Faded Hearts
27 A Arcadia e a Criança da Profecia
Sem poder ver nada, a única coisa que sinto é a mão da Selene que aperta a minha em reação ao eu ter tocado nela repentinamente.
−A-oh!
Ploft!
−Ai! Essa realmente foi bem dolorida.
Quando finalmente fui capaz de ver uma luz, caímos em cima de algo que não parecia ser o chão e cair de cara nesse lugar não é uma das experiências mais agradáveis que tive.
−Por céus! Hector!
−Co-como você chegou aqui?
Uma voz parecida com a do meu pai chama a minha atenção, por um instante viro meu olhar até a pessoa a minha frente. Um homem com barba, óculos redondos com armação preta, olhos azuis e um cabelo loiro, volumoso e bagunçado.
−Huh? O que?
−Tio Jack.
−Tsk! Selene corre.
Não posso deixar que realmente saibam que eu consegui voltar do Chaos, Fiore pediu que eu me cuidasse com relação a isso, mas paramos em um lugar estranho e saímos correndo da sala para um corredor com janelas grandes.
−Hector, que lugar é esse? E para onde vamos?
Sem parar, chegamos ao fim do corredor em uma escadaria larga com os degraus vermelhos com uma faixa branca nos lados como um tapete.
−Não sei, parece que estamos na sede da Arcadia.
−Precisamos sair daqui ou podemos nos dar muito mal.
−Ah-! Tarde demais.
Quando olho para o andar de baixo, em pouco tempo ele encheu de homens e mulheres uniformizados com uma camisa branca, calça e um casaco parecido com um sobretudo azul escuro com uma faixa preta no meio junto aos botões e medalhas no peito esquerdo.
−Pare já ai!
−Vocês não vão sair daqui.
Um homem de cabelo castanho, bem curto e arrepiado com óculos, chama a nossa atenção. Com um sabre curto de lamina levemente curvada apontado para nós, ele tenta dar alguns passos para se aproximar.
−Vocês não vão me impedir.
−Mesmo que eu tenha que matar todos.
Selene fica na minha frente e invoca sua foice em suas mãos, prestes a atacar o jovem homem que vem até nós passo a passo com calma. Ele aparenta nervosismo, as mãos estão tremendo e seu olhar está muito concentrado em meu rosto.
−O que? Você é uma Sombra.
−Todos em posição essa menina é uma Sombra e pela arma em mãos deve ser a Raposa.
Ele recua alguns passos olhando para nós, dando ordens ao grande grupo de pessoas abaixo que um a um começam a tirar seus sabres da bainha. As mulheres usam saias ao invés das calças como os homens e botas pretas altas, um pouco acima do joelho e os cabelos são um pouco curtos e presos das mais variadas formas, algumas usam coque, outras um rabo de cavalo e tranças.
−Hector! Impossível!
−É ele mesmo.
O homem que vi naquela sala, meu tio, nos alcança junto com mais 5 pessoas atrás dele.
A situação está ficando complicada.
−Selene, espere não faça nada.
−Abaixe a arma, por favor.
Chego até ela, peço para parar com tudo isso, pelo jeito vamos ter que improvisar para conseguir fugir daqui de alguma forma.
Instante depois, uma melodia começa a tocar por todo o salão. O meu relógio começa a tocar, mas não sei por qual razão ele faz isso, até onde entendi ele tem ligação com eventos estranhos como as memorias da Selene.
−Hector...!
−Hector...!
−Escute, deixe tudo comigo agora.
Essa voz novamente, quem é essa mulher que fala em minha mente.
−Feche os olhos por um segundo.
Logo após ela pedir, eu fecho meus olhos ficando com minha atenção apenas no som do local e da melodia.
~~~~~~~~~~~~
Concentrado apenas no som do ambiente, tudo de repente fica silencioso e ar parece mais fácil de respirar.
−Você pode abrir os olhos agora.
Conheço essa voz, faz muito tempo que não ouço esse tom sereno e grave.
−Vo-você? Não pode ser?
−Como isso está acontecendo?
Ao abrir os olhos me deparo com a figura de uma mulher com olhos âmbar, cabelos pretos, lisos e delicados como uma linha de seda com o comprimento até o busto.
−Mãe! É você mesmo?
Nunca imaginei poder revê-la dessa forma, ela está com seu vestido favorito, branco um pouco acima dos joelhos com uma faixa azul na cintura e descalça, em meio a um lugar escuro que não reconheço.
−Uhum! Sou eu.
−Veja o quanto você cresceu, nem parece aquele menino que causava confusão perto de casa.
Envoltos por um lugar de escuridão sem fim, ela cede sua mão direita para me ajudar a levantar e me abraça calorosamente com força.
−Você está pensando, o que estou fazendo por aqui?
−Na sua mente.
Quando ela termina de me abraçar, dá leves tapinhas na saia do seu vestido arrumando os detalhes das dobras do tecido delicado, enquanto começa a falar parte do que eu tinha em mente para perguntar.
