Fade Out Lines
34 Capítulo 34 — Barman.
Notas iniciais
Capítulo 34 — Barman.
Na manhã de sexta-feira, Theodore se despediu de sua mãe após o café, antes de ir à escola. Alba permaneceu na mesa, olhando para a xícara de chá, com os pensamentos distantes.
Queria conversar com o filho, mas não sabia como iniciar o assunto, não sabia quais palavras usar para não ofendê-lo, não queria perder a confiança do garoto para o resto de sua vida.
Por enquanto, decidiu que deixaria o Sidney de fora dessa conversa, isso era entre ela e seu filho, pois mesmo amando o seu noivo, não queria que ele desse opiniões alheias sobre a sexualidade de Theo.
Estava praticamente entrando num colapso, precisava imediatamente visitar o psicólogo. Saiu para o trabalho um pouco atordoada naquela manhã, não conseguia focar no trânsito e muito menos em seus casos, seu rendimento havia caído.
Ao chegar no local, caminhou até seu departamento e jogou a bolsa sobre sua mesa.
— Bom dia, Sra. Brandford, consegui os depoimentos que você precisava. — Uma mulher se aproximou, colocando um dossiê nas mãos de Alba.
— Obrigada, Maggie. — Folheou os papeis. — Você me salvou...
— Se me permite perguntar, o que há de errado?
— Como?
— Você parece abatida. — A mulher bem vestida observou.
— Realmente, não estou nada bem, mas não envolve o trabalho. Uns problemas pessoais, só isso.
— Entendo. — Afirmou. — Se precisar, é só chamar.
Tentou ler as primeiras linhas dos papéis que tinha recebido, porém, sua visão ficava turva, não conseguia focar seus pensamentos nem na leitura, isso estava a enlouquecendo.
— Droga... — Xingou em voz baixa.
Alba não queria empurrar seu trabalho para ninguém, principalmente quando estava tão perto de concluir o caso para prender o tão famoso ex-prefeito, precisava de somente mais algumas provas como plano B, para logo dar início ao processo.
Tentou se livrar dos devaneios que surgiam em sua cabeça, mas não conseguia negar que o filho dominava a sua mente, a imagem de alguns dias atrás aparecia diante de seus olhos e a perturbava.
Após algumas horas se passarem, poderia finalmente fazer uma pausa para o almoço, nesse horário sempre combinava com Maggie e outra colega de trabalho, Nancy, para almoçarem juntas.
Não demoraram muito para partirem para uma lanchonete que se localizava há poucas quadras dali. Iam a pé, enquanto conversavam, mas naquele dia, Alba estava completamente calada.
Adentraram o local e escolheram a mesa, logo fazendo os seus pedidos.
As duas mulheres continuaram conversando, enquanto a terceira observava, com os pensamentos focados em outro canto.
Quando seus pratos chegaram, Alba notou que aquilo estava indo longe demais, ela tinha que se desconcentrar de sua vida pessoal, pelo menos no tempo em que estivesse no trabalho ou até mesmo saindo com as amigas.
— Então, Alba, como vai o maridão? — Nancy iniciou.
— Não fale dessa maneira, Sidney e eu ainda não nos casamos.
— Mas eu vi que ficaram noivos! Você vai me convidar para o casamento, não vai?
— Claro, vou sim. — Respondeu, enquanto remexia a comida com o garfo.
— Ih, alguma coisa não vai bem... — Nancy desaprovou.
— Ela me disse hoje que estava com problemas pessoais. Não quer nos contar? — Maggie indagou.
— Não quero encher a cabeça de vocês com asneiras, meninas.
— Por favor, eu adoraria ajudar...
— Não creio que seja tão fácil de ser resolvido, é isso. — Alba levou a primeira garfada até a boca.
— Então tente.
— Vocês têm filhos?
— Eu tenho dois garotos. — Nancy respondeu.
— Eu não tenho, mas pretendo ter, em breve. — Maggie sorriu. — Mas por que a pergunta?
— É que eu estou pensando. — Alba deu um gole no suco. — O que vocês fariam se descobrissem que seu filho é gay?
Ambas se surpreenderam com a pergunta.
— Eu não vejo mal nisso... — Maggie afirmou. — Eu o aceitaria numa boa.
— Isso é um absurdo! — Nancy rebateu. — É por isso que está passando?! Eu não sei o que faria no seu lugar, Alba, mas eu começaria dando uma bela surra no moleque! Onde já se viu?! Esse mundo tá perdido, mesmo! Na minha época não tinha essas coisas!
