Fade Out Lines

26 Capítulo 26 — Nova experiência.


Notas iniciais
Beijos & Boa leitura! ♕

Capítulo 26 — Nova experiência.

Alba tirou o corpo de Theodore do chão, desligando a chamada atual para ligar para a ambulância, mas desistiu, poderia levá-lo de carro. O garoto ainda respirava, mas sua pressão arterial estava baixa, sua pulsação era fraca. Não importava quantas vezes ela o chacoalhasse, ele não acordava. E isso a assustava.

— Filho, filho! — As mãos que seguravam o menino, agora tremiam, ela notou o frasco caído perto do corpo. — Meu Deus! Theodore! O que você fez?!

Ele foi levado às pressas ao hospital.

Alba tentou manter a calma durante todo o percurso, mas o frasco vazio a acompanhava no porta-luvas, sabia que seria de utilidade para os médicos, mas não conseguia compreender o motivo de ele ter tomado todo o seu conteúdo.

...♕...

Nicholas não acreditava na mensagem que tinha acabado de receber, saía da sua penúltima aula e caminhava desesperado pelo corredor, ainda incrédulo com o texto do sms.

Havia falado poucas vezes com Susannah desde que Theodore os apresentou por chat, no entanto, sabia que era urgente, pois a melhor amiga do garoto não mentiria com um assunto daqueles. No início da última aula, entrou na sala com pressa.

— Professor! Professor! — Nicholas correu até Christopher. — Eu preciso ir embora imediatamente, você poderia escrever um bilhete para eu entregar na diretoria?

— E qual seria o motivo?

— Eu preciso ir para o hospital ver o meu amigo! O Theodore! Ele está internado!

O professor não sentiu o seu coração naquele instante.

— O que houve? — Foi tudo o que conseguiu dizer.

— Fiquei sabendo pela amiga dele agora, ela disse que ele tentou se matar! — Nick estava pálido como nunca. — Eu já sabia que ele tinha uns problemas familiares, mas nunca imaginei que ele chegaria nesse ponto!

Os alunos iam adentrando a sala aos poucos, Nicholas abaixou o tom de voz.

— Por favor...

— Problemas familiares?

— Sim, ele me dizia que sofria bastante na casa dele...

— Bom, sinto que é um dever meu me preocupar, afinal, ele é um aluno meu, certo? — Christopher disfarçou. — Mas você poderia esperar até o final da aula? Já é a última, se pudesse, eu te daria uma carona até lá...

— Você faria isso? — Nick sorriu. — Poxa, eu espero sim, valeu mesmo.

Os minutos demoraram a passar naquela aula, era difícil para o professor olhar para a carteira de Theodore vazia pela primeira vez. E saber o motivo disso não o acalmava.

Seria o garoto capaz de cometer tal atrocidade?

O dia tinha perdido a cor, pouco tempo atrás Christopher tinha acordado feliz por ser sexta-feira e estava ainda mais aliviado para dar sua última aula, mas em questão de segundos, toda a sua alegria foi roubada.

Passou poucos exercícios naquele dia, embora sabia que não conseguiria corrigir nenhum deles, sua mente não estava naquela sala de aula e sim no hospital.

Percebeu que Nicholas também não havia tocado no lápis, não copiando nem os enunciados da matéria, parou para pensar mais uma vez em qual relação aquele garoto teria com Theodore, seriam mesmo namorados?

Livrou-se daquele pensamento, aquilo não importava no momento, tudo o que queria saber de verdade, era o que realmente tinha acontecido com Theodore.

Andou pela sala disperso, olhou no relógio e seu coração pulsou fortemente ao ver que faltavam somente dez minutos para o fim da aula. Provavelmente estava mais ansioso para sair dali do que o restante dos alunos.

Recolheu suas coisas, guardando-as na mochila e logo a colocou nas costas, não demorando muito para ouvir o sinal bater. Nicholas também havia pego seus materiais e se levantava, indo em direção ao professor.

— Vamos?

Foram em silêncio até o estacionamento dos professores, Christopher pensou mais uma vez no garoto sardento, seu coração tornou a remoer.

Ambos entraram no carro.

— Qual hospital é? — Perguntou, ao girar a chave na ignição.

— O hospital geral, sabe?

— Sim, eu sei... — Deu a ré e saiu da vaga. — Então, você recebeu mais alguma mensagem?

— Pedi para a amiga dele, Susannah, o número da mãe do Theo para poder ligar e ver em qual quarto que ele está, mas ainda nada...

