Faded Hearts
39 Impacto Frontal
Entramos em nosso quarto, quando voltamos para a pensão e Braska começa a mexer em uma de suas bolsas de couro. Fiquei no centro, entre as camas esperando ele encontrar o objeto que iria me dar.
−Guardei isso, quando encontrei ele perto da fronteira do meu reino.
−Acredito que você reconheça de onde é.
Ele se vira segurando algo coberto por um tecido bege em sua mão direita e retirando o tecido com a mão esquerda, me mostra uma empunhadura de espada e a lamina que parece um ponteiro de relógio de torre. A cor esmeralda da lamina é familiar aos meus olhos, mas não consigo dizer de onde eu vi isso.
−Essa cor...
−Será que isso é?
O formato dos desenhos gravados nela como caules de rosas, junto a cor esmeralda com gumes em toda sua extensão, é igual aos ponteiros do relógio que estava na igreja durante minha cerimonia há 5 anos atrás.
−É o ponteiro do relógio Eclésia.
−Um ferreiro teve a ideia de transforma-lo em uma espada, ele disse que a o metal dele é um bronze raro e não enferruja.
−Então pensei em dar ele para você usar quando precisar se defender.
Ele estende os braços segurando a espada nas palmas de suas mãos com um olhar confiante, esperando que eu aceite a arma sem lembrar do fato que aconteceu no passado.
−Nunca pensei que encontraria alguma parte dele depois de toda aquela destruição.
−Hmm... o ferreiro fez um trabalho impecável, eu deva dizer.
−Só preciso me acostumar com seu peso.
Empunho a espada em minha mão direita com cuidado, atento aos detalhes dela, o peso é duas vezes maior que uma espada de aço, lamina foi polida a ponto de refletir facilmente a imagem do quarto e a empunhadura é toda de aço com o cabo coberto por couro preto possuindo dois espirais diagonais para a direita e para a esquerda fazendo gomos de losango para não escorregar da mão.
−Como ela era uma parte do Eclésia, é possível usar magia na lamina sem se preocupar com a chance de destruir a espada.
−Vendo por outro é engraçado pensar que parte do relógio que pode ter sido o causador de sua ida ao Chaos, agora seja seu aliado para se defender.
Como Braska mesmo disse, isso é parte do relógio mais conhecido do continente e uma das grandes relíquias do povo Noxia, além de ser o símbolo da minha terra natal e por algum motivo tem ligação com o Chaos.
−Ela não tem uma bainha?
−Seria muito perigoso andar por aí com uma lamina bem afiada como essa.
Ele põe a mão direita sobre o queixo assim que falo e alguns momentos depois volta para as suas malas procurar algo.
−Eu podia jurar que tinha mais coisa junto com a espada, mas onde está?
−Ha! Achei.
−Não é uma bainha, mas é um suporte para você usar na cintura.
Entregando o suporte todo de couro para mim, ele possui uma cinta para a cintura junto a um suporte metálico nas costas para encaixar a lamina em formato de prisma com cintas entorno para segurar melhor e uma longa alça fixada nas extremidades laterais do suporte para passar sobre o peito, possivelmente para facilitar ou dar mais sensação de segurança.
−Eh... normalmente não se usa isso.
−É mais comum no oriente ou em Aqua com aquelas espadas com laminas mais largas e retangulares.
Deixo a espada e o suporte sobre a cama, enquanto retiro o lenço da gola da camisa porque pode atrapalhar quando eu usar a alça do suporte, coloco meu casaco longo por cima do colete que estou usando e começo a arrumar o suporte na minha cintura, apertando a alça de forma a ficar firme no meu peito.
−Tenho alguns ferreiros influenciados pela cultura de Yakob, eles fazem algumas espadas belíssimas e essa é uma delas.
−Eu iria guardá-la no meu museu, mas quando vi você na sala do conselho da Arcadia, pensei em dar de presente em alguma ocasião.
−Até parece que ela esperou por você esse tempo todo.
Sentando no canto da cama, Braska fala de forma que dá a entender que isso estava para acontecer, como se fosse o destino já escrito nas entre linhas do mundo. É difícil afirmar isso, acadêmicos buscam essa possibilidade a anos até mesmo explicar como existe a magia.
−Ficou bem em você.
