Faded Hearts
26 O Fim das Memorias
Notas iniciais
Quando recupero minha visão, volto ao corredor, onde me deparei com o quadro da memória com o Kevin dentro. Olho para o quadro com a imagem do jardim, no qual a pintura se apaga e a tela se torna poeira como areia soprada pelo vento diante dos meus olhos.
−Hector! Aqui.
Mais à frente da mansão a Fior chama por mim ao longe e acenando, enquanto corro até ela.
−Ainda bem que você está a salvo.
−Eu escutei a voz da Selene vindo dessa direção.
−Vamos?
Quando alcanço ela, vejo uma expressão diferente em seu rosto. Suas pupilas estão dilatadas, as sobrancelhas inclinadas na direção do nariz e os lábios parecem terem sidos mordidos.
−Sim, mas...
−Er... como posso dizer isso.
Ela está bem diferente em comparação a Fior que entrou na dimensão comigo, isso me incomoda mais do que o fato da Selene ter uma história bem confusa.
−Aconteceu algo?
Seu tom de voz está frio e direto, não tenho certeza, mas alguma coisa alterou a atitude dela repentinamente.
−Não, nada demais. Esqueça.
−Você disse que ela está logo a frente né?
Não posso desviar do meu objetivo aqui, que é salvar uma vida antes de se perder em suas próprias memorias.
Caminhamos pelo corredor tendo cuidado com o piso para não termos nenhuma surpresa, além dos tremores que continuam a ocorrer em um espaço mais curto de minutos, os quadros nas paredes um a um começam a desaparecer da mesma forma do quadro do jardim.
−Esse corredor parece não ter fim.
−Como vamos chegar até ela desse jeito?
Não sei a quanto tempo estamos andando por aqui, porém já caminhamos o suficiente para encontrar pelo menos uma sala ou uma porta.
−Verdade, está faltando algo que estamos esquecendo.
−É algo simples.
Fior para por um breve momento com a mão no queixo e olhando para as paredes.
Essa dimensão é feita somente de memorias, então se seguirmos a lógica dos estudos da mente humana, onde estamos é principal caminho que liga todas as lembranças dela a sua mente.
Isso quer dizer que não tem fim e nunca terá até chegar o dia da morte dela, o problema é que não vejo a conexão desse lugar com as memorias, que hipoteticamente seriam paralelas ao local que estamos.
−Hmm... as paredes talvez têm algo a ver com isso.
−Espera! É isso!
Fior parecer se assustar com minha reação ao conseguir entender a lógica dessa dimensão.
−O que? O que foi?
−Encontrou alguma coisa?
Seu olhar está concentrado em mim, esperando por uma resposta aceitável a minha reação.
−Não encontrei, mas acredito que sei qual lugar procurar pela Selene.
−Esse corredor é como o principal caminho que liga todas as memórias dela juntas, mas não vemos as memorias e nem uma saída porque os únicos caminhos que existem por aqui são os quadros na parede.
−Eles são as memorias da Selene e também podem levar para outras conexões de memorias para conseguirmos sair daqui.
Aponto para um quadro em especial que não se desfez como os outros.
−É como o quadro do Kevin então.
−Ela está dentro de um deles ou até, presa dentro.
Fior olha para o quadro que apontei, onde tem uma pintura de uma casa de madeira em ruinas, próximo a uma lagoa e dentro de uma floresta.
−Hector, esse quadro tem uma menina no lado da arvore a direita.
−Veja, ela está deitada na sombra dela.
Com a observação da Fior, olho atentamente para o lado direito do quadro onde tem uma menina abaixo da arvore, bem próxima as aguas cristalinas da lagoa que reflete parte da paisagem.
−Ela é a Selene, os cabelos dela são grandes e a trança no lado esquerdo é igual ao dela.
Com minha habilidade de conseguir memorizar a imagem dela fácil, consigo reparar no detalhe do cabelo, apesar da diferença da cor e do vestido branco.
−Vou entrar na memória e pegar ela, você me ajuda a sair de lá com ela.
−Entendeu?
−Você já se arriscou, não quero que faça isso de novo.
Não sei o que ela quer com isso, essa mulher vem agindo de forma estranha desde o caso do Grim. Juro que muitas vezes não entendo nada do que ela faz, mas ela está contando comigo agora, então não devo ir parar trás.
−Entendi, vou usar as correntes para te puxar para fora.
Sou respondido com um aceno de cabeça e ela põe sua mão esquerda no quadro, que puxa ela para dentro num piscar de olhos.
Consigo ver a imagem dela no local, no outro lado da lagoa e bem próxima da casa em ruinas.
−Hora de tentarmos de novo as correntes.
−Hmm...
Diferente da última vez somente me concentrei em dar forma a minha magia, até porque não vou selar os poderes de ninguém e só vou usar as correntes como cordas para puxar as duas do quadro.
