Faded Hearts
18 Um Plano Engenhoso
Saímos das margens do rio partindo rumo a casa da família Moravia ao sul da cidade. Seguindo o leito do rio pelas ruas acima da área das margens, somos surpreendidos por um vento de congelar e de nuvens que começam a cobrir a lua cheia que iluminava as ruas silenciosas da cidadela.
−Então esse tal de Augusto causou toda a confusão para cima daquele homem que estava com o Grim.
−Hmm... entendi um pouco, mas não sei o que é uma fraude.
Enquanto percorríamos o caminho explicamos melhor as coisas para Selene.
−Uma fraude é uma tentativa de tirar proveito de certas coisas e falhas das leis de cada reino para favorecer outros e a si mesmo com um grande valor em dinheiro.
−O tipo mais comum é comerciantes tirarem proveito da falta de conhecimento da população sobre um produto e vender ele acima do valor real definido pela família real.
Fior tenta ensinar a Selene um pouco sobre os reinos. Não é algo tão grande assim, mas levando em conta que um caso de fraude chegou em nossas mãos junto a situação da presença de uma Sombra, é normal que a Selene aparente ter curiosidade sobre isso e até agora percebi que ela realmente não tem nada em comum com as Sombras que derrotamos nos últimos dias.
−Então, se eu tentar vender algo que sei o quanto vale e vender mais caro é uma fraude.
−Isso seria um crime certo?
Ela buscou um raciocínio junto a explicação e Fior acena com a cabeça concordando com o comentário da Selene.
−Oh! Entendi.
−Ei Hector, o que esse Augusto fez?
Empolgada ela ao lado da Fior me pergunta do caso de fraude.
−Pelo o que entendi, os dois se tornaram sócios para conseguir vender seus produtos para os reinos dos outros continentes.
−O Marques fabrica caixas de músicas com melodias tradicionais do reino de Ebrima e o Augusto é relojoeiro que fabrica relógios de bolso em bronze e ouro puro. Então o Augusto acusou seu sócio de apropriação indevida, porque segundo ele o Marques estaria usando seu nome nos relógios feitos pelo Augusto, afirmando ele ser o fabricante e verdadeiro dono.
−Segundo o conselho dos 5 reinos, chamamos isso de Apropriação Indevida de Propriedade Intelectual porque ele estaria fazendo uso do nome para se passar pelo dono do produto que vende.
−É uma acusação séria e somada a outra que seu sócio fez, acabou fazendo o Marques perder seu título nobre e com chances de ser preso depois de ser julgado.
−Eu diria que seria bem difícil dele se livrar das duas acusações juntas, até porque as duas são bem graves.
Tentei explicar as coisas de forma simples para matar a curiosidade dela.
−Esse cara deve ser muito esperto para conseguir fazer isso.
−Mesmo com o que você me disse não entendi tudo.
Você não entenderia isso tão fácil mesmo, eu demorei anos para entender as leis ligadas ao comercio e essa foi a mais difícil para mim.
O Augusto planejou tudo desde o momento que abordou a ideia de ser sócio do Benjamin, provavelmente tinha em mente usar a ambição e o desejo de ser reconhecido do Marques ao seu favor e persuadindo ele com ideias com teor ligado a esse reconhecimento, permitindo uma fácil manipulação dele.
Usou informações como sua ligação ao orfanato da cidade, para obter vantagens e por fim conseguir armar um roubo com uma doação falsa que no mesmo dia a noite foi roubado e deixado na casa do Benjamin. Para conseguir incriminar mais ainda ele, fez com que Benjamin se passasse por dono dos relógios para os comerciantes dos reinos do norte, que na verdade pertencem a ele e por fim acusou o próprio sócio de fraude por apropriação indevida.
Foi um plano bem inteligente, mas cheio de falhas e brechas que indicam ações dele por trás de todos os fatos, apenas com as histórias contadas pelo Benjamin e as informações que o menino Adam me passou consegui deduzir tais ações.
Para ser sincero, Adam foi de grande ajuda quando me entregou algumas folhas com informações do trabalho do seu pai e a relação de relógios que o Augusto deixou sobre posse do Benjamin.
−O que você pensa que está fazendo comigo? Eu sou o conde de Éter.