— Larga de ser ignorante! — A mais jovem reclamou. — Sexualidade não se escolhe, tá bom?
— São umas safadezas que os jovens de hoje em dia estão, que nem me fale!
— Alba. — Maggie chamou. — Não escuta ela, não vá tirar satisfações com seu filho dessa maneira, tenta conversar com ele...
— Conversar não resolve, leva ele pra igreja! — Nancy incentivou.
— Você não sabe o que tá falando... — A mais jovem passou a mão na testa, irritada.
Alba não sabia o que pensar, ficou ainda mais confusa, olhando para as duas mulheres discutirem em sua frente, sem nada dizer.
— Como você descobriu isso? Foi intuição?
— Bom, meninas... — Respirou fundo. — Eu nunca imaginei antes, acabei descobrindo por ver ele com outro homem, na rua. Mas eu realmente queria saber o que levou a isso, sabe, nunca desconfiei do meu filho...
— Ele deve ter sido violentado na infância. — Nancy deduziu.
— O quê?! Não, é claro que não! — Alba assustou-se.
— De onde tirou isso, Nancy? — Maggie arregalou os olhos.
— A homossexualidade surge quando as crianças são abusadas na infância, foi comprovado, tá?
— Então quero que me mostre suas fontes, porque com certeza não são nada confiáveis. — A mais jovem recusou-se a acreditar. — Isso não existe! Nenhum gay que eu conheço foi abusado sexualmente na infância!
— É pela promiscuidade, eu já disse! Essa geração tá perdida!
Alba continuou sua refeição, arrependida de ter iniciado aquele assunto todo, agora não sabia no que pensar, nem ao menos como organizar seus pensamentos. As duas mulheres continuaram a discutir, pouco civilizadas, a sorte era que a lanchonete estava vazia naquele dia.
Pediram a conta e esperaram um pouco mais, até o horário de retornar ao expediente.
— Nancy, só tenho mais uma única pergunta a você, depois disso, eu te deixo em paz. — Maggie iniciou.
— Manda.
— Você acha que homossexualidade se escolhe ou já se nasce?
— É claro que é uma escolha.
— Certo, então me diga quando você decidiu ser heterossexual...
Nancy se levantou e retirou-se do local, sem nada dizer.
Alba olhou aquela cena, incrédula, a última frase de Maggie havia ficado em sua cabeça.
— Não liga para ela. — A mais jovem pediu. — Ela é totalmente hipócrita.
— Sabe, isso que você disse foi bem inteligente.
— O quê? Sobre a sexualidade ser de nascença?
— Sim.
— Não há argumentos contra isso. — Sorriu. — Por favor, não maltrate o seu filho...
— Não farei isso, eu o amo...
— Eu sei que sim, mas não teria perguntado a nós o que fazer, se não estivesse confusa.
— E eu estou, um pouco apavorada também, devo dizer.
— Olha, Alba, se quiser, eu conheço uma mulher lá do fórum, que passou pelo mesmo que você está passando agora, posso te apresentar à ela, quem sabe vocês não possam conversar um pouco e talvez até tirar algumas dúvidas...
— Seria ótimo.
...♕...
— Mikey... — Emmet se aproximou do namorado, que chegava do trabalho.
— Fala. — Retirou a gravata que usava.
— Adivinha quem vai começar a trabalhar a partir de amanhã... — Falou, apontando para si.
— É sério amor? Isso é ótimo! — Sorriu. — Onde?
— Eu saí hoje à procura, me lembrei de um colega meu, que tem um amigo que é dono de um bar lá no Castro, então liguei para lá só por curiosidade. — Animou-se. — Por fim, deu que eles realmente precisavam de alguém e aqui estou eu!
— Isso é mesmo maravilhoso! — Acariciou o rosto sorridente de Emmet.
— Já estava na hora, agora eu posso finalmente contribuir com algo. — Confessou, um tanto envergonhado. — Só tem uma coisa, não é um trabalho fixo, é como um bico.
— Você sabe que isso tem seus pontos positivos. — Afirmou.
— Mas deixando isso de lado um pouco, quer vir tomar um banho comigo? — Perguntou, em tom provocativo.
No dia seguinte, Michael saiu para trabalhar e Emmet recebeu uma ligação, de um funcionário do bar, Joe, que lhe avisou de que seu turno começaria às sete horas da noite; ele não contestou, mas não imaginava que trabalharia a noite, então tentaria mudar isso quando conversasse pessoalmente com o dono.
