mas olhando para vocês, tenho a sensação de que o resto da minha vida foi bastante empolgante. — O pai fez um carinho que bagunçou mais ainda seu cabelo. — Não tem problema nenhum em não ser o mais forte. Só continua se esforçando, tá?
Aaron só conseguiu assentir.
Então seus pais lhe deram um abraço. Tão apertado, tão caloroso, tão cheio de vida. Parecia com o abraço no dia do casamento, ou com o jeito como o aninhavam na cama depois de pesadelos, ou quando comemoravam uma vitória dele nos treinos. Sinceramente, lembrava tudo, e ele não queria parar de chorar.
Os dois se o soltaram e a mãe deu um beijo em sua bochecha.
— Vamos ver um pouco o Ace antes de irmos, tá? — Aaron assentiu de novo.
Quando os dois se afastaram, se deixou cair no chão de novo. Putz, deveria ter pelo menos tentado acordar o resto da família, né? Se sentia um egoísta agora. Sendo sincero… até queria ser um pouco.
Ouviu seus países comentando como Ace se parecia com Natsu e como Lucky era adorável. Não ouviu o que sussurram no ouvido dele, antes de também deixarem beijos na bochecha e carinhos de despedida.
Quando terminaram, Lucy correu até os espíritos, ainda a postos ali, para dar um abraço demorado nos dois.
— Eu tô muito feliz por ver vocês. Obrigada por estarem com a Jade. Podem continuar cuidando deles por nós?
Capricorn fez uma reverência, e Loki ainda estava chorando.
— Estávamos com saudades, Lucy — disse Loki.
Eles se abraçaram de novo.
Já viu fantasmas chorando? É uma visão que faz questionar a separação entre a vida e a morte. Mais ainda, naquela hora, foi uma visão extremamente calorosa para Aaron.
Natsu e Lucy se reuniram lado a lado, agora Happy nos braços do Salamandra, e deram as mãos. Dava para ver que já estavam desaparecendo e eles sabiam disso.
Sorriram mais uma vez para Aaron.
— Seja feliz, Aaron — sua mãe disse.
— Confie na sua força — seu pai disse.
E eles se foram.
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