Faded Hearts

11 Armadura Louca II


Saindo da carruagem, percebo que a cidade que faz fronteira com o deserto é diferente do que eu pensei.

Não esperava encontrar uma cidade dessa forma, parece uma cidade fantasma. A maioria das casas estão vazias, não vejo sinal de pessoas nas ruas e somente vejo alguns pássaros cantando.

−Então, vamos conversar com o representante da cidade.

−Preciso de uma informação que está faltando.

Fior olha para cada um dos lados, uma rua após a outra no alcance da sua visão.

Ela deve ter reparado na falta das pessoas.

Sem muito o que conversar, caminhamos cidade a dentro a procura do homem que solicitou a ajuda para a Arcádia.

Com um pouco de caminhada por uma das ruas, percebo casas vazias e as poucas que tem pessoas morando estão trancadas, acredito que seja por causa das mortes que vem ocorrendo.

Se não me bastasse isso, ainda tem o mal humor dessas duas perto de mim. Parece que escolhemos o dia errado para caçar Sombras, principalmente em um local que precisamos de muita atenção.

Nós aproximamos de uma casa com janelas e portas abertas, diferente das outras.

−Oh! Senhora Fior de Arcádia.

−Eu estava a sua espera.

Um homem idoso chama nossa atenção ao chegamos na entrada da casa e se aproxima com um pequeno martelo em suas mãos.

Suas roupas são uma camiseta cinza, um calção marrom e um chinelo feito com palha, sujos aparentemente pelo trabalho que ele estava fazendo no quarto logo atrás.

−Por favor entre, está uma bagunça porque é a casa de um velho artesão.

−Haha!

Entramos na humilde casa junto ao velho artesão que parece estar feliz com a nossa presença e ele nos leva até uma pequena sala com um único sofá com seu tecido todo remendado.

Olho para a mesa com alguns materiais que ele estava trabalhando.

Parece que ele estava fazendo uma cadeira.

−Senhor Baal, precisamos de algumas informações.

−O senhor tem tempo para nos ajudar?

Fior põe a mão na cintura com um olhar penetrante diante ao artesão.

−Claro! Em que esse velho homem pode ajudar?

Com um sorriso típico dos cidadãos dessa região, o homem volta a trabalhar com a madeira que está sobre sua mesa.

Pinm! Pinm!

Observo ele trabalhar com aquele pedaço de madeira enquanto aguardo Fior fazer suas perguntas.

−Pois bem, o senhor sabe onde avistaram a Sombra que vem matando as pessoas? Ou um possível local que esteja escondido?

−Também gostaria que você confirmasse quem é, vendo este esboço em forma de armadura.

Fior tira o papel com o desenho da Sombra do bolso de seu casaco.

Dessa vez ela está com uma camisa social cinza com uma fita larga rosa na gola, um blazer cinza azulado com desenho de rosa na base próximo aos botões na mesma cor do desenho. Uma saia com comprimento acima dos joelhos na cor do blazer, meias pretas até a altura da coxa e um sapato marrom.

Diferente da roupa da última vez, ela parece ter pensado mais no caso de precisar correr ou agir rápido. Aquele vestido não ajudava muito.

Apesar dela estar bem bonita, presumo que ela vai usar espada ou algo parecido.

−Vendo este desenho, não tenho dúvidas.

−Essa é a armadura que as pessoas viram, eu vi ela também quando passava com minha carroça pela floresta da região montanhosa.

Com os olhos saltados o tom de voz do homem expressava um susto repentino ou coisa pior. Ele soltou o martelo e com as duas mãos olha fixamente para o desenho que Leon nos trouxe.

−Em Baljthet?

−Tem alguma construção naquela área?

A calma de Fior desapareceu em questão de segundos, seu tom de voz ficou alto e não sei dizer qual dos dois está mais surpreso.

−Sim, tem um castelo que pertencia a família secundaria dos Nightcall.

−O último residente, o irmão mais novo do lorde de Ebrima, desapareceu há cerca de 10 anos e desde então está abandonado.

A expressão do velho homem muda repentinamente e seus ombros abaixam.

Pode ser que a alma desse homem esteja amaldiçoando o castelo ou na pior das hipóteses... não, não pode ser isso.

Será um grande problema se isso for verdade.

As sobrancelhas da Selene inclinam, não sei dizer o que ela quer expressar com este olhar.

−Tsk! Isso não é algo bom, ainda mais envolver a família real.

−Espero que não venha a ser um grande problema.

Fior põe seu polegar sobre os lábios e morde a unha.

Eu não diria algo como espero não ter problemas, dessa vez temos um problema bem grande em mãos. Pode até ser uma única sombra, mas se isto envolver o irmão mais novo do rei de Ebrima, com toda certeza estamos em sérios apuros.