Observo a Fior se aproximar da Selene aos poucos, aguardando o momento certo para lançar as correntes da alma na direção dela.
Não sei porque, mas as memorias da Selene me irritam e causam uma forte dor no meu coração. Além de ter a sensação de conhecer ela a muito tempo, também lembro de cada traço físico e de comportamento dela com facilidade, sendo que nos conhecemos no Chaos a apenas 2 meses e não seria capaz de conhecer ela tão bem assim.
Brooum!
−Tsk! Esse tremor foi o mais forte até agora.
Perco o equilíbrio por alguns instantes e me apoio na parede para não cair.
−Vamos Fior, passe essa lagoa rápido.
−O quadro logo vai começar a desaparecer.
Percebo a moldura da imagem começar a ficar escura e a cor sem vida, vindo do lado esquerdo do topo.
−Era mais fácil passar a noite perseguindo Sombras por alguma cidade, do que estar diante dessa situação.
Com meu olhar concentrado na mudança do quadro, não percebo que ela chega até a menina.
−Agora!
Hiss! Hiss! Hiss!
Fior acena com a mão direita, embora meio difícil de ver, eu uso as correntes e lanço elas para dentro do quadro. As 3 correntes de cor cinza com um brilho azul atingem a grama perto das duas.
Ela amarra uma das correntes na sua cintura e a outra na Selene, fazendo um sinal difícil de ver com a perda de cor e da imagem que está se corroendo junto com a pintura e a moldura.
−Alcancem a saída.
Hiss! Hiss! Hiss!
Concentro minha mente fazendo a terceira corrente segurar as duas juntas e com as minhas mãos faço força para trazê-las para fora antes desse quadro se dissolver.
−Espera se eu puxar com muita força, elas vão cair...
−Ahhh!
Quando percebi as duas saem da pintura, caindo em cima de mim com tudo.
−Aí minha cabeça, nunca mais vou entrar em uma memória desse jeito.
−Huh! Hector! Onde você está?
Como na última vez, ela não percebe que caiu em cima da minha pessoa.
−Aqui... no chão.
Não consigo falar muito com o peso das duas e mais as correntes sobre mim.
−Hehe! Desculpa, já saio de cima de você.
−Selene levanta, por favor.
Fior se levanta e tenta tirar a Selene também, colocando ela sentada com as costas apoiada na parede.
−Ufa! Conseguimos.
−Aetoacep!
Quando sento no chão ao lado das duas, desfaço as correntes para descansar do pequeno esforço de puxar elas do quadro.
−Só nos resta agora é acordar ela, antes da minha irmã trazer a gente de volta ao mundo real.
Respondo para ela acenando com a cabeça, mas como vamos acorda-la?
A Selene esta inconsciente por causa da ligação dela com as memorias, pode ser que ela tenha ficado pressa em suas próprias lembranças.
−Ei! Selene, acorda.
Fior dá leves batidas nas bochechas dela para ver se ela reage.
−Mu-Uh...
Esse som é de alguém com muita, mas muita preguiça. Não concorda?
É como aqueles dias que estamos com muito sono e não conseguimos nem se quer abrir os olhos de tanta preguiça, tendo que fazer muito esforço para conseguir levantar.
−Você está dormindo é?
−Acorda, sua Raposa Burra.
Ajoelhada na frente dela, Fior levanta o tom de voz repentinamente.
−Huh! Ei! Quem você está chamando de burra?
−Cabelo da agua viva.
Selene abre os olhos bem rápido e com um tom de voz amargo, ela revida as palavras da Fior.
−Eu sabia que você estava dormindo.
−Você não tem jeito mesmo e todos nós preocupados a sua procura.
Era para ser uma reunião alegre e calma, só que com essas duas juntas é difícil disso acontecer.
−Se acalmem vocês duas.
−Temos que procurar pelo Leon, antes da Fiore chamar sua Sombra de volta.
Agora que encontramos ela, temos que ir atrás dele o mais rápido possível.
Leon tinha um objetivo vindo aqui, o curioso é que ele precisava da Selene para conseguir entrar e a finalidade era confirmar a teoria da Vontade do Chaos.
−Sim, só resta ele.
−Aqui, deixe eu te ajudar.
Fior cede sua mão para a Selene poder se levantar do chão.
Continuamos nosso caminho pelo misterioso corredor de memorias, o olhar da Selene está cabisbaixo. Mantemos o ritmo acelerado dos passos para sermos mais rápido do que o efeito de destruição e não atinja o chão que pisamos.
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No final do corredor nos deparamos com uma gigantesca sala, com escada em espiral levando para um andar superior. As paredes mais acima são como uma noite estrelada, não permitindo ver o fim da escadaria, mas a voz alta do Leon conversando com alguém passa a chamar nossa atenção.