−Você não pode me expulsar de seu estabelecimento.
A voz de dois homens brigando ecoam na noite, justamente no lado contrário do leito do rio.
−Conde de Éter?
−Meninas vejam quem está no outro lado.
Chamo a atenção da Fior e da Selene para a cena de briga entre o dono de uma taverna e o nosso senhor problemático no outro lado da cidade.
−Hmm... acho que tive ideia.
−Melhor dizendo um plano bem engenhoso e tão problemático quanto o próprio conde.
Ele planejou o mal para com a família Moravia, então fazer ele pagar com o que ele mesmo causou não é algo tão ruim.
−Que tipo de plano você tem em mente?
Fior pergunta, curiosa sobre o que tenho em mente para limpar o nome da família do Adam.
−Bem podemos fazer...
Conto o plano improvisado para as duas de forma detalhada e o que cada um de nós deve fazer.
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Conforme o plano segui o Augusto pelas ruas escuras da cidade. Montei algo simples, mas que deve ajudar a derrubar a máscara desse homem, só preciso ir atrás dele até o local onde ele está hospedado e pôr em pratica a minha parte logo na entrada da pensão. Deixei ele tomar uma distância segura para eu poder segui-lo aproveitando as sombras entre os lampiões das casas que iluminam as ruas.
Espero que a Fior consiga convencer o Adam e sua mãe virem para a pensão, a Selene se encarregou de chamar as autoridades e só me resta dar um sinal informando o lugar onde estamos, assim eles ficam escondidos até eu conseguir desmascara-lo.
O vapor que sai da minha respiração demonstra o quão perto está o inverno, o vento está de congelar a gente e eu novamente esqueci de trazer um casaco.
−Ele caiu no chão?
−Parece que bebeu além da conta.
Observo ele tentar levantar sem forças em seus braços.
−Ah! Droga de vida.
−Enganar aquele idiota não me ajudou em nada, só fez eu perder tudo que tinha para vender.
Ele reclama se apoiando nas paredes das casas e olha para a janela da casa em que se apoiou na parede.
Não sei dizer exatamente o que ele está fazendo, fiz questão de tomar uma distância de 5 casas para aproveitar as sombras da cidade ao meu favor.
−Sigh! Vamos homem ande até a pensão logo, se não vai atrapalhar meu plano.
Sussurro baixo desejando que as coisas comecem a ser mais favoráveis.
−Bruh! Está frio demais.
−Ah! Ele voltou a caminhar devagar.
Uma noite tão fria assim é sinal de uma estação rigorosa esse ano e quanto mais ele demorar mais são as chances de tudo ir por água abaixo.
Ainda não me acostumo com esses lampiões na cidade, em Aeternam usávamos cristais de luz para iluminar as ruas e eram fortes o suficiente para deixar poucos lugares escuros e não atrapalhava para observar as estrelas no céu.
Começo a parar atrás da parede de cada casa por causa dele estar andando devagar e todo desiquilibrado por causa da bebida.
−Será que é a pensão?
−É difícil ver daqui.
Ao longe avisto uma placa comercial na parede de um pequeno prédio.
Estou bem longe de onde eu saí, provavelmente próximo à fronteira oeste da cidade pois até agora perdi um bom tempo caminhando.
−Ele parou de frente a aquele prédio.
−Ok, está na hora de pôr o plano em pratica.
Me arisquei me aproximando para ver a placa do prédio.
Certo, vou usar a ilusão espelhada para se passar pelo Marquês e iniciar uma conversa sobre os crimes que ele acusou, então tenho que segurar ele até Fior e Selene chegarem com companhia, mas primeiro vou sinalizar onde estou.
Concentro minha memória na imagem do Marques, tenho que parecer convincente na aparência e na voz.
−Ilusão espelhada!
−Certo, minha voz está bem parecida com a dele e agora vamos avisar as duas.
Saio da minha cobertura atrás da parede das casas e movimento meu braço direito para cima com uma pequena bola de luz amarela e lanço ela para cima.
Espero que consigam ver isso, a luz vai ficar ali até elas chegarem perto.
−Augusto, seu canalha.
−Como ainda tem coragem estar na cidade depois de fazer tudo isso?
Detesto essas formalidades entre nobres, eu devia ter nascido em uma família pobres mesmo.
