Faded Hearts
17 Correntes da Alma
Uma outra presença nas proximidades me incomoda por um instante. Olho para a direita nas ruas de paralelepípedo um pouco acima e as casas de madeira construídas próximo ao rio que corta a cidade.
Nas casas a esquerda não percebo movimentações, muito pelo contrário as ruas estão silenciosas assim como a rua logo acima na minha direita.
Porque tenho essa sensação?
−Agora vou matar você.
Selene parte para cima da Sombra e do homem misterioso.
Bang!
Bang!
−Esperem vocês duas, tem algo estranho aqui.
Mesmo com a minha voz, elas parecem não me escutar.
Espera! Aquele é homem me parece familiar.
Pego uma foto que está no bolso da minha calça, que o menino me deu para ajudar a encontrar o pai dele.
Ah! Droga. Aquele homem é...
−Fior pare de atirar.
−Eu conheço esse homem.
Tento levantar o tom de voz para chamar a atenção dela, mas o poder da Selene suga grande parte das minhas forças.
Preciso para-las antes que elas matem o pai do Adam.
−Tsk! Meu corpo está pesado demais.
−Tenho que chegar até a Fior logo a frente.
Uso minhas forças para tentar me levantar, mas meus braços e pernas tremem com esforço que estou fazendo. Até parece que não vão suportar meu peso.
Será que elas não conseguem escutar minha voz porque ela está muito baixa?
−Gahh!
−Essa dor.
A lesma escura como o céu a noite protege o homem, mas parece que se ferir a Sombra, o contratante também é ferido.
Então essa é a ligação do contratante ilegal com a Sombra, eles precisam dos humanos para viver no mundo real e para isso precisam da energia vital, até mesmo os ferimentos têm que ser compartilhados para não enfraquecer e ser preso pelo Chaos novamente.
−Hector!
Uma estranha voz de mulher ecoa na minha mente.
−Hector, está escutando minha voz?
−Você consegue parar as duas, sua força de vontade é maior do que as limitações que impedem suas ações.
Eu conheço essa voz de algum lugar.
−Você pode controlar o poder da Selene e sela-lo de volta.
−Confie mais em si.
A imagem de uma mulher sorrindo com longos cabelos pretos caídos sobre os ombros, aparece em minha mente por uma fração de segundos.
Essa imagem é como a do meu sonho.
Até que ela tem razão, ficar reclamando das minhas limitações não vai me ajudar. Diferente deles a Selene toma minha energia e não compartilha seus ferimentos, fico muito fraco ao liberar por completo seus poderes e vulnerável a qualquer coisa.
Tento mais uma vez me levantar, usando minha força para suportar o peso da liberação do selo em meu ombro esquerdo.
Obvio que não vai ser fácil, concentre em seu objetivo e faça a diferença em momentos necessários.
Um passo de cada vez com minhas pernas tremendo e tendo a sensação de que um descuido da minha atenção posso cair.
Minha visão começar a desfocar e ficar embaçada à medida que chego perto das costas da Fior.
−Fior... por favor... pare de atirar.
Consigo puxar uma parte do seu casaco ao tocar seu ombro direito e cair de joelhos.
−Huh! Hector o que você está fazendo?
−É perigoso ficar perto deles.
Fior olha para mim com suas sobrancelhas inclinadas de preocupação com a minha queda.
−Fior, eu quero ajuda-lo?
−Ele não é como o incendiário da fronteira com Heathcliff.
Minha voz está fraca demais, não sei se ela realmente me entendeu.
−Gahh!
−Grim mate essa raposa.
O homem grita de forma irritada com a dor causada pelos danos que a Sombra recebe.
Quase esqueci da Selene, mas como vou para-la?
−Mas Hector, porque você quer ajudar esse homem?
−Não entendo.
Fior tira minha atenção com sua dúvida.
Não posso culpa-la, por não saber que ele é o pai do menino Adam.
Vejo naquele menino a minha imagem, a falta da presença do pai faz ele pensar em ser a causa de tudo que acontece e tenta compensar de alguma forma. Meu pai, Oscar Sabrie, nunca foi uma pessoa do tipo capaz de demonstrar afeto e parecia temer algo que minha mãe fazia, além de não gostar de eu ser parecido com ela.
