Fairy Tail! Aratana Densetsu!
79 Era uma noite de sopa
É assustador como a memória sempre encontra seu caminho para encaixar peças soltas. Um processo voluntário ou não. Requisitado ou não. Muitas vezes o quadro final é montado e novas dúvidas são soltas: será que era bom mesmo ter se lembrado?
De qualquer forma, não era como se pudesse ser controlado, né? Mas Nick pensaria nisso um tempo depois mesmo assim.
Era como se tivesse voltado no tempo. Estava frio naquela noite então sua mãe tinha feito sopa, apesar dos beicinho de um Nick de 4 anos; ele se sentia ali naquela cadeira, embora também se sentisse como um espectador afastado, só flutuando por cima das memórias.
Podia muito bem ser só um sonho.
Tinha ganhado sua torrada predileta para mergulhar na sopa de tomate, pelo menos. A mãe tinha sentado na sua frente e fazia expressões de alegria exageradas a cada colherada de sopa, e o pai jantava assistindo à esposa como se fosse uma bela comédia. Nick acabou rindo. Não deixou o gosto da sopa melhor, mas era divertido.
A casa tinha o mesmo cheiro dos abraços da mãe. Como ele se lembrava disso? Mamãe era muito bonita. Papai também, mas não sabia o que teria puxado dele. A árvore de natal estava montada na sala; tinha muitos flocos de neve na decoração, talvez até demais. Estava calçando meias porque sentia muito frio nos pés.
Sua mãe se engasgou e seu pai deu risadas sinceras que contagiaram Nick, mas depois ele foi ajudar a esposa. Era só um pouco de sopa que tinha entrado no lugar errado; ela estava rindo também. “Por isso que não gosto de sopa”, Nick argumentou e fez os pais darem mais risada. Na sua visão de fora, pensou estar sorrindo também. Agora ele gostava de sopa de tomate.
Alguém tocou a campainha, e seus pais atenderam depois de respirar um pouco. Nick não viu quem era na hora, só ouviu os cumprimentos amigáveis vindo da sala… Seus pais chamando a vista pelo nome. Algo com “E”.
Até que aquele rosto apareceu no seu campo de visão: Usava um chapéu de gente elegante, tinha um bigode grosso, olhos pequenos que davam um pouco de medo. Nick se lembrava de ter sentido medo dele antes.
— Olá, Daniel! Tudo bem com você?
Seu quebra-cabeças não conseguiu recuperar aqueles próximos minutos — talvez tenha sido melhor assim.
Então a próxima peça o levou a um ambiente completamente diferente. Estava frio, um ruído no fundo, e cadê suas meias? Nick estava deitado em alguma coisa, com outra coisa em cima da sua boca e… Ah, Deus. Uma agulha enorme bem acima do seu peito. Tinha medo de agulha. Começou a gritar.
— Seus pais não estão mais aqui para te ouvir.
A voz do homem, antes simpática, agora era ríspida e fazia a criança ter vontade de chorar. Queria mamãe e papai. Jurava que ia tomar sopa e parar de fazer birra. Jurava que seria um bom filho, não queria ser castigado.
O homem apareceu sobre ele; tinha lágrima demais nos olhos de Nick para enxergar direito, e mesmo assim, o mero vislumbre dele causava o pior medo que ele já conhecera.
— Tenho uma história de ninar para você, Daniel. Uma história sobre um poder milagroso que pode curar dores de um mundo inteiro se for usado por um mago bom. Nessa história, tem um garoto muito corajoso e forte que aceitou passar por uma pequena dorzinha para contribuir com o bem do seu futuro. É, esse menino é um herói.
Sentia um cheiro estranho enquanto um vapor forte cobria seu nariz e boca. Não era nada parecido com o cheiro do abraço da mamãe. Começava a se sentir sonolento, e mesmo assim, tinha certeza de que nunca mais pararia de chorar.
. . .
— Nicolas? Nicolas!
Acordou sem despertar. O mundo demorou para tomar cores de novo — não que tivesse tanta cor assim por trás daquela neve horrenda. Os sentidos foram tomando forma: o ar seco nas narinas, a dormência na boca, a dor que invadia todo o corpo. Demorou ainda alguns segundos para registrar Nadeshiko e Deivid ajoelhados do seu lado. A situação devia estar feia… Até Deivid parecia preocupado.
— O que… Tá acontecendo?
— Estamos rodando Magnolia a procura de todos para levá-los até a Blue Pegasus — Nadeshiko explicou. — Nick, você… Tá chorando?
É mesmo, estava. O sonho que tivera continuava muito vívido em sua mente, até sentia uma pontada de dor no peito como se a agulha estivesse se fincando agora. Mas, talvez pior que isso, era a saudade terrível que de repente sentia dos pais biológicos.
— O Mestre Taylor está lutando contra Makarov-dono neste momento — continuou Nadeshiko. — É a última luta. Logo, logo esse pesadelo vai acabar. Acha que consegue ficar de pé?
— Cadê a Yume?
A falta dela de repente foi gritante.
— Ainda não tinham a encontrado da última vez que passamos pela guilda — respondeu Deivid. — Acho que Yuri está a procurando.
A ideia de sua namorada perdida por aí, provavelmente com ferimentos graves, fez seu corpo doer mais ainda. Que pesadelo será que ela tinha enfrentado no seu desafio?
Enquanto olhava de volta para os amigos, percebeu o olhar preocupado de Nadeshiko escorregar na direção do seu braço, então o ergueu para olhar também: estava completamente coberto por escamas. O gosto do gelo que tinha comido voltou a sua boca na hora, junto da sensação de garganta arranhada devido ao rugido de gelo de antes. Por algum motivo, queria saber se Gray ainda estava por ali.
Que dor de cabeça…
— Dói? — Foi só o que a garota perguntou.
— Não sei dizer. Tudo dói agora.
Ficou mais um silêncio sem ninguém saber o que dizer, até que Deivid ficou de pé e estendeu a mão para Nick.
— Vem, você precisa de tratamento logo.
Fizeram um esforço conjunto para fazer o rapaz se erguer, e o Mago da Gravidade colocou seu braço em volta de seu pescoço e apoiou sua cintura com a outra mão. Nadeshiko ia do outro lado, como se estivesse pronta para segurar Nick caso ele caísse.
Então, soou um estrondo no ar. Logo a causa apareceu no céu, sem discrição, sem pena de assustar a qualquer um:
Um Fairy Law em preto e branco.
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