Faded Hearts
16 Grim
Notas iniciais
Seguindo o que Leon me informou ontem, partimos para o sul, na cidade que faz fronteira com Moria. As atividades de contratantes ilegais nessas regiões próximas as fronteiras vêm incomodando minha intuição também, não é só a Arcadia que anda com o pé atrás com todas essas movimentações.
Faz alguns dias que venho lidando com as Sombras junto com a Fior e a Selene desde o dia que voltei, essa hipótese já passou pela mente de todos nós e principalmente a Fiore previu essa possibilidade.
Junto da Fior e Selene, seguimos o plano de costume e começamos a caminhar pela rua principal da cidade. Agora estamos no final da tarde, hora perfeita para encontrar contratantes ou uma Sombra.
−Será vamos encontrar alguma Sombra aqui?
−Para mim a cidade está normal.
Selene aparenta não estranhar nada em relação a cidade e a forma que ela se encontra.
Observando as pessoas enquanto caminhamos, concordo com ela nesse sentido. A cidade não aparenta um clima negativo e não sinto a presença de magia, embora exista certas magias difíceis de identificar.
−Hmm... parece tudo normal mesmo.
−Porém a Arcadia não iria pedir para investigar a cidade sem alguma razão.
Fior olha para a feira que se estende por grande parte da rua.
As ruas estão cheias com pessoas em todas as barracas de frutas e os comércios estão abertos como uma cidade normal, mas para mim essa normalidade indica que o contratante está agindo em um lugar com pouca gente em horários sem pessoas na rua.
−Hector, veja aquele menino ali na barraca do abacaxi.
−Ele me lembra você quando era pequeno.
Fior aponta para uma criança com cabelos pretos e olhos azuis com idade aparente de 7 anos.
−Huh! Ah sim, ele é bem parecido comigo quando pequeno.
−Só que meu pai nunca passeava com a gente pela cidade.
Ele nunca teve tempo para os seus filhos, nem mesmo para as meninas que sempre pediam para andar na cidade com ele. No fim a nossa mãe acabava por fazer isso para deixar todos alegres.
−Ei! Hector.
−Como era a relação sua com seu pai?
Selene puxa a manga direta do minha camisa.
−Hunh...
Meu pensamento foca na minha infância com minhas irmãs.
−Não faça esse tipo de pergunta?
−Raposa burra.
Fior interrompe a conversa antes de eu poder responder.
Continuo a caminhar com meu pensamento focado em problemas do passado, sem perceber o caminho que percorro em silencio.
De fato, meu pai teve pouca presença na vida de seus filhos, mas principalmente na minha e como não bastasse isso, me coloca em uma mansão separado da Celia e da Ada. Não sei porque ele fez isso, a carta que li ontem pode ter o motivo por trás disso e existe a chance de ser porque minha mãe me ensinou magias ou por eu saber de alguma coisa.
−Ei garoto!
−Volte aqui.
Escuto um comerciante gritar e vejo uma criança correndo com algumas frutas nas mãos.
−Oi! O que aconteceu aqui?
Corro para perto da barraca antes do homem correr atrás do menino.
−Essas crianças estão sempre roubando frutas da minha barraca.
−Estou perdendo minha paciência com eles.
O comerciante fala com um tom grosseiro e irritado.
−O que ele levou do senhor?
Pergunto para o homem enfurecido enquanto observo o menino entrar em um beco não muito longe da barraca.
−Umas 5 maçãs e uma melancia.
−Humpf! Também um abacaxi que eu tinha guardado para dar a dona do orfanato.
Ele verifica as sacolas e as frutas presentes na barraca.
−Entendi e quanto dá tudo?
Sem pensar muito decidi fazer uma boa ação.
−Tudo? Deixe me ver.
−O abacaxi é 250, as maçãs são 150 e a melancia 200 pratas.
Tenho que admitir que eles levaram um bom valor em frutas.
−Aqui, o senhor pode ficar com 700 pratas e eu gostaria de umas 3 maças.
Pego umas moedas no meu bolso da calça e entrego para ele.
−Obrigado garoto.
−Leve essas maçãs bem vermelhas aqui.
O comerciante sorri me entregando uma sacola com as maças que lhe pedi e eu dou um sorriso em retorno de sua gentileza.
Agora vamos atrás daquele menino, que estava bem vestido para uma criança abandonada ou deixada para viver nas ruas. Se eu me lembro bem ele entrou no beco logo a frente.
−Meu pai não é criminoso!
−Seus mentirosos.
Ao me aproximar do beco escuto a voz irritada de um menino.
−Você acha que é mentira seu pai roubar todo aquele dinheiro do orfanato e enganar meu pai.