O professor ligou o rádio, não estava a fim de ouvir músicas, mas somente aquelas batidas suaves que tocavam, poderiam deixar aquele momento menos tenso.

— Você soube do que houve? — Christopher indagou. — O que ele fez?

— Ela disse que ele tentou uma overdose com um antidepressivo forte... — Nicholas bagunçou os cabelos e suspirou. — Theo, Theo... Por quê? O que leva uma pessoa a desistir da vida assim?

— Eu também queria saber...

...♕...

— Chegamos. — Christopher estacionou o carro.

Saíram do carro e foram o mais rápido possível à recepção.

Precisaram mostrar os documentos para fazerem uma breve identificação e quando foram registrados, logo guiaram-se ao quarto em que Theodore se encontrava.

O professor não adentrou o local, ficou do lado de fora enquanto o amigo do garoto entrava.

— Oi, Theo. — Nicholas encostou a porta.

— Nick, o que faz aqui? — Theodore abria os olhos devagar.

— Fiquei sabendo por sua amiga Susannah o que houve... — Se aproximou ainda mais da maca. — Como você está se sentindo? O que houve com seu rosto?

— Ah, Nick, eu só quero esquecer...

— Quer me contar outro dia?

— Se não se importasse. — O garoto respondeu.

— É desconfortável?

— O quê?

— Ter todos esses trecos grudados em você...

— Ah, não... — Theodore mostrou uma espécie de prendedor em seu dedo. — Esse é para monitorar os batimentos e o nível de oxigênio no sangue, nesse outro braço é o soro, nada demais...

— Entendi. — Pensou no que dizer. — Ah, você quer descansar? Posso ir embora se quiser...

— Eu fiquei em coma, já descansei bastante.

— Em coma?! Como assim?!

— Foi por poucas horas...

— Nossa! Isso é... Caramba!

— Minha mãe perdeu a viagem de hoje do trabalho só para ficar comigo, só piorei as coisas.

— Theo, eu ainda não consigo acreditar, sei que não quer falar disso, mas tentou mesmo se matar?

— Sim.

— Promete que não vai mais tentar fazer isso de novo? Eu tô aqui, cara, qualquer coisa que você precisasse, era só me chamar... — Entristeceu-se. — E eu admito, sentiria muito a sua falta, babaca.

— Me desculpe por te preocupar, não era a intenção, não queria criar esse alarde todo.

— Você pode até falar isso, mas acha mesmo que ninguém se importaria se você morresse?!— Elevou a voz. — Poxa! São nessas horas que eu realmente duvido da sua inteligência...

Theodore deu um sorriso, mesmo que mínimo.

— Você é um ótimo amigo. — Olhou-o nos olhos. — Mas não precisava ter vindo até aqui...

— Precisava sim, já te falei que eu estava preocupado. Caralho!

— A Alison soube?

— Ainda não contei a ela...

— Por favor, tenta não falar para ninguém...

— Tudo bem. — Nicholas colocou as mãos no bolso da calça. — Então... E a sua mãe?

— Ela foi embora tem pouco tempo, foi tomar um banho e descansar um pouco...

— Como ela reagiu?

— A primeira coisa que eu vi foi o rosto dela, por incrível que pareça, ela não me martelou com milhares de perguntas como achei que faria...

— Isso foi uma indireta?

— Não, não foi. — Riu fraco. — É que ela estava quieta e com os olhos inchados, mesmo sabendo o que eu fiz, não me perguntou o motivo. Curioso, não é?

— Bastante. — Nicholas sentiu o celular vibrar dentro do bolso. — Só um minuto, Theo, é a Alison.

— Não conte a ela, Nick...

— Não vou, prometo, mas trate de também cumprir a sua promessa, ouviu? — Deu um sorriso. — Agora eu vou atender, já volto.

O garoto saiu do quarto, encostando a porta novamente.

— Oi amor! — Atendeu. — Eu tô bem sim e você? O quê? É sério?! Sua mãe deixou? Isso é ótimo! Ah, sei sim... Mas não se preocupa, mais tarde peço para os meus pais conversarem com ela, tá? Não tem problema nenhum, seria ótimo se fosse com a gente, você sabe... Sei disso também, bom, de qualquer maneira, acredito que vai dar tudo certo, viu? É ela que está te chamando aí? Não, tudo bem, vai lá, até daqui a pouco... Tchau gatinha, te amo, tá? Beijo...

— Namorada? — Christopher se aproximou.

— Sim, ela me ligou para dizer que a mãe dela a deixou viajar com a minha família nesse fim de semana...

— Legal, para onde vão? — O professor abriu um sorriso, estava feliz em descobrir que Nicholas e Theodore eram somente amigos.

