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1 Capítulo 01 - Escuridão.


Capítulo 01 — Escuridão.

1 de Outubro de 2026, hoje fazem exatos 365 que não saio de casa. 286 dias que não freqüento a escola. E 136 dias que não perco uma partida. Estou sentado na posição fetal em cima de minha cadeira de couro que esta desgastada pelo longo tempo que passo nela, o monitor holográfico a minha frente mostra um jogo, Xadrez. Estou no nível 100 de dificuldade, o nível final. O mais difícil. E impossível de se derrotar. Eu balanço meu punho direito e uma tela menor se abre um pouco acima de meus dedos, usando o indicador eu arrasto a peça na diagonal, xeque-mate. A tela holográfica exibe uma mensagem para mim, "Você venceu". Sim, quantos milhares de partidas eu joguei? Quanto tempo desperdicei? Eu mesmo já não sei. Afinal, nada importa. Meu cabelo escuro não demonstra qualquer brilho, assim como eu ou este quarto. Os fios de cabelo em conjunto cobrem um pouco de minha visão. A camisa de mangas longas de cor branca que eu vestia não isolava o que eu sentia, frio. Eu me abraço na tentativa de diminuir essa sensação, mas, era algo inevitável...

— Olie, está com fome?

Eu ponho a ponta de meu pé no chão e uso um pouco de força para girar a cadeira, a minha frente um robô. Sua aparência lembra um cilindro com rodas e braços articuláveis. A voz que ele transmite e a da minha mãe. Tudo não passa de gravações que eu fiz, assim como o robô.

— Sim. — Respondi.

— O que quer comer?

— Pizza.

— Isso não é bom, você deve comer vegetais!

Abri meus lábios como se quisesse dizer algo, acabei por responder com a cabeça baixa.

— Não existem mais. Assim como você, mãe.

Quando dou essa resposta o robô que fiz pensa em uma solução para minha frase, mas no fim, e tudo o mesmo. Após fazer alguns barulhos ele fica em silêncio. Eu suspiro de forma pesada e limpo meus olhos, meu quarto está uma bagunça. Livros jogados no chão, cama desarrumada, acima de tudo, Não há nada para se fazer. Esse mundo... Para mim, e o mesmo que a escuridão, uma escuridão que me consome cada vez mais a cada segundo que se passa. O som da campainha chama minha atenção, provavelmente deve ser alguém reclamando que eu estou supostamente morto, afinal, faz um ano que não saio desse cômodo. Eu me levanto com minhas pernas bambas e perco meu equilibro, dou alguns passos para frente e me apoio na quina da porta. Minha respiração estava pesada, e minha visão escureceu por alguns segundos. Esse e o resultado de levantar-se subitamente. Pouco a pouco minha visão voltava ao normal, os incesáveis toques na campainha me irritavam. Quando finalmente dei-me conta de mim, continuei a andar passo a pós passo de forma lenta me apoiando na parede. Enfim chego de frente a minha porta de cor branca. Seguro o trinco banhado a ouro e o abro.

[...]

Cabelos escuros assim como o meu, entretanto, com um forte brilho. Olhos violetas, um traje social com colarinho e um terno. Meia calça e sapatos pequenos nos pés. Ela me olhava de forma autoritária, com seus braços cruzados.

— Que demora.

— Desculpa. – Tossi – Quem é você? Por acaso e da Vanguarda?

— Que rude. Por acaso não se lembra de mim?!

Reparei melhor em sua constituição corporal, era uma garota. Minha mente afirmou, entretanto, não me lembro de seu nome. Senti uma dor aguda vinda de minha mente. Quem é ela?

— Desculpa... Eu não lembro... – Conclui.

Ela olhou para mim com uma expressão de "Não acredito" eu assenti. Afinal, uma pessoa como eu...

— Meu nome é Sophie Wallenstain. Sou representante de classe, essa sua cabeça de alga funcionou agora?

— Ah... – Cocei minha cabeça – Deseja algo de mim?

— Sim, não só desejo como requisito sua presença. Já faz um ano que você não comparece às aulas, e além do mais, suas notas são sempre 100%. Isso é um ultraje!

— Desculpa.

— Não se desculpe! – Ela falou em um tom serio. – Eu odeio ficar em segundo lugar, e a pessoa que está acima de mim sequer está presente... Eu odeio isso...

— Haha... Que tal entrar um pouco?

