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24 Capítulo 24 — Duas metades.
Notas iniciais
Capítulo 24 — Duas metades.
— Filho, a coisa mais comum hoje em dia, é as pessoas andarem armadas para se proteger, não há nada de errado nisso...
...♕...
Theodore mal viu aquela última semana de setembro passar, percebia que os dias eram mais fáceis de lidar quando evitava pensar no professor e simplesmente continuava a seguir sua vida.
Embora a convivência com Christopher na sala de aula fosse difícil, estava se acostumando, ver o rosto do homem que tanto amava aliviava um pouco da ansiedade que tinha, pois queria se aproximar, lhe dizer algo diretamente, mas não conseguia.
Era o último dia da semana, Theodore olhou para o professor de matemática uma última vez antes de seguir o rumo para sua próxima aula. Christopher retribuiu o olhar, mas sem nenhuma expressão no rosto, o garoto preferiu interpretar aquilo como uma despedida.
Nicholas o seguiu, caminhando pelo corredor ao lado do sardento, logo dizendo:
— Ei, eu falei com a Alison, ela quer combinar da gente sair juntos...
— Hã? Assim de repente? O que você disse?
— Já havia comentado de você outro dia. — Parou de andar quando Theodore alcançou o armário. — Então falei que você queria conhecê-la.
— E o que ela disse? — Guardou os materiais e fechou a porta do armário.
— Quer mesmo saber? — Coçou a nuca. — Bem, conhece o termo fujoshi?
— Se eu conheço?! Minha melhor amiga é uma fujoshi doente. — Riu. — Mas já entendi o que está acontecendo...
— Agora essa ideia está fixa na cabeça dela, ela quer muito te conhecer, vai entender...
— Bom, por mim tudo bem.
— Então vou confirmar com ela. — Nick retirou o celular do bolso.
Theo observou o colega digitar rapidamente sobre a tela do smarthphone, não demorando muito para ouvir um barulho de notificação, vendo que Alison havia respondido no mesmo momento.
— Ela quer saber se você tá disponível depois das aulas. — Nicholas inquiriu.
— Hoje à tarde?
— É.
— Estou. — Sorriu.
— Combinado, ela virá nos buscar com o carro que ela pegou emprestado da mãe dela. Pode ser em uma lanchonete? Ou quer ir para o shopping?
— Tanto faz, pode ser por aqui perto mesmo.
— Então tá, já confirmei com ela... — Mostrou o celular para o amigo. — Nunca a vi tão animada antes.
— Tudo isso para me conhecer? Caramba! — Tornou a caminhar pelo corredor. — Estou me sentindo especial agora...
Guiaram-se até o exterior da escola. Acharam um banco vazio, sentaram-se e continuaram falando sobre o local que iriam.
...♕...
Christopher respirou aliviado quando o sinal da saída tocou, observou os alunos saírem apressados do local. Recolheu os papeis de sua mesa, organizando-os numa pasta. Pegou sua mochila e rumou até a sala dos professores.
Encontrou-se com alguns colegas de trabalho, uns riam conversando em um canto, outros tomavam uma boa dose de café, mas todos expressavam uma só feição, como se dissessem: “Obrigado Deus, hoje é sexta!”
Guardou a pasta no seu armário, logo sendo chamado por Miguel, um professor que havia começado há pouco tempo na escola, vindo da Flórida, na outra ponta do país.
— Ei, Christopher.
— Mello! E aí?! — Cumprimentou o amigo. Eram praticamente da mesma altura e tamanho.
— Eu queria te perguntar uma coisa...
— Opa, pode falar.
— Onde você faz academia? — Indagou o homem, cujo os cabelos castanhos claros iam até o ombro.
— Perto de casa, no centro. Por quê?
— Ah, é que ainda é difícil me habituar aqui, então desde que cheguei não piso em uma academia, já estou me sentindo sedentário...
— Entendi, mas eu te passo o endereço... — Ressaltou. — Acredito que gostará de lá, eles têm ótimos planos de treinos, você seguia algum?
— Sim, seis dias por semana, uma hora por dia.
— Bom, estou em um parecido, mas faço duas horas, é um pouco puxado, mas tem alguns intervalos para os aeróbicos que acabam aliviando...
