Faded Hearts
40 Furia do Mar
Notas iniciais
Chegando no primeiro canal da cidade, ouço gritos desesperados vindos de longe. Parecem vir do outro lado da cidade, na direção do porto e o estrondo de casas desmoronando em meio a forte chuva com ventos soprando para o sul.
−Ah... só pode ser uma maldição.
Ao longe avistei um corpo de serpente marinha gigante na altura das casas, semelhante a estátua na praça central com gigantescas escamas brancas, se movendo nas primeiras casas e destruindo tudo pela frente.
−Preciso ajudar essas pessoas, mas onde estão os guardas da cidade?
−Não vejo nenhum deles aqui.
−Vou ter de fazer por mim mesmo.
Não conseguindo encontrar algum guarda da cidade no meio do caminho, corro até o outro lado da cidade, começo a levar as pessoas para um local seguro no lado da cidade com mais terra.
−Pessoal sigam para o templo de Isania, em ordem para não se machucarem.
Oriento as pessoas assustadas com um tom de voz alto, calmo e claro para que percebam minha presença. Pouco a pouco grandes grupos de pessoas correm pelo grande corredor central, mantenho meu olho atento quando eles passam pelas pontes para não empurrarem um ao outro e acabarem caindo nas aguas.
A estrutura da cidade treme várias vezes e com intensidades diferentes, causando minha preocupação na possibilidade do teto que cobre o corredor central da cidade esmorone em cima dessas pessoas. Acompanho pelos lados usando uma magia de movimento rápido, sempre mantendo minha atenção na segurança delas e sigo na frente para ver como se encontra a estrada do templo.
−Está seguro, por favor continuem.
O vento fica mais forte, podendo facilmente derrubar alguém que anda de forma descuidada porque as pedras das estradas ficam lisas e escorregadias com a agua da chuva.
Faço o caminho de volta para manter as pessoas calmas e orientadas corretamente, por ter muita gente nos corredores, sou obrigado a usar as paredes para andar, aumentando a força da magia de movimento para não cair e percebo a presença dos guardas nos fundos da multidão e trazendo mais pessoas.
−Ei! Você.
−Saia dessa parte da ponte.
Um deles chama a minha atenção ao acompanhar a grande quantidade de civis correndo para a entrada da cidade, vendo que estou de pé sobre o corrimão de uma das pontes, ele vem de alguma forma me fazer descer dali e aponta sua lança na minha direção.
−Ah! Um guarda.
−Pensei que não veria um hoje, então estou levando essas pessoas para o templo de Isania.
−Acredito que lá o lugar mais seguro no momento.
Ao ouvir minhas palavras, ele volta a lança que pretendia apontar em minha direção para a sua posição normal, se aproximando com cautela temendo que eu faça alguma coisa quando ficar perto de mim.
−Quem é você? Não parece um cidadão.
−Identifique-se!
Com um tom alto e mandão, a voz dele chama a atenção de mais dois guardas que vem logo atrás e um forte estrondo derruba as pessoas no chão.
−Opa! Essa foi bem perigosa.
−Todos estão bem?
Ignorei nesse instante a presença deles, indo ajudar as pessoas a se levantar para prosseguirem até o local seguro.
−Hector! Hector!... Hector!
Ouço alguém me chamar no meio daqueles choros de criança e de pessoas assustadas falando alto. Procuro pela voz no meio da multidão, enquanto ajudo as mulheres e os mais idosos, então vejo o Braska indo conversar com os guardas que tentaram me abordar a pouco tempo.
−Braska! Com licença senhora. Braska, estou aqui.
Saio do meio do corredor, pulando pelo corrimão da ponte, correndo até ele e os guardas, eles percebem minha chegada logo que pulo na ponte e venho até a presença deles.
−Hector, você está bem?
Logo que ele fala, aceno com a cabeça respondendo sua pergunta.
−Isso está fora de controle, podemos ajudar em alguma coisa?
Os guardas ficaram hesitantes diante a proposta dele, mas o primeiro que me viu, novamente olhou para mim e a multidão que conduzi nesse meio tempo.