Relutante ela aceitou meu pedido, sugeri que ela ficasse sentada em minha cama desarrumada enquanto eu trazia algo para ela beber. No meu porão há um dispositivo que criei um que demorou anos para ser finalizado. Através da temperatura do ar é possível retirar moléculas de água. Foi o que fiz. Fui juntando água e a espalhei através de um sistema de irrigação. Sementes são coisas raríssimas de encontrar. As que eu consegui foram logo antes de tudo acontecer. Após pegar alguns grãos de café eu os remui em um moedor e fiz um café preto, entretanto, não há açúcar. Após retornar ao meu quarto eu vi Sophie olhando para cada canto de meu quarto atenciosamente, eu me aproximei-me dela e estendi a caneca de café que estava em minha mão direita.

— Aqui.

O aroma se espalhava pelo meu quarto escuro, ela ao sentir aquele aroma pegou a caneca e olhou para ela.

— Isso é... Café?

Assenti com a cabeça.

— Como?

— É um segredo.

Após ouvir aquelas palavras ela se manteve em silêncio e provou o café, uma expressão estranha apareceu em seu rosto.

— Azedo!

Dei uma pequena risada que talvez não pudesse se chamada de "Riso" e tomei um pouco do café, o robô que construi permanência imóvel ao lado de minha mesa.

— Descarregou. – Murmurei.

— Foi você quem fez?

— Sim. Vou ter que levá-lo para fora depois, a bateria dele funciona com energia solar.

— Entendi. E qual a funcionalidade dele?

Essa pergunta me pegou de surpresa, pensei alguns segundos antes de responder.

[...]

— Para... Fazer-me companhia... Eu acho.

Sophie deu três goles seguidos no café de forma forçada e logo falou.

— Urgh...! Eu tenho que ir, a aula vai começar daqui à uma hora!

Abri meus lábios como se quisesse dizer algo, as palavras não saíram. Ela levantou-se esperando eu acompanhá-la até a porta. Levei-a até a porta, mas mantive-me dentro de casa.

— Ah, é mesmo...

Ela pegou sua mochila que lembrava uma maleta e de dentro retirou um papel e entregou-me. No cabeçalho estava escrito "Planos para o futuro" resumindo, o que você quer ser? Tenho a resposta para essa pergunta na ponta da língua, nada. Não há nada em que eu possa ser útil, e além do mais, o mundo em que eu sonhei em ser algo já não existe mais. Mas, e bom ver que os adultos dão esperanças a crianças como nós. Se pensar bem o que podemos fazer? Daqui a alguns anos não existirão suprimentos, o Orbe e o que nos mantém vivos, mas até quando isso vai durar? A quantidade de AR e limitada.

— Você está ouvindo? – Ela deu um peteleco em minha testa.

— Ai... Sobre o que você está falando mesmo?

— Francamente... – Sophie disse em meio a um suspiro – Me entregue isso até amanhã, é importante.

— Tá...

— E, além disso, quero que vá para a escola, se você não for eu jamais te perdoarei!

— Já entendi...

— Ótimo, até mais.

Que garota estranha. Com sua maleta na mão ela caminhava para longe de mim, o frio lentamente ia retornando a cada passo que ela dava, o lado esquerdo de meu corpo pulsou... Eu estendi minha mão e clamei pelo seu nome.

— Sophie.

Ela parou de andar e olhou em minha direção com seus olhos violetas. Eu recolhi minha mão e deixe-a próxima de meu peito.

— O que foi?

[...]

— Você pode me abraçar?

Falei com minha cabeça abaixada, de todas as possibilidades que pensei a mais obvia seria um não. Rejeição é algo natural, não se importe.

— Por que eu deveria fazer isso?

Sim... Por que ela deveria? Não há motivo, por que eu pedi isso a ela? O que eu estou fazendo? Agarrei o lado esquerdo de minha camisa com força, dei um passo para trás.

— Esqueça... Não foi nada, apenas veio a minha cabeça...

— Entendo. Se não foi nada e melhor eu me apressar se não chegarei atrasada.

— Sim, faça isso. – Assenti.

Sem falar mais nada ela seguiu seu caminho, eu fechei a porta e logo me escorei a ela. Abracei minhas pernas e encostei minha cabeça, antigamente uma casa era tão animada... Mas agora e doloroso estar aqui. Esse frio se transforma em raiva e me faz odiar a mim mesmo às vezes, mesmo sentindo vontade de quebrar algo, o meu lado lógico toma conta de mim nesse momento e eu acabo ficando nesse estado... Imóvel... Minha mente estava em branco que parecia não ter fim.

[...]

