Faded Hearts
33 O Passado de Leon
Disposto a nós contar sobre seu passado, Leon deixa sua postura hostil e se apoia no encosto de um banco. Cruzando os braços, ele olha para a Fior, enquanto aparentemente parece encontrar palavras para contar sua história.
−Há mais ou menos 100 anos atrás, eu era servo de uma família de nobres de Moria.
−Foi o período que várias cidades se separaram de Aeternam e de Braska, em prol de criar uma união para se ajudarem.
−Os nobres dessas cidades entraram em um acordo de cooperação, mas em pouco tempo começou uma disputa entre todos os nobres da recém-formada União Moria, por causa de uma ideia de criar um novo reino para conseguirem se fortificar e ter espaço no conselho de Arcadia.
Pouco a pouco, ele começou relembrando os fatos muito importantes da criação de Moria, até onde eu estudei foi um período marcado por muitas mortes de famílias nobres inteiras e uma crise social ligada aos orfanatos, explodiu em menos de 3 anos.
−Meu senhor era de uma família com bastante influencia na união, ele e sua esposa passaram a sofrer com ameaças mandadas por cartas.
−Um mês antes do Advento, ele e sua esposa iam a uma festa com famílias de grande poder, mas antes de sair, ele pediu que eu cuidasse da filha deles, caso algo acontecesse com eles.
−Alice tinha apenas 6 anos e não compreendia a situação atual em que estávamos vivendo.
−Saber o que é ter medo de sair e não saber se volta vivo, a preocupação com as crianças e o crescente aumento de morte de forma desconhecidas.
−Nessa noite, coloquei a Alice para dormir as 9 horas e li uma história junto com ela.
−Ver aquela menina de cabelos loiros e ondulados, dormir em paz, fazia eu sentir um pouco de esperança de que tudo em breve se resolveria, mas isso foi algo que eu decidi acreditar.
Silenciosamente escutamos suas palavras e sem muita descrição da família, ele preferiu ter foco na filha do casal e seu olhar se direciona para o chão parecendo esconder sua expressão.
−Fiquei a noite toda acordado, à espera da volta dos pais da Alice e próximo de amanhecer, acabo por cair no sono.
−Até que sou acordado por uma das empregadas, que estava ofegante, com as pupilas dilatadas e chorosa diante de mim.
−Eu perguntei o que aconteceu e ela me responde, dizendo que os dois foram encontrados mortos ao amanhecer, próximo ao rio que cortava Moria.
−Sem saber como explicar isso a Alice, pedi a uma das empregadas contar isso a ela calmamente, enquanto fui atrás de pessoas para me ajudar com o enterro dos pais dela.
−Fui até o local que a empregada me disse e vi uma grande quantidade de pessoas ao redor de algo, foi quando me enfiei no meio deles e descobri a verdade.
−O estado dos corpos era horrível, tinha muito sangue por todo lado e membros arrancados... além dos rostos desfigurados, só fui capaz de saber que eram eles pelas roupas e o anel que representa a família deles.
As mortes desse tipo eram bem incomuns, até a Arcadia descobrir que a família Myr era a responsável por tudo com sua ligação com o grupo de assassinos da Graveyard. Esses assassinos eram dominados por Sombras que fizeram contrato, se tornando monstros macabros em pele humana e ficavam escondidos do contato com a sociedade nos pés das montanhas Baljthet.
−Enterramos os pais da Alice ao pôr do sol, a pequena chorava muito diante ao tumulo dos pais.
−Então pedi para as empregadas leva-la para a casa, enquanto eu iria atrás do culpado a noite, mesmo que isso fosse custar a minha vida.
−Mas passei a noite inteira caminhando e não encontrei um vestígio se quer, desesperado e completamente perdido, tomo o caminho de volta.
−Até um estranho som vir de um beco atrás do famoso bar da cidade e quando entro para verificar, sou pego de surpresa por um Sombra.
−Sua aparência era de um tronco de uma armadura portando uma lança, ele me ofereceu um contrato dizendo que se eu ajudasse a aumentar seu poder, ele mudaria meu passado e traria de volta meu mestre e sua esposa.