−Só tenha cuidado lá fora, evite esbarrar com o Fogels para não causar qualquer problema.
−Vê-lo andando pela cidade pode irrita-lo, depois que você derrotou os soldados dele.
Recebo um aviso com um tom mais sério e preocupado com a possibilidade do nosso alvo perceber a minha presença, ainda mais pelo fato dele já saber que estou de volta.
−Entendi.
−Até mais tarde.
Me despeço dele, indo para fora com a ideia de conhecer alguns locais de construção antiga, esse tipo de arquitetura chama muito a minha atenção. Caminho calmamente até a praça completamente cheia de pessoas andando para todo lado, decidi ir para a área leste mais ao sul da cidade por onde passei por mais duas pontes feitas de rochas com o formato de arco e percebi que diferente da parte em que eu estava, não havia comércios flutuantes e como há mais presença de terra, a parte inferior da cidade tem calçadas no nível das aguas e casas feitas com estrutura mais moderna com pés direito de vigas de madeira bruta reforçadas com vigas de cerâmica e as paredes parecem ser de rochas lascadas para terem o formato de tijolos.
Ao me aproximar da terceira ponte ao sul da cidade, avistei uma placa antes de chegar nela, escrita Templo de Isania e indicando a direção com uma seta.
−Será que tenho tempo para ir até lá?
Retiro o relógio do bolso que marcava 17 horas e 33 minutos.
−Em breve vai começar a escurecer, mas acredito que dá tempo suficiente para mim.
Sigo meu caminho como a placa indicava, atravessando algumas pontes pelos corredores cobertos para chegar próximo ao fim da cidade, não havia mais necessidade de se orientar com as placas, ao longe dava para ver um grande templo igual a uma igreja, mas com pilares segurando a parte da frente e sua parede refletia de leve a luz sol. A estrada até o templo é uma a esquerda da principal, é larga com bancos de madeira nas laterais juntos de um poste com uma caixa de cristal no topo com um quartzo da noite dentro, que emite um forte brilho à noite e iluminando mais que um lampião comum.
Nas laterais da estrada um campo com gramado baixo que parece um tapete natural se estendendo por vários metros durante todo o percurso, um cheiro de terra molhada é trazido pelo vento e mais rápido do que se pode imaginar a luz do pôr do sol, desaparece vindo com um forte som de um estrondo vindo do céu.
−É uma beleza de construção, essa estatua então é incrível.
De frente com a estrada me deparo com a estátua da Isania feita de cerâmica, seu corpo é de uma mulher magra com seios grandes, cabelos longos até a cintura com franja caída próximo aos olhos, traços delicados no rosto, mãos e pés pequenos, usando um vestido simples sem mangas com um cinto de rosas, luvas nos antebraços, um colar de prisma e portando uma espada sem guarda mão na empunhadura. As histórias dizem que ela tem cabelos cinza claro, olhos azuis e costuma ficar descalço, usando apenas cordas sobre suas canelas.
−Os detalhes do rosto dela foram feitos com muito cuidado, o vestido com as dobras delicadas seguindo o movimento da escultura e espada também.
−A deusa da vida, gostava de lutar com espadas, mais do que muitos acreditam.
−Hmm... é melhor eu entrar está começando a chover.
Pareço um louco conversando comigo mesmo, enquanto observo cada detalhe, é uma mania que adquiri sem perceber, mas me faz ter mais atenção no que estou vendo ou fazendo.
−Hooo!... Que surpresa intrigante.
−Hector!
Uma voz mediana, nem muito grave ou aguda, chama a minha atenção assim que adentro no templo.
−Fogels?!
De todos os lugares dessa cidade, esse maldito tinha que estar aqui.
−Sempre neguei a possibilidade de você ter saído do Chaos, mas novamente estou enganado.
−O que faz por essa região?
Um homem de corte de cabelo bem curto, olhos pretos e vestindo um sobretudo de couro cinza escuro, uma calça de tecido para deserto e um coturno até abaixo dos joelhos, sai dos fundos da parte interior do templo e vindo até a área iluminada pelas janelas laterais cheias de mosaico.
−Vim encontra-lo é claro, mas não esperava ser agora.
