Faded Hearts
13 Emboscada
A forte luz joga todos nós para dentro de uma memória da Selene.
−He! He! He!
−Ei... rápido, vamos brincar.
Novamente vejo aquela Selene alegre, correndo em lindo jardim com uma raposa de pelúcia nos seus braços.
Assim como na última vez, não consigo falar ou chegar perto dela por mais que eu tente, as memorias dela distorcem a realidade de forma que qualquer um que não pertença a elas seja ignorado.
−O que foi? Já ficou cansado?
−Hehe! Você não aguenta correr um pouquinho.
Ela segura o bicho de pelúcia com o braço esquerdo enquanto conversa com alguém.
O comportamento dela me incomoda, ela é muito calma, doce e sua forma de se vestir é bem diferente. A Selene que conheço usa casacos com laços grandes como os de meninos nobres e se comporta como os meninos, agora essa garota usa vestidos de meninas nobres, delicados e cheios de detalhes, além de ser bem-educada e de fala polida.
Aos poucos a imagem some com o forte clarão que aparece na nossa frente.
A Fior e a Selene não falaram nada esse tempo todo, é como se estivéssemos separados quando víamos a memória.
Minha visão começa a voltar para o salão onde paramos.
O silencio tomou conta do resto da nossa noite, essas memorias vagas parecem incomodar mais elas do que eu e tenho a sensação de que algo está errado com essas imagens.
Hmm... isso ainda vai dar mais trabalho do que posso imaginar.
Caminhamos todo o caminho de volta até a casa do artesão e informamos o fim do nosso trabalho.
Não demorou muito tempo e voltamos para casa com a carruagem.
A hipótese dessa Sombra envolver algum membro da família real não passou de pura especulação, mas dentro daquele castelo tem muita coisa misteriosa e um espelho muito estranho que não reflete nossa imagem.
~~~~~~~~~~~~
Depois de uma semana, não foi requisitado nenhum serviço para caçar Sombras e novamente estou aqui nos jardins, mas dessa vez sentado sobre a sombra do pessegueiro com um dos livros que eu costumava ler em mãos, filosofia e magia são normalmente o que gosto de ler para passar o tempo.
Hmm...
Leio os parágrafos calmamente e sem perceber, o tempo passa mais rápido do que esperado.
Parei na página 26, quando uma frase me chamou atenção.
−Somos enganados por sombras, quando na verdade devemos sair da caverna e ver a luz.
Por um momento a palavra sombra me soou diferente dessa vez.
Acho que é melhor eu parar de ler livros de filosofia por hoje, estou viajando demais nessas histórias ultimamente. Não sei se é a falta de fazer algo ou é eu mesmo que estou meio fora da realidade.
−Hector!
Uma voz serena chama meu nome ao longe.
Fecho o livro e vou até a mansão.
Me pergunto o que ela quer de mim?
Caminho para a sala de visitas e me deparo com a May segurando um pequeno caderno de notas com a capa vermelha em suas mãos.
Uh! Espera um pouco.
Esse caderno é meu, como chegou nas mãos dela?
−Ah... você está aqui.
−Acredito que isso pertença a você.
Ela fecha o caderno e entrega para mim com um olhar diferente do comum.
−Posso lhe perguntar uma coisa?
Ela cruza os braços.
Não sei o que vai me perguntar, mas posso me arrepender se não aceitar seu pedido.
Aceno com a cabeça.
−Essa magia descrita nas ultimas páginas, você já usou ela alguma vez?
Com seus dedos inquietos, ela me pergunta sobre o Maximum Impact.
Sei que ela é a mais curiosa das três irmãs, mas também é a mais sabia quando o assunto é magias. Só quero saber como ela entendeu aqueles rabiscos e setas apontando para as anotações e erros de cálculo.
−Sim, usei uma vez.
−Cerca de uma semana atrás na Sombra que o Leon pediu para investigar na região norte do reino.
Coloco o caderno sobre minhas pernas e deixo minha mão direta sobre ele.
−Entendo! Então quer dizer que ela funcionou.