−Precisamos de gente para resgatar aqueles ficaram para trás, vocês podem nos ajudar?
−Existem áreas que temos dificuldades de entrar, se vocês puderem, fico muito agradecido.
−Vi um de vocês subir pelas paredes usando magia, então serão de grande ajuda.
O guarda toma a frente das decisões, permitindo que ajudemos com nossas habilidades para que eles consigam assegurar a integridade das pessoas no local que eles consideram seguro.
−Hector você vai pelo lado leste e deixe o lado oeste comigo.
−Evite confrontar o Leviathan.
Seguindo o plano do Braska passamos pelo corredor central, andando pelas paredes usando a magia de movimento ilusório e quando alcançamos a praça central nos separamos para nossas direções. Decidi ir pelos canais mais próximos, onde há corredores na parte inferior no nível das aguas do mar, vejo uma mulher com duas crianças e parte do corpo da serpente gigante sair do fundo do canal.
Sem pensar muito, pulei na frente deles e uso o escudo Ars, no momento que o corpo da criatura bate nas paredes das casas e no próprio escudo com muita força tremendo intensamente o chão.
−Kyah!
A mulher grita ao cair junto com as crianças, por causa do golpe no escudo magico e mantenho minha atenção no corpo da serpente atravessando o canal, passando pelo escudo como se fosse uma parede.
−Gruahhhh!
Ele rugiu como um leão prestes a defender seu grupo. Um rugido distante e longo igual ao de dragões, parece que está irritado com alguma coisa ou alguém. Seu corpo se movimenta rápido como se estivesse perseguindo uma presa que se escondeu na cidade, é possível sentir a pressão que ele faz sobre o escudo.
−Todos estão bem?
A senhora abraçada com as duas crianças acena com a cabeça, respondendo minha pergunta.
−Ainda bem.
−Escute, por favor. Vou abrir o escudo na direção da ponte, passem pelo pequeno espaço por baixo dela, assim consigo leva-los para um lugar seguro.
−É melhor do que ficarmos aqui esperando a serpente passar pelo canal.
Abri um buraco no escudo e usei a mesma energia com a mão esquerda para tentar materializar um pouco mais de chão para eles passarem por baixo da ponte e ficarem seguros no corredor do outro lado, agora que a criatura está se movimentando mais devagar.
Sem esboçar nenhuma palavra, ela pega as crianças pelos pulsos apertando firme e começa a ir para longe de mim, tomando o cuidado de ver onde anda para não escorregar nas aguas que estão a poucos centímetros dos seus pés. Não levou muito tempo, ela alcançou o outro lado se escondendo na ponte, restando somente a mim sair daqui para ir até a área segura, mas fiquei por um momento observando o comportamento do Leviathan e porque ele parou de seguir seu caminho.
É estranho ele agir dessa forma, algo não está certo aqui.
Huh! Agora é a minha chance de sair, antes que ele comece a perseguir o que procura.
Desfaço a magia defensiva e passo pelo mesmo caminho das pessoas que resgatei, certo de que estamos seguros, seguimos pela escada de paralelepípedos para a parte superior correndo até a praça central. Sentimos o chão tremer mais uma vez, precisamos encontrar uma forma de pará-lo.
−Sigam até os guardas no corredor central, eles vão leva-los a um lugar seguro.
A mulher sorri expressando agradecimento e com as crianças, anda até os guardas que estão em alerta para as pessoas que chegam. Percebo o Braska trazendo alguns civis do outro lado, mas continuo meu caminho correndo para os outros corredores, descendo para os corredores inferiores no nível da agua em busca de pessoas assustadas dentro das casas.
−Oiiii! Alguém está por aqui?
Tento chamar a atenção para a chance de algum civil estar dentro de casa com medo de sair, percebo que há casas com portas abertas e adentro para verificar. A cada casa ou comercio que passo tento verificar o interior em busca de inocentes, uso a magia de aceleração para andar mais rápido entre os corredores e os imóveis que resistem aos fortes tremores.