Respondi de forma fria e direta à sua pergunta, se aproximando dele no centro do templo que tem apenas estatuas de cerâmica próximas as paredes laterais e o resto do ambiente é livre sem qualquer móvel. Iluminado apenas pela pouca luz de fora vinda das janelas altas, estamos a alguns centímetros um do outro nos encarando sem perder a postura.
−Me encontrar?
−Humpf! Maldito Braska, seu velho maldito.
−Esse era seu plano esse tempo todo, ajudar a livrar Aeternam de minha posse.
Ele é rápido no raciocínio, desvendou o nosso plano logo de cara sem precisar de muitas dicas. É mais inteligente do que eu imaginava, não é à toa que é um líder temido pela Arcadia.
−Sim! Mas também vim desfazer o casamento arranjado que você e meu pai fizeram a mais de 10 anos.
−Como ainda estou vivo, ele é valido, a não ser que o líder de uma das famílias esteja em desacordo com ele.
−Então decidi encerrar isso e não envolver a Luna em nossos problemas.
Suas sobrancelhas inclinam com a testa franzida demonstrando um certo incomodo com as minhas palavras. Um clima de tensão se ergue ao continuarmos a nos encarar sem saber o que outro vai fazer, me preparo para qualquer possível hostilidade vinda dele e mantenho minha atenção em qualquer movimento brusco dele.
−É muita ousadia da sua parte dizer isso.
−Não sei por qual motivo, minha filha gosta de você e por 3 anos ficou se lamentando porque nunca mais ia vê-lo.
−Se ela souber de seu retorno, agora que está tão bem, vai voltar a ficar triste.
−Isso eu não vou permitir já mais.
−Hector, você vai morrer aqui e agora!
Não gostei dessa conversa, ele fala da sua filha com todo carinho e logo depois retira a espada da bainha em sua cintura, apontando para meu pescoço. Seu olhar está atento a minha reação diante a lamina próxima de mim, o silencio permite ouvir o som da chuva caindo sobre o telhado do templo e o vento invade o interior, soprando nas minhas costas com força.
−É uma pena que seu desejo não vai ser realizado.
Kinn!
Retirei a espada do suporte e rapidamente bati com a espada sobre a lamina dele, fazendo nos dois tomarmos distância um do outro. Braska avisou que ele podia ficar muito irritado, só não esperava ser a ponto de ficar hostil com a minha presença e para piorar, acabo de estragar todo o nosso plano e estou prestes a enfrentar meu maior inimigo de frente.
−Então... você estava preparado?
−Venha, encare a sua morte.
Ele movimenta a espada fazendo um corte na horizontal e posiciona ela na altura da cintura. Não posso ser tão descuidado com ele, isso é muito diferente daqueles duelos que eu participava e mantenho minha postura, observando o que ele pretende fazer.
−Vai ficar parado me encarando?
−Tudo bem, morra A-gora!
Kinn!
Impaciente diante de mim, ele ataca fazendo uma investida vertical na minha cabeça, voltando a espada para a altura do pescoço e por fim tenta com a ponta da lamina atingir meu olho esquerdo. Consegui bloquear o último golpe a tempo, mas pega meu rosto de raspão, fazendo eu dar alguns passos para trás.
Fogels sorri quando percebe que me acertou, mesmo que tenha sido de raspão e segura a espada com as duas mãos vindo em minha direção mais uma vez. Diferente da investida anterior, ele deixou vários espaços abertos em sua guarda e assim que ele tenta me golpear, abaixo de joelhos e corto na direção da sua barriga, fazendo ele voltar rápido e percebo seu sobretudo retalhado com meu golpe horizontal.
−Tsk! Tinha esquecido que você treinou com espada desde criança.
−Então, o que você acha disso?
Um brilho amarelo fica entorno dele, que se prepara para atacar de novo e em poucos segundos ele vem em uma velocidade incrível em minha direção, deferindo golpes da direita para a esquerda, em diagonal, na altura da cabeça, dos ombros, pescoço e peito. Para me defender fui obrigado a usar uma magia na minha mão esquerda, que usei para bloquear os golpes mais letais e o selo azul entorno do meu pulso entregou a ele como eu estava me defendendo.
−Escudo Aegis é?!
−Isso não vai ser o suficiente.