— Não muito longe, vamos à praia, é que a mãe dela é realmente super protetora e não gosta que ela durma fora...

— Entendo.

— Você vai falar com o Theo? — Apontou para a porta do quarto.

— Vou, até comprei uns chocolates. — Abriu a sacola que segurava e o mostrou.

— Ele vai adorar, nunca conheci alguém que gostasse tanto de doces como o Theo! — Riu. — Enquanto fala com ele, vou ligar para a minha mãe rapidinho. Já volto!

— Tá certo.

Observou o garoto procurar um assento não muito longe dali. Respirou fundo e tocou a maçaneta, girando-a devagar e entrando no local.

Olhou para Theodore, que estava deitado e de olhos fechados, seu coração não se conteve em seu peito. A cada passo que dava em sua direção, podia ver melhor os machucados em seu rosto, aquilo o incomodava.

O rosto que estava acostumado a ver sorrindo, agora estava totalmente destruído, com olheiras profundas e manchas escuras. Notou os lábios rachados e uma pequena parte escura, denunciando um ferimento recente.

Mais acima, uma de suas bochechas estava enrubescida, com pontos roxos a rodeando; sentiu seu coração apertar ao olhar para uma de suas sobrancelhas, com um corte profundo sobre ela.

“O que teria causado aquilo?” Não parava de pensar.

Respirava devagar, tentando não fazer barulho, não sabia se ele estava realmente dormindo. Estendeu sua mão para tentar tocar o rosto do garoto, no entanto, os músculos de seus braços paralisaram, deixando sua mão centímetros de distância do rosto de Theodore.

Não sabia se devia fazer aquilo, mas precisava sentir o toque daquelas sardas novamente, a pele macia e imberbe do garoto. Nisso os olhos de Theo se abriram, e ao invés de um toque macio, sentiu um tapa em sua mão.

— O que você tá fazendo aqui?!

— Nicholas me contou do que aconteceu...

O professor olhou para o visor do eletrocardiograma, que mostrava as batidas do coração do garoto, notando que aumentavam cada vez mais a intensidade.

— Veio rir da minha cara, né?! Só pode ser! — Theodore sentiu a voz embargar. — Parabéns, Christopher! Você teve o que queria! O moleque mentiroso e covarde teve o que bem merecia!

— Theo, não fala isso, eu só queria saber o que houve...

— Vá embora! — Sentiu os lábios tremerem. — Eu não quero mais ver a sua cara...

— Me escuta, Theo...

— O que você quer de mim?! — Os olhos do garoto marejaram.

Por poucos minutos ficaram em silêncio, Theodore enxugou lágrimas que cismaram em cair. Embora estivesse constrangido em chorar na frente de Christopher, não conseguia evitar.

Virou o rosto para o lado contrário daquele homem, tentando escondê-lo.

— Eu sei que é uma idiotice falar isso agora, mas eu não te superei, Theo...

O garoto sentiu seu corpo em chamas, sua raiva aumentou.

— Como você tem coragem?! Já não basta tudo o que você me disse? Que fez favor em jogar na minha cara? Como você pode vir aqui com a maior cara lavada do mundo e dizer isso?

— É verdade que eu odeio mentiras, mas elas não me incomodam mais do que ficar sem você...

— Para com essas frases feitas ridículas! — A voz falhou por um instante. — Some da minha frente!

— Tá certo, Theo... Já entendi, você não quer conversar. — Caminhou até a pequena mesa ao lado da maca e colocou a sacola sobre ela. — Comprei isso aqui pra você, até mais...

Deu passos lentos até a porta do quarto, quando ouviu a voz do garoto o chamar, reacendendo a sua última esperança.

— Christopher... — Theo engoliu seco, segurando a sacola em mãos.

— Diga. — Virou-se com pressa para o sardento.

— Eu não preciso da sua compaixão! — Lançou os chocolates.

O professor fechou os olhos em reflexo, assustando-se com a ação do garoto, olhou-o uma última vez com uma expressão cansada e se retirou sem mais nada dizer. Quando passou pela porta, notou Nicholas o esperando fora do local e se perguntou mentalmente se ele tinha ouvido algo da discussão.

— Você quer ir embora? — Christopher disfarçou.

— Não se preocupa professor, minha mãe já está vindo para cá, se quiser ir, fica tranquilo.

— Então eu vou, tenho que resolver umas coisas... — Nick percebeu que os olhos de Chris estavam marejados. — Até a próxima.

O professor saiu dali no mesmo instante, caminhando com pressa pelo corredor.

