Fade Out Lines
35 Capítulo 35 — Enlace.
Notas iniciais
Capítulo 35 — Enlace.
Ao abrir a porta de entrada, Christopher avistou o garoto, que logo perguntou, preocupado:
— O que aconteceu?!
— Vem, eu te explico... — Puxou-o delicadamente pelas mãos.
Quando Theo adentrou o apartamento, o professor diminuiu a claridade das luzes no interruptor, deixando ainda mais perceptível a trilha de velas que ele havia colocado ao chão. O garoto ainda olhava encantado para todos os lados, admirando as muitas pétalas e velas espalhadas por todas as partes, quando Chris disse:
— Esse era o assunto tão importante, Theo, quis fazer um marco definitivo para o nosso namoro, um jantar especial pra você...
— Que lindo! — O garoto sorriu. — Deve ter dado um trabalhão...
— Não pense nisso. — Abraçou-o pelas costas, o guiando pelo caminho iluminado.
Theodore soltou uma leve risada, quando a barba levemente crescida do professor tocou-lhe o pescoço, então Christopher beijou a região, ao ver que ele tinha se arrepiado, deixando a pele ainda mais ouriçada.
Quando ambos sentaram-se junto à mesa, Theo se sentiu numa cena de um filme romântico: o castiçal simples, uma rosa sobre o guardanapo — que estava dobrado ao lado do prato — alguns aperitivos espalhados pela mesa, tudo estava lindo.
— Você realmente caprichou, tá tudo incrível! — O garoto sorria sem parar. — Não sei nem como a Dora não destruiu tudo...
— Ela está no quarto de hóspedes, provavelmente dormindo. — Chris comentou. — Ah, Theo, essa rosa é pra você...
O professor sinalizou para o botão vermelho ao lado direito de Theodore, que segurou-a e logo viu uma fita enrolada no caule. Ao analisá-la melhor, arregalou os olhos, tinha um anel dentro do laço.
Olhou para Christopher, que sorria, sem nada dizer.
Theo puxou uma das pontas da fita, logo retirando a aliança do nó.
— Me dê sua mão. — Pediu Chris.
O garoto estendeu o braço direito, deixando com que o professor pegasse o anel e encaixasse em seu dedo anelar.
— Eu te amo, Theo... — Deu um beijo na costa de sua mão. — Está tudo bem para você se usarmos alianças?
— Sim... — Sentiu a voz fraquejar.
— Eu fiquei numa grande dúvida, pois sua mãe poderia notar o anel e questionar, então acabei pensando que talvez, você optasse por não usar, sabe?
— Eu sempre quis, é sério, eu não me importo se ela acabar vendo. — Segurou nas mãos de Christopher. — Eu amo você...
— Eu também te amo, Theo. — Abriu um largo sorriso, pegando a aliança que faltava. — Quer colocar em mim?
...♕...
No domingo, Alba se encaminhava ao endereço que o GPS sinalizava, sentiu seu peito oprimir, os batimentos aceleravam ao se imaginar frente a frente com Loren, a mulher que a sua amiga Maggie a havia indicado.
Idealizava como seria a conversa sobre suas experiências, tentava formular perguntas em sua cabeça, mas era como se tivesse uma trava em sua mente, o nervosismo não deixava com que pensasse em mais nada.
Assim que chegou, respirou fundo mais uma vez, antes de retirar o cinto de segurança.
Saiu do carro e olhou para o pequeno papel com o endereço escrito, que continha o número da casa. Olhou em volta e logo visualizou a casa branca de dois andares, com o número que procurava, caminhou até ela e subiu as escadas da área, tomando coragem para apertar o botão da campainha.
Formulou rapidamente frases de cumprimento em sua cabeça, enquanto mordia o lábio inquietamente. Ao ouvir passos dentro da casa, enxugou as mãos úmidas na saia preta que usava e em seguida ajeitou o colarinho de sua camisa branca.
— Alba! — Loren abriu a porta com um sorriso no rosto e recebeu-a com um abraço. — Que pontual! Eu estava preparando um chá agora mesmo, vamos, entre!