Quando Michael chegou do trabalho, andou até o quarto e avisou Emmet passando perfume.
— Você está bonito... — Elogiou. — Vai sair?
— Sair? Eu vou trabalhar agora...
— Hã? Como assim?
— Eu achava que meu turno seria de manhã, mas não, é agora a noite.
— Sério, Emm? — Não conseguiu disfarçar o desapontamento.
— Pois é, vou ver se consigo mudar o horário, mas por hoje, tenho que ir...
— Tá bom. — Encostou-se no batente da porta.
— E o que você vai ficar fazendo enquanto eu estiver fora?
— Vou fazer algo para comer, depois ver televisão ou dormir, por quê?
— Por nada.
Emmet se aproximou, dando-lhe um selinho.
— Que horas você volta? — Michael perguntou.
— Talvez meia noite, ou uma hora.
— Tarde assim?
— Vai depender, às vezes posso até ser dispensado antes.
— Espero que sim.
— Mas qualquer coisa, você sabe onde o bar fica e sabe que pode ir dar um pulo lá, se sentir saudade. — Sorriu torto.
— Acha que eu sou tão dependente assim?
— Eu só estou brincando, Mikey. — Apertou-lhe a bunda.
Michael riu, em seguida se despedindo do namorado, que guiou-se ao novo trabalho.
Após Emmet passar pelos portões, os cachorros pararam de latir, a casa ficou estranhamente silenciosa, isso incomodou o baixinho, que tomou um banho e ao acabar, foi à geladeira.
Passou o tempo jogado no sofá, com tédio, ver seu programa preferido não era a mesma coisa sem a companhia de Emmet; ele sempre fazia comentários engraçados sobre os pratos gourmet, que eram impossíveis de se reproduzir em casa.
Parou para pensar que mesmo dizendo não ser dependente dele, ficar sozinho durante a noite o fez refletir em como o namorado fazia falta.
Duas horas terrivelmente insuportáveis se passaram, Michael, por um momento, chegou a imaginar que todos os relógios estivessem com defeito, os ponteiros pareciam não se mover.
Andou novamente até a cozinha, buscou um aperitivo em um dos armários e fez um chá. Sentar-se na mesa também era estranho, ela parecia infinitamente longa, então desviou-se da sala de jantar e guiou-se ao sofá, buscando novamente a sensação de conforto.
Que não veio.
Suportou mais uma hora, que mais pareceu tortura, ainda era dez da noite e permanecia encarando a televisão, trocando os canais. Devia estar assim há alguns minutos, mas nada o interessava.
Pensou por um instante se Emmet se sentiu assim durante o dia, enquanto esteve trabalhando, ou se simplesmente fez suas coisas, sem se importar com isso.
Finalmente desligou o aparelho a sua frente e levantou-se, caminhando ao banheiro. Iria preparar-se para dormir, então assim que escovou os dentes, colocou o pijama.
Desligou a luz e deitou-se na cama.
Olhou seu celular, não tinha recebido nenhuma mensagem do namorado e também não queria incomodá-lo. Abraçou o travesseiro de Emmet e cheirou-o fortemente, o perfume no tecido o inebriou por poucos minutos, a saudade pareceu ficar ainda maior.
Fechou os olhos e não conseguiu dormir, tentou todos os lados da cama, mas nada funcionava, não conseguia pegar no sono. Bufou irritado, desistindo e assim sentando-se.
Já passava das onze horas da noite quando terminava de calçar o tênis, sabia que estava sendo um pouco exagerado, mas não aguentava mais, precisava ver Emmet.
Terminou de se trocar e pegou as chaves do carro — o namorado havia ido de ônibus ao trabalho, pensou que, talvez, poderia dar a desculpa de que tinha ido para lá para buscá-lo.
Saiu de casa e assim rumou ao bar.
Chegou no local e estacionou, encarando a fachada do lugar por poucos minutos antes de entrar. Ao passar pela porta, olhou tudo em volta, o ambiente estava lotado, a luz era fraca, deixando o bar pouco iluminado.
Detrás do balcão, avistou Emmet e se aproximou de lá. Para sua sorte, um dos senhores se levantou, deixando livre o banco que dava uma ótima visão ao barman mais bonito que já tinha visto em sua vida.