Nicholas entrou no quarto preocupado.

— Oi, Theo. — Falou seriamente.

— Queria mesmo falar com você, Nick...

...♕...

Alba assim que chegou em sua casa, lembrou-se da ligação que fez para o seu psicólogo enquanto estava no hospital. Precisava imediatamente dos conselhos de um profissional, e aquele doutor era um velho amigo, naquele momento ele seria o único que a faria entender o que se passava com o filho.

Contou toda a história para o médico, com o máximo de detalhes que conseguiu, pois a sua voz enfraquecia quando se lembrava do sufoco que havia passado para levá-lo ao hospital.

O homem de idade avançada falou que o garoto infelizmente apresentava sinais clássicos de depressão, Alba o questionou se deveria levá-lo para uma consulta, mas a primeira coisa que o psicólogo a aconselhou, foi que mantivesse a calma e deixasse o menino se recuperar do trauma que passou.

E isso era o mais importante que deveria se lembrar, se esforçar para deixar o filho confortável, talvez livre de situações tensas, deixar com que saísse da rotina, até mesmo permitindo algo que sempre proibiu antes. Fazendo, dessa maneira, Theodore esquecer-se por um curto período de tempo o que estava sentindo.

...♕...

— Sério? Você já sabia que ele era meu ex antes mesmo de ouvir a conversa?

— Sim. — O amigo sentou-se na poltrona do local. — Estava tudo na cara, o nome que você citou na lanchonete foi o fundamental para que eu juntasse todas as peças do quebra cabeça, mas era tudo óbvio, você não o olhava discretamente, sabia?

— Quando você descobriu?

— No dia do desafio... Um pouco antes da última aula, na hora do almoço, percebi Christopher no pátio olhando de longe em nossa direção. E depois na aula de matemática, foi até estranho o jeito que você ficou arrasado quando ele chamou sua atenção por causa daquele cálculo quase impossível...

— Por que não me disse antes?

— Não sei bem... — Deu os ombros.

— Agora que você sabe disso, você deve estar pensando horrores sobre mim...

— Não, Theo, nada disso, você já me contou como tudo foi um mal-entendido... — Riu. — E você é mesmo um azarado, mas eu imagino, não tinha como adivinhar que ele seria seu professor, né...

— Sim, eu sei. — Suspirou, lembrando-se brevemente das palavras de Christopher.

— Quando você vai pra casa?

— Ah, provavelmente passarei a noite aqui, para observação.

— Talvez amanhã você já saia, quem sabe?

— Eu espero que sim...

A porta foi escancarada e uma voz feminina tomou conta do local.

— Theodore! — Susannah gritou, correndo até o amigo.

Ela se abaixou perto da maca, agarrando-lhe pela roupa e deitando a cabeça em seu peito.

— Ai! — Reclamou de dor.

— Seu idiota! Por que me preocupou tanto assim?! — Os olhos da garota estavam cheios de lágrimas.

Theodore, por um momento, não soube o que responder, olhou para a amiga com compaixão e com saudade. Reparou que seu colar estava no seu pescoço, como nos velhos tempos.

— Perdão...

— Idiota! — Abraçou o amigo ainda mais forte.

— Eu sei, eu sei disso... — Fez a garota o olhar em seu rosto, assim enxugando suas lágrimas.

— Achei que eu tinha te perdido pra sempre...

— Ei... Eu estou aqui, não estou?

— Babaca... — Murmurou.

— Su, você está usando o colar...

— É outra coisa que eu queria falar com você! Acha mesmo que eu jogaria fora? Tá maluco? — Ela tocou o pingente. — Não importa o que o Tyler tenha te dito, ele é passado agora!

— O quê? Você terminou com ele?!

— Sim.

— Mas era tão recente...

— Não importa, Theo. — Ela fechou a cara. — Quando liguei para ele o avisando de que estava vindo para cá te ver, ele tentou me impedir, disse que não concordava com a nossa amizade...

— E depois?

— Foi aí que eu terminei com ele, porque nunca vou te trocar, nunca...

Ela abaixou-se até o amigo novamente, abraçando-o mais uma vez.

— Eu te amo, Theo... — Falou, com a voz abafada. — Não me assusta assim de novo...

— Me perdoa, Su... — O garoto deixou uma lágrima escapar.

— Bom, gente... — Nicholas despertou a atenção deles. — Eu vou indo, tá? Minha mãe já mandou uma mensagem dizendo que está me esperando no carro, aqui em frente.

— Tudo bem, vai lá. — Theodore sorriu.