Quando a situação se amenizou um pouco me levantei e voltei até meu quarto. Abri o armário de madeira que continha cheiro de naftalina, o meu uniforme escolar estava lá pendurado. Peguei-o e deixei sobre a cama, logo em seguida abandonei aquele formulário em cima da mesa. Após trocar de roupa, olhei-me no espelho, olhos vazios e castanhos. Camisa branca social com um laço enrolado ao redor da gola. Paletó com um símbolo circular com uma terra no meio com suas cores vivas. Que irônico. Por fim sapatos e calças sociais. Antes de sair de fato, parei mais uma vez de frente a minha mesa um Headset da Sony e um MP7 que reproduzia musicas, deixei o Headset ao redor de meu pescoço e conectei o plug no reprodutor de musica. O guardei em meu bolso. Segurei o robô com minhas duas mãos e levei-o até a porta, e devo falar... Que pesado. Após abrir a porta deixei-o do lado de fora, do lado direito levantei uma chave. Abrindo receptores solares. Quando os raios aquecessem aquela parte energia era gerada. Fechei a porta.

Respirei fundo.

Com minhas duas mãos coloquei o Headset sobre a cabeça, com minhas mãos em ambos os bolsos. Apertei o botão do MP7 que estava em meu bolso direito e soltei o ar. Que nostálgico... "Come Ang Get Your Love"... Eu sempre ouvia isso com ela, varias e varias vezes. Pensando melhor... Foi uma boa ter tomado coragem e tê-la chamado para assistir "Guardiões da Galáxia" aquele dia. Abri meus olhos. A minha frente em um longínquo eu via a Terra envolvida pela escuridão das estrelas, com suas cores apagadas.

Cobri minha cabeça com um capuz, e comecei a andar dando pequenos pulos. O ar e rarefeito, mas eu já estou acostumado. O Orbe e o que nos mantém vivos, ela envolve o satélite lunar criando uma camada de oxigênio. Entretanto, não muda a gravidade. Admito, e um pouco divertido pular por ai e girar algumas vezes no ar. De cabeça para baixo eu vejo minha casa, que não passa de um conjunto de blocos metálicos modelados para simular uma casa. Assim como esse lugar, a última cidade, Luna. Tudo lembra o passado, o que é uma tortura para mim. A diferença e que não existem homicídios, e se existir as chances são raras. A Vanguarda mantém toda a ordem. A Cura trata da doença das pessoas, mesmo após anos não descobriram a cura do Câncer, o que é uma pena. O Guia e onde aprendemos tudo que é necessário.

Continuei a andar e a saltar algumas fendas pelo chão que levantava poeira lunar cada vez que eu aterrissava. A última cidade, Luna. Tem prédios metálicos e modelados, basicamente tudo aqui é desse jeito. Como decoração janelas retangulares ou quadradas. Moveis metálicos. Também há alguns monitores holográficos de grande escala espalhados, não passa nada relevante a não ser a campanha de água. Isso se da ao fato de que antes de migrarmos para esse lugar conseguimos trazer cerca de 2% de água potável que restou. Aterrissei sobre um bloco de ferro e segui em linha reta subindo as escadas, as pessoas na rua não eram muitas. Varias delas faziam reparos nas instalações, e outros trabalhavam em seus laboratórios. Eu já estava cansado de subir escadas até que cheguei ao Guia. As portas estavam fechadas, aproximei-me da porta do meio e coloquei minha mão sobre uma plataforma retangular escura, que fez um escaneamento em minhas digitais.

— Bem vindo, Oliver Baker.

As portas se abriram, logo entrei. Os armários metálicos eram de certa forma nostálgica. Apertei o botão do MP7 em meu bolso e desliguei a musica. Coloquei meu fone ao redor do pescoço. As portas atrás de mim fecharam-se. Eu caminhei em linha reta e virei à esquerda. O corredor longo e metálico era reluzente por conta do Sol. Meus passos ecoavam. Não havia uma pessoa por conta do horário de aula. Se bem me lembro eu faço parta da 3-C, continuei a andar olhando para cima e direita, até chegar ao meu objetivo. Parei de frente a uma porta branca. Estendi minha mão... Senti-me apreensivo por dentro, afinal, eu não venho aqui faz um ano. Como vão me encarar? Será que vão rir de mim? Tanto faz... Girei o trinco e abri a porta, o professor com cabelo espetado e barba mal feita vestia um terno, ah, ele se chama Stanley. Sr.Stanley.

Meus colegas me olhavam atônitos, assim como o professor. Pois é, eu ainda estou vivo. Atordoados com minha presença Sr.Stanley clamou pelo meu nome.