−O que? Benjamin?
−O que está fazendo aqui a essa hora?
Ele caiu, acredita mesmo que sou o Marques.
É claro que a bebida colaborou.
É só distrair você tempo o suficiente para chegarem perto e escutar sua confissão de crime.
−Vim acertar as contas com você?
−Perdi tudo e minha família caiu na desgraça graças a você.
O homem sorri apoiado na porta da pensão.
Nem se aguenta, mas ainda quer tirar sarro né.
−Haha! Como você é tolo.
−Realmente acreditou que vim te ajudar com aquelas porcarias de caixas de músicas?
−Meus relógios são feitos para a realeza, mas ninguém deu valor a eles e nem mesmo os nobres desse fim de mundo querem comprar meus tesouros.
−Então eu soube do seu sucesso e decidi embarcar na fama de suas caixas para valorizar as minhas obras de arte, fazendo essas coisas serem lixo comparado aos meus relógios.
Hiss!
Observo um vulto passar por atrás dele.
Boa Selene, agora as autoridades estão escondidas nas proximidades e foi mais rápido do que pensei.
−É tão bom quando tem uma pessoa bêbada admitindo seus crimes.
Fique paradinho seu conde tolo.
Splash!
A Selene pega um balde com agua da chuva e joga no Augusto.
−Ah!
Ele foi pego distraído, mas tem mais uma surpresinha.
Vou até uma das casas e encontro um balde de agua, o habito de recolherem agua da chuva dessa cidade vai me ajudar.
Splash!
Jogo mais agua nele agora diretamente no seu rosto.
−Opa, escorregou.
−Agora você deve estar bem o suficiente né Augusto?
Com certeza isso irritou ele, mas com o tempo que perdi seguindo ele deu tempo o suficiente para a Selene se adiantar no caminho e chegar mais rápido aqui.
−Errrhuh! Você é mesmo um idiota desprezível Benjamin.
−Quer mesmo saber mesmo o que fiz?
−Eu mesmo roubei o orfanato da cidade na noite anterior a sua acusação, visitei aquele lugar imundo várias vezes com doações para saber exatamente onde aquelas mulheres inúteis guardavam o dinheiro.
−Coloquei a caixa de doações dentro do armário onde você guarda aquelas caixas de música para quando você chegasse na sua loja de manhã, as autoridades estivessem a sua espera.
Funcionou ele se irritou o suficiente para confessar o crime sem pensar duas vezes, é hora da encenação.
−Então foi você mesmo? Não tinha como alguém saber onde eu guardava as caixas de música e as minhas ferramentas.
−Não acredito que você fez tal coisa.
Os lampiões atrás dele e os outros a nossa volta são apagados, eles estão prontos para agir a qualquer momento.
−Muh-haha! Foi fácil demais, mas ainda era pouco.
−Então inclui na acusação o caso de Apropriação Indevida, dizendo que você gravou seu nome nos relógios que eu fabricava.
−Certamente, me encarreguei de falsificar sua rubrica na tampa da pilha dos relógios e como esperado os policiais caíram nessa como patos na lagoa.
Isso mesmo continue, é uma questão de tempo para você ser pego.
−Papai!
Fior chega trazendo o Adam e a esposa do Benjamin, para eles sou o Marquês e a ilusão só engana eles por causa da luz do lampião.
−Filho! Querida!
−O que vocês estão fazendo aqui?
As aulas de teatro estão me salvando hoje.
A esposa dele tem cabelos loiros levemente ondulados e caídos sobre o ombro e o busto, olhos verdes e traços delicados no rosto. Porém ela está magra demais, devido ao adoecer repentinamente e não conseguir comer, mas ainda ela é bonita e sabe se vestir bem com uma camisa social de manga longa com detalhes florais no tecido próximo aos botões, uma gravata vermelha e uma saia longa preta.
−Ora só, a família inteira está aqui.
−Muito bem pelo menos economizo tempo para matar todos.
Click!
−Diga adeus a sua família Benjamin.
Espera uma arma escondida no casaco não é bom.
Click! Click!
−O que? Não acredito que isso está molhado.
É obvio que não iria funcionar se molhasse, como ele pode ser tão burro para um adulto?
−Eu mereço cada dia da minha vida.