Um movimento em falso ou se acabarmos descobrindo algo que era para ficar em segredo, é um passo para um conflito entre as famílias reais.

Embora, não temos outra opção.

Tudo que fizermos aqui pode ajudar com Aeternam, mas se algo sair da linha podemos abrir as portas para uma guerra entre os reinos como nos tempos negros do continente.

Sigh! Porque as coisas tomam esse rumo?

Isso é o que pergunto para mim mesmo desde quando voltei para o mundo real.

Fior se dispôs a continuar com suas perguntas para o artesão. Querendo ou não elas são necessárias, até porque vamos ter de entrar numa região proibida para os 5 reinos.

Selene e eu ouvimos em silencio a conversa até que a Fior enfim tenha todas as informações necessárias.

~~~~~~~~~~~~

Após a conversa, saímos da casa do velho artesão que buscou a ajuda de Arcádia há alguns dias atrás e chegamos na entrada da região montanhosa.

Segundo ele, a Sombra foi vista saindo dessas rochas, mas como essa criatura fez isso?

−É aqui mesmo, porém não vejo algum lugar que possa indicar uma entrada ou saída dessas montanhas.

Fior olha por todo o cerco de rochas.

−Não vejo alguma caverna, o que indica que ele vem de cima.

−Algo que vamos ter que fazer para conseguir chegar ao castelo abandonado.

Olho para as rochas mais altas e elas parecem estar gastas por algum motivo, alguém venho e subiu por elas várias vezes, assim suas pontas ficaram arredondadas e gastas.

Um forte vento passa por nossos rostos.

Há possibilidade de chover ainda hoje e pela forma que o vento passa por nós, temos umas 4 ou 5 horas antes de sermos surpreendidos por ela.

−Subir vai ser mais difícil do que você pensa, as rochas mais baixas estão frouxas pelo o que me parece.

−Pode ser bem arriscado tentar subir.

Fior se aproxima e toca uma das rochas do grande cerco montanhoso.

Selene e eu, fazemos a mesma coisa que ela e o meu resultado é o mesmo dela.

As pedras estão soltas, mas não sei se estão soltas naturalmente ou de forma proposital, até porque a forma que as rochas acima de nós estão gastas indica a presença de alguém que passou por ali inúmeras vezes.

−Hector, Fior!

−Essas pedras aqui não estão moles.

Com as mãos tentando puxar as pedras, Selene chama nossa atenção.

Ela está próximo a entrada da floresta que fica atrás da cidade.

Como não pensei nisso. As plantas altas podem esconder o caminho verdadeiro ou até mesmo uma caverna que serve de entrada para o castelo.

−Deixe-me ver isso.

−Hmm...

Fior verifica as pedras uma a uma até sentir segurança no que percebe.

Eu passo por elas atravessando as plantas mais altas, entrando no início da floresta.

Toco as rochas à medida que ando para dentro das arvores.

−A-ah!

Ponfft!

A parede de pedras em que eu estava me apoiando e usando de guia desapareceu.

−Hector, onde vocês está?

−Hector!

Fior me chama desesperadamente tentando me encontrar.

−Essa realmente doeu, vou ficar dolorido até amanhã.

−Huh! Uma caverna? Está meio escuro, mas é o que parece.

Com minha mão esquerda sobre minha costela direita, observo onde estou.

Olhei tudo a minha volta como um local coberto por pedras e a entrada estava onde eu passei. O vento passa por aqui, então é uma caverna e com uma saída.

Tenho que avisar as duas agora.

−Escutei a voz dele vindo daqui.

−Hector, você está aí?

Voz da Selene está mais próxima.

Vejo as plantas se mexerem na entrada.

−Hect...

−Ahhh!

Por um segundo de descuido, elas aparecem na entrada repentinamente.

−Eh! Só pode ser brincadeira.

Ponfft!

Não tive tempo para reagir quando as duas apareceram.

−Hector onde você está? E que lugar é esse?

Chamando meu nome, Fior olha por toda a caverna.

Fico desorientado após as duas caírem em cima de mim, consigo ver somente o teto de rochas acima de mim.

−Huh! Hector você está bem?

−Fior caímos encima dele.

Selene olha para o chão e se levanta rapidamente.

−Desculpe.

−A parede desapareceu e acabamos caindo aqui.

Saindo de cima da minha pessoa desorientada, Fior cede sua mão para me ajuda.

−Estamos em uma caverna né?

Sem saber direito onde estamos, Selene fica em dúvida com o local em que paramos.

−Presumo que sim.

−Passa vento por aqui, então deve levar para algum lugar.

Falo sobre a possibilidade desse espaço entre as rochas ser um caminho para onde precisamos chegar.

O castelo da família Nightcall na região de Baljthet é conhecido por gerações da minha família, porque era o local de encontro das duas famílias em eventos sociais e encontros com amigos.

−Só existe um meio de sabermos onde essa caverna leva.

−Normalmente eu não arriscaria nessa possibilidade, mas acredito que isso pode ser o que precisamos.

Fior observa a frente e começa a caminhar para dentro da caverna escura.

Selene e eu seguimos seus passos um ao lado do outro.

Plin! Plin!

Silenciosamente escutamos o som de agua caindo sobre as rochas próximas as paredes, à medida que adentramos nas profundezas da caverna a ausência de luz limita nossos passos e ficamos próximos um do outro para não nos perdemos.

Fuuh!

Um vento sopra por toda a caverna, causando um arrepio nos meus braços e pernas.

−Este vento não está forte demais para correr pela caverna desse jeito?

−Será que está chovendo lá fora?

A força que o vento passa por nós me preocupa um pouco.

Fuuh!

−Não sei quanto tempo estamos caminhando por aqui, então pode ser que a chuva tenha chegado enquanto estávamos dentro da caverna.

Fior tem um ponto de certeza em suas palavras.

Aos poucos consigo avistar uma luz a frente, tenho a esperança de que seja a saída dessa caverna e que a chuva não esteja tão forte como o vento demonstra.

Olho para Fior e ela parece estar tensa com a situação, mas não sei se é pelo fato de que podemos encontrar o irmão mais novo do rei de Ebrima ou o resultado de nossas ações após isso.

Não conversei muito com a Fiore para saber como a Arcádia vem agindo e as ações de Leon não me trazem uma boa impressão.