Ao que me parece é uma briga entre dois meninos, mas esse segundo tem a voz um pouco mais grave e provavelmente é mais velho.
Entro no beco e percebo o menino que roubou o feirante cercado por 5 meninos mais velhos com pedaços de madeira em mãos, com certeza vão bater nesse menino sem pensar duas vezes.
−Você tem que pagar pelo o que seu pai fez com o meu e ao orfanato.
Eles continuam a discutir enquanto me aproximo.
−Não seria melhor vocês 5 largarem esses pedaços de madeira e irem embora?
Chego por trás do menino e fico de frente ao grupo de encrenqueiros.
−Quem é você? Um herói?
−Hein? Seu metido.
O menino do meio com cabelos castanhos tenta intimidar a mim.
−Sigh! Vocês filhos de nobres estão cada vez mais mal-educados.
−Eu disse para largarem essas madeiras e irem embora.
Boom!
Concentrei um pouco de magia no pé direto e bati no chão fazendo um grande barulho no beco.
−Ahn! Ahhhh! O que foi isso?
−Vo-você teve sorte dessa vez, mas na próxima nós vamos te pegar sem seu amigo.
−Vamos embora.
O menino que me enfrentou larga a madeira no chão e caminha para sair do beco atrás dele.
−E rápido antes que eu mude de ideia e de uma lição em vocês.
Boom!
Bato meu pé de novo no chão e os meninos correm para longe em um piscar de olhos.
Usar um pouco do Impact Burst com os pés para assusta-los até que não foi uma má ideia, esse menino ao meu lado podia ficar bem machucado se eu deixasse ele nas mãos desses 5 moleques e fazer cara de mal não muito meu forte, mas ainda sei ser pior que eles porque já fui bem encrenqueiro também.
−Ei está tudo bem?
−Eles não te machucaram né.
Chego perto do menino e me agacho na frente dele.
−Sob... estou bem.
Ele até chegou a chorar só com as palavras deles, imagino como ele ficaria se eles tentassem usar aqueles pedaços de madeira.
−Eles estavam falando do seu pai né.
−Ele fez algo de errado?
Minha curiosidade é mais forte que meu senso de etiqueta.
−Meu pai não fez nada.
−Tudo o que eles falam é mentira, alguém armou uma fraude para ele se passar como ladrão e perder seu título como nobre.
O menino demonstra irritação com minha pergunta.
−Hmm... entendo.
−Qual é o seu nome?
Sento sobre um caixa de madeira deixada na esquerda do beco.
−Adam. Adam Moravia.
−Filho do Marques Benjamin Moravia
Ele senta ao meu lado e limpa suas lagrimas com a manga de seu casaco.
−Muito prazer.
−Meu nome é Hector Sabrie.
Dou um sorriso para ele.
−Hector é um nome bem legal.
−Posso perguntar uma coisa?
Ele olha para mim empolgado com alguma coisa e aceno com a cabeça.
−Como você fez aquilo de bater o pé no chão e fazer todo aquele barulho?
Seus olhos brilham de curiosidade.
−Isso de bater o pé no chão é um segredo familiar que aprendi com minha mãe, ela fazia isso quando estava brava com alguém.
−A forma que ela faz deixa qualquer um assustado.
Não contei a verdade para ele até porque ainda não tem idade para saber o que é uma magia e que eu sou na verdade da família monarca de Aeternam.
−Hehe! Eu queria aprender isso.
Ainda bem que agora ele se acalmou depois do que aconteceu.
−Adam né
−Você pode me contar o que aconteceu com seu pai?
Suas sobrancelhas inclinam de preocupação com a minha pergunta.
−Um dia papai chegou tarde com a roupa toda bagunçada, dizendo para a mamãe que perdemos tudo.
−Ele falou sobre fazerem ele se passar por ladrão e ter roubado seu melhor amigo, fazendo eles brigar.
−Mamãe passou a trabalhar com o marido de uma amiga e conseguia ajudar, então ela ficou doente e o papai entrou em desespero.
−Eu fiquei cuidando da mamãe e papai começou a chegar tarde em casa, eu não sei o que ele estava fazendo até que anteontem ele disse que ia conseguir recuperar a honra dele e da família.
−Desde daquele dia ele desapareceu e a mamãe está pior, então a amiga dela ficou cuidando dela e eu vim buscar ele, mas fiquei com fome e não tinha dinheiro para comprar algo.
O pai dele disse que ia conseguir recuperar a honra dele e da família, então começou a aparecer em casa de noite.
É estranho esse tipo de comportamento, se fosse algo como sair cedo e demorar para chegar porque estava em busca de alguma solução, mas isso é completamente fora do normal.