−Você esqueceu de apenas um detalhe, por dentro dos ponteiros dos seus relógios tem um nome escrito e advinha só era o seu.
−Não tem como eu me passar por dono deles sendo que o nome do criador sempre esteve lá.
Então retiro os óculos que estou usando para avisar as autoridades que terminei.
−Humpf! Você? Como soube? Mas isso não importa mais.
−Dessa vez não vou cometer o mesmo erro, essa outra arma não está molhada.
Click!
Ele puxa outra arma do seu casaco e aponta para mim.
Bang!
Bang! Bang!
Os policiais aparecem atirando no Augusto antes de acontecer alguma tragédia, eu não conseguiria fazer nada até porque colocaria a família do Benjamin em risco se saísse da frente.
A mira deles é boa, o primeiro tiro foi na arma que ele derrubou na hora, o outro atingiu o ombro e só não vi onde foi parar o último.
−Pegamos ele.
Três policiais armados saem das ruas escuras com as armas apontadas para o Augusto.
−Acho que os senhores mataram ele.
Quando chego perto vejo uma perfuração no peito dele que atingiu direto o coração.
−Parece que sim.
−O senhor e sua família estão liberados, podem ir para casa em paz e não se preocupem, logo de manhã enviarei uma carta inocentando a família Moravia de seus crimes.
−Muito obrigado.
O delegado me agradece pelo apoio enquanto seus colegas pegam o corpo do conde de Éter.
−Não foi nada.
Aperto a mão direita dele e vou até a Fior, Adam e a mãe dele.
Que susto foi aquele, por pouco não virei alvo dele.
−Ei você está bem? Hector.
Quando chego próximo deles, Selene aparece de longe gritando.
−Você não é meu pai?
O menino olha para mim triste e desfaço a ilusão espelhada voltando a minha real aparência.
−Receio que não, na verdade seu pai morreu.
−Quando encontrei ele era tarde demais, já estava sob o controle de uma Sombra que ele fez um contrato e antes de morrer ele deixou isso cair.
Vejo as lagrimas escorrerem seu rosto enquanto entrego os óculos do Marquês que eu estava usando no disfarce.
−No desespero ele acreditou em uma Sombra e que poderia conseguir provas de sua inocência.
−Sem perceber virou uma marionete assassina.
−Senhora Moravia, me perdoe.
As lagrimas da mulher caem uma a uma enquanto cobre sua boca com as mãos em um leve choro discreto.
−Senhora, por favor acalme-se.
−Você ainda está muito doente.
Fior apoia ela em seu ombro quando ela perde o equilíbrio.
Mexer com as Sombra só significa morte para si mesmo e sofrimento para quem vive as lembranças de você.
Não há escapatória e agora eu sei disso melhor do que ninguém.
−Adam, seu pai me disse uma coisa.
−Ele nunca deixou de pensar em você e em sua mãe.
Tento animar o menino chorando enquanto segura os óculos de seu pai.
−Ei Hector!
−Vamos voltar, eles não podem ficar aqui fora nesse frio.
Selene puxa a manga da minha blusa com um traço diferente no seu olhar, nunca pensei ver ela demonstrar tal imagem em seu rosto.
A pior parte disso tudo é a família não ter como sepultar o pai desse menino e ele poderia me culpar por tudo o que aconteceu.
−Certo, vamos então.
−Senhora Moravia, Jovem Adam! Vamos para casa, se ficarmos aqui vocês vão ficar doentes.
Fior convence a esposa do Marquês a voltar conosco.
−Hum!
Ela responde movimentando a cabeça.
Partimos para a casa deles e quando chegamos lá explicamos tudo o que aconteceu, como também o motivo estarmos na cidade. Adam dormiu cedo abraçado com o único objeto que seu pai deixou e depois de entender tudo a senhora Moravia pediu que passássemos a noite na casa dela como agradecimento por salvar seu marido do caminho do mal, mesmo que isso significasse a morte dele.
A única coisa que ficou em nossa mente é porque esse Marian Cross executou o Benjamin Moravia? Fior recolheu os projeteis que pararam na parede, possivelmente ela vai entregar para o Leon quando voltarmos.
Dormir à noite foi impossível, a história das Sombras está além da nossa capacidade de conhecimento e compreensão.
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