−Percebi alguns cálculos rabiscados com relação a como conseguir liberar a energia magica, mas parece que você conseguiu.
−Como ela se chama?
Seus dedos param de se mexer e ela me pergunta com um sorriso discreto no rosto.
−Bem... er... Maximum Impact.
Fico com vergonha de falar o nome de algo que criei.
Não tive muito tempo para pensar em algo melhor e essa foi a única coisa que venho em mente. É muito parecido com a Impact Burst, a única diferença que libero a magia pelos dedos e aumento seu impulso usando a pressão do ar, resultando então em uma força com capacidade de destruir uma rocha bruta.
−Interessante! Você conseguiu mudar a magia de seus ancestrais para uma melhor e mais fácil de usar.
−Tenho que lembrar de não te subestimar, por isso que o senhor Oscar trouxe vários professores para você, principalmente aquela mulher de Aquedus.
Seu sorriso aumentou com um pouco de conversa.
Não tinha reparado antes, mas ela está com um vestido simples dessa vez, nada muito cheio de detalhes, curto ou decotado. Chega a ser estranho para mim ver ela vestida assim, até porque desde quando ela terminou os estudos no internato de Aeternam passou a trabalhar bastante como cantora, então eu via ela direto com vestidos de festa.
Agora com a chegada do inverno, ela vai ter bastante trabalho com os eventos e festas de fim do ano.
−A proposito estou indo até o vilarejo dos refugiados, gostaria de ir junto comigo?
May faz um convite que atiça minha curiosidade.
Eu quero muito ver como estão as pessoas que conseguiram fugir do ataque a Aeternam.
−Serio?
Com minha pergunta, ela acena com a cabeça.
−Sim, sim, quero ir.
Pulo de empolgação por poder sair sem ser por causa de uma Sombra.
Há quantos anos que não saio de casa para me divertir ou passear, não sei nem quantos são e sem contar os 5 anos preso no Chaos.
~~~~~~~~~~~~
A carruagem para no meio do vilarejo conhecido como Aeter, apenas uma redução do nome da nossa terra natal.
−Vamos descer aqui.
−Quero conversar com o velho Jeffrey e sua esposa.
May abre a porta da carruagem e aguarda que eu saia com um sorriso.
Quando saio para ver o lugar, me surpreendo com o tamanho do lugar. As casas são exatamente iguais às de Aeternam, o detalhe em madeira de lei nas portas e nas janelas com desenhos únicos de flores representando cada região de Aeternam.
−Então? Está surpreso?
−Fufu! É quase uma cópia de Aeternam né.
Ela fecha a porta da carruagem.
−Isso é incrível.
−É como estar de volta na capital onde eu morava.
Me sinto em casa mais uma vez.
Ao longe da rua principal, os comércios estão bem organizados entorno da igreja e se estendem até a saída do vilarejo, que parece mais uma cidade. O clima daqui é o mesmo, as pessoas são sorridentes e conversam entre si como sempre.
−Parece que estou em casa de novo né.
−Vamos na loja do Jeffrey, quero ver se ele conserta uma coisa para mim.
Colocando sua mão em meu ombro.
May começa a andar e algumas pessoas cumprimentam ela, alguns conhecidos da capital e até a senhora Annabelle da loja de pães.
Paramos em frente a uma loja com um desenho de relógio na placa, os detalhes na porta são desenhos de margaridas, o que indicam que as pessoas dessa casa moravam na cidade vizinha a leste da capital.
Se eu me lembre bem, as rosas são da capital, as margaridas são de Artoria ao leste, os lírios são de Mise ao sul, os copos de leite são de Verband e da região que costuma ser do campo. Ainda tem a prímula noturna ao sul de Artoria, as rosas invertidas são das casas próximos a região montanhosa de Aeternam e por último as camélias eram das casas próximas as ruinas de Perpetua a sudoeste e da fronteira.
Antigamente os detalhes florais nas portas e janelas ajudavam a identificar em qual parte do reino estávamos, ainda é usado para esse fim e virou também uma forma de identificar a origem de algumas famílias.