Voltando para a praça central me deparo pensando nos próximos passos.
Passei por todos os corredores mais próximos da área com terra e olhando para as placas na praça central, agora resta apenas do mais distantes com comércios flutuantes, os corredores de A até J.
Vou começar pelo J e ir até o ultimo no porto.
Pensei comigo mesmo de qual forma eu seguiria entre os canais para procurar por civis e sobreviventes dos desmoronamentos. Começando por onde propus a mim, ao adentrar pelo corredor percebo alguns sinais de destruição, as casas estão com rachaduras enormes como uma fenda entre rochas de montanhas, algumas delas tem paredes derrubadas e parte do corredor caiu no mar. Usando minha magia para poder andar nas paredes, desafiando a força da gravidade, prossigo até fim que tem um pequeno pedaço do corredor aéreo e entro na primeira casa a procura de alguém.
−Está vazia e com algumas paredes caídas.
−Sabia que devia ter aprendido alguma magia de som, seria muito bom nessas horas.
−Mas quem iria imaginar que algum maluco acordaria o Leviathan.
Saio da casa falando sozinho, então continuo a entrar nas casas pelas janelas e procuro por todos os cômodos de cada uma delas, até que paro sobre a parede da última casa e observo a situação em que estamos.
Isso está levando tempo demais, preciso ser mais rápido.
Humpf! Vou ser obrigado a usar o Movimento Ilusório na forma real.
Combino com a magia que me permite andar pelas paredes, uma mais poderosa que me torna mais rápido para acelerar as buscas ou não vai sobrar casas para encontrar alguém, a serpente gigante está destruindo tudo pela frente causando inúmeros tremores na estrutura da cidade sobre as rochas. Dou continuidade ao plano, após usar minha magia, seguindo as buscas nos corredores seguintes, a destruição só aumenta a cada um que percorro, mas nada de sobreviventes, nem se quer sinal ou grito de ajuda.
−Gyah! Me ajude!
Ouço a voz de uma criança, assim que decido subir para andar pelos telhados e na parte superior da cobertura do corredor central e percebo o corpo da besta nos canais mais próximos ao porto. Pulo para os telhados mais à frente, à procura de quem gritou, mas não escuto aquela voz de novo.
Onde ela está?
−Socorro!!
Mais uma vez, mas onde?
Olho para todo lado, mas tudo o que vejo são ruinas e mais ruinas sem nenhum rastro ou possibilidade ter alguém por essa região. Chego mais perto do corpo da serpente, acreditando que tem alguém preso nos escombros perto dela e desço pelas paredes mais seguras do quinto canal, vindo do porto e calmamente esperei pela voz mais uma vez, atento para a direção que ela vai vir.
−Ryah! Socorro.
A voz está mais próxima dessa vez, é de uma menina.
Olho para a direção mais óbvia possível e percebo que há realmente uma menina em perigo, presa pelas roupas nas escamas azuis da serpente no quinto canal e indo para o lado oeste da cidade.
−Tenho que ir atrás dela, mas... er... muuuu...
−Quer saber, que se dane.
Um pouco hesitante e temendo pela segurança da garota, tento pensar em algo para poder agir com prudência, mas a única opção que tive em mente é pular sobre o corpo escamoso da criatura.
−Ohh! É bem escorregadio.
−É obvio que sim, é uma serpente marinha com escamas lisas para poder nadar com facilidade.
Pulo nas costas do Leviathan caindo com os joelhos dobrados e quase caio nas aguas do canal, ele é rápido e dificulta meu equilíbrio, tento caminhar devagar na direção da menina que está presa nas escamas azuis da asa esquerda. Distante dela tento me manter de pé no corpo escorregadio e úmido, mas ele começa a mergulhar mais rápido e chego cada vez mais perto de submergir junto.
Para evitar que eu fique na agua começo a correr sobre as escamas, usando a magia que usava anteriormente para subir nas paredes e nos telhados. A criatura começa a voar como se andasse no ar, seu corpo começa a ondular para cima mais e mais, dificultando minha locomoção até a menina.