−Desde quando isso aconteceu?
Isso está cheirando a problemas e dos grandes.
−Há uns 7 dias.
−Porque você está perguntando? Aconteceu algo com ele? É por isso que ele vem agindo daquela forma estranha, dizendo que eu sou o culpado disso.
O menino fica de pé repentinamente.
−Hmm... não sei, mas quero que não leve a sério o que ele falou sobre você.
−Ele está passando por uma crise que não consegue resolver e no momento de irritação acaba falando coisas ruins.
−Não odeie seu pai por isso.
Entendo a tristeza dele em seu pai por a culpa nele pelas coisas que aconteceram.
−Vou ajudar a trazer seu pai de volta, mas agora está anoitecendo e você deve ir cuidar da sua mãe.
−Assim que eu achar ele, peço para ele voltar para casa porque as ruas a noite estão perigosas.
Me levanto da caixa de madeira ao perceber o vermelho do pôr do sol no céu.
−Sim, entendi.
−Vou para casa cuidar da mamãe e espero que o papai volte essa noite.
A criança dá um pulo de alegria e corre saindo do beco para as ruas.
Eu não tive coragem de contar a verdade para o menino, mas é possível que o pai dele seja o contratante ilegal que matou algumas pessoas nos últimos 5 dias.
Os dias batem com a informação que o Leon tinha.
Se ao menos tivesse alguma forma de impedir ou quebrar o contrato entre um humano e uma Sombra.
Está na hora de encontrar a Fior e a Selene para procurar na região do rio da fronteira. Rezo para que a pessoa por trás dessa Sombra não seja o pai desse menino.
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Novamente juntos, partimos para o lado onde corre um pequeno rio que divide a cidade e vai rumo ao rio da fronteira.
A lua está cheia iluminando as ruas da cidade e o ar começa a ficar frio, essa parte da cidade é gelada e o vento passa livremente.
Descemos das ruas para a parte mais baixa próximo a margem do rio e ao decorrer de nossa caminhada a cidade começa a ficar sombria. Assim como na primeira vez aquele clima triste e assustador toma conta das ruas e das margens do rio, principalmente próximo da gente.
−Ei Hector!
Selene puxa minha manga.
−Veja aquela nevoa.
−Não é normal aquilo acontecer.
Ela a ponta para o outro lado da margem com um estranho evento ocorrendo.
−Aquilo é uma magia de ocultação.
Meus olhos não se enganam com a imagem da nevoa andando no outro lado da margem como se fosse algo muito normal.
Zoom!
Ao chegar na nossa direção a nevoa pula rumo a nós três.
−Esse é o Grim!
−Rápido desviem.
Selene consegue ver quem está dentro daquela cortina sob a magia de ocultação.
−Que honrável presença você me faz, Raposa Caótica.
A cortina aos poucos se desfaz e um homem com camisa social de manga longa e um colete preto aparecer na frente de uma lesma cinza gigante.
−Honrável é a sua vó.
−Porque eu tenho que perder meu tempo com você, sua lesma maluca?
Temos um novo recorde, a Selene se irritou com uma Sombra em apenas 20 segundos e como de costume faz umas caretas estranhas apontando o dedo para o ser que está te irritando.
−Calma, Selene.
−Esse cara com a Sombra é diferente dos outros, por algum motivo sinto que devemos ter cuidado com ele.
Fior toca o ombro da teimosa e observa o comportamento do homem junto com a lesma.
−Como sempre facilmente irritável, mas agora que te encontrei vou matar você e seus amigos humanos.
−Para enfim me tornar a Sombra mais forte de todas.
A lesma fica ao lado do homem e tenta nos ameaçar.
−Eu estou pouco me lixando para você, Grim.
−Vou acabar com essa palhaçada agora e mandar você de volta para casa.
Ela invoca a foice apontando para os dois logo a frente.
−Ei Cabeça de Água-Viva.
−Liberte meus poderes para matar esse chato logo.
Ela usa seu tom mandão para a Fior que vem em minha direção para liberar o selo.
−Tome cuidado com ele, Raposa.
Vindo por trás ela cobre meus olhos e o brilho que antes era branco ficou azul.
−Cuide dele, esse cara já pode se considerar morto.
Selene sorri e se transforma na sua forma real.
−Espera, ele está fazendo algo estranho desde a hora que pulou na nossa direção.
Observo os olhos do homem com uma arma de fogo em mãos.
Sinto uma outra presença por perto, uma presença maligna com uma vontade assassina maior que a desses dois e meu medo é que se ela tentar atacar possa ser alvo dessa pessoa escondida.
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