— Bacana, passa o endereço sim. — Sentou-se em uma das cadeiras do local. — Você vai sair com o resto do pessoal?
— Ah, percebi que estavam combinando de irem em algum lugar. — Christopher olhou para os outros professores. — Mas não estou afim, quero só chegar em casa e relaxar, nem malhar eu vou...
— Dia difícil? — Perguntou Mello, que tinha olhos iguais aos de Christopher, verdes como o mar.
— Hoje foi um pouco mais tranquilo do que os outros dias...
— Para mim foi terrível, os alunos estavam inquietos, não conseguiam se concentrar em nada, só falavam das festas que iriam nesse fim de semana...
— Esses moleques são terríveis. — O professor de matemática afirmou. — Qual matéria passou hoje?
— Tentei passar alguns textos dessa apostila. — Mostrou a Christopher o que segurava.
Chris observou a caderneta que Miguel o entregava, logo notando que, em um dos cantos, constava o nome do professor do clube de astronomia por completo.
— Seu nome inteiro é Miguel de Castro Mello?
— Sim, por quê?
— Cara, nunca zombaram disso, não? — Chris gargalhou.
— Do quê?!
— Ah, me esqueci de que você é novato aqui, mas saiba que Castro é o nome de um bairro gay famoso daqui de São Francisco...
— Sério? Poxa...
— Fica tranquilo, não te chamarei de Castro. — Segurou a risada, deixando escapar um riso falhado.
— Ah, essas coisas só acontecem comigo, mal cheguei aqui e já me dou mal com os alunos, além disso, essa história do sobrenome...
— Normal, todos nós já nos sentimos deslocados algum dia... — Sentou ao lado do colega. — Acabei de me lembrar do meu primeiro dia numa academia, eu era um completo frango, os caras zombavam de mim até não aguentarem mais...
— Sério?
— Sim, mas tudo bem, eles tinham motivos, eu era aquele babaca que queria pegar um peso além do que meu corpo aguentava, queria ganhar massa logo, não tinha paciência para nada.
— Acredito que todos nós fomos assim no início, você demorou quanto tempo para ver alguma diferença significante?
— Depois de um mês só fazendo merda na academia, cheguei no instrutor e pedi um plano de treinamento, ele me passou um plano rigoroso para fazer enquanto tomava suplementos proteicos... Meu corpo mudou drasticamente depois de uns seis meses.
— Ah, espera um minuto... — Miguel retirou do bolso aparelho que tocava sem cessar. — Tenho que atender.
— Tá certo, vai lá.
Christopher olhou tudo ao redor, a sala já estava quase vazia, a maioria dos professores haviam saído. Se levantou para guiar-se ao estacionamento, ansioso para ir para casa, então antes de sair da sala, acenou para Mello, que retribuiu o gesto, enquanto falava no celular.
...♕...
Theodore aconchegou-se no banco traseiro do carro que Alison dirigia, enquanto Nicholas se ajeitou no assento ao lado da motorista. A música estava alta no rádio e as conversas rolavam soltas, não ficavam sem assunto, fazendo o garoto sardento se sentir mais confortável com o ambiente.
— Então, Theodore, você mora aqui perto? — Alison indagou.
— Sim, bem perto, oito quadras da escola...
— Legal! Já o meu colégio fica a umas quinze quadras de casa, então eu sempre tinha que esperar o ônibus da escola! Só que de uns tempos pra cá, depois de tanto pedir, minha mãe acabou cedendo e me emprestou o carro dela... — A loira abriu um largo sorriso.
— Você é a menininha dela, como ela não deixaria? — Nick brincou.
Chegando na lanchonete, sentaram-se em uma mesa com espaço o suficiente para os três. Não demoraram muito para decidirem o que pedir, fazendo todos a mesma escolha, de um sanduíche que era a especialidade do local.
— Já tinha vindo aqui, Theo? — Nicholas iniciou o assunto.
— Não, mas é bem legal, gostei do estilo retrô... — Respondeu, olhando tudo ao redor.
— Conheci essa lanchonete tem uns dois anos, desde então, é sagrado vir aqui com a Alison toda a sexta depois das aulas...
— Verdade. — A garota concordou, sorrindo.
— Minha amiga Susannah adoraria vir aqui também...
— Por que não a chama? — Alison sugeriu.
— Ah, ela mora longe...
— Sério? Que pena...
— Um pouco mais de cem milhas daqui.
— Nossa! É Muita coisa!
— Ei, será que aquele é o nosso pedido? — Nick sinalizou para uma garçonete que se aproximava, com uma bandeja em mãos.
A moça entregou os lanches que trazia, em uma mesa ao lado, mas logo virou-se para eles, colocando as latas de refrigerante que haviam pedido, sobre a mesa que estavam.
— O pedido de vocês é o próximo, só mais cinco minutos. — A garçonete particularmente jovem os disse, olhando especialmente para o garoto sardento, sorrindo antes de se retirar.
Como o dito, poucos minutos depois a mesma moça retornou, os servindo e desejando-lhes um bom apetite, olhando fixamente para Theodore mais uma vez antes de se retirar.
— Ei, vocês se conhecem? — Nicholas indagou, curioso.
— Hã?
— A garçonete, Theo, conhece ela?
— Não, por quê?
— É que pareceu, ela não tirou os olhos de você... — Alison comentou.
— Como não viu isso? — Nick riu. — Acho que ela estava te paquerando.
— Ah, coitada... — Theodore soltou uma risada debochada. — Se ela soubesse...
— É verdade, Theo, Nicholas me contou sobre você... — A loira abriu outro sorriso. — Então, seria inconveniência da minha parte perguntar se você está namorando atualmente?
— Não, inclusive no momento, estou me recuperando de um término...
— Não acredito! Sério? — Alison entortou os lábios. — Mas é muito recente?
— Não tanto, está quase completando um mês... — Abriu a lata a sua frente. — Ele terminou comigo quando as aulas voltaram...
— Sinto muito. — Ela acrescentou. — Vocês brigavam muito?
— Na verdade não, mas no ponto de vista dele, somos incompatíveis pela diferença de idade, ele me acha novo demais...
— Quanta bobagem!
— Penso assim também! Mas ainda o amo, não posso negar... — Suspirou. — Mesmo ele sendo muito cruel comigo, penso que sete anos de diferença não é muito, no fim das contas...
— Meus pais têm treze anos de diferença de idade e se dão super bem! — Afirmou. — Como seu ex se chama?
— Chris. — Theodore respondeu de forma rápida, mas logo lembrou-se que Nicholas o conhecia. Vendo que o amigo não havia mudado a expressão, aliviou-se.
— Ah, Theo, espero que ache um cara legal, que te faça esquecer esse Chris. — Desejou Alison.
“E eu espero que não.” Theodore a respondeu, em mente.
...♕...
Sábado.
Durante o dia todo não conseguia pensar em mais nada, então, quando a noite chegou, o coração de Theodore já estava aos pulos, ansioso para ver sua melhor amiga.
Sua casa já estava lotada de parentes, todos bem vestidos para a grande ocasião, mas não importava quantos rostos felizes ele via, só se preocupava com uma única garota que ainda não havia chegado.
Uma hora se passou desde que a comemoração havia se iniciado, o garoto estava aflito, ligando diversas vezes para o celular de Susannah, mas ela não atendia.
Foi então que a campainha tocou, Theodore correu tão rápido para a entrada de sua casa, que por um minuto, pensou que seus pulmões sairiam para fora de seu corpo. Para a sua alegria, era realmente a melhor amiga que havia chegado, acompanhada de sua família e o namorado.
A primeira coisa que se passou por sua cabeça foi em abraçá-la, Theo correu até a menina e a levantou do chão, demorando a soltá-la de seus braços. No entanto, percebeu que Tyler esboçava uma expressão nada boa em sua direção. Tratou de cumprimentá-lo com um aperto de mãos, Theodore pode notar o excesso de força que o garoto utilizou na saudação, porém, nada comentou.
— Megan! — Alba chegou, cumprimentando a mãe da garota. — E James! Que bom vê-los! E esse rapaz lindo deve ser o Tyler! Estou certa?
O namorado de Susannah assentiu com a cabeça, sem nada dizer.
— Vamos entrar!
Alba os guiou até a sala de estar, onde todos se encontravam, apresentou o seu noivo aos recém chegados. Sidney recebeu um olhar reprovador de Susannah.
— Não gostei dele. — A garota sussurrou para o sardento.
Tyler olhou fixamente para Theodore da cabeça aos pés, sentiu uma pontada de ciúme, pois viu que o garoto que Susannah falou durante a viagem toda, estava bem vestido e era realmente bonito, isso o incomodava.
Deixando os pais para trás, Susannah caminhou com o melhor amigo e o namorado pela grande casa, parando de frente a uma estante, olhando os vários porta-retratos que continham nela.
— Olha isso! — A garota tomou uma fotografia em mãos. — Theo, você era um bebê tão fofo!
— Quem é esse? — Tyler apontou outra imagem, onde um homem ruivo sorria, segurando o filho pequeno no colo.
— Meu pai. — Theodore respondeu.
— Tio Will, que Deus o tenha. — Susannah esboçou uma feição triste.
— Sinto muito. — Foi tudo o que Tyler conseguiu dizer.
— Eu nunca tinha visto essa... — A garota apontou para outra foto.
— Foi daquela época que eu ainda posava, para revistas de moda infantil, se lembra?
— Foi modelo? — O namorado da garota perguntou, um tanto curioso.
— Sim, até os doze anos, um pouco depois disso o meu pai faleceu e essas coisas perderam a graça para mim...
— Bem, não sei se é só eu que penso isso, mas bem que você devia ter herdado os cabelos do seu pai, né Theo. — Susannah brincou. — Herdou as sardas dele, mas os cabelos pretos são da sua mãe!
— Ruivos estão em extinção, fazer o quê. — Respondeu rindo. — E também, não consigo me imaginar ruivo...
— Querido... — Alba se aproximou, chamando o filho. — Por que não os chama para comer alguma coisa? Os petiscos já estão sendo servidos...
— Estão com fome? — Theodore perguntou.
— Ah, eu bem que queria um daqueles docinhos que eu vi! — Susannah riu. — Você quer, amor?
— Não, eu estou bem. — Tyler respondeu, aconchegando as mãos nos bolsos da calça.
— Então eu vou buscar, já venho...
Theodore caminhou para a porta de vidro, que dava em direção ao quintal e para a sua surpresa, foi seguido pelo namorado da garota.
— Então Theodore, você e Susannah se conhecem faz quanto tempo?
— Nos conhecemos na pré-escola... — O sardento sorriu. — E nossas mães eram muito amigas, então, somos como irmãos.
— É, ela me disse. — Tyler afirmou.
— E ela me fala muito de você, sabia?
— Eu também já ouvi muitas coisas ao seu respeito, Theodore, mas o que ela fala de mim?
— Acho que você já sabe né... Que você é um cara legal e que até antes mesmo de chegar em você, ela já estava completamente apaixonada. — Riu. — Recentemente me mostrou em uma foto, um colar que ganhou seu de presente, é o que ela está usando hoje, não é?
— É sim, antigamente ela usava uma tralha velha no pescoço e nunca tirava, fiz ela jogar aquilo no lixo...
— Ah é? — Theo indagou, ainda descrente da informação.
O garoto sentiu uma pontada no peito, sabia que ele estava se referindo ao colar da amizade, que havia dado a Susannah dez anos atrás. Disfarçou o quanto aquela notícia tinha o abalado, pois não conseguia acreditar que a amiga realmente tinha se desfeito do acessório.
Não era caro, mas não deixava de ser valioso.
Susannah retornou, com um sorriso enorme no rosto e um prato cheio de doces.
— Estava procurando por vocês! Do que conversavam?
— Perguntei ao Theodore o que você dizia de mim pelas costas. — Tyler riu.
Theodore forçou um sorriso, olhando disfarçadamente para o colar da amiga, um "T" com pedras brilhantes em volta, que no momento substituía o colar da amizade; originalmente duas metades de um coração.
Agora restava somente uma, estando ela no chaveiro de Theo.
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