Os gestos do Lorde Braska dizem, que a resposta era óbvia, levando em conta a situação e o estado emocional que Leon estava naquele momento. Minha mente também me levou a tal raciocínio e acredito que os outros pensaram a mesma coisa.
−Depois de um tempo, acabei aceitando sua proposta e foi quando eu realmente deixei de ser quem eu era.
−Desde aquela noite, nunca mais voltei para casa e passei a matar todos os nobres corruptos que eu conhecia.
−Um a um, eu matei todos aqueles que eu desconfiei, mas isso me rendeu uma fama, na cidade só falavam de um tal de Demônio de Sangue e logo descobri que se tratava de mim.
−Perdi o controle e comecei a matar todos na minha frente, sempre ao cair da noite, mas a Sombra não tinha força o suficiente para se libertar do selo do contrato.
−Até que o selo se completou, no final do ciclo de um mês, senti uma forte dor no peito onde ele se encontrava, em poucos segundos um selo azul com inscrições anciãs fica entorno de mim e meu chão desaparece me jogando em uma completa escuridão.
Braska demonstra uma reação no seu olhar, possivelmente algo sobre os selos.
−Um mês é?
−O contratantes ilegais tem um tempo de vida junto com a Sombra, além de compartilharem isso, temos os ferimentos e o pensamento, unindo os dois em apenas um.
−Então nesse único mês unidos, os dois devem ter poder o suficiente para se livrarem do selo e das amarras do Chaos ou caso contrário são levados para a parte mais obscura da dimensão.
−Eu acreditava que o tempo junto com a Sombra variava de uma pessoa para a outra.
Com sua voz mediana e baixa, Braska explica alguns detalhes de conhecimento da Arcadia, principalmente do conselho que tenta lidar com essa crise a anos.
−Espera um mês, então porque eu e a Selene não caímos no Chaos?
−Faz 3 meses desde quando saímos daquela dimensão, o selo atrás do meu ombro esquerdo continua intacto e sempre foi preenchido de preto.
Isso faria de mim uma exceção à regra, agora imagino se é por causa de mim ou dela, que todos conhecem como a Sombra mais poderosa do mundo.
−Era isso que eu buscava entender, mas com essa história de sermos atraídos para uma armadilha do Marian.
−Atrapalhou as minhas pesquisas, chegando na situação em que estamos.
Leon está com rancor do general de Fogels, ainda mais porque ele conseguiu engana-lo com facilidade, mesmo ele sendo considerado um dos mais sábios, quando se trata de Sombras.
Essa história está nós levando a um caminho que eu não gosto muito.
−Leon, prossiga por favor.
−Quero saber como é o Chaos, através de suas palavras.
Braska se levanta e bate com o leque na palma da sua mão esquerda para chamar a nossa atenção. Seu olhar penetrante, observa cada gesto nosso e analisando cada palavra citada em nossa conversa.
−Sim, vamos continuar.
−Alguns segundos depois na completa escuridão, eu caio sobre o chão, então ao abrir meus olhos percebo que estou em um quarto de menina.
−O chão tinha azulejaria tradicional em xadrez, o formato do lugar era arredondado, tinha duas prateleiras com bonecas de pano e de madeira.
−Até uma voz começar a falar, dizendo meu nome.
−Era uma menina com idade de 14 anos, cabelos brancos com uma traça no lado esquerdo no mesmo tamanho do cabelo, olhos azuis com círios longos brancos, pele pálida e um vestido branco cheio de detalhes com cordas, mangas amarradas sobre os seus braços e no pescoço uma faixa branca com rosas azuis.
−Havia algumas bonecas que flutuavam perto e conversavam com ela, talvez fazendo companhia.
−Ao começar a falar comigo, questionei ela se me transformaria em uma Sombra como aquele que eu fiz um contrato e quando ela, parecia responder, a Sombra que me trouxe tentou impedi-la.
−Naquele momento seu tom sereno e calma durante a conversa muda para um tom de loucura e insanidade ao destruir a Sombra de dentro para fora.
−Ao vê-la tão enfurecida pensei que iria fazer o mesmo comigo, até porque o medo tinha tomado conta de mim, mas repentinamente um relógio flutuante aparece com os ponteiros marcando 4 horas, foi quando ela fala em hora do chá.