−Sim! Huh! Espera um segundo, aqui é a minha mente?
−Esse lugar escuro, sem se quer uma luz?
É diferente de quando a Selene tomou controle do meu corpo, não consigo ver o que acontece na Arcadia e comigo. Se estou dormindo ou acordado, não sei explicar. Eu acreditava que ao entrar em minha própria mente, conseguiriam acessar minhas memorias como na dimensão das memorias.
−Há muita coisa que você desconhece, meu filho.
−A mente sempre é essa escuridão, só conseguimos ver algo quando somos capazes de organizar ideias e pensamentos.
−A propósito, temos um problema a resolver, antes que você seja morto junto com a Selene. Hmm!
No instante que ela termina de falar, uma luz se abre na nossa frente com a minha visão da situação. Parece que estou paralisado de medo, sem nenhuma ação ou reação.
−Porque está tudo congelado assim?
−Não me diga que isso é o Paradoxo da Mente Atemporal?
Consigo ver a escadaria que eu e a Selene estamos, os membros da Arcadia com os sabres em mãos e o Leon vindo pela porta no fundo atrás dessa confusão toda, aparentemente ele estava correndo.
−Sim, a Mente Sem Tempo é conhecida por entender as inúmeras conexões que a nossa mente faz com o cérebro para trabalhar, então o tempo estamos aqui está praticamente parado.
O conhecimento dela é maior do que a Beth me contava, até onde sei, essa ideia nunca foi fundamentada porque humanos comuns não conseguem acessar as próprias memórias com sua magia.
−Mesmo dizendo isso, não sei o quão ágil a sua mente é, isso pode nos dar pouco tempo para agir.
−Hmm! O que posso fazer?
Seus olhos amarelados analisam a imagem feita por meus olhos com muita atenção, ela põe a mão esquerda sobre o queixo como se estivesse planejando algo.
−Ah! Claro!
−Já sei o que posso fazer.
Ela bate a mão direita fechada sobre a palma da esquerda.
−Huh! Er... qual foi a sua ideia?
Agora eu entendo a sensação que a Fior tem quando eu tenho algo em mente para improvisar, parece que descobri de quem herdei tal mania, por isso sempre diziam que eu era a imagem dela.
−Vou usar seu corpo para conversar com eles e parar com essa confusão.
−O conselho da Arcadia nunca foi bom em lidar com eventos sobrenaturais, mas acredito que eles vão me escutar.
−Embora eu não veja todos aqui.
−Então... o que você pensa disso?
Atenta na imagem da confusão formada, ela pergunta para mim com um sorriso para lá de brincalhão como se tentasse me convencer no momento que eu olhasse para ela e tenho a sensação que eu faço a mesma coisa.
−Hmm... Não vejo outra opção de sair dessa bagunça.
−Entendido, vou deixar com a senhora.
O problema tomou proporções maiores do que eu esperava, é como o Leon disse, se eu aparecesse em Arcadia, seria um desastre total e assustaria todos também. No fim, acabamos por chegar a essa situação.
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Conforme combinamos instantes antes, Lucina vai tomar meu lugar e tentar convencer o grupo de pessoas, prestes a me prender, de não me considerar uma ameaça ou me matar por algum motivo.
Os nervos deles estão a flor da pele, os sabres estão apontados para a direção da Selene e de mim, e apenas alguns degraus nos mantem distante do perigo.
−O que vocês pensam que estão fazendo?
Ela começa com o plano e observo algumas pessoas reagirem rápido ao que foi dito
−Huh! Essa forma irritada de falar é da... senhora Lucina.
−Impossível! Senhora é você mesma?
O homem que comandava o grupo de membros da Arcadia se aproxima do primeiro degrau da escada, guardando o sabre na bainha com seus olhos arregalados.
−Jean, nunca pensei que você sendo o líder da guarda de Arcadia, faria tal coisa assim.
Então esse é nome dele, essa pessoa de cabelo castanho e arrepiado com óculos é o líder da segurança deles. Era obvio que ele seria o primeiro a nos confrontar.
−Senhora, me perdoe, mas essas são as regras.
Ele retira os óculos guardando no bolso do seu casaco e se ajoelha no começo da escada.
−Vocês realmente são tolos, esse garoto é meu filho, Hector Sabrie.
−Ele é a criança da profecia do Chaos.
No fundo percebo Leon com um olhar diferente do normal, as pupilas dilatadas e aquela postura de braços cruzados se faz, demonstrando estar sem reações para o que a Lucina disse. Além de todos ali presentes reagirem da mesma forma diante a nós.
−Isso... não-não pode ser.
−Não tem a mínima possibilidade de ele ser, a criança da profecia.
Jean dá alguns passos para trás, ficando um pouco distante da escada com a mãos direita sobre o peito.
−Foi o que pensei, quando desconfiei de tal possibilidade no passado, mas tive certeza quando uma Sombra invadiu nossa casa e simplesmente não atacou ele, apenas olhou e passou rumo as ruas.
