Faded Hearts

19 O Convite de Moria


Quando voltamos para casa, Fior aparenta estar curiosa sobre o que fiz ontem à noite. A forma que consegui obter informações e deduzir tudo aquilo deve ser o que deixou ela dessa forma.

−Hector! Fiquei pensando aqui comigo.

−Como você descobriu tudo isso e sabia dessa história dos relógios do Marques?

Ela pergunta exatamente o que pensei enquanto caminhávamos pelos jardins da entrada da mansão.

Além dos portões, tem um caminho feito de paralelepípedo que vai até chegar a entrada entorno de um chafariz simples, aos lados um grande gramado baixo parecendo um tapete com arvores comuns dessa região como mogno, pinheiro, bordo e carvalho que seguem até os muros da mansão.

Comparado as mansões de Aeternam onde morávamos, essa é bem simples e muito bem pensada.

−Quando me distanciei de vocês, acabei conhecendo o Adam ao ajudar ele a se livrar de uns meninos encrenqueiros e nisso descobri que a causa da briga e sua tristeza era o pai que foi acusado injustamente.

−Então escutei sua história melhor, antes de nos separarmos ele me entregou algumas folhas com informações que ele não entendia e no meio delas tinha uma carta com detalhes sobre como o Marques agiu com relação a venda dos relógios.

−Junto com isso ele entregou a foto do seu pai para encontra-lo.

−Então logo que nos deparamos com o Grim reconheci o homem como o pai do menino e por isso fiz o que fiz.

As duas me escutam atentamente enquanto caminhamos rumo a porta de entrada da mansão.

−Só precisei da informação correta para entender melhor aquelas informações que eu tinha comigo.

−A presença do sócio clareou minha compreensão do tema e ao saber o nome do responsável facilitou completamente o meu raciocínio.

−O conde de Éter costumava ser dor de cabeça para o meu pai e para o Lorde Ebrima, ambos receberam inúmeras reclamações em relação as suas trapaças e tentativas de se dar bem.

−Ele não foi preso graças ao seu título nobre.

As duas parecem estar bem surpresas com minha dedução.

−O que?

−Mesmo assim como você desmontou todo o plano dele dessa forma?

−Eu precisaria de muita informação para conseguir recriar o plano dele com aquelas informações que você me mostrou.

Fior ainda não acredita que eu tenha conseguido montar todo o plano do Augusto de tal forma.

Foi mais difícil do que ela imagina, mesmo com muita coisa fragmentada recriei tudo aquilo logo quando li tudo e a conversa vaga com o Marques só completou minhas suspeitas, os anos de estudo com aqueles professores chatos realmente vem sendo uteis a cada dia que passa.

−Se fosse você, tenho certeza que conseguiria fazer a mesma coisa.

−À primeira vista pareceu difícil, mas quando parei e prestei atenção, entendi tudo bem rápido.

Ao escutar o que falo, ela sorri contente como um passarinho com chegada da primavera.

−Não, não, isso é algo que só você e a May conseguiriam fazer.

−Vamos entrar, parece que o Leon está em casa pelas vozes que dá para escutar daqui.

Fior percebe as vozes das pessoas dentro da mansão, logo ao chegarmos na frente da porta e ela pôr a mão na maçaneta.

Entramos na mansão rumo direto as escadas, dá para escutar a voz de um homem, a voz da May e da Fior de onde estamos.

−Eles devem estar na sala de estar de cima.

−Normalmente quando Leon vem visitar, elas levam ele para a sala perto dos quartos.

Fechando a porta ela passa por mim e a Selene, subindo as escadas em nossa frente e então seguimos ela até onde os 3 estão conversando.

−Ah! Vocês chegaram.

−Olá novamente, Hector.

Leon sentando de frente com a porta, percebe a nossa chegada no corredor.

Entro na sala, onde os 3 estão com xicaras de chá branca com pires no colo e conversando sobre algum assunto que eu acredito ser relacionado a Arcadia.

−Fufu! Parece que vocês chegaram na certa, estávamos conversando com o Leon sobre os eventos de fim de ano.

Ao Fiore terminar de falar, Leon e May acenam com a cabeça afirmando o assunto da conversa.

−Sente-se ao meu lado, você e a Selene por favor.

−Temos um assunto a resolver.

May sorri enquanto bate com sua mão esquerda no assento do sofá.

Esse sorriso muito alegre, não me parece muito convidativo e duvido que ela não tente agarrar a Selene em um abraço de urso, como ela diz.

Selene sentou ao lado da May, eu a segui sentando no lado dela e Fior sentou-se entre a Fiore e o Leon, que está com aquele terno branco para lá de esquisito.

−Fior, o Lider de Moria nos mandou os convites para o Festival do Anciões.

−Leon trouxe eles para nós e foi informado que o evento vai ser diferente, dessa vez vai durar o dia inteiro.

Olhar da Fior não é muito alegre, suas sobrancelhas inclinaram e seus lábios estão retos como se estivessem colados.