−Os moveis do quarto se movimentaram sozinhos, até uma mesa de jardim com uma cadeira se arrumam atrás dela junto com uma toalha rendada, logo após uma chaleira de cerâmica e uma xicara com uma colher aparecem.
−Ela do nada se acalma, sentando na cadeira e coloca o chá para ela tomar, todos os itens de chá como pratos, açucareiro e colher, se posicionaram sozinhos na mesa, juntamente com duas bonecas que estavam com a garota ao conversar comigo.
A forma que o quarto é descrito, lembra aquele quarto que passei duas vezes na dimensão das memorias, era o quarto da Selene, mas por algum motivo no Chaos existe um igual. A menina também, consigo imaginar a Selene porem com cabelos e círios brancos, usando aquele vestido claro cheio de detalhes florais.
−Essa menina se parecia com a Selene, porém seu comportamento é diferente, ela é refinada, fala baixo e seus gestos são mais delicados como se ela fosse uma princesa.
−Mas toda aquela serenidade foi abalada do nada, quando a dimensão começou a tremer como um terremoto e a menina, que parece controlar tudo, cai no chão dizendo que seu cabeça está doendo muito.
−Incapaz de me mover por não ter mais força nas pernas, tentei me arrastar até ela e quando toquei em seu ombro, sua aparência mudou para uma igual a Selene, a cor dos cabelos e dos olhos.
−Com lagrimas nos olhos, ela grita o nome Hector e Raposa, não entendi isso na época, mas você e a Selene parece ter conhecido ela.
Braska e Leon olham para nós de forma diferente como se escondêssemos algo de todos, como espiões trabalhando para essa menina e a dimensão do Chaos.
−Ao perceber a minha presença, a garota me pede para salvar os dois, como eu não tinha nada a perder, fiz um acordo com ela, que me mandasse para um tempo onde a família que eu cresci como servo para vê-los vivos e assim poder ajudar de lá.
−Toda a dimensão continuou a tremer e mesmo deitada com um aparente dor no olhar, ela abre um portal que me puxa para fora dali.
É bem difícil de acreditar em tal história, porém os detalhes da menina e do quarto são os mesmo que vi na dimensão do Cherry e nas memorias da Selene.
−Todos os indícios do que eu aprendi sobre o Chaos, me leva a crer que aquela menina é o núcleo do Chaos.
−Ou como a Arcadia chama, ela é a Vontade do Chaos.
Fechando o leque que cobre sua boca, Braska se levanta logo ao Leon terminar de falar e começa a andar até o palco e voltar. Ele parece estar raciocinando as informações da história de forma mais profunda.
−Pois bem... isso tem sentido, se você caiu no centro do Chaos e quem controlava aquele lugar era essa menina, podemos afirmar que ela é o núcleo do Chaos.
−Entre outras palavras o principal objetivo da Graveyard e do Fogels.
Quando ele para de caminhar, relata sua análise da história e também conclui de forma simples. Sua postura diante de nós parece mais leve, aquele tom ameaçador e hostil não está mais presente.
−Hmm... entendo, mas isso não explica como você parou na Arcadia.
−O que aconteceu quando você voltou para o mundo humano?
Fior com um tom de voz mais sério e estridente, demonstra interesse em tal fato.
−Quando voltei fui resgatado pela guarda de Arcadia em Ebrima e assim que me recuperei dos ferimentos, parti em busca de informações e descobri que fazia 40 anos da época que eu estava.
−Viajei até Moria e soube mais sobre a família do meu mestre, foi quando encontrei uma das empregadas que trabalhava cuidando da Alice.
−Ela me disse que a família sobreviveu ao período de assassinatos em massa de nobres de Moria, mas a família inteira morreu 1 ano depois, vítima de um contratante ilegal completamente fora de controle.
−Senti que todo meu trabalho para manter aquela menina feliz e segura foram para nada, apenas adiei o inevitável.
−Foi quando decidi entrar na Arcadia e caçar todos os contratantes ilegais para evitar que outras famílias sofram o mesmo que a da Alice, também descobri que eu lentamente estava me transformando em uma Sombra como consequência das minhas ações.
−...
−Essa é a parte que ainda está em conflito dentro de mim, sem se conformar com o que aconteceu.