Logo com a morte dela, ele se tornou mais frio a cada dia comigo. Não via ele direito e quando ele estava em casa, dava um pouco de atenção a Celia e a Ada que ficaram muito abaladas sem a presença da nossa mãe. Não demorou muito para ele me deixar preso naquela mansão próximo ao cemitério de Aeternam, ocupou meu tempo tendo aulas com professores particulares, mas o que ele não esperava é que tudo que aprendi resultasse em uma evolução da minha capacidade de usar e perceber magia.
Diferente da minha péssima relação com meu pai, o Adam ama seu pai profundamente e quer manter sua família unida com todos sorrindo juntos.
−Porque ele é o pai de um amigo.
−Não quero que ele veja seu pai cair no desespero por problemas financeiros.
As sobrancelhas da Fior se levantam e ela dá um sorriso discreto como resposta.
−Hmm... você não quer ver seu amigo passar o mesmo que você.
−Fufu! Entendi, mas não vou conseguir parar a Selene.
−Seu selo só permite libertar os poderes dela, mas não dá para selar da mesma forma que foi feita como o contrato.
−Só a Selene consegue selar seus próprios poderes, é como se ela tivesse uma estranha conexão com você.
Ela olha de forma seria para a Selene e o Grim lutando.
−Conexão é...
Eu não tentei usar as Correntes de Selamento desde da morte da minha mãe, posso selar os poderes dela e parar seus movimentos. Mas acredito que somente ela não será o suficiente para contê-la.
−É hora de agir seriamente.
Concentro uma grande quantidade de magia em meu corpo a ponto de criar uma pequena onda de energia magica entorno de mim.
Mantenha sua visão onde vou usar a magia, molde ela até ganhar forma de correntes em sua mente para criar sua imagem no mundo real.
Coloco minhas mãos juntas como se eu fosse rezar e um forte brilho azul começa a emergir das minhas mãos.
A muito tempo não sentia essa energia forte a ponto de brilhar, é calorosa e triste ao mesmo tempo.
−Me perdoe Selene.
−Eu aprisiono seus poderes como forma de impedir um mal maior.
Me levanto novamente e preparo a magia fazendo as partículas de matéria no ar ficarem próximas da Selene.
Direciono o brilho azul da minha magia até as costas da Selene.
−Correntes da Alma: Selamento!
Climn! Climn!
Hiss!
Materializo 3 correntes atrás da Selene que prendem ela.
−Huh? O que? O que é isso?
−De onde vieram essas correntes?
−Meus poderes... estão desaparecendo.
Com as correntes entorno do seu corpo em sua forma real, seus poderes começam a ser selados de volta para mim.
Sinto meu corpo voltar a ficar leve, consigo me movimentar mais uma vez e agora posso cuidar desse assunto.
−Mu-Haha! O que é isso? Seus poderes te abandonaram.
−Melhor para mim, agora volte para o Chaos.
O Grim vem na direção da Selene para atacar.
−Pode parar com isso agora, Grim.
−Daqui você não passa.
Hiss!
Consigo correr na frente da Selene para impedir que ele continue e ele volta bem rápido até as costas do homem de óculos, que é o pai do Adam.
−Hector! O que você fez?
Selene chama minha atenção, caída no chão imobilizada com as correntes.
−Foi mal, eu tive que prender você para ajudar esse homem que é pai de um amigo.
−Deixa eu tentar algo só dessa vez e se não funcionar, eu mesmo acabo com eles.
Sei que você vai ficar uma fera comigo depois, mas dessa vez é necessário tomar uma outra atitude.
Porque o senhor escolheu esse caminho? Uma Sombra não é a forma correta de corrigir seus problemas, na verdade pode piorar o que você acredita que vai melhorar e no fim só vai restar mais mortes e tristezas.
−Senhor Benjamin.
−Marques Benjamin Moravia.
Ele parece ter me ouvido quando chamei pela segunda vez.
−Você me conhece?
−Jovem menino.
Ele para a Sombra e olha diretamente para mim.
−Não senhor, mas conheço seu filho Adam Moravia.
−Você se lembra dele?
Tento fazer ele lembrar do próprio filho porque o tempo que ele está causando esses assassinatos e dependendo da Sombra, pode ter virado uma marionete que nunca mais chegará ao seu objetivo. Fazendo exatamente tudo o que a Sombra quer, sem ao menos lembrar que um dia foi humano e com família.