É um sistema interessante e inteligente que meu bisavô criou.
Tingeling!
May abre a porta da relojoaria.
−Jeffrey, você está aí?
Fechando a porta, ela chama o amigo dela pelo nome.
A loja está cheia de relógios, aqueles relógios grandes de pendulo como um móvel da casa todo feito em madeira.
Eu costumava me esconder dentro deles quando era pequeno e minha mãe ficava uma fera comigo.
Dentro da loja aguardo o amigo da May aparecer.
−Esse relógio é bem bonito, a cor do mogno é incrível e as engrenagens não fazem barulho.
−Não vou escutar aquele. Tonk! Tonk!
Reparo em um relógio todo em mogno a direita da loja.
−É realmente lindo né.
−Tinha um desse na nossa casa, até a Fior conseguir destruir ele de alguma forma.
Ela toca no vidro do pendulo e olha para o reflexo dela.
−Ora! Veja só quem venho me visitar.
Um homem de cabelos loiros e arrepiados aparece pela porta dos fundos da loja, ele parece ter uns 40 anos ou mais, parte de sua barba é branca e seus olhos tem manchas envolta, que ao meu ver ele vem tendo dificuldades para dormir.
−Olá Jeffrey.
−Como você está?
Educadamente ela cumprimenta o relojoeiro.
−Muito bem senhora May.
−O que traz a senhora até minha loja?
Ele dá um breve sorriso enquanto fala com a May.
Na verdade, o homem mentiu para ela, as manchas nos seus olhos são olheiras e dificuldade de dormir pode ser por causa de alguma doença ou preocupação.
−Trouxe isso para concertar.
May tira do bolso de seu casaco um relógio de bolso dourado como o meu e coloca sobre o balcão da loja.
−O relógio solar da senhora Lucrécia.
−Aconteceu algo com ele?
Ele pega o objeto pela corrente e observa as engrenagens visíveis.
Esse relógio é igual ao da minha mãe, as únicas diferenças são as engrenagens de caixinha de música que faltam nele e o desenho de um sol no lugar da lua na parte de trás dele.
−Ele parou de funcionar desde ontem, só percebi isso quando coloquei ele sobre minha escrivaninha.
−Você consegue consertar ele para mim?
May tenta explicar o que aconteceu com o relógio dela.
−Hmm... ele é parecido com o relógio lunar da senhora Lucina.
−Pode ser que a pilha tenha enfraquecido, vou precisar de algumas horas para verificar ele.
Ele coloca o objeto sobre o balcão novamente e analisa os botões ao lado dele.
−Tudo bem, então mais tarde volto aqui.
−Até depois.
May sai da loja e eu sigo ela em silencio.
...
De volta a rua principal do vilarejo.
−Hector!
Ela me chama com a voz mais calma e baixa.
−O que foi?
−Quer ir a algum lugar?
Eu vim ver como todos estão, então por mim ficaríamos andando por tudo.
−Tem uma mansão abandonada no final do vilarejo que nós usamos como um local de homenagem a aqueles que morreram na invasão.
−Gostaria de ir?
Seu olhar seguido de um sorriso discreto me diz que ela planejou algo.
Normalmente a May não faz as coisas sem ter intensões ou algo planejado para esse fim, ela é uma pessoa esperta e astuta, e pode assustar com sua forma de ser.
−Claro!
Respondi com uma simples palavra e um sorriso, até começarmos a caminhar rumo ao fim da vila.
O dia está mais quente que o normal, não parece que estamos no meio do outono do nosso continente.
Sinto olhares estranhos dos homens locais com uma energia ruim vindo em minha direção.
Minha presença ao lado da May não é muito bem-vinda para eles e até onde eu sei ela é bem popular entre os homens desde adolescente.
Vou sentir esses olhares de inveja em cima de mim por estar ao lado dela durante todo o percurso até a mansão abandonada.
−Hm-huhu-huhurn.
Ela começa a murmurar algo.
Parece uma melodia.