Ele acelera a investida aumentando sua agilidade para golpear em locais abertos da minha defesa, enquanto eu continuei a usar a espada e a minha mão com o Aegis para me defender de cada golpe e desviar de alguns. A luta nos levou até a escadaria de pedra da entrada do templo, sinto o desnível ao quase cair por descuido ao andar para trás e concentro um pouco de magia na mão da espada.
−Agora chega!
Assim que vi uma abertura no ataque, usei uma magia chamada Emissão de Magia e um forte som de explosão de energia ecoa no ambiente, fazendo Fogels recuar com sua investida na mesma velocidade que venho. Originalmente ela é uma magia sagrada, mas como não sei isso apenas copiei a ideia por trás dela que ao meu ver funcionou contra ele, pelo menos para assustar.
−Astuto, muito astuto. É um jovem muito habilidoso, Hector.
−Vejamos você usou o escudo Aegis na sua mão esquerda para bloquear como um escudo normal e na outra mão usou a Emissão Sagrada.
−Apenas minha mulher sabia fazer isso, somente a sacerdotisa de Eternia pode usar isso e mais ninguém.
Parece que eu o irritei um pouco mais, não era a minha intenção fazer ele lembrar da sua esposa desaparecida. Vejo que não tenho opções, só me resta ter que enfrentar ele de igual para igual sem medo.
−Não tenho a intenção de ofende-lo, mas se você que lutar.
−Que façamos isso para valer.
Concentro uma boa quantidade da minha magia porque imagino que ele vai tentar aquela investida de novo, ele usou a energia para acelerar a si mesmo e poder me atingir mais vezes do que eu seja capaz de perceber, então vou fazer diferente dessa vez e usar minha magia nos meus pés. Com as duas mãos no punho, posicionei a espada na minha frente e espero pelo ataque dele, concentro a magia em ambas as mãos para usar quando ele abrir a guarda.
−Ham! Fácil demais.
Fogels pula com a mesma velocidade de antes, fazendo um movimento estranho com a espada, direcionando ela para as laterais e no centro. Aguardei o momento de ele chegar bem próximo e saio para lado com uma pequena aceleração causada pela magia dos meus pés, assim que ele chega ao chão apareço em suas costas com meu punho direito carregado com o Impact Burst e ele sorri sarcasticamente, antes de me imitar e desviar do soco. Percebi sua presença a minha direita e com a mesma magia do Burst, converti para lançar ele para longe com o Vento Cortante.
Fuuh! Pow!
Acertei a estátua atrás dele fazendo uma cortina de poeira subir, percebo sua silhueta apesar dos meus olhos lacrimejarem, então troco a espada para a mão direita e com o outro punho, uso a energia cinética para produzir uma eletricidade forte o suficiente para pega-lo.
Kri-Kringggg!
Não consegui mais ver se o acertei, assim que executei a habilidade, voltei a minha posição de combate com as mãos no cabo da espada com olhos e ouvido atentos para qualquer movimento, enquanto a poeira abaixa.
Zii! Kin!
−Muito perigoso, tenho que admitir.
−Lucrecia te ensinou muito bem e eu vou adorar matar o filho dela.
Quando a poeira baixou, travamos nossas espadas e voltamos a nos encarar com olhares sérios e braços todos feridos com cortes leves da troca de golpes com as espadas.
−Sonhe com isso.
−Nada vai impe... Huh?
Boom!
Um forte som de algo sendo destruído vem da direção da cidade, interrompendo nossa luta naquele momento e chamando a atenção dos dois.
−Ela conseguiu acordar a serpente.
Ele fala serpente, mas a única que eu conheço é...
Não... não me diga que é quem estou pensando.
−Vamos ter que deixar isso para depois, Lorde Sabrie.
Zimn!
−Considere isso como uma chance de vida.
Fogels guarda a espada, falando de forma arrogante e sai caminhando pela estada de paralelepípedo do templo até desaparecer de vista em meio a chuva forte. Sem saber como reagir, penso no que está acontecendo lá no meio da cidade e guardo a espada no suporte.
−Eles acordaram o Leviathan?
−Espera! Isso péssimo.
Decidi correr na chuva para dentro da cidade, no caminho raciocinei sobre o que Fogels falou e pode ser ele, a única serpente que vive por aqui e perigosa o suficiente para destruir tudo em um piscar de olhos.
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