O namorado logo notou sua presença, lançando um sorriso em sua direção, mas como estava ocupado, terminaria seus afazeres antes de poder lhe dar uma atenção especial.
Um homem que se sentava ao lado de Michael, o cutucou, chamando sua atenção.
— Ei, esse rapaz novo não é um gostoso? — Perguntou. — Dá uma olhada na bunda dele...
O baixinho estreitou os olhos, contendo um xingamento.
— Por favor, um pouco mais de respeito. — Pediu. — Ele é o meu namorado.
— Ah, sim, claro. — Satirizou. — E eu sou o papa.
Michael mostrou a aliança, sinalizando para que ele olhasse para a mão de Emmet.
— Olha só, as duas cadelas têm coleira! — Gargalhou.
Tentou se manter calmo, mas o tatuado não disfarçava quando olhava fixamente para o barman novato, com uma expressão obscena em seu rosto.
— Mas sério? Como você consegue dar conta? — O homem retornou à provocação. — Ele parece ser demais para você, só um golpe da bunda dele e já era, te derruba.
Ao ouvir mais um comentário malicioso, Michael sentiu seus nervos pulsarem debaixo da pele, o limiar da raiva transbordou nesse exato momento. O movimento foi tão repentino que, o homem foi pego de surpresa pelo punho de Michael, que acertou precisamente em seu nariz.
O baixinho sentiu sua gola da camisa ser erguida por aquele brutamontes, que o fez levantar de onde estava sentado. Com o corpo cambaleando, deixou o banco que estava, que só não caiu, por ser parafusado ao chão.
Foi arrastado pelo homem e todos do local pararam para observar, causando um tumulto em torno deles.
Emmet assustou-se quando viu que era o namorado que tinha se metido em confusão, saiu rapidamente detrás do balcão e correu até ele.
No entanto, não conseguiu impedir os golpes que já tinham sido desferidos no rosto de Michael, que começava a latejar. Com tudo girando, o baixinho notou o homem se aproximando novamente dele, fechou os olhos, já esperando o pior, até que ouviu um baque.
Abriu os olhos vagarosamente, assimilando o que estava acontecendo.
Emmet havia derrubado o brutamontes e agora estava sentado sobre o corpo dele, lotando-o de socos sem piedade, ouvindo-o grunhir. Queria fazer com que ele se arrependesse de mexer com seu baixinho.
Michael não conseguiu agir de imediato, mas viu outros homens correrem e retirarem Emmet de cima do outro homem, agarrando seus dois braços para pararem as agressões.
O dono do local gritava, ameaçando chamar a polícia se o seu mais novo barman não se retirasse imediatamente do local, fazendo um convite nada amigável para que ele nunca mais botasse seus pés lá.
Emmet correu até o namorado e o puxou para fora dali, ainda com uma expressão carrancuda em seu rosto.
— Emmet! Emmet! — Michael chamava, enquanto era guiado por ele para longe dali. — Emmet!
Pararam de andar, a respiração do mais alto estava descompassada.
— O que aconteceu lá, Michael? O que aquele idiota falou para você?!
— Amor, se acalma. — Pediu.
— Me acalmar?! — Vociferou. — Olha o que ele fez no seu rosto!
Emmet tocou-lhe nas bochechas e foi retribuído com um gemido de dor.
— Eu vou matar esse idiota...
— Emm, por favor.
— Vamos, Mikey, me fala, o que aconteceu?!
Quando se acalmaram, andaram até onde o carro estava estacionado e conversaram durante o caminho.
— Eu sabia que não devia ter ido. — Michael reclamou, ao chegar em casa.
— Não foi sua culpa, aquele babaca estava me atazanado a noite inteira, foi bom dar uma lição nele. — Emmet pegou uma pequena caixa de remédios e se aproximou do namorado. — Agora vem, vamos cuidar disso...
...♕...
Christopher tinha planos em mente e tinha que agir rápido, pois não sabia por onde começar. Então iniciou a organização, fazendo uma breve faxina em seu apartamento e assim partindo para as decorações.
Algumas horas depois, o local parecia outro quando havia ajeitado tudo. A primeira coisa que fez ao terminar, foi ligar para Theodore.
— Alô?
— Oi, Theo!
— Finalmente consegui falar com você! — O garoto afirmou. — Eu estava preocupado...
— Quero que você venha correndo pra cá, é importante!
— Hã? O que aconteceu?!
— Eu preciso que você venha, o mais rápido possível...
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