−Adam... meu filho?
−Hmm...
Parece que ele ainda lembra de si e de sua família, o tempo que ele parou para pensar demonstra isso.
−Adam? Mas Adam? É Adam?
Fiquei esperançoso antes do tempo.
−Isso, Adam Moravia.
−Um menino de 9 anos com cabelos castanhos.
Suas sobrancelhas reagem de forma que ele aparenta lembrar do menino.
−Ele me contou tudo.
−O senhor não é um criminoso, tudo que aconteceu com o senhor foi feito por outros nobres que simplesmente odeiam que os outros consigam se dar bem em seus negócios.
Sua atenção ficou focada em minhas palavras e percebo lagrimas escorrerem por baixo dos óculos em seu rosto.
−Eles me transformaram em um criminoso por algo que eu nunca fiz.
−Como eu poderia roubar um orfanato sendo que foi daquele mesmo orfanato que eu vivi parte da minha infância.
−Isso faz não tem sentido para mim.
Seus ombros relaxam e ele abaixa a arma.
−Justo agora que minha coleção de caixas de música estava vendendo bem e tinha até comerciantes do outro continente, interessados neles.
−Meu sócio disse que era muito cedo para fazermos isso e então da noite para o dia a nossa loja foi roubada.
−Ele me denunciou por ter roubado o dinheiro da nossa sociedade, fazendo com que eu perdesse o título de Marques e por pouco não fui preso.
Benjamin começou a contar sua versão da história repentinamente como se eu fosse alguém conhecido e muita confiança dele.
Um sócio entrou na história agora, não sei se poderia dizer isso mas tem chances de que esse homem manipulou tudo.
−Marques, qual é o nome de seu sócio?
Conheço muito nobres apenas pelo nome porque meu pai já me apresentou para muitos deles, principalmente aos nobres de Ebrima.
−Augusto, conde de Éter.
−Foi ele que me acusou de fraude por me passar como criador dos relógios de bolso para o reino de Ellora.
−Relógios que nem funcionavam.
−Ele merece pagar pelo que fez.
Seu tom de voz calmo mudou para um bem irritadiço ao citar o nome de seu sócio.
Augusto é o conde de uma das cidades que faz fronteira com o continente de Yakob ao leste de Ebrima. A cidade de éter é conhecida por sua fabricação de relógios e a comercialização com os reinos do Leste, a fama de alguns de seus nobres não são das melhores.
As chances desse Augusto ter aprontado para o lado do Marques são bem grandes, lembro vagamente de quem se trata e também sei que ele já aprontou algumas na cidade onde mora.
−Marques acalme-se por favor.
−Matar alguém não é o caminho certo para resolver as coisas e usar uma Sombra a seu favor também não bom.
Tenho que manter ele calmo para convence-lo de desfazer o contrato com o Grim.
−Eu vou te ajudar a lidar com essa situação, sei como fazer ele pagar por ter mentido, mas primeiro preciso que você desfaça seu contrato com o Grim.
Fui direto ao assunto sem muita enrolação no meu dialogo e a lesma demonstra sinais de agressividade diante de mim.
−...
Hiss!
O Grim desaparece por um momento.
−Droga, isso não é bom.
Fico em alerta olhando aos arredores para desviar de um possível ataque surpresa.
−Hector! O marques sumiu também.
A Selene grita para mim e desvio meu olhar para ela.
Hiss!
−Rawww!
−É hora da sua morte.
A Sombra e o Marques partem para cima de mim juntos.
−Não vou conseguir desviar deles.
Isso foi inesperado para mim, eles atacando juntos é tão assustador quanto a Selene ser praticamente independente de mim.
Bang! Bang! Bang!
Bang!
−Guahhh!
4 tiros atingem os dois um pouco antes de chegarem a mim.
−Huh! Ah!
Ponfft!
−Aí essa doeu.
Caio sentado no chão de paralelepípedo as margens do rio que corta a cidade.
Ele não pensou duas vezes em me matar, meu coração ficou acelerado tão rápido quanto o susto de sua aparição.
−Fior! Você atirou nele?
Olho para trás e vejo a fumaça sair do cano de sua arma e olhar dela de surpresa com as sobrancelhas levantadas.
−Não, eu não tive tempo de pensar e acabei errando.