— Susannah, foi bom te conhecer pessoalmente. — Nick acenou, perto da porta. — Obrigado pela força hoje...

— Eu que agradeço, Nicholas.

— Até logo! — O garoto se despediu e se retirou.

— Theo... — A garota se virou para o amigo novamente. — Agora falando sério, por que você fez isso?

— Preciso mesmo dizer? Você é a única que sabe de absolutamente tudo da minha vida...

— É verdade... — Segurou a mão do amigo. — Mas apesar disso, não tinha motivos para querer me deixar, não tinha...

— Você não faz ideia do que eu senti, Susannah. — O amigo enxugou a lágrima que escorria dos olhos esverdeados da amiga. — Por favor, não fica assim...

— E você quer que eu fique como? Não seja egoísta, meu mundo desabou quando eu li o seu e-mail...

— Eu estou bem, tá? — O garoto forçou um sorriso.

— Eu sei que você tá sofrendo, não adianta disfarçar, mas aguenta firme, logo nós acabaremos o ensino médio e poderemos até ir para a mesma faculdade, já imaginou a gente morando perto de novo?

— Seria incrível...

— Seu rosto... — A garota tocou-lhe.

— Tá muito ruim?

— Foi o Sid que fez isso com você, né? —Apoiou-se na maca, acariciando o rosto do amigo.

— Sim.

— Me lembro que você me disse no e-mail, eu quis matar esse homem...

— Ei, Su...

— Fala.

— Sabe quem apareceu por aqui hoje?

— Quem?

— O Christopher.

— O quê?! — Arregalou os olhos. — E aí? Ele falou com você?!

— Sim. — Umedeceu o lábio. — Sabe o que o infeliz teve coragem de dizer?

— Fala, fala! Estou curiosa...

— Ele disse que não me superou, Su... — Sentiu sua voz ficando trêmula mais uma vez. — Como ele pode fazer isso comigo?

— Eu não entendo, isso não é bom? Era o que você queria, né?

— Essa não é a questão... — Bufou. — Me lembrei, você ainda não sabe o que ele fez...

— Quer me contar?

— É que ontem mesmo, ele me humilhou na frente de todos da classe, eu me senti horrível, Susannah. — Enxugou uma lágrima.

— Como assim te humilhou?

— Ele passou um desafio, com poucos minutos para a aula acabar, era uma equação bem complicada. Falou que quem terminasse seria dispensado dos deveres de casa, e aí todos ficaram animados, mas logo desistiram quando viram o grau de dificuldade. — Segurou na mão da amiga novamente. — Mas eu não desisti, Su, eu queria que o Christopher sentisse orgulho de mim, não sei o que passou pela minha cabeça...

— O que aconteceu depois disso?

— Quando ele pegou o meu caderno, o ergueu no alto para mostrar para a sala toda, chamando aquilo de “merda” e mais um monte de coisa...

— Sério, Theo? — Susannah entortou o lábio. — Ele não parecia ser tão rude assim.

— Nem eu imaginava. — Olhou para a janela do quarto. — Ainda me pergunto o porquê de ele ter feito aquilo.

— Você fez algo que pode ter o aborrecido?

— Não, Su, muito pelo contrário, faço o que ele pediu, fingir que nada houve entre nós...

— Ah, vai entender... — Suspirou.

— Prefiro pensar em coisas positivas agora, é bom que esteja aqui... — Sorriu. — Quanto tempo vai ficar?

— Só até domingo cedo, mas amanhã temos o dia inteiro para conversar.

— Trouxe roupa de banho?

— Sim. — Gargalhou.

— Então vamos passar a tarde toda na piscina amanhã, até mesmo se estiver chovendo, certo?

— Certo, mas você vai ter que passar um litro de protetor solar, seu branquelo. — Debochou.

— É, o sol me odeia, eu nunca fico bronzeado, só queimado.

...♕...

Aquela noite se passou, Theodore foi liberado na manhã seguinte e assim voltou para a casa. No sábado se divertiu como nunca ao lado de Susannah, mas ambos se esqueceram de passar o protetor solar e ficaram levemente avermelhados pelas queimaduras do sol.

Domingo.

— Eu não quero que você vá... — O garoto observou Susannah colocar as últimas peças de roupa em sua mala.

— Eu também não quero ir. — A menina fez bico.

— Por que seus pais tiveram que chegar tão cedo aqui em casa? Poderiam ter enrolado algumas horas, né...

— É verdade, mas eles sabem que tenho recital na segunda e tenho que praticar bastante.

— De piano?

— Sim, na escola. — Bufou. — Uma droga.