Leon senta em um dos bancos, colocando os cotovelos sobre as coxas e a cabeça apoiada nas mãos, seu olhar está para baixo e se mantem em silencio desde então.
Aqueles gestos me fizeram entender que ele nunca contou isso a alguém e preferia enterrar tais sentimentos em seu coração, sofrendo em silencio durante anos, procurando uma forma de esquecer tudo.
Não precisa ver sua expressão.
−Leon, você está virando uma Sombra mesmo?
−Minhas irmãs disseram que tinha algo diferente em você, mas nunca imaginei algo do tipo.
Fior se aproxima dele, sentando na fileira de bancos atrás para tenta consola-lo de alguma forma, ela é a mais doce e gentil das irmãs Alma e busca ser a melhor companhia nesses momentos.
−Hmm... isso é inesperado.
−Peço perdões por minha imprudência em insistir em sua história.
Lorde Braska chega perto dele e da Fior, entregando seu leque, que é deixado sobre o colo do Leon, com um sorriso discreto e um olhar confiante.
−Sua história confirma meu maior medo desde quando eu era criança, então realmente existe a Vontade do Chaos.
−Eu realmente não devia fazer isso, mas...
−Gostaria de propor algo a todos vocês.
Todos nós passamos a ter atenção diante as palavras do líder do reino da cultura, conhecemos a sua fama e também temos ciência de seu grande conhecimento.
Selene puxa meu colete e fica um pouco atrás do meu ombro direito, como esperado, ela não confia muito nele. Fior e Leon olham atentamente para o sábio rei com a mão direita no queixo, pensando em algo.
−Hm! Isso!
−Hector como você é o atual líder de Aeternam, mesmo não oficialmente, proponho uma aliança entre nossos reinos para impedir o avanço de Fogels sobre as terras desse continente.
−Quero parar com essa maluquice dele, antes que isso se torne uma grande guerra.
−Também vamos encontrar a Graveyard e acabar com essa ideia de tomar o controle do Chaos.
−Todas essas atitudes já passaram do limite e por causa de limitações, a Arcadia não pode agir diretamente.
−Eu cuido das informações e faço as mediações entre os reis, enquanto vocês fazem a parte da ação.
−O que pensa dessa ideia?
Suas palavras para mim, chegam de forma que mostra uma certa revolta com a atual Arcadia e parece que temos os mesmos ideais de paz, tanto que fico desconfiado com isso.
O que mais preciso agora é liberdade para agir e um plano bem estruturado, pelo menos permitindo improvisos para imprevistos.
Com essa aliança, tenho o necessário para começar meu trabalho de recuperar minha terra natal e derrubar Fogels de seu trono. Sei que vou precisar ceder algum tempo para ajudá-lo com seus problemas, mas se unirmos forças pode ser que tudo dê certo e em um tempo bem curto.
−Sei que isso é um acordo verbal e que terei minha parte das obrigações em verificar todas as informações que o senhor tiver.
−Pesando todos os benefícios e obrigações...
−Aceito sua proposta de aliança, mas isso é um acordo entre o senhor e eu.
−Não quero meus amigos presos a obrigações que possam prejudica-los, a não ser que eles concordem com isso também.
Eles estão na Arcadia, então se forem descobertos pode pôr tudo por agua abaixo e colocar eles em uma situação bem complicada.
−Como esperado de um Sabrie.
−De agora adiante, seremos aliados até atingirmos nossos objetivos.
Braska sorri se aproximando para cumprimentar a minha mão como gesto de confirmar a aliança.
Os outros demonstram estarem um pouco hesitantes com isso, mas parecem entender a minha posição para aceitar a aliança com alguém em uma posição que pode me afetar de forma positiva e negativa.
−Eu vou aceita isso também.
−Não vou deixar o Hector sozinho, ele é minha propriedade e ninguém vai fazer mal a ele.
Selene de repente fica de frente com o lorde Braska, esperando com sua mão estendida para ele até ser cumprimentada e passa a me ajudar com o que quero fazer, mas não vou esquecer do meu acordo com ela de recuperar suas memorias.
Agora basta conversamos para sabermos por onde começarmos a agir.
Fale com o autor