−Hector! Vou lhe dar suporte.
Braska ao longe na praça central, chama minha atenção e começa a me acompanhar, subindo nos telhados como se fosse uma criança bagunceira. Ele está em boa forma para quem tem quase 200 anos.
No momento da minha distração, estamos indo na direção de uma torre alta construída como os castelos medievais com um sino no topo e ao longe parece ter algumas pessoas abrigadas nela.
−Braska! Tem civis na torre logo à frente, consegue retira-los de lá a tempo?
−O Leviathan está indo naquela direção.
Assim que ouve minhas palavras, Braska corre até o local o mais rápido que pode, antes da cabeça do Leviathan atingir a construção e levar tudo abaixo. Vendo ele subir a torre, começo a tentar correr sobre o corpo escamoso e escorregadio que estou pisando, ele está flutuando no ar com uma velocidade muito alta e as gotas de chuva caem sobre o rosto a ponto de machucar os olhos.
−Tenha calma, estou chegando.
A menina grita incansavelmente quando percebe que estamos nos aproximando da torre do sino, sinto que meus pés estão mais firmes sobre as escamas que piso, não penso na dor ou em qualquer ferimento que eu possa ter agora, apenas quero salvar mais uma vida.
Finalmente, chego perto da asa esquerda onde tem um espinho roxo que vem da base dela, a menina está logo abaixo, estou praticamente comendo meu cabelo que está grudado no meu rosto e sinto que a velocidade da besta sagrada aumentou à medida que se aproxima da torre.
−Uff! Segura... a... uff... minha mão.
Desço ficando com uma das pernas no espinho da asa esquerda e o pé esquerdo apoiado no corpo, jogo meu tronco para frente com o braço direito esticado, bem próximo ao rosto choroso dela. Me estico até o limite do meu equilíbrio, mas ela não demonstra alguma reação, está congelada pelo medo e não consegue se quer falar algo, apenas treme de frio e se agarra a pele azulada da asa.
−Ela não me ouve.
Volto um pouco meu corpo para a posição original, tentando pensar em alguma solução rápido, vejo que a cabeça da serpente voadora atinge a torre no meio, jogando a parte de cima para o alto como uma bola e ele segue para cima, fazendo com que eu e a menina escorreguemos com o impacto.
−Ooah! Ihs!... so, agora você está segura.
Ao ar livre, junto minhas pernas e braços para cair mais rápido e passar para baixo dela. Após isso, usei a o Movimento Ilusório para poder encostar nas escamas e reduzir minha velocidade de queda, então com os pés no corpo escamoso, me estico e consigo pega-la em meus braços. É uma menina de aparente 7 ou 8 anos, ela segura meu casaco com toda a força e treme muito, acredito que seja frio, ainda mais agora no inverno.
−Vamos sair daqui.
Segurando a criança firme, aproveito a velocidade da queda para ter impulso e escorregamos até ter alcance o suficiente para pular nos telhados da cidade, continuo correndo porque se eu parar direto com a queda, posso quebrar a estrutura e ferir ambos gravemente. Vou correndo entre os telhados com uma velocidade maior do estou acostumando, até chegar na praça central, onde me encontrei com o Braska junto de uma mulher apavorada em prantos.
−Filha, filha, por céus você está segura.
−Obrigada, não sei como agradecer. Fico muito agradecida.
Pulo com a menina até o piso da praça e entrego a menina nos braços da sua mãe, que não consegue mais conter as lagrimas e abraça ela com toda força e o calor do amor de uma mãe desesperada.
Fico feliz em ver aquela cena, me faz sentir que fiz o certo, não fui egoísta a ponto de pensar só na minha segurança e pensar no coletivo é o que sempre quis mostrar para meus amigos e aliados. Não adiante eu ter direito a 3 baldes de agua em meio a uma crise e se aproveitar disso, sendo que só vou precisar de 1, então prefiro devolver os outros 2 para ajudar os que precisam mais do que eu.
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