— Olie? Pegou um resfriado, heim? Hahaha!

Os meus colegas de sala riram em conjunto, cogitei que isso aconteceria, mesmo assim apenas assenti e forcei uma breve risada.

— Bem vindo de volta, agora se sente e abra o arquivo 58.

— Olha só, ele é bonitinho. – Cochichou.

Ótimo, ele não fez mais perguntas. Assim é melhor. Olhei em volta, algumas garotas cochichavam, Sophie me olhava com uma cara irritada. Já os garotos... Parecia que queriam meu sangue a todo custo. Como é bom não ser popular... Havia apenas uma única cadeira livre, á ultima do lado direito. Bem próxima da janela, do jeito que gosto. Passei por Sophie e a cumprimentei, mas sem resposta. Após sentar-me balancei meu punho, assim, projetando uma imagem na altura de minha visão. Comecei a revirar algumas pastas procurando os tais arquivos, algo me chamou a atenção. Uma pasta escrita "Laice" ignorei aquilo e continuei a procurar os arquivos, quando enfim encontrei, o tema que estava sendo estudado era o seguinte, buraco negro. Que aborrecedor. Fechei meu punho fazendo a tela desaparecer. Deite-me sobre a mesa e implorei para tudo aquilo acabar.

[...]

— Isso é tudo. Amanhã teremos exames práticos, o objetivo será recolher cargas espalhadas pela atmosfera. Revisem os manuais que enviei para vocês.

Quando ouvi isso finalmente tinha acabado, o som do toque marcou o fim das aulas. Imediatamente levantei-me e caminhei em direção a saída sem me importar com nada, antes que pudesse enfim estar livre dessa tortura o Sr.Stanley chamou-me.

— Olie!

Revirei os olhos sem ele ver e aproximei-me dele.

— Professor, precisa de algo?

Ele tocou meu ombro.

— Estou preocupado com você. Faz um ano desde que você não pisa nessa sala, e seu futuro? Já pensou nisso?

— Não se preocupe, eu vou encontrar algo.

Respondi olhando em seus olhos, claro que isso foi uma mentira. Desde aquela dia eu pensei nisso, incontáveis vezes, dia a pós dia... Não há futuro. Certeza. Absoluta. O bom dos pensamentos e não expor aquilo que pensamos, obviamente. Nesse lugar não há algo que eu queira dedicar minha vida, tudo que me interessava se perdeu assim como aquelas cores.

— Entendo... – Ele suspirou – Se precisar falar comigo eu estarei aqui.

— Obrigado.

Virei-me de costas e dei alguns passos até a saída.

— Não falte amanhã. O exame pratico é importante.

— Sim, eu ouvi.

— Se me der licença...

Sr.Stanley não é uma má pessoa, desde sempre ele ajuda os outros... Além disso, sociável, algo que dificilmente vou ser. Mesmo assim, não guardo ressentimentos, afinal esse é meu jeito de ser e eu não quero me forçar a mudar. Enfim sai da sala de aula. Os alunos no corredor conversavam entre si, vi um garoto e uma garota se abraçando, de certa forma senti meu peito doer. Não por ver eles juntos, e sim por que talvez eu sinta inveja deles. Eu não tenho ninguém pra abraçar. Desviei o olhar e continuei a andar pelo corredor, cheguei até os armários de metal e vi a Srta.Vácuo pegando seu uniforme, aproximei-me dela e acenei.

— Olá, Srta.Vácuo. – Cumprimentei.

Ela bateu com força o armário e me olhou irritada. Esperei por uma resposta ofensiva, entretanto, ela tomou ar e pensou melhor.

— Desculpa.

— Pelo que?

Ah, esqueci de falar. A Srta.Vácuo na verdade e a Sophie.

— Por não te cumprimentar. – Ela desviou o olhar.

Sorri brevemente e andei em direção a saída do local, coloquei minha mão sobre a plataforma e esperei ela ler minhas digitais.

— Você está me ignorando?!

A porta a minha frente se abriu, eu olhei para ela por cima dos ombros e falei.

— Agora estamos quites.

Acenei e segui meu caminho, quando cheguei de frente a minha casa aproxime-me do robô e cheguei o estado de sua bateria. Em um pequeno visor havia um símbolo informando que estava 100% carregado, segurei-o com minhas duas mãos, senti meus braços ficarem cansados facilmente. Felizmente, consegui levá-lo para dentro. Senti-me um pouco exausto, afinal, passei um ano sem sair... Coloquei meu Headset sobre minha mesa junto do MP7 e retirei os sapatos do pé deixando-os de baixo da cama. Tirei a parte de cima do uniforme e o joguei de lado. Aconcheguei-me em minha poltrona e olhei para o teto.