— Por que participa dessas coisas sem gostar? Até aula de francês, Su, não acha que é forçar a barra demais? Uma hora você vai acabar explodindo...

— Não é que eu não goste, é que só queria ter um tempo para respirar, porque eu realmente gosto de tudo isso, só não gosto da pressão.

— Entendi... — Theodore viu a amiga zipar a mala. — Quer ajuda?

— Não precisa, tem rodinhas.

— Por que você trouxe tanta coisa? — Perguntou, quando a garota colocou a mala no chão.

— Pensei que se meus pais mudassem de ideia, eu poderia ficar aqui mais alguns dias. — Riu.

— Bom, de qualquer maneira, tentamos.

Acompanhou Susannah até a sala de estar, onde os pais da garota a esperavam.

Minutos depois da amiga partir, ele sentiu que a casa estava mais silenciosa que o normal, não demorando muito para que uma dor em seu peito surgisse.

Alba guiou-se até os sofás e chamou o filho, Theodore sentou-se ao seu lado.

— Theo, escolha duas mudas de roupa, vamos viajar hoje.

— Hã?

— Vamos para San Mateo à tarde, depois do almoço.

— Por quê?

— Vamos passar um tempo na cidade natal de Sidney.

— O quê? Quem disse que eu vou?!

— Filho, são só vinte milhas, não é tão longe, voltaremos amanhã cedo...

— Não adianta insistir, eu não vou.

— E eu não posso te deixar sozinho aqui em casa, não tem como.

— Prefiro ficar sozinho do que ter que olhar para a cara dele. — Franziu o cenho.

— Você vai me fazer cancelar tudo só por um capricho seu?

— Capricho? Ah, fala sério...

— Tá bom, tudo bem... — Ela se levantou. — Vou deixar algumas coisas prontas para você comer de noite.

— Então vai me deixar ficar? — Sorriu.

— Promete que não vai incendiar a casa?

— Mãe! — Reclamou. — Olha a minha idade...

— É exatamente por isso que eu te digo! — Ela cruzou os braços. — Você vai fazer dezessete já!

— Bem lembrado, semana que vem. — Ele a provocou. — Bem que poderia me dar um carro, né?

— Valha-me Deus!

...♕...

Theodore estava aliviado, pois teria a casa livre ao menos por um curto período de tempo. Sua mãe se despedia calorosamente com beijos e abraços na porta de entrada.

— Estou todo queimado, mãe. Ai! Isso arde! — Resmungou do abraço apertado.

— Eu te amo, eu te amo tanto, meu bebê! — Alba agarrou nas laterais do rosto de Theo. — Não faça nada inconsequente, tá? Você sabe do que eu estou falando... Você quase me matou do coração...

— Prometo que estarei são e salvo quando você voltar.

— Filho, então eu já vou indo, tá? — Enxugou as lágrimas. — Se cuida, filhote...

— Não faça tanto drama, mulher! Você volta amanhã!

— Eu sei, eu sei, é que eu vou sentir sua falta... — Ela o abraçou uma última vez. — Eu te ligo quando chegar lá, tá? Até mais, meu anjo... — Beijou-o na bochecha.

Theodore olhou-a entrar no carro de Sidney, que a esperava na frente de casa. Fechou a porta de entrada e deu um longo suspiro. Pensou em tudo o que poderia fazer de proveitoso naquele dia, mas o que pareceu mais irresistível em sua mente, foi se jogar no sofá.

E assim passou um bom tempo assistindo à televisão.

O telefone fixo começou a tocar, atendeu e sua mãe lhe avisou que já havia chegado na cidade vizinha. Trocaram poucas palavras e depois disso desligaram a chamada.

O garoto se pegou cochilando por poucos minutos, mas logo o seu sono foi roubado pelo som da campainha. Um tanto curioso, caminhou até a porta de entrada e espiou para ver quem era, logo reconhecendo o rosto que estava lá fora.

— Elizabeth! — Abriu a porta. — Que surpresa...

— Theo! Seu rosto está...

— Horrível, eu sei...

— Sua mãe me disse o que houve, falando também que passaria a tarde sozinho. — Abriu um sorriso.

— E ela te mandou aqui para me consolar? — Perguntou, dando espaço para a garota adentrar o local.

— Basicamente. — Observou o primo fechar a porta. — E você sabe que eu posso fazer isso melhor do que ninguém.

— Tenho medo do que esteja se passando em sua mente.

— Tá, não vou forçar a barra dessa vez. — Ajeitou a alça da bolsa em seu ombro. — Você está queimado?

— Sim, passei o dia todo na piscina ontem...