−Você realmente acredita que isso vai ser simples assim?
−Cherry a dimensão está se desfazendo, vamos parar com tudo isso e me contar sobre a Vontade do Chaos.
Então Leon está discutindo com o Cherry, mas porque ele busca informação sobre essa que ele chama de Vontade do Chaos?
−Humr! Leon, maldito, vou acabar com você.
Fior anda em direção aos dois com um olhar pouco amigável e resmungando bastante.
−Espere, Fior.
−Sigh! Vamos atrás dela, antes que ela faça algo sem pensar?
A Selene acena com a cabeça, mesmo agora um pouco melhor, ela ainda está quieta. Acredito que as memorias que ela reviveu trouxeram certas lembranças difíceis de lidar.
−O que está acontecendo aqui?
Quando chegamos perto dos dois próximos a escadaria, percebo marcas de destruição pelas paredes atrás do Leon. Esses dois entraram em combate, isso deve ter cooperado com os tremores que sentíamos.
−Huh! Você! Sua criatura impura, o que faz na dimensão da minha senhora?
−Aquelas memorias não lhe pertencem e nunca serão suas.
O gato humanoide fica em posição defensiva diante a presença de Selene, como os gatos comuns suas unhas lembram as de um felino grande. Ele tira as vendas dos olhos, a cor de um para o outro é diferente, um olho é verde e o outro é azul.
−Heterocromia temporal!
−Então você realmente era um gato comum antes disso.
Fior está concentrada nos olhos dele, as sobrancelhas estão levantadas e sua mão lentamente se aproximam da sua arma escondida na coxa.
Uma estranha energia domina o ambiente, uma vontade assassina que chega a arrepiar parte do meu cabelo, paralisar meus braços e pernas como seu tivesse dominando meu corpo.
−Tarde demais para você dizer isso.
Brooum!!!...
Ele some da nossa vista num piscar de olhos e chão começa a tremer de novo, mas dessa vez parece que estamos no centro do acontecimento, que facilmente perdemos o equilíbrio.
−Guiyah! Haha!
−Vou destruir essa dimensão junto com aqueles que ousaram invadir esse local sagrado.
O gato aparece novamente, porém gigante com sua forma humanoide desfigurada, tendo apenas como destaque seus olhos felinos e seus dentes caninos gigantes.
−Isso não está me cheirando bem.
−Temos que sair daqui... agora!
Sinto um perigo muito grande ao ver o Cherry dessa forma, no momento só penso em manter a Fior e a Selene seguras até a Fiore conseguir trazer a sua Sombra para nos resgatar.
−Você é louco?
−Realmente vai se sacrificar para destruir nós 4 e essa dimensão que tanto diz ser importante para sua senhora.
−Já que esse é caso, não permitirei tal coisa na minha presença.
Ziiiinng!
Leon lentamente retira um sabre de lamina negra da bainha na sua cintura, ao perceber a situação ameaçadora e se prepara para o combate.
−Tyki, vamos matar esse gato chato.
−Consegui todas as informações que eu precisava.
Hiss!
A sombra do Leon começa se movimentar quando ele se levanta, subindo suas costas como um pequeno lenço preto que percorre seu sobretudo, indo em direção ao seu ombro esquerdo e ganhando forma ao chegar lá.
−Sim, senhor Leon.
−Esse gato já está me irritando.
Quando começa a falar, a sombra dele ganha a forma de uma boneca feita de palha, serragem e tecidos velhos, com um casaco branco no formato de um diamante e botões marrom nos olhos.
−Hector, vou ter que trazer vocês e a Selene de volta.
−Ixion, está ficando sem forças para manter todo aí dentro.
Voz da Fiore vem na minha cabeça, ela está mais baixa e aparentemente fraca, não é só a Sombra que está fraca, mas ela também. Fiquei focado em descobrir coisas sobre a Selene que quase esqueci de quem nos trouxe para a dimensão das memorias.
−Espera! Irmã não podemos deixar o Leon aqui com essa Sombra perigosa.
Fior escutou a voz dela também, mas está preocupada com o que pode acontecer se deixarmos nosso colega lutar contra o Cherry sozinho.
−Fiore leve eles, por favor.
−Tyki vai me levar de volta, quando eu terminar por aqui.
Apontando a lamina do sabre para o humanoide gigante, ele tenta diminuir a preocupação da Fior e querendo que todos nós estivéssemos longe para evitar qualquer morte.
Não demorou muito, Ixion aparece sobre nossas pernas e começa a desfazer o chão dos nossos pés. Por um breve momento tentei alcançar as duas para não nós perdemos e sermos levados para o mesmo local, mas só consegui segurar a mão esquerda da Selene quando caímos na escuridão sem fim.
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