Hmm... é a música que ela preparou para minha cerimonia de maioridade, escutei somente o começo dela em casa como previa porque ela seria tocada logo quando eu terminasse toda a formalidade do evento.
Chegamos na frente da mansão misteriosa.
−Aguarde um segundo aqui, vou entrar e ver se está tudo no lugar.
Ela faz um pedido um tanto curioso.
Aceno com a cabeça e vejo ela adentrar na construção destruída pelo tempo, a pintura das paredes está apagada, as janelas estão com os vidros quebrados e algumas com as cortinas saindo para fora.
Espero pelo retorno da May, por alguns minutos e não a vejo retornar, então decido sentar em uma grande pedra na entrada.
...
−Sigh! Ela demorando mais do que pensei.
Retiro meu relógio do bolso do meu colete e vejo os minutos se passarem rápido.
Por fora essa mansão lembra o salão da igreja que eu fiz minha cerimonia de maioridade, só essa aqui está de pé ainda e com um pouco de esforço e cuidado, ela ficaria novinha em folha.
Ultimamente venho vendo coisas bem diferentes do que era acostumado, não só o que mudou com o tempo, mas a forma que essas três irmãs mudaram é um pequeno choque para mim. Fior usando roupas mais adultas, sendo que ela sempre dizia não querer ser adulta. Fiore vem agindo com muitos mistérios por trás e apesar de ser inteligente, não consegue me enganar com isso. Agora May propõe de vir até a vila dos refugiados e passou a usar roupas mais discretas e comportadas, além daquele relógio de bolso.
A May está usando um vestido claro com uma fita abaixo do busto da mesma cor fazendo um laço, por baixo uma camisa branca aparecendo as golas em seu pescoço, um casaco preto com uma flor de tecido na gola a direita, meia calça preta com linhas azuladas fazendo desenhos de losangos e sapatos cinza claro.
Ainda não estou acostumado com essas mudanças nelas, acho que é por causa que estou de volta a pouco tempo e aos poucos isso muda né.
−Por falar nisso, a May está demorando demais.
−Será que aconteceu algo?
Fico inquieto diante ao tempo que passo sem o retorno dela.
Click!
−Hmm... faz mais de 50 minutos que ela entrou, não demoraria tanto assim para ela voltar.
−Vou procurar por ela.
Me levando da pedra que fiquei pensando nas mudanças dos 5 anos e vou até a mansão.
−A porta da frente está fechada, porque?
−Ela entrou por aqui há uns minutos atrás.
Talvez esteja presa porque a maçaneta está enferrujada ou algo do tipo.
−Hmmmhuh! Uff! A porta está emperrada.
−É difícil de empurrar com as mãos, vou tentar usando o ombro.
−Hmmmhuh!
Plam!
A porta bate contra a parede após eu conseguir abrir.
−Uff! Agora onde você está May?
Entro em um grande salão logo na entrada da mansão.
O lugar está escuro e o ar corre livremente por toda a sala.
A visão que tenho é de um lugar assombrado.
Hiss!
−Ora! Ora! Então você conseguiu sair do Chaos?
−Hector Sabrie.
Uma mulher com uma capa preta aparece no piso acima próximo as escadas.
−Tsk! Quem é você?
−Espera! Você estava lá na minha cerimonia.
Logo de cara não percebi porque seu rosto está coberto pelo capuz, mas o seus cabelos castanho-claros eram de um dos que me mandaram para o Chaos.
−Naquela festinha ridícula? Sim.
−Eu esperava algo maior vindo de sua família, para quando você caísse em nossa armadilha causasse mais drama.
−Haha!
Seu tom sarcástico me incomoda.
−A propósito, tem uma surpresinha para você.
Hiss!
Droga, alguém está aqui.
−A-ahhh!
Ponfft!
Alguém me derruba no chão.
−Olá, Hector!
É a May sentada em cima de mim e portando uma arma de fogo.
Click!
Ela aponta a arma engatilhada para mim. Seus olhos estão vermelhos e esse cheiro é... de magia.
Magia de manipulação. Essa mulher conseguiu fazer isso com a May?
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