−Você pediu para não matar ele, então eu só atiraria se a situação ficasse muito perigosa.
Ela não parece estar mentindo, suas mãos estão com sangue por pegar a arma de forma errada e se machucar.
Fuuh!
Um forte vento gira entorno do Grim e do Marques, mortos por tiros misteriosos. O selo do Chaos se abre no chão para leva-los a parte mais profunda daquela dimensão escura e assustadora.
−Hector, me tira do meio dessas correntes.
−Porque você me prendeu dessa forma?
Com meu olhar concentrado no selo do Chaos, Selene me chama com uma voz furiosa.
−Eles já se foram.
Fior se aproxima quando o brilho branco do selo desaparece do chão.
−Você fica muito bem nessa pose, Raposa.
−Bupfu-haha! Está muito engraçada para falar a verdade e sua cara de brava então combinou com isso.
Como de costume ela não perde a oportunidade de provocar a Selene.
As correntes se enrolaram por todo seu corpo prendendo ela de forma que seus movimentos não atrapalhassem a mim, onde cada uma prendia seus braços e pernas juntos um com o outro como se prendesse as patas de um porco para não escapar.
−Fique quieta um segundo ou não vou consegui desfazer as correntes, se você tentar usar seus poderes.
Me agacho próximo dela e toco uma das correntes.
−Albelta!
Hiss!
Após eu desfazer a materialização das correntes magicas, a Selene se levanta limpando sua saia.
−O que foi isso?
−Essa língua estranha que você falou.
A curiosidade dela diante minha fala ao desfazer a magia chama minha atenção.
−Huh! Isso é a língua anciã Noxia.
Pow!
−Aí! Selene pare com isso.
No meio da minha resposta ela pisa no meu pé com toda força.
−Agora peça desculpas nessa língua No.. No.. No não sei o que.
As botas dela são bem doloridas para se levar um pisão no pé e suas sobrancelhas inclinadas de raiva mudam em pouco segundos ao tentar falar o nome da linguagem que eu usei.
−Me perdoe, Selene.
−Fui muito descuidado.
Aproximo minhas mãos de seu rosto e acaricio sua cabeça.
−O q-?... o que você está fazendo? Idiota.
Ela ficou com as bochechas vermelhas ao ter sua cabeça acariciada e tira meu braço rapidamente.
−Desculpe, foi por impulso.
Acabei de encontrar uma forma de impedir que ela fique mal-humorada comigo.
−Agora temos uma pergunta para resolver.
−Quem matou o Marques Moravia?
Fior se aproxima olhando para a minha direção.
−Hmm... esses tiros são de uma arma diferente da minha.
−Elas atravessaram os corpos dos dois e foram parar nessa parede.
Fior passa por mim e para logo de frente a parede que separa as ruas da cidade logo acima com as margens do rio.
−Nenhuma arma comum seria capaz de fazer isso, muito menos a minha.
−Só conheço uma pessoa que consegue matar Sombras com armas de fogo e seu nome é Marian Cross.
Fior pega um projetil e tenta explicar para mim e Selene sobre quem atacou o Marques.
Quando ela mostrou o projetil da arma dela junto ao que atingiu o Grim, percebo que elas são bem diferentes.
O projetil da arma da Fior, usada pela Arcadia, é redondo e não possui pólvora dentro dele, mas o que atingiu o Grim é feito de forma diferente tendo ponta como a ponta de uma lança, é oca por dentro com um pouco de um pó preto que parece ser pólvora.
−Então precisamos conversar com ele.
−Eu prometi a aquele menino que traria seu pai de volta.
Quero conversar com esse Marian e entender o que se passa na cabeça dele.
−Não seria uma boa ideia.
−Esse cara é perigoso e muitos da Arcadia o temem.
O tom de voz da Fior muda para um tom mais alto.
−Por hora temos que avisar a família e ajudar no que for necessário.
−Vai ser muito difícil para eles aceitarem a notícia do falecimento dele, principalmente sendo dado por um membro da Arcadia.
Ela entrou no problema principal que devemos resolver antes de voltarmos para reportar nossas ações.
−Sim, você tem toda razão.
Ajudar o menino a lidar com a morte do pai que caiu nas profundezas do Chaos por fazer uma escolha errada é a melhor coisa que podemos fazer agora e depois vou me encarregar de desmascarar o conde de Éter com um plano bem simples.
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