Como normalmente a Fior tende de ser a mais alegre e positiva das irmãs, esse comportamento parece ter incomodado os 3 e aquela alegria aos poucos se desfaz em olhares sérios.

Até onde eu sei, ela nunca gostou do final do ano porque a Fior e a May ficavam muito ocupadas com os eventos que se apresentavam e não tinham tempo para passar o natal e o ano novo com ela.

Entendo o porquê dessa reação dela, mas no meu caso isso ocorria direto por meu pai ser o próprio rei de Aeternam. Ela aos poucos ficou distante de suas irmãs, graças ao trabalho que Fiore e May escolheram.

−Entendo.

−Então vocês vão demorar mais nessa festa e provavelmente quando voltarem terão de sair em breve porque daqui 7 dias tem as festas das outras cidades e o evento no teatro na capital de Braska.

Ter duas irmãs famosas por cantarem tão bem músicas tradicionais e em grandes musicais, deve ser difícil para ela e deve ter sido mais difícil depois do meu sumiço para o Chaos porque ela ia até em casa para passar o tempo com as minhas irmãs.

Acredito que eu tenha que interferir nisso.

−Hmm... eu ouvi falar desse festival.

−Mamãe dizia que ele é muito bonito e também muito divertido.

Logo que eu comecei a falar chamo a atenção de todos.

−Né... May! Você consegue um convite para mim?

−Ah! Não esqueça da Selene também.

A sobrancelhas de Fior se levantam de surpresa com meu tom de voz animado e até suas mãos parecem estar livres da tensão que passava em sua mente quando ela abre as mãos sobre suas pernas.

−Ei! Não me meta nessa história.

−Eu não quero ir nessa cidade, isso parece ser muito cansativo.

Sua encrenqueira de uma figa, vou acabar com você se não ficar quieta nesse momento.

−Claro! Vou pedir para eles mandarem os convites.

−Selene você vai conosco com certeza.

No meio da conversa, May abraça a Selene por um descuido da atenção dela.

−Ei! Me largue!

−Você está me apertando.

A Selene é pequena e para a May é fácil puxar ela para o seu colo com aquele abraço forte dela.

Vai por mim, você não vai querer ser abraçado por ela. May não tem controle de sua força e pode facilmente te esmagar com os braços ou quebrar algum osso.

−Temo que não possa fazer isso.

−Você é muito fofa para eu deixar você ir.

As vezes não entendo o que passa na cabeça dessa mulher de cabelos brancos.

−Hehe! Fior você não quer ir junto com a gente?

−Não vai ser divertido sem todo mundo.

Vocês faziam isso comigo antes, agora vou dar o troco e bem que eu queria saber fazer aquele olhar de gato sem dono como a Selene faz.

−Hurmm! Entendi.

−Eu vou com vocês nesse festival.

Mesmo resmungando como uma criança quando não quer ir visitar a tia chata, Fior aceita ir junto com nós para Moria.

Daqui para frente as irmãs dela vão ficar bem ocupadas, então não veremos elas com frequência e essa pode ser a oportunidade perfeita para elas aproveitarem o tempo juntas.

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Após muita conversa sobre os eventos de final de ano e um planejamento para a festa de natal com todos juntos, Leon entra no assunto da Sombra que ficamos responsáveis.

−A propósito, como foi com a Sombra daquela cidadela da fronteira sul?

−Se é que tinha alguma Sombra.

Leon demonstra curiosidade com relação a toda aquela confusão.

−Encontramos a Sombra, no mesmo dia que chegamos a cidade e era chamado de Grim segundo a Selene.

−Ele conseguiu manipular o Marques de Moravia e transforma-lo em uma marionete assassina por cerca de 7 dias.

Fior inicia a explicação da situação solucionada.

O Grim só conseguiu tal feito porque o desespero no coração daquele homem era maior que sua força de vontade de superar as dificuldades e todos os nobres não querem viver como a população normal, considerando a vida deles como pobreza e desgraça.

−7 Dias? Então se tratava de um bem inteligente.

−Na verdade ele sabia exatamente o que fazer, até mesmo atraiu a Arcadia para ele e depois era simplesmente matar qualquer um com o nosso uniforme.

Leon reparou no comportamento das Sombras ultimamente e pelo que parece estamos lidando com Sombras que possuem um padrão de comportamento.

−Vou lhes dizer uma coisa que vim reparando nos últimos meses, antes mesmo do Hector voltar do Chaos.

−Essas Sombras vem agindo de forma diferente do normal, como se quisessem atrair a Arcadia para elas.

−Não sei porque, mas eles vêm deixando suas ações visíveis e assustam a população de forma que aparenta ser proposital.

−Desconfio que tenha alguém por trás disso.

Ele movimenta uma colher de chá entre os dedos incansavelmente.

O que ele está pensando? Ao meu ver ele está maquinando algo em sua mente?

−Quem pode estar por trás disso?

A curiosidade da Selene entra em ação.

−Só tenho um nome para isso...