— Que inveja!

— Não seja por isso, não quer dar um mergulho?

— Eu não trouxe roupas.

— Deixa disso, vem cá. — Theo a puxou pelo braço, arrastando-a até o quintal.

— É sério, Theo...

— Você mora perto daqui, não quer ir buscar algo para vestir?

— Quer saber? Tive uma ideia melhor. — Ela jogou a bolsa que trazia sobre a grama.

Elizabeth retirou as sandálias, logo após o short e a blusa larga que usava.

— Não vai ficar pelada, né?

— Não, mas se você quiser eu fico.

— Melhor não! Tá ótimo assim, é sério! — Desesperou-se, rindo desconsertado enquanto interrompia a prima, que naquele momento vestia somente roupa íntima.

Logo a garota caminhou em direção de Theodore e o segurou pelos braços, o trazendo para perto do deck de madeira.

— Quer ser generoso e tirar algo também? — Riu maliciosamente.

— Não, tô bem assim.

— Então vai entrar do jeito que está! — Empurrou-o.

O garoto caiu de costas na piscina, fazendo barulho e espalhando água. Elizabeth pulou em seguida, mergulhando e sacudindo os cabelos quando emergiu.

— Você é maluca! — Theodore tirou os cabelos do rosto.

— Eu sei! — Gargalhou. — Vai falar que não foi divertido?

— Não, não teve graça! — Apoiou os cotovelos na beirada.

— Ah, Theo... Desculpa. — A garota se aproximou, esfregando os olhos para retirar o excesso de água dos cílios. — Sabe, tem uma coisa que pode te animar de novo...

A prima não esperou uma resposta, virou-o em sua direção e tocou-lhe os ombros, enquanto o encostava contra a parede da piscina. Lançou um dos braços atrás de seu pescoço e assim aproximou seu rosto, beijando-o sem pedir permissão.

O raciocínio de Theodore falhou por alguns minutos, sem conseguir reagir a aproximação espontânea de Elizabeth, no entanto, seus lábios pareciam mais macios do que a última vez.

A garota pressionou seu corpo contra o dele, enquanto descia suas mãos pelo seu abdômen.

— Você está quase me convencendo... — Falou, contra os lábios da prima.

— De quê? — Respondeu, em meio a selinhos.

— Não sei se devo contar....

— Fala, Theo! — A voz da garota ecoou, como a água que batia na beirada do deck. — Estou quase te convencendo do quê?

— De virar hétero. — Sorriu de lado.

— Hã?

— Eu sou gay, Lizzie.

Elizabeth se espantou, logo se afastando.

— Não pode ser verdade... — Ela ajeitou os cabelos molhados. — Se bem que...

— Se bem quê?

— Bom, você não queria que eu tirasse a roupa e não ficou excitado em me ver quase nua...

— É verdade. — Riu.

— Como é a sensação? De beijar uma garota mesmo não gostando?

— Não se sinta ofendida, mas é como beijar minha mãe, algo afetivo... — Theodore deslizou novamente os cabelos para trás. — Dá para entender?

— Mais ou menos. — Esboçou uma expressão triste.

— Não fala para ninguém, por favor...

— Tudo bem, não conto. — Se aproximou do garoto novamente. — Mas você é tão lindo, é um desperdício...

— Você não sabe como é um saco ouvir isso... — Rolou os olhos. — Desperdício para uns, benefício para outros.

— Você não presta! — Gargalhou.

A garota mergulhou e puxou o primo para imergir. Nadaram por poucos minutos e se sentaram no deck, somente com os pés na água.

— Theo, eu queria te mostrar uma coisa... — Elizabeth se levantou.

O primo a acompanhou, ela pegou sua blusa que estava jogada na grama e secou as mãos, pegando sua bolsa em seguida. A abriu, dizendo:

— Já que você me contou um segredo seu, vou te contar algo sobre mim que poucos sabem.

— O quê?

— Isso.

— O que é?

— Vai me falar que nunca viu antes? — Riu. — Um baseado, ué.

— Isso é maconha?

— Prefiro chamar de marijuana.

— Mas não é proibido?

— Isso é mais fácil de conseguir do que você pensa, compro na orla da praia de Venice.

— Você é mesmo maluca... — Observou a garota retirar um isqueiro de dentro da bolsa.

— Vai acender isso aqui?

— O que é que tem? — Elizabeth se sentou na grama.

Theodore se sentou ao seu lado, sentindo o cheiro forte da fumaça.

— Quer tragar um pouco?

— Não, valeu. — Deitou-se, olhando o céu.