−Mesmo com 4 anos, ele lembrou da Sombra e todos os detalhes de sua aparência. Até mesmo agora, as Sombras não conseguem ataca-lo por algum motivo, não diretamente.
Então, eu convivia próximo das Sombras desde pequeno, isso explica porque sou capaz de entende-las de certa forma, é como se eu fosse capaz de ler as reais intensões de uma Sombra.
−Ainda assim, a criança da profecia tem que ser alguém esquecido e escondido no meio da população.
−Ele não é essa pessoa.
Por algum motivo, ele quer negar as coisas até o final. Será que é medo ou ele não consegue aceitar a verdade?
−O que aconteceu com ele foi exatamente isso, todos realmente acreditavam que eu não saberia disso.
−Jogaram ele no Chaos, Arcadia nunca tomou ou deixou que encontrassem uma forma de busca-lo e quando ele voltou, teve que se esconder para evitar a situação que estamos.
A Selene está paralisada e com um olhar ameaçador diante de mim, ela sabe que não sou eu ali presente.
−Jean, pare de ignorar a verdade.
−Essa pessoa não é o Hector imitando a mãe dele, além do mais, tudo isso realmente aconteceu.
Leon se aproxima passando pelo grupo de pessoas na sala, chegando próximo a Jean com um olhar sério.
−Você! Você fez isso! Manipulou toda a Arcadia.
Ziiiinng!
−Porque eu deva confiar em alguém como você.
Ele empunha o sabre em direção a Leon com sobrancelhas inclinadas de raiva.
−BASTA!
No mesmo instante, minha mãe usa um tom de voz alto e autoritário para impedir que uma confusão generalizada comece, além de fazer todos terem sua atenção diante a mim.
−Hector, é o único que pode entender o que se passa no Chaos porque ele foi o único que saiu de lá por si mesmo com a ajuda da Raposa.
−Ele e essa menina, são capazes de descobrir e resolver tudo.
−E... Jack, irmão, cuide deles por mim.
Sem fazer eu me virar, ela fala com meu tio e para de controlar meu corpo naquele momento.
−Jean! Guarde sua espada e dispense todos, por favor.
Um homem de cabelos pretos e longos junto a meu tio e mais duas pessoas, dá ordens para ele, que segue o que lhe foi dito dispersando o grupo de membros da Arcadia da sala.
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Me surpreendo com o que ouvi e com o que vi também, não sei se reajo com surpresa ou simplesmente me mantenho com a imagem apática em meu rosto.
−Anhh... isso foi bem mais cansativo do que pensei.
−Escute, filho, você é quem eu disse ser e também é um Noxia.
Cabisbaixa e cansada por usar a magia de controlar meu corpo, ela começa me contar tudo o que disse através de mim.
−O que? Mas isso não quer dizer que minhas irmãs são Noxia também.
−Mãe, não entendo muito bem isso.
Como eu posso ser alguém de uma raça humana extinta a vários anos?
−Eu também fiquei assim como você quando soube que eu era uma Noxia, mas a nossa família é a última da Dinastia Iro, que ainda existe desde o rei preto.
−O que identifica que você é um Noxia é a coloração âmbar dos seus olhos e os cabelos pretos, lisos e finos como os meus. Também claro, a aura que sua magia apresenta, algo que um humano normal não apresenta.
−Quanto as suas irmãs, assim como fiz com você quando ainda estava no meu colo, usei a magia de Herança Pura para torna-las Noxia também, mas elas não aceitaram bem a alteração.
−Quando nasceram, elas apresentaram a cor âmbar nos olhos, mas não tinham as habilidades que você apresentou desde pequeno.
Espera, algo assim estava escrito na carta que eu não terminei de ler. O segredo que ela queria contar era isso, não se tratava só do que meu pai causou, mas também a verdade da nossa família.
−Não é só isso né, Mãe.
−Eu sou um Noxia porque consigo me conectar com meus ancestrais, que seria a senhora.
A inegável tal verdade, quando finalmente compreendi o que quis me dizer e aquele brilho azul é na verdade a minha aura, símbolo de quem eu sou.
−Uhum! Existem várias formas de identificar um Noxia, mas as principais são a conexão com seus ancestrais e as raras lagrimas vermelhas, conhecidas como Lagrimas de Sangue.
Ela sorri confirmando minha conclusão, seu olhar amável não muda sempre mantendo sua imagem cuidadosa e materna.
−Meu tempo está acabando.
−Filho, cuide de suas irmãs e recupere nosso lar, agora cabe a você decidir o que fazer.
−Adeus, Hector.
Lucina vem até mim e com seus braços me envolve entre eles, me aproximando do seu rosto e apertando meu corpo com força, até ela começar a desaparecer perdendo sua imagem como um fantasma.
Quando ela finalmente desaparece, ela deixa na minha mão uma faixa rosa, que ela usava no cabelo porque nunca gostou de tiaras.
−Você é realmente incrível.
−Mamãe!
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