−A Vontade do Chaos.

O olhar serio dele reflete o medo que passa em sua mente.

−Vontade do Chaos?

−Aquela dimensão tem vontades ou algo assim?

Selene e seu raciocínio infantil e inocente.

−Ahaha! Não é bem assim.

−É como a Arcadia chama o núcleo do Chaos.

−A Arcadia acredita que o núcleo do Chaos tem não só vontade própria como vida, seguindo a teoria de 200 anos atrás do Glen Grave.

−Esse nome foi dado graças aos livros escritos pelos Noxia e entregue para os 5 reis que dominavam o continente por volta do ano 207.

É interessante esse nome que o Leon disse.

Glen Grave foi considerado o causador do desastre de Perpetua e membro fundador da Graveyard. Em minhas leituras me deparei com livros escritos por ele, ligando o passado de desastres no continente ao povo do Rei cinza e sua religião.

−Mas considerar essa possibilidade parece ser absurda.

−Aquela dimensão sempre foi considerada uma prisão para os piores criminosos.

Fior levanta seu tom de voz sem perceber.

−Eu sei que pode ser completamente absurda essa ideia, mas com as últimas ações das Sombras nas fronteiras, acredito que isso pode acabar sendo verdade.

−E se for verdade, a Arcadia vai agir e fazer coisas inimagináveis para chegar até o núcleo.

Aquela movimentação com a colher de chá para e ele deixa o talher sobre o braço do sofá.

O núcleo do Chaos pode ser na verdade uma entidade ou algum outro ser vivo e não espiritual. Sendo isso confirmado, explica muitas ações estranhas vindas das Sombras e porque estão atacando o mundo real com mais frequência, mas não explica o porquê de eles conhecerem e perseguirem a Selene.

−Isso seria um desastre se tornando realidade.

−Podemos nos deparar com Sombras atacando diretamente a própria Arcadia e até mesmo chegarmos a uma guerra, tendo em vista que dois membros do conselho da Arcadia são muito extremistas.

Fior levanta suas sobrancelhas e suas pupilas diminuem quando tem ciência da situação atual em relação as Sombras.

−Seria algo muito fatal e ameaçaria todo nós, incluindo a população inocente.

−Suspeito que dessa vez vou ter de agir seriamente e parar de ficar sentada estudando as possibilidades.

May entra na conversa de forma inusitada com seu tom de voz calmo e profundo.

−Calma, irmã.

−Não será necessário você agir assim, devemos pensar com calma para então tomar uma ação correta.

−Pensar nisso agora não é muito bom, daqui 3 dias temos um evento importante e um momento para aproveitarmos juntas sem brigas.

Fiore de braços cruzados interfere a May que aparenta puxar essa responsabilidade para si.

−Quando essas 3 se reúnem é uma surpresa atrás da outra né?

Leon faz um comentário para mim enquanto as 3 três começam a conversar entre si com a Selene no meio.

−Erghhh! Ahhh! Agora me deu uma vontade de dormir.

−Vou me retirar e arrumar minhas roupas para sairmos amanhã.

Ele se espreguiça de pé esticando seus braços para cima.

−Ah! Leon espere um segundo.

Fior sai da conversa com suas irmãs chamando a atenção do Leon que estava preste a sair da sala.

−Quando enfrentamos o Grim, alguém matou ele e seu contratante com tiros.

−Desconfio que seja o Marian, então trouxe esse projeteis.

Ela entrega nas mãos do Leon os 3 projeteis que ela encontrou na parede da margem do rio que cruza aquela cidade.

−Esse projeteis... não pode ser.

−O que ele estava fazendo lá?

−Tsk! Não acredito que aquele irresponsável se meteu nos meus assuntos.

Aquela aparente preguiça muda com um tom de voz agressivo e bravo vindo do Leon.

−Não se preocupe Fior, vou me encarregar disso antes de voltar para casa.

−Agora se me permitem, nos vemos amanhã.

Ele se despede rápido de todos nós e caminha apressado para o corredor, apertou os próprios punhos como uma aparente raiva.

−O que deu nele? Esse cara era tão calmo quando conheci.

−Tem algo a ver com o Grim?

Selene percebe a mudança repentina de comportamento do Leon e fica curiosa.

Fior acena com a cabeça em resposta.

É estranho ver ele dessa forma, isso significa que esse Marian é mais perigoso do que eu imaginava. Matar o Grim apenas com aqueles tiros não é algo comum de se ver, Fior afirma que ela precisaria de uma Sombra para ajudá-la e o mesmo vale as irmãs dela.

O que lhes resta como única forma de matar as Sombras, é matar o próprio contratante e tendo que carregar o peso de matar pessoas inocentes que são manipuladas pelos seus desejos.

−Agora vamos preparar nossas coisas para viajar.

Todos nós levantamos quando a Fiore nos dá a ideia de arrumamos nossas roupas para a viagem de amanhã. Vai ser importante para todos um pouco de descanso dessa história de Sombras.