— Ah, Theo... Posso te perguntar uma coisa?

— Manda.

— Quando foi que você percebeu que era gay?

— Desde pequeno, sempre me senti diferente dos outros...

— De certo modo, também me sinto uma ovelha negra. — A garota prendeu a fumaça, soltando-a devagar após alguns segundos.

Ele colocou os braços atrás da cabeça, relaxando.

— Ei, Theo, não quer mesmo? — Ofereceu mais uma vez. — Tem sempre uma primeira vez...

— E se eu viciar?

— Para de frescura vai, toma...

— Como eu faço isso? — O garoto se sentou e segurou no papel de seda.

— Só puxar e prender a respiração um pouco, não precisa ser por muito tempo... — Ela deitou-se de lado. — E tenta manter os lábios secos, se não vai destruir a piteira.

Theodore colocou-o na boca, puxando o ar, a menina riu alto de como ele tossiu.

— Não se precipite, segure um pouco a respiração, Theo.

— Isso arde!

— É assim mesmo...

Elizabeth percebeu que o primo estava pegando o jeito após algumas tentativas, ele não tossia mais e soltava o ar vagarosamente.

— É estranho, uma tontura leve... — O garoto deu outra tragada. — Me sinto como se estivesse perdendo o controle do meu corpo.

— Fala sério, a vibe é a melhor, né?

Quando percebeu que Theodore começou a rir sem motivo, notou que estava fazendo efeito. Elizabeth tomou-o de sua mão e levou até seus lábios.

— Minha vez.

O garoto retirou a camiseta molhada, que o incomodava, então percebeu olhos curiosos sobre si.

— Se quiser tirar a calça também, não me incomodo... — A garota gargalhou.

— Lizzie... Quando você começou a fumar?

— Tem uns anos já. — Soltou a fumaça. — Eu estava numa roda com os amigos, um deles acendeu e passou de mão em mão... Eu não queria parecer menos descolada então aceitei.

— Você se arrepende?

— Nem um pouco...

...♕...

Christopher estava sentado na poltrona da sala dos amigos, enquanto Emmet e Michael estavam jogados no outro sofá.

— Emm, eu já disse, eu não faço ideia do que pode ter acontecido...

— Será que ele tentou se suicidar por você ter terminado com ele? — Inquiriu.

— Não pode ser, ele estava agindo normalmente até então, não pode ser que um mês e meio depois do término, ele tenha decidido fazer algo assim... — O professor bagunçou os cabelos.

— E os machucados no rosto dele?

— Ele não me disse nada, Mikey. — Bufou. — Ele estava bravo comigo, nunca vi aquela expressão no rosto dele, irreconhecível.

— Tem certeza que não fez nada a ele?

— Eu queria tanto saber...

— Isso não pode ficar assim, vocês têm que conversar!

— Você acha que devo ir agora?

— Não sei, o que sente que deve fazer?

...♕...

A garota se levantou e terminou de vestir as roupas que estavam sobre a grama.

— Meu Deus, que fome! O que você tem para comer aí?

Theodore a seguiu até a cozinha e abriu a geladeira.

— O que quer comer?

— Tudo! — A garota riu. — Essa é a única coisa que eu detesto em fumar, a larica.

O primo serviu sobre o balcão algumas guloseimas para Elizabeth.

— Quer suco?

— Quero! — Respondeu, com a boca cheia de biscoitos.

— Pega leve aí, vai engasgar, Lizzie.

— Você não está com fome, não?

— Estou, um pouco... — Roubou um cookie.

— Meus olhos estão vermelhos, Theo?

— Estão sim. — O garoto tomou mais um gole de suco. — E os meus?

— Não muito, você mal fumou, medroso.

— Já foi o suficiente para me deixar esquisito, prefiro evitar.

— Esquisito? Você tem que viver sua vida sem medo... — Limpou os lábios. — Espera aí, que horas são?

— Não sei...

— Eu tenho que ir, Theo! — Elizabeth olhou para a janela.

— Já?

— Sim, antes que escureça...

— Ah, tudo bem.

Ela pegou sua bolsa e se levantou com pressa. Theodore a acompanhou até a entrada, abriu a porta e se surpreendeu mais uma vez com o selinho que recebeu.

— Esse foi o último, prometo. — Ela riu. — Até mais!

— Até! — O garoto olhou-a caminhar até a esquina.

— Deixa eu adivinhar, outra melhor amiga?

Theodore sentiu o coração saltar.

— Christopher?!

Notas finais
Pessoal, participem do grupo do facebook que criei para reunir vocês! https://www.facebook.com/groups/155275931532759/