O céu cinzento e a neve preta e branca tornavam o ambiente tão obscuro que era impossível manter uma noção de tempo. Será que já havia amanhecido? Sarah achava que podia estar sentada ali por dias, observando a cidade à sua frente. Em seu coração, ouvia os gritos, percebia as dores. Magnolia inteira chorava.

Colocar membros das guildas de hoje em batalha contra membros antigos — muitos ídolos, pessoas queridas, e até familiares — era um plano cruel. Sarah não tinha certeza de qual o propósito; só estava ali para seguir ordens, era só um peão. Não era como o demônio Angus, que ria com deleite a cada movimento que as almas que ressucitara faziam.

Mas com certeza ele não era o mais medonho dali. Esse papel ficava com o homem do outro lado de Sarah. Aquele que parecia cochilar recostado em uma árvore, em uma serenidade de dar calafrios. Não sabia bem de onde viera, só sabia o mais importante… O plano era dele.

Edmond, o seu nome, certo? Foi só isso o que disse a ela antes de fechar os olhos ali. Ela o observava: às vezes, como agora, o via passar a língua demoradamente pelos lábios. Parecia se excitar com a dor.

Porém, qualquer demonstração de incômodo com ele seria uma afronta à Zeref, àquele a quem jurou seu fiel. Era ele o governante maior de todas as ações ali. Era por ele que devia permanecer firme.

Então Sarah só continuava olhando para frente.

E não percebeu quando outras pessoas chegaram, até ouvir a voz:

— O que vocês estão fazendo?

Eram um rapaz com máscara cobrindo a boca e o nariz, deixando o olhar violento à mostra, e uma garota cuja aparência pacífica contrastava completamente com o parceiro. Ambos vestiam capas grossas, apesar de não estar realmente fazendo frio.

Com uma tranquilidade tremenda, Edmond abriu os olhos e se virou para fitá-los.

— Quem são vocês? – Foi a garota que perguntou dessa vez.

— Por que seria da sua conta? — Edmond respondeu. Sua voz era grave, autoritária, assustadora. Sarah queria correr só de ouvi-lo.

— Sabemos que essa neve estranha vem de vocês — disse o mascarado. — Apenas respondam às nossas perguntas e os deixaremos em paz.

Ficou um silêncio enquanto Edmond olhava de um para o outro. Então, um sorriso de escárnio brotou no seu rosto, seguido por uma gargalhada; soava como se tivesse ouvido uma grande piada. Bateu uma palma.

Vocês vão nos deixar em paz? Que adorável. Do meu ponto de vista, acho que me mandaria daqui imediatamente se fosse vocês.

A garota deu um passo para trás, mas o rapaz só pareceu ficar irritado.

— Você não sabe com quem está falando.

— Issei, acho que deveríamos ir…

O tal Issei não ouviu a companheira, e só deu um passo para frente. Estava disposto a ter essa luta por orgulho? Que burro, Sarah pensou.

— É bom você me responder logo.

Edmond continuou a encará-lo, o sorriso já desaparecido. Ele se levantou sem pressa nenhuma, para dar alguns passos na direção dos visitantes.

— A noite está magnífica demais para ter que suportar a pirraça de um trombadinha. Se acha que é tão ameaçador assim, venha.

Apesar de a garota ter tentado impedir, o tolo desse tal Issei avançou para cima de Edmond, estendendo sua mão na direção da testa dele. O homem nem se mexeu. Quando a mão do mascarado o tocou, Sarah ouviu um estalo, viu os olhos do menino se arregalarem, e ele foi disparado para o chão.

— ISSEI! — A garota correu desesperada até ele. — Merda, o que aconteceu?!

Issei não parava de tremer no chão. Sarah acha que viu uma mancha de sangue se formando na máscara dele.

Sua companheira o ergueu com uma força impressionante e, sem tirar os olhos de Edmond, o arrastou para longe dali o mais rápido que pôde. Contudo, o homem assustador não fez nada para impedi-la. Para dizer a verdade, ele parecia entediado.

— Uma juventude perdida pela arrogância não merecia seu futuro.

Então ele se virou e andou de volta para seu lugar sob a árvore, só que parou ao olhar para a Sarah. Será que só agora tinha percebido a presença dela ali? Olhava para ela como se sua existência fosse um insulto pessoal.

— Você é seguidora de Zeref, não é?

Só agora tinha percebido que Angus não ria mais.

— Si… Sim, senhor.

Balançou a cabeça levemente, de novo aquela paciência assombrosa. Uma paciência de quem sabia que não precisava de muito esforço para destroçar o mundo.

Ah. Sarah tinha finalmente percebido.

Mas antes que pudesse se mexer, ele já estava com os dedos em volta de seu pescoço.

— Sinto muito que mentiram para você, criança. O único governante aqui sou eu.

Depois que Sarah já tinha apagado e seu corpo ser reduzido a um mero obstáculo no caminho da neve, Edmond já estava de volta ao seu cochilo. Minutos depois, Angus soltou uma risada.

Notas finais
Soreha, sayounara :)