Fade
3 O Garoto que eu Gosto
Notas iniciais
Eu sei o que as pessoas costumam fazer durante a noite. Elas dormem. Mas eu poderia fazer qualquer coisa desde que subi as escadas depois de um diálogo um tanto que emocionante com o namorado da minha própria irmã. Exceto dormir. Acho que passei cada segundo desde que me deitei pensando na maneira como os olhos dele brilhavam quando ele segurou a minha mão e disse que se sentia confortável comigo. Pode parecer meio bobo mas por um momento eu acreditei que ele estava mesmo me cantando. E Eu me sinto culpado por ter gostado de ter acreditado nisso. Mas provavelmente isso não seria um problema. Quer dizer. Isso é bem comum né. Gostar de garotos héteros porque eles são bonitos. Mas o verdadeiro problema era que o que eu estava sentindo ia um pouco além disso.
Quando me deparei com o alarme já eram 06h e eu não havia pregado os olhos nem por um segundo se quer a noite toda. Então fui tomar um banho e me arrumar para a escola quando ouvi um barulho e desci imediatamente pra baixo.
— Você só pode estar de brincadeira comigo. Não é possível. Como pode? ELISE? — Gritava minha mãe na cozinha
— Opa [...] eu cheguei numa hora ruim? — Perguntei um pouco assustado
— Eu não sei se a sua irmã pretendia nos contar que transou com o namorado dela ontem aqui em casa.
— Você contou pra ela? — Sussurei para Elise
— Contar sobre o que? Ela achou algumas ca...
— Misinhas? — Completou minha mãe a interrompendo — É. Eu as achei. Na lixeira do banheiro. Eu não acredito que fez uma coisa dessas.
— Não. Ela não fez. — Disse meio apreensivo na tentativa de poupar a minha irmã de uma baita encrenca — Na verdade as camisinhas eram minhas.
— Como pode acobertar sua irmã dessa maneira? Sua namorada nem se quer esteve aqui ontem.
— Não estava porque eu fugi e fui até a casa dela. Ela não tinha onde esconder então eu trouxe e decidi jogar na nossa lixeira. Foi por isso que subi durante o jantar e não voltei. Eu fugi pela janela até a casa dela e nós [...] transamos.
— Elise — Disse minha mãe com a mão na cabeça e tão vermelha quanto a nota do filme Cinquenta tons mais Escuros no Metacritic.
— Sim?
— Suba e me deixe ter uma conversa a sós com o seu irmão.
— Ok. — Respondeu me olhando um pouco surpresa e subindo os degraus.
— Nossa agora eu to fudido.
— Fudido não chega nem perto do quanto você está de castigo pelas próximas duas semanas. Escola e casa. Casa e escola. E Não quero que o seu pai fique sabendo disso de maneira NENHUMA. Estamos entendidos?
— Sim. Desculpe.
— Espero que ao menos tenha usado esses preservativos.
— Ah [...] é. Usamos sim.
— Vá terminar de se arrumar antes que eu aumente para três semanas. — Disse ela ainda muito brava.
Eu não sei ao certo o porque decidi defender a minha irmã. Talvez porque eu sabia que ela teria uma punição bem pior que a minha. Mas tudo que eu queria saber naquele momento era se eles haviam mesmo feito sexo. Eu senti que o Daniel estava tão nervoso e despreparado como se não houvesse nenhuma chance dele perder a virgindade naquela noite.
— Fui tudo muito estranho. — Disse para a Natalie chegando na escola.
— WOW. Espera aí. Deixa eu memorizar tudo. Depois que você desceu pra comer e ele desceu pra beber água vocês tiveram um momento meio que Romeu e Julieto juntos? — Disse Nat boquiaberta
— Acho que você tá se esquecendo da parte em que ele e a minha irmã [...] transaram.
— Você não tá surpreso com isso né? Quer dizer. Eles meio que são namorados e isso é comum né. A Não ser que esteja abalado porque [...] gosta dele?
— NÃO. Ele [...] não é o meu tipo.
— Não é o seu tipo? Bonito? Legal? Engraçado?
— Esqueceu de hétero e namorado da minha irmã.
— O Que tem o namorado da sua irmã? — Disse Daniel vindo em nossa direção intrigado com a nossa conversa
— Eu estava contando a Natalie que eu não pude ir a casa dela ontem porque [...] o namorado da minha irmã quer dizer [...] você foi jantar na nossa casa. — Respondi meio gélido e morrendo de vergonha.
— Ah. É Um prazer te conhecer Natalie.
— O Prazer é todo meu mas se me dão licença eu preciso ir pra aula de biologia. — Respondeu Natalie fazendo sinais para que eu puxasse assunto com o garoto.
— Então [...] você também tem aula agora? — Perguntei
— Sim. Matemática e você?
— Educação física.
— Então que tal tomarmos um café depois da aula pra bater um papo? — Ele perguntou meio sorridente
— Ah [...] Daniel?
— Sim?
— Eu tenho 17 anos. Eu não costumo sair pra [...] tomar café.
— Nossa. Tem razão. — Disse ele em meio a risadas — Uma vitamina então?
— Fechado. Te vejo em frente a escola depois do sinal.
— Até mais então. — Disse ele acenando
Ver o Daniel com a jaqueta do time de basquete me deixou meio tímido visto que eu fui atormentado por esses garotos desde que me conheço por estudante do ensino médio. Mas por outro lado meio excitado já que ele ficava super gostoso com ela. Fiquei meio intrigado pensando no por que ele teria me convidado pra tomar um café. Ops [...] vitamina. Mas no entanto aceitei. Mesmo sabendo que iria tomar uma baita bronca em casa.
— Ele te convidou pra que? — Perguntou Natalie surpresa
— Acho que ouvir tantos lives acústicos da Demi Lovato tem te deixado surda. Vitamina.
— Eu to cagando pro que vocês vão tomar. Eu to surpresa é com o fato de que ele te chamou pra [...]
— Bater um papo. — Interrompi — Só isso.
— Se quer acreditar nisso. — Disse ela debochada
— Adam. Natalie. Olá. — Disse Daniel acenando não muito longe dali. Ele estava lindo e eu não pude evitar de sorrir quando o vi. Acho que foi o calor do momento.
— Eu já estou indo. Beijos rapazes. — Natalie disse se afastando — Qualquer coisa me liga. — Sussurou pra mim logo depois.
— Vamos então? — Disse
— Claro. — Respondeu ele meio tímido com a mão nos bolsos da calça jeans que estava usando.
Chegando na lanchonete nos deparamos com ela fechada e então ele se ofereceu para me levar em casa de lá.
— Então [...] hoje de manhã aconteceu algo estranho lá em casa. Você saiu cedo? — Perguntei meio sem graça
— Eu tive que sair logo depois que você subiu. Minha mãe e meu pai não tem um relacionamento muito bom entre si e minha mãe me mandou uma mensagem dizendo que precisava de mim em casa.
— Ah sim. Espero que consigam se resolver. Mas espera. Se saiu logo depois que eu subi então você e a Elise não [...] transaram?
— O Que? Por que teriamos feito isso? Eu te disse que não estava preparado.
— Pois é. É Que hoje de manhã a minha irmã estava levando a maior bronca porque a minha mãe achou as camisinhas que vocês provavelmente iriam usar e achou que ela tivesse feito.
— Nossa. E Ela está de castigo então? Não poderá torcer no jogo desse sábado?
— Na verdade ela não está. Mas eu sim. Eu disse que eu e a Nat tinhamos feito na casa dela e que quando voltei joguei as camisinhas na lixeira.
— Eita. — Nós começamos a rir — E Ela acreditou?
— Diga você mesmo. Duas semanas da casa pra escola e da escola pra casa.
— Bom. O Jogo desse sábado acontece na escola né.
— Ah [...] sim. Por que?
— Você deveria vir. Isto é. Se quiser é claro. Torcer por mim. — Riu
— Eu estou de castigo mas [...]
— Mas?
— Vou dar um jeito de ir. Eu prometo.
— Te vejo lá então. Foi um prazer tomar uma quase vitamina com você.
— Idem. — Sorrimos
Chegando em casa como de previsto minha mãe estava uma fera comigo e eu ganhei mais uma semana de castigo. Mas acho que valeu a pena. Conversar com o Daniel era como poder se abrir pra alguém que eu conheço há anos como a Nat mas ao invés disso nós não nos conheciamos nem há uma semana. Talvez fosse o modo como ele sempre sorria pra mim quando eu ficava sem graça assim me fazendo me sentir a vontade. Por isso eu sabia que teria que fazer o que fosse preciso pra ir no jogo de basquete no sábado. Então eu tive a brilhante ideia de ligar para os meus avós e pedir que nos convidassem pra uma viagem até a casa deles no fim de semana.
— Bom Adam. Como você está de castigo lamento dizer mas não está convidado para a nossa viagem neste fim de semana. — Disse minha mãe fazendo as malas.
— AFF. Eu estava ansioso pra rever a vovó. Talvez no próximo verão. — Disse debochado.
— É. Se até lá manter esse seu pintinho dentro da calça que é onde ele deveria estar. — Disse ela zangada enquanto eu mantia o controle da minha risada. — Sua irmã tem ordens pra te manter em casa de olhos bem abertos. Mais tarde ela terá que ir a escola para um jogo de basquete com o resto das líderes de torcida mas você vai ficar aqui. Entendido Elise?
— Com certeza mãe. Boa viagem. — Respondeu Elisa ironicamente.
— Fique bem querida. E Não aprontem. Voltaremos na segunda de manhã. — Disse ela entrando no carro e pegando a estrada pra casa dos meus avós com o papai.
— Bom. Acho que chegou a hora do nosso acerto de contas. — Soltei ofegante.
— Não te devo nada porque não pedi que levasse a culpa. Eu iria me explicar. Afinal nós nem chegamos lá. Mas obrigado mesmo assim.
— Qual é. Acha mesmo que a mamãe iria acreditar que o seu próprio namorado iria recusar fazer sexo com você?
— Espera aí. Por que está afirmando que foi ele quem recusou? — Perguntou ela confusa enquanto eu gelava por alguns segundos
— Ah eu não sei. Estou supondo.
— Hum.
— Eu preciso mesmo sair hoje. Preciso ir ao jogo.
— Vai aprontar algo com aquela menina Nicole?
— É Natalie. E Não. Eu só to indo pra assistir ao jogo.
— Desde quando se interessa por basquete?
— Desde quando se interessa pelo que eu me interesso?
— Cansei. Vai então. Eu não conto se você não contar.
— Fechado.
Acho que pela primeira vez esse ano eu fiquei empolgado com alguma coisa. Não sei o que estava havendo entre mim e o Daniel mas de qualquer maneira eu já estava caidinho por ele e não teria mais como desmentir isso pra mim mesmo então eu resolvi aceitar mesmo sabendo que as chances de acontecer algo entre nós eram de tipo 0%. Vesti uma camiseta bem bacana com uma bermuda jeans e VANS. Não sabia muito bem o que usar para assistir um jogo de basquete. Afinal eu nunca fui em um.
Chegando na arquibancada avistei a Nat com um garoto e fui até eles para puxar assunto.
— Você tá ótimo. Sério. — Disse Natalie
— Valeu. Não sabia que vinha a esses jogos. — Perguntei com uma expressão ironica no rosto
— E Não venho. O Travis me convidou.
— Então esse é o nome dele?
— Sim. Conheci ele terça na aula de biologia. Ele é um amor e me convidou pra assistirmos o jogo juntos porque o primo dele tá no time.
— Então eu acho que vocês não vão ficar muito a vontade comigo por perto né.
— Isso mesmo. — Brincou
— Bom. Vou sentar logo ali. Qualquer coisa me manda uma mensagem.
— Ok.
Quase não haviam mais lugares vagos então eu procurei por alguns minutos segurando pipoca e refrigerante nas mãos até que eu vi dois lugares vagos e me sentei num deles.
— Finalmente.
— Com licença — Disse uma mulher chegando e sentando ao meu lado — Tem alguém aqui ou este lugar está vago?
— Não. Pode se sentar.
— Obrigado. Aqui tá muito cheio hoje né.
— Pois é. Quer pipoca?
— Não. Obrigado. Estou com um pouco de pressa. Mas se você puder me explicar como funciona o placar desse jogo eu agradeceria.
— Creio que não posso te ajudar nisso. — Rio — Sou tão desinformado quanto a senhora. Vim para ver um garoto.
— Acho que isso é algo que também temos em comum. Também vim ver uma pessoa. Meu filho. Pra falar a verdade.
— Ah é? Quem é ele no time?
Ele apontou pro Daniel que estava entrando na quadra junto aos outros garotos.
— O Daniel? — Respondi o observando.
— Sim. Vocês se conhecem?
— Sabe o garoto a quem eu estava me referindo? Então. E Você é a mãe dele né. Meu nome é Adam. É Um prazer te conhecer.
— Rose. O Prazer é todo meu. Você é muito educado rapaz. Conhece o Daniel há quanto tempo?
— Obrigado. — Sorrio — Não muito tempo pra falar a verdade. Praticamente uma semana. O Seu filho é muito legal e gentil.
— Seus olhos brilham quando fala dele. Você e ele deve ser bem próximos. — Gelo completamente
— Acho que um pouco. Ele namora a minha irmã.
— Sua irmã? Ela está aqui hoje?
— Bem ali em baixo na verdade. Junto com o resto das líderes de torcida.
— Ah. E Isso foi um gol?
— Não sei se é como se referem aqui nesse jogo mas acho que a gente deve levantar e fingir que estamos comemorando algo que entendemos. — Rimos
O Jogo acabou e eu resolvi descer junto com Rose ao encontro de Daniel para parabenizar o mesmo pela sua vitória
— Mãe? Adam? — Disse ele vindo em nossa direção
— Filho você estava incrível. De verdade. Eu vim direto de Londres assim que soube que o seu primeiro jogo seria nesse sábado. Eu não entendi muito bem o que aconteceu aqui nessa quadra mas o seu amigo foi uma ótima companhia. Ele é muito gentil. — Daniel sorriu pra mim
— Eu to feliz que você esteja aqui. — Ele a abraçou
— Eu também filho mas infelizmente tenho que pegar um voo daqui algumas horas então preciso fazer minhas malas. Prometo que daqui alguns dias estarei de volta.
— Farei um jantar em comemoração. — Disse ele com os olhos cheios de lágrimas enquanto se despedia da mãe.
— Sua mãe é um doce. — Disse
— Muito obrigado por ter a acompanhado. Ela teria ficado perdida aqui. — Sorriu
— Na verdade acho que foi ela quem me acompanhou. Eu também nunca vim a um jogo de basquete — Rimos
— Eu adoraria te ensinar. — Disse ele segurando minha mão enquanto eu ficava pálido — Mas eu tenho que cuprimentar alguns dos jogadores do time adversário. Pode voltar aqui daqui uns 30 minutos?
— Claro. Vou ver se a Nat precisa de alguma coisa. — Disse sorrindo e saindo da quadra quase tonto.
Parece que a situação não estava tão bem pra mim quanto estava pra Natalie que logo na frente do colégio estava praticamente engolindo o pobre Travis.
— Ah [...] eu não quero interromper. — Disse com uma expressão ironica
— Adam. Não está. Quer dizer. Está. — Riu — Precisa de algo?
— Eu vim saber do mesmo.
— Eu acho que não. — Me puxou para o lado se afastando um pouco do garoto — Eu to completamente louca pelo Travis. Ele é um amor e beija muito bem.
— Será que o Daniel beija bem também?
— VOCÊS? — Disse ela num tom alto
— CALMA. Ele me convidou para aprender basquete daqui 30 minutos na quadra. Seria um convite normal de amigos se ele não tivesse pegado na minha mão pela terceira vez.
— Meu deus. O Que você tá fazendo aqui? Compra uma bala de menta. Arruma seu cabelo. Compra camisinha. Sei lá. Vai agarrar esse garoto.
— Ele ainda é o namorado da minha irmã. — Disse meio ofegante
— Eles usam aliança? Tem um compromisso no papel ou um status de relacionamento sério no facebook? Acho que a segunda opção né. Se ele gosta de você então vocês merecem ficar juntos. Não pense como um ato egoísta mas sim algo que você está fazendo por si mesmo. Quando foi que deixou de pensar nos outros para pensar em você?
— Eu [...] — Respirei fundo e decidi seguir em frente com um sorriso no rosto — Eu vou lá. Eu cansei de sentir pena de mim mesmo. Eu gosto dele e se ele também sente algo por mim então eu preciso saber.
— É Assim que se fala sua cachorra. — Brincou — Vai logo.
Na minha vida toda eu nunca imaginei meus pais olhando alguém e contando aos outros que era essa pessoa de quem eu gostava. Afinal eu nunca gostei de garotas e isso nunca passou pela mente deles. Eu nunca me referi a alguém assim. O Garoto que eu gosto.
Eu corri até a escola e fui direto até a quadra de basquete. No caminho fiquei pensando em inúmeras maneiras de dizer que gosto dele da melhor maneira possível mas cada vez que pensava nele me perdia nos seus olhos.
Eu estava pronto para finalmente dizer como me sentia e nada e ninguém poderia me impedir naquele momento.
Exceto pela cena do Daniel aos beijos com a minha irmã.
A Garota que ele gosta.
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