~~~~~~~~~~~~

Saindo da caverna, encontramos o castelo abandonado com os portões abertos.

Zaa! Zaa!

−A chuva está bem forte, devemos entrar rápido ou pegaremos um resfriado.

Fior olha para o céu e caminha em direção ao castelo.

−Sim, mas porque a ponte do castelo está abaixada junto com os portões abertos?

−Isso é mais estranho do que eu pensava.

Selene desconfia do estado atual do castelo.

Não estou dizendo que não seja estranho um castelo com sua entrada dessa forma, mas até mesmo antigamente algumas famílias mantinham a entrada de suas casas abertas para permitir a entrada de pessoas afim de se abrigar da chuva.

Bom, ultimamente isso vem sendo raro e era um tanto comum em Aeternam acontecer isso.

Ficamos de frente com a ponte, os murros são gigantescos feitos de rochas com o tamanho de 3 pessoas cada uma e o portão feito com madeira de lei pintado com cores azuis e vermelhas.

Cronk! Cronk!

Nossos passos sobre a ponte fazem um grande barulho, o vento está tão forte que um descuido ao andar ele pode jogar qualquer um de nós para fora rumo a uma queda bem grande.

Com cuidado conseguimos adentrar nos jardins da frente do castelo, as flores e outras plantas estão mortas, somente as arvores estão vivas e conseguindo suportar o tempo.

Chegamos na porta da frente, que possui uma escadaria antes dela.

−Está muito silencioso por aqui, mais do que o normal.

−O som do vento desapareceu por alguns instantes.

Fior parece estar paralisada diante a porta do castelo é como se...

Hiss!

−Huh! Você estava nós observando né?

Percebi uma silhueta de uma pessoa na frente da porta, as gotas da chuva estão de frente para meu rosto e fica difícil ver quem é.

−Hector, quem está aí?

−Não consigo ver nada com a chuva batendo no meu rosto.

Selene puxa meu colete para tenta proteger seu rosto da chuva.

Hiss!

−Humpf! Ele desapareceu.

−Então era você desde o começo.

Sussurro sem perceber.

−Eh! Você está falando de quem?

Ela escutou o que eu falei? A Selene está mais atenta do que pensei.

Só porque ela e a Fior estão em um péssimo dia, não significa que elas não estão em seu estado normal quanto ao nosso trabalho.

−De um velho conhecido...

−Vamos entrar, ainda temos um castelo inteiro para verificar.

Parece que ela não deu muita atenção ao que eu disse.

Por hora não devo contar para ela, mas se for quem estou pensado é possível que eu tenha uma pista sobre aquele grupo encapuzado.

Selene passa por Fior e sobe os degraus da entrada.

−Ei Fior, vai parada aí ou vamos entrar.

Com as mãos na porta e preparada para abrir, ela chama a atenção da pessoa paralisada por alguns minutos.

−Hey! Vamos? Ficar na chuva vai lhe trazer um resfriado.

Vindo por trás, coloco minha mão direita sobre seu ombro para leva-la ao castelo.

Caminho junto dela até a porta aberta pela Selene.

Não sei o que ela sentiu, mas se a Fior ficou desse jeito significa um grande perigo ou algo que a assustou. Lá dentro vamos ter cuidado para não sermos surpreendidos e encontrar a armadura o mais rápido possível.