A mulher a guiou ao interior, indicando uma poltrona na sala de estar para se acomodar. Logo em seguida trouxe uma bandeja com canapés e duas canecas.
— Não precisava disso tudo... — Alba observou.
— É claro que precisa! — Loren afirmou, com bom humor. — Eu adoro receber visitas, mas não é sempre que tenho um tempo para conversar, então tenho que aproveitar esses momentos.
— Espero não estar atrapalhando...
— Bobagem! — A mulher lhe entregou uma caneca e um aperitivo. — Então, Alba, me conte um pouco mais sobre você.
— Sobre mim? Poxa, não há nada de espetacular.
— Além do trabalho, o que você faz no dia a dia?
— Ah, eu sou muito caseira, mas meu noivo adora sair, então mal paro em casa atualmente, acabo cedendo aos interesses dele.
— Sou um pouco assim também. — Ela sorriu. — E o seu filho, quantos anos ele tem?
— Faz pouco tempo que o Theodore completou dezessete, ele é filho único. — Tomou um gole do chá.
— Eu tenho três crianças, bom, não tão crianças assim, a minha caçula tem treze, já é quase uma moça, os outros dois, um tem dezesseis e o mais velho, dezoito.
— Eu queria ter tido mais filhos, sabe? — Alba continuou. — Mas quando o Theo completou doze anos, infelizmente o meu marido William, faleceu. Após isso, fiquei deprimida, não queria nenhum homem na minha vida até o Sidney aparecer. Depois de todos esses anos, não imaginava que eu conseguiria amar alguém como eu amei o Will...
— É uma história e tanto! — Sorriu. — Você é uma guerreira, não deve ter sido fácil criá-lo sozinho.
— Não foi, eu não sabia como agir e o que fazer, para falar a verdade, até hoje não sei, tudo o que fiz foi mimá-lo incondicionalmente, esse é o meu defeito...
— O nome disso é ser mãe, todas mimamos demais os nossos eternos bebês.
— É exatamente isso, Loren, meu Theo nunca vai crescer para mim, mas o problema é que ele cresceu, eu estou preocupada...
— Vocês devem ser bem unidos, certo?
— Eu achava que sim, até o comportamento dele mudar...
— Como assim, mudar?
— Nos mudamos para cá no ano passado, antes disso morávamos em Roseville, cidade natal do meu marido, passamos bons momentos lá. A família do Will é maravilhosa, mas eu tinha que voltar para onde nasci e cresci, porque adoro São Francisco e minha família está aqui... — Alba tomou outro gole do chá antes de continuar. — O Theodore não gostou muito, é claro, tinha seus amigos lá e não queria mudar de escola, então depois que viemos para cá, senti que ele se tornou um pouco fechado...
— Entendi, mas eu acho que a idade dele contribuiu um pouco para isso, não acha? Todos os adolescentes sofrem pelas mudanças bruscas dos hormônios, não queira se culpar por se sentir um pouco afastada do seu filho, é normal.
— Só que o Theodore nunca teve crises que tanto escuto por aí, poucas vezes nos desentendemos, mas nenhuma delas sem um motivo, ele sempre foi um doce de garoto.
— Isso é ótimo, Alba, de verdade. — Loren afirmou. — Mas então se é assim, qual é o grande problema?
— Eu descobri, de uma forma nada agradável, que o Theodore se interessa por homens.
— Posso perguntar como foi?
— Bom, eu estava fazendo umas compras, quando avistei um garoto há poucos metros de mim, que era realmente parecido com o meu filho, andando de mãos dadas com um homem que nunca vi antes, fiquei assustada com a semelhança desse menino com o Theodore, então tudo o que pensei em fazer na hora, foi ligar para o Theo, só para confirmar que não era ele... — Alba confessou. — Eu torci os dedos para que aquele garoto que eu via, não atendesse o telefone, mas ele atendeu.
— Não posso negar que deve ter sido uma grande surpresa.
— Você não faz ideia de como me senti ao ver aqueles beijos, aquelas carícias... — Suspirou.