— Que tédio.

Olhei para o relógio holográfico sobre minha mesa, eram exatamente 21:00 hrs. A carga horária de cada aula e bem extensa, o que a torna cansativa. Não sei como agüentei isso por vários anos de minha vida... Acho que não sou o único que pensa assim... Inclinei um pouco meu pescoço para frente e peguei meu Headset, logo o coloquei em meu ouvido. Com meu MP7 em mãos apertei um único botão com a função de aleatório, a música que começou a tocar foi uma chamada "Jackson 5 — I Want You Back".

— Bem melhor...

Eu também ouvia essa musica com ela... Lacie, se ela ainda estivesse aqui será que nos...

Após ouvir vários e vários minutos de música, meus olhos começavam a lutar contra mim. Eu tentava me manter acordado, mas simplesmente, assenti. No dia seguinte, as músicas tinham parado de tocar. Provavelmente elas tocaram até o fim... Inclinei meu corpo, senti uma dor no pescoço irritante. Esse é o resultado de dormir em cadeiras. Olhando para o relógio já eram 8:45 hrs. 15 minutos até o Exame começar...

— Eu não to a fim de fazer isso.

Mesmo dizendo aquelas palavras para mim mesmo acabei por me levantar, vesti meu uniforme e assim como ontem deixei meu Headset ao redor do pescoço e MP7 no bolso. Eu sem duvidas teria ficado em casa se já não tivesse chegado ao nível 100 no Xadrez, e, além disso, não há como conseguir jogos novos, internet não existe aqui. Apenas transmissão infravermelha. Eu sei, eu sei. Isso é um martírio.

Coloquei uma música aleatória para tocar e dirigi-me até a escola, assim que cheguei lá fui imediatamente para o Hangar. Lá e onde estão as naves utilizadas nos Exames, os alunos estavam ao redor do Sr.Stanley. Eu não sou de entrar em multidões então me mantive a uma distancia entre eles, cruzei meus braços e concentrei-me em ouvir.

— Como disse ontem o objetivo será recolher cargas que estão espalhadas pela atmosfera, dentro dessas cargas há baterias, as mesmas usadas nas naves que vocês usarão.

— De forma simples, recuperem a carga. Se não ficarão em orbita sem a energia necessária para voltar.

Simples... Mas ainda sim é algo que exige coordenação, ele não explicou como devemos pegar a carga. Então teremos que pensar em um modo para isso, as naves não tem nenhuma ferramenta que nos possibilite obter a carga sem ao menos sair dela, espera... Se esse for o caso a única solução e... Alguém sair e obtê-la.

Que loucura.

Mesmo assim eles não vão deixar um bando de crianças em orbita caso falhem, é improvável. Quando a multidão começou a se dispersar vários deles se reuniram em círculos, imediatamente percebi aquilo eram grupos se formando. Olhei para os lados de forma atônita, se eu continuasse parado eu provavelmente ficaria sem grupo, engoli a saliva e quando finalmente tomei coragem alguém tocou meu ombro, virei-me imediatamente para ver o que era.

— Você vem conosco.

A Srta. Vácuo falou com tamanha intimidação, percebi que não poderia recusar aquele pedido. Apenas assenti e respondi com um simples "Tá". Duas pessoas se aproximaram e logo entraram na conversa.

— Eai!

— Deixe-me apresentá-los. – Sophie limpou sua garganta.

Cabelo ruivo-escarlate, olhos grandes de mesma cor. Lábios rosados, ela vestia o mesmo uniforme que Sophie, camisa social e terno. Meia calça e sapatos. Em sua boca ela mantinha um pirulito, olhando-me com um sorriso e olhos penetrantes ela se apresentou.

—Essa é –

A Srta.Vácuo acabou sendo interrompida.

— Eu sou Kirie Eva, tenho 18.

— Kirie, não é legal interromper as pessoas, ao menos espere por sua vez.

Ele tinha uma voz seria. Olhos afiados que pareciam estar me avaliando, ele vestia o mesmo uniforme que eu. A diferença e que ele segurava o paletó com a ponta de seus dedos e o mantinha por trás dos ombros, cabelo escuro e olhos castanhos. No lado direito de seu peito havia uma estrela presa, aquilo era uma estrela de mérito. Somente alunos inteligentes recebem uma daquelas...

— Desculpa, e que eu mesma queria fazer isso. – Ela sorriu.

— Já entendi. Não cometa o mesmo erro na próxima.

— De qualquer maneira, meu nome é Takeru. Sou japonês, meu inglês não e tão bom, espero que possamos nos dar bem.

— Igualmente. – Respondi. – E você também Kirie, é um prazer conhece — lá. – Forcei um sorriso.

— Agora que nos apresentamos, vamos para a o Bloco D. – Sophie disse.

Há diversos Blocos no Hangar, basicamente, e onde ficam divididas as áreas onde cada grupo deve estar. O nosso Bloco era o D, quando enfim chegamos ao local vimos uma nave de porte mediano. Sua estrutura lembrava um avião, havia três tubos, na esquerda e na direita. As cores brancas e azuis lembravam a terra. Na parte de trás havia uma porta que se abriu quando nos aproximamos, a entrada era revestida de fibra. Adentramos a nave. Ela parecia pequena por dentro, havia dois assentos bem próximos do visor de vidro. Provavelmente um do Piloto e outro do Co-piloto. Mantive-me ali de pé sem saber qual seria minha função, cocei minha cabeça.

— Pros seus lugares. – Takeru ordenou.

Ele disse isso e logo se sentou no assento da esquerda que lembrava uma poltrona, o cinto envolvia seu corpo, segurando o manche com forma de U com suas duas mãos ele se aconchegou. Olhei para trás, Kirie estava sentada com uma bela postura. A tela holográfica a sua frente mostrava um conjunto de dados, ela me olhou sem entender o que eu estava fazendo ali de pé.

— Senta ali. – Ela sussurrou enquanto apontava.

Segui a direção de seu dedo que apontava para a poltrona da direita, Sophie suspirou profundamente. Afinal o que ela esperava? Ela não me disse que eu seria Co-piloto... Bem, pelo menos não fiquei sem grupo. Dirigi-me ao assento do Co-piloto, o da direita. Senti-me e coloquei o cinto. O manche a minha frente chamava minha atenção, estendi minhas duas mãos e segurei-o, minha mão se encaixava perfeitamente.

O visor de vidro que servia de pára-brisa para a nave começou a exibir a imagem do Sr.Stanley em um retângulo, ele logo fez uma pergunta.

— Estão todos prontos?

— Sim!

Takeru, Kirie e Sophie responderam de forma simultânea. Mantive um pequeno silencio e levantei meu braço sem ninguém perceber tentando demonstrar empolgação, logo respondi com um simples "Sim" em baixo tom.

— A partir de agora estarei avaliando vocês, boa sorte. – Sr.Stanley despediu-se.

O monitor apagou-se. Havia um portão a frente do bico da nave que começou a se abrir lentamente, quando ele abriu-se por completo Takeru balançou seu pulso fazendo uma tela aparecer. Movendo sua mão direita com tamanha rapidez ele começou a fazer os processos de checagem.

— Sistemas de Propulsão.

— Funcionando perfeitamente. – Sophie respondeu.

— Células de Energia.

— Ok! Todos os sistemas estão operacionais e prontos! – Kirie afirmou.

O som das turbinas começava a aumentar constantemente, quando elas estagnaram Takeru me encarou e logo falou.

— Você não precisa fazer nada.

Se eu não fizer nada vou ser reprovado, não e mesmo Sr.Faz tudo?

Ele sem falar mais nada olhou para frente.

— Vocês dois sem brigar. – Kirie falou.

Nenhum de nos dois respondemos, não senti necessidade também. Afinal, não fui eu que iniciei essa "Discussão"... Não importa, perder tempo com ele e mesmo que nada.

— Lançar!

As turbinas da nave liberaram grande energia, parecia que éramos uma bala sendo disparada por uma arma. O frio na barriga, a sensação de velocidade, adrenalina, todas subiram a minha mente.

Escutei as turbinas ligarem fazendo o som de vácuo.

— Células de energia em funcionamento.

— Todos os sistemas estão prontos.

— Lançar!

Como uma bala sendo disparada de uma arma nossa nave acelerou em grande velocidade, minhas mãos pareciam que iam soltar-se, mantive-as de forma firme. Percorremos uma linha reta. O frio na barriga, a sensação de velocidade e adrenalina... Linhas azuis eram formadas pelas asas da nave, elas lentamente desapareceram. Quando percebi já estávamos em orbita, as estrelas pareciam mais próximas que antes, entretanto, a terra não mudava...

— Lançar radar de proximidade. – Takeru deu o comando.

Cuidar do radar e prestar atenção se há alguma ameaça por perto e função do Co-piloto, sendo assim, e minha vez de fazer algo. Balancei meu pulso e apertei um botão circular. Uma tela holográfica formou-se a minha frente de cor alaranjada, em sentido anti-horário o radar marcou um ponto avermelhado.

— Há uma carga a 126.806 Quilômetros daqui. – Respondi.

— Nível das células de energia em 20%. — Sophie falou.

— Eles realmente estão sérios com esse teste. – Uma gota de suor desceu do rosto de Kirie.

— Acalmem-se, vamos gastar 20% para chegar até lá, não tem jeito. Após isso eu irei desembarcar e pegarei a célula de energia. – Takeru afirmou.

Nossa "Viagem" continuou por cerca de 20 minutos até atingirmos nosso objetivo, havia uma carga flutuando e girando constantemente em velocidade lenta. Hiper lenta. Takeru posicionou a nave a uma distancia relativamente media da carga, o suficiente para a corda de segurança segura-lo. Ele retirou o cinto e levantou-se, com um caminhar apressado.

— Cuidem da nave. – Ele disse.

— Tome cuidado. – Sophie disse.

De frente a um armário metálico ele pegou uma corda e a amarrou em um lugar reservado em sua cintura, eu me mantive olhando o radar. Apoiei minha mão sobre meu rosto sem desviar o olhar. Um ponto amarelado apareceu a uma distancia relativamente pequena, geralmente, pontos amarelados são possíveis ameaças. Movi os dedos da mão direita e ativei a função de câmera em uma tela que somente eu pudesse ver. Uma nuvem negra. Um redemoinho... Com minha mão sobre o lado direito do meu rosto fiquei pensativo. Quando finalmente entendi o que estava acontecendo abri uma chamada de áudio com Takeru.

— Saia daí. Rápido!

— Cala a boca, você é irritante. – Ele respondeu.

— O que está acontecendo, Olie?! – Sophie levantou-se.

[...]

— Um buraco negro... – Expliquei.

Ainda com a visão da câmera e a chamada de áudio aberta percebi cada vez mais o redemoinho aumentar seu tamanho e força, nossa nave começou a ser lentamente sugada.

— Takeru volte imediatamente! – Sophie ordenou. – Esqueça a carga de energia, vamos usar a nave reserva!

— Droga... Entendi, já estou indo!

— Eu vou preparar a nave reserva! – Kirie levantou-se e correu pelo corredor.

Takeru estava longe de conseguir voltar, até ele conseguir já estaríamos perdidos... Esse idiota não vai conseguir! Retirei meu cinto e assumi a posição de Piloto, girei todo o manche da nave e a mantive de lado, dessa forma ele iria se esgueirar pelo lado da nave e entrar pela parte de trás.

— Fiz o que pude. – Falei.

Sophie e Kirie estavam dentro de um compartimento menor e metalizado, Kirie começava a apertar botões um atrás do outro confirmando as condições da nave.

— Tudo pronto para partimos! Onde está o Takeru?!

— Estou dentro! – Takeru afirmou.

Correndo por um longo corredor o som de seus passos ecoavam, Takeru fez uma curva fechada e entrou. Levantei-me e corri com todas as minhas forças, quando eu ia entrar no compartimento algo atingiu nossa nave... ... Meu corpo foi jogado para trás com grande força, minhas costas se chocaram contra a parede.

— Argh!!!

Mesmo querendo levantar-me, meu corpo não se movia... Minha visão escurecia lentamente, como se uma escuridão a envolvesse, eu apenas ouvia Kirie e Sophie a me chamar, o sangue começava a descer pela minha testa... No fim, eu vou morrer. Não pude salvar ninguém... A última coisa que consegui ver foi o sistema da nave de emergência se ativando, fazendo aquele compartimento ativar suas turbinas para longe dali... Estender minha mão era inútil, e melhor esperar o fim... Ah... Aquela sensação fria novamente... Será que quando eu morrer ela vai finalmente desaparecer?

[...]

Eu mal conseguia sentir meu corpo, pisquei meus olhos algumas vezes para finalmente entender que estava vivo... Como isso é possível?

Após alguns segundos tentei mover a parte de cima de meu corpo, senti uma dor vinda do lado esquerdo... Coloquei minha mão sobre a dor, respirei fundo e forcei.

— Grr... Argh!

Mantive-me de pé com dificuldades... Minha mão esquerda estava para baixo e a outra sobre o ferimento, dei um passo de cada vez, de forma lenta. Dei alguns passos cambaleando e me apoiei no painel da nave, logo sentei-me na poltrona do Piloto. Nada estava operacional, balancei meu pulso fazendo a tela holográfica se formar, havia uma mensagem mostrando "Sem conexão com a Infra".

— Droga...

Fechei meu pulso, fazendo a tela desaparecer. Relaxei na poltrona por alguns segundos quando subitamente ouvi o som de algo acertando a parede metálica da nave, mais uma vez me levantei. A dor ainda persistia... Caminhei em direção a porta traseira da nave, do meu lado direito uma caixa de primeiros socorros, abri-a e peguei um cilindro.

— Isso vai servir...

O som de alguma coisa acertando a parede da nave continuava... Mais eu tinha coisas mais importantes no momento, não dava pra saber o que estava por trás daquela porta... Rangi os dentes e apertei o botão na parte superior do cilindro, em um processo de aerossol, as pequenas partículas caiam sobre o meu ferimento. Esse medicamento é chamado de +Health. É algo bem caro e há apenas quatro desses espalhados pela nave, ou seja, para toda a tripulação.

Após alguns segundos o medicamento fez efeito, isso iria me manter por mais um tempo...

— Esse som não para...

Continuei a caminhar até chegar à saída traseira. Quando finalmente cheguei, estendi minha mão em uma pequena plataforma de carbono que ficava a minha direita, assim, fazendo a porta traseira se abrir lentamente. Minha visão foi encandeada por uma forte luz, cobri meus olhos usando minha mão, quando meus olhos se adaptaram eu olhei melhor a situação.

— Mãos atrás da cabeça!

Atônito, eu continuei a olhar... Pessoas, assim como eu. Uniforme azul marinho com armas na mão, pistolas. Eu imediatamente estranhei, não era a Vanguarda. E se fosse eles não usariam esse tipo de arma... Havia meia dúzia de veículos ali, todas as pessoas sem exceção, se mantinham por trás da porta dos veículos com suas armas apontadas... Para mim...

— Não vou repetir mais uma vez, mãos na cabeça! Ou iremos atirar!

Eu entendia o que eles falavam... Mas... A terra foi destruída há dois anos... Onde estou? O que está acontecendo? Assenti e obedeci a suas ordens. Mãos atrás da cabeça, assim como ele ordenou. Eles vinham em minha direção em um ritmo rápido, ainda mirando em mim. Dois deles vieram ao meu lado e algemaram minhas mãos.

— O que está acontecendo? – Perguntei

— Você será mantido sob custodia até descobrirmos o que aconteceu aqui. – Um dos guardas falou.

Ambos com suas mãos sobre a parte de trás de meu corpo começaram a me empurrar de leve, eu tentei andar mais a dor persistiu. Um deles não se importou e mesmo assim me empurrou dessa vez com uma força mediana.

— Ei, ele está ferido...

— Dane-se. To de saco cheio já.

Andamos por alguns metros, eu me virei para trás... A nave branca e azul estava amassada e exalava uma fumaça preta, seguido de algumas chamas... As arvores do local estavam destruídas, uma sirene ia se aproximando, passando por uma trilha de barro um carro branco e vermelho, espera... Aquilo são bombeiros? De fato eram. A água ia sendo despejada onde as chamas se alastravam, as pessoas que me algemaram abriram a porta do carro e esperaram que eu entrasse, apenas fiz isso. Os bancos eram de couro sintético e havia uma cerca de metal a minha frente... Olhei em volta e no painel do carro consegui ver algo que explicava um pouco da situação, hoje era 2 de Outubro de 2024. Dois anos antes de a terra perder seu brilho... Estranho... O que diabos tá acontecendo aqui?! Usando uma chave ele trancou ambas as portas traseiras do carro e entrou no banco do motorista, e o outro que o acompanhava no passageiro.

— Hoje, algo desconhecido adentrou a orbita terrestre e colidiu na parte sul da cidade, a policia está atualmente investigando a causa. Os cientistas acreditam que tem algo haver com extraterrestres.

O som do noticiário transmitia as noticias, um dos guardas desligou o radio. Aconcheguei-me e murmurei em voz baixa.

— Sem chance de isso ser verdade... Eu estou dois anos no passado... Esse lugar... Sem sombra de duvidas e a Terra, antes do incidente... – Mordi meus lábios a ponto deles sangrarem – Lacie...

[...]

Capítulo 01 — Escuridão — Fim.

Se você chegou até aqui parabéns, agradeço por ler até o fim... Se possível comente abaixo o que achou da história e se realmente gostou vote nela, isso me motiva a cada dia, boa leitura.

— Standing.