— Bem, na verdade eu sei bem. — Soltou uma risada fraca. — Eu peguei o meu filho mais velho, o Kurt, com o namorado dele, em seu quarto. E não estavam jogando dominó, se é o que quer saber.
— É sério? — Alba franziu o cenho, apreensiva.
— Eles não estavam transando, mas dependendo da perspectiva, bem que parecia... — Loren deu mais um gole em seu chá.
— E o que você fez?
— Eles ouviram a porta abrindo e só conseguiram ficar estáticos, me olhando tão espantados quanto eu estava, por vê-los quase nus. — Expôs. — No momento eu dei um passo para trás e me retirei, meu filho até tentou contornar a situação, mas eu disse que ele não me devia explicações, então deixei-o em paz... Até tudo esfriar e conseguirmos conversar direito, assumo que levou um bom tempo.
— E não tinha mais ninguém em casa nesse dia?
— O meu marido sempre sai para pescar aos domingos e as crianças geralmente ficam na casa da minha mãe, como estão hoje.
— Eu ainda não consigo acreditar, Loren, eu não sei se teria a mesma coragem que você, eu não consigo mais falar com o Theodore direito, então você deve imaginar a minha aflição. Quero tanto falar com ele, só que toda a vez que crio a coragem, as palavras ficam enroscadas na garganta...
— Para eu poder te ajudar, eu primeiramente preciso saber, qual é a sua posição com a homossexualidade? O que você pensa sobre isso?
— Eu não posso negar, não queria que o meu filho fosse gay, mas agora que essa é a realidade, eu sei que eu tenho que aceitar isso, mas sabe? Para mim é difícil, eu sinto que, de alguma maneira, Theodore tivesse me traído...
— Eu sei o que você está sentindo, Alba, é como se perdêssemos a nossa total confiança, não é?
— É exatamente isso, não foi uma forma agradável de se descobrir algo tão... Tão.
— Íntimo?
— É... — Engoliu seco.
— Ele sabe que você descobriu isso?
— Não. E por mais que eu queira dizer, eu não consigo, finjo que está tudo bem e que não sei de nada...
— Mas do que você tem medo?
— De ofendê-lo, de ele me odiar para o resto da vida, de não saber como agir e medo do que ele falará. — Confessou. — Eu só queria acordar desse pesadelo...
— Por que acha que é algo tão ruim?
— Eu pensei muito sobre isso, Loren, sei que meu filho está fazendo algo escondido de mim porque não quer que eu saiba. É claro que não é algo horrível como usar drogas ou algo do tipo, mas eu realmente não consigo aceitar... O meu peito dói, eu já fui muito religiosa e me arrependo de ter parado de frequentar a igreja, sinto como se isso fosse um castigo de Deus.
— Alba, por favor, com todo o respeito eu te peço para que deixe a religião de lado um pouco, estamos falando do seu filho. — Aconselhou. — Eu já senti tudo isso o que você está sentindo, acredite, não foi fácil, mas eu precisei ver quais eram as prioridades, ver que eu precisava mais do que nunca, restabelecer uma relação com o meu filho...
— Seria ótimo se eu conseguisse isso.
— Então o que te impede?
— Sinceramente, eu não sei...
...♕...
Theodore levantou tarde da cama, andou pela casa ainda de pijama e não encontrou sua mãe, estranhou ela sair sem deixar recado, mas ignorou o fato e partiu beliscar algo dentro do armário.
Se encaminhou até a sala de estar, ligando a televisão e se jogando sobre o sofá.
Ainda mastigava o cookie quando ouviu seu celular apitar, em uma ligação de Christopher.
— Alô? — Atendeu, com a boca cheia.
— Está almoçando? — Ouviu uma risada do professor, do outro lado da linha.
— Comendo um biscoito. — Respondeu, agora claramente.
— Ah, então, eu te liguei porque os meninos mandaram mensagem agora mesmo, dizendo que vão à praia hoje. — Iniciou. — E me perguntaram se eu estava a afim de ir também, então queria saber com você, se você tem algum compromisso ou se quer ir...
— Hoje mesmo? Que horas?
— Daqui umas duas horas, eu acho.
— Pode ser, o que devo levar?
— Não precisa se preocupar, já estou preparando tudo, eu só te ligo daqui a pouco para confirmar o horário, tá bom?
Mal o garoto se despediu, desligando a chamada, que quase tropeçou, correndo ao seu quarto, já tratando de separar tudo o que precisaria: toalha, roupa de banho, protetor solar, entre outros. Theodore mal se recordava da última vez que tinha ido à praia, então além de estar ansioso, se animava ao pensar que poderia aproveitar a oportunidade ao lado de Christopher.
Comeu algo leve para o almoço, que se orgulhou de ter preparado sozinho, sabia que não era grande coisa, mas já era uma conquista a mais, pois não costumava se aventurar na cozinha. Alba também nunca escondeu que não se agradava nada em ver Theo manuseando facas extremamente afiadas ou panelas quentes, ficava aflita só de imaginar o garoto se machucando gravemente, então nunca o dava muita liberdade para cozinhar.
Por um momento, Theodore desejou que sua mãe estivesse presente, para lhe mostrar o prato e também se vangloriar por estar sem um único arranhão, podendo até se arriscar em dizer que o seu tempero estivesse melhor que o dela.
Encheu um copo de suco e o levou para a mesa, onde almoçou, olhando para as cadeiras vazias a sua frente.
Há vários dias, o garoto havia conseguido se livrar das preocupações, por um momento, pensou que estivesse totalmente livre dos pensamentos relacionados ao Sidney, mas quando menos se deu conta, sua mente desvairou-se em conflitos internos, inflamando o seu peito de pressentimentos ruins.
Terminou a refeição e assim continuou sentado, olhando para o nada, um tanto inquieto. O rosto de sua mãe lhe veio em mente, lembrando-se de quando a pegou com esse mesmo olhar, a mesma expressão enfática, num ponto específico na parede, algo que parecia lhe chamar muita atenção na pintura branca.
Quando finalmente se libertou dos devaneios, se levantou e passou o tempo assistindo programas aleatórios na televisão, enquanto esperava a ligação de Chris.
Poucas horas depois, conforme o combinado, o professor avisou que o buscaria e que chegaria em poucos minutos. Theodore colocou uma roupa fresca e passou protetor solar por todo o corpo, pois sabia das consequências caso não passasse.
Recebeu uma mensagem e logo correu para a frente de sua casa, com a mochila nas costas. Avistou o carro de Christopher e caminhou até lá, com um sorriso enorme no rosto. Entrou no veículo e lhe deu um beijo demorado, enquanto acariciava o seu rosto.
— Você fez a barba, tá lisinho.
— E você passou protetor, né? Sua pele tá com um gosto estranho...
— Ninguém mandou você me lamber. — Soltou uma risada.
Assim partiram para a praia e conversaram durante o caminho, enquanto cantavam, animados, todas as músicas que tocavam no rádio.
Demoraram cerca de meia hora até chegarem ao litoral.
Parando o carro no estacionamento da orla da praia, desceram e pegaram as coisas do porta-malas. Colocaram os óculos de sol e procuraram por Michael e Emmet, até receberem uma mensagem de que estavam num quiosque, comprando raspadinha.
O garoto sentiu a areia invadir os seus chinelos enquanto andava, mas não deixou que aquilo o incomodasse; olhou para o professor, que esboçava um largo sorriso e desde então, só conseguiu focar naquilo, parando a caminhada por um instante, para o lotar de beijos.
Quando tornaram a andar perto da margem, facilmente localizaram os amigos, mas quando Chris se deparou com eles, assustou-se ao olhar para o rosto de Michael.
— Mikey?! O que houve?! — Perguntou indignado, olhando para as vermelhidões.
Theodore também se espantou, ficando curioso para saber o ocorrido, enquanto Emmet reclamava do cérebro congelado — por sugar a bebida rápido demais — Michael somente ergueu os ombros